Jin, o Mago improvável

2 Capitulo 1 - Chuva constante - Parte 2


Em um canto da taverna, se senta Neros, o lobo com emprego de mensageiro. Desleixado, ele se senta curvo em sua cadeira, quase se deitando nela. Com uma coxa de galinha na mão, ele a medida que termina a sua janta, divaguei-a sem nenhuma preocupação, esperando a severa chuva passar.

–"Quer pedir mais alguma coisa, meu querido?" Pergunta a bela atendente da taverna. Sem ele ter percebido a aproximação dela, ele vira seu rosto para ela subitamente em surpresa e logo em seguida solta um suspiro.

–"não, obrigado. Eu queria passar a noite aqui, quanto fica tudo?". Ela responde casualmente enquanto o mensageiro ajeita sua postura, pega as moedas de seu bolso, as entrega e depois a atendente retoma seu trabalho com os demais clientes.

Não tinha nada de anormal na noite, até que uma hora, a porta da taverna se abre e uma hiena em capuz entra no bar, misteriosamente seca da chuva lá fora. Neros, percebendo o freguês incomum, ajeita sua postura, coloca seu osso de galinha de volta no prato e começa a ficar ansioso, ele tenta observar com discrição o ser encapuzado que parecia que ia esmagar a cadeira em que se sentava. Pouco depois, quando a atendente da taverna foi atender o tal cliente inusitado, Neros percebeu a hiena o encarar de relance com mau-humor. Assustado, o mensageiro se vira para seu prato vazio, desejando poder agir mais casualmente. Ele pega sua bolsa de cartas de debaixo do seu banco e finge examinar as cartas que carrega. Pouco depois, com a chuva ecoando pelo teto da construção, a porta da taverna se abre novamente. O mensageiro, sem dar importância, não vê quem entra por ela, e logo aparecem dois lobos negros ao seu lado.

–"Podemos nos sentar?" Pergunta um deles, enquanto ambos pegam uma cadeira e se sentam junto do mensageiro sem esperar a resposta. Este, agora com o coração saltando à garganta, abre a boca para falar tentar falar algo.

–"...eu--... o quê vocês querem...?". O lobo negro que havia falado, ao perceber o medo evidente do mensageiro cinzento, se deixa mostrar um sorriso sádico de satisfação. Sem responder nada para o seu anfitrião, ele chama a atendente e os dois visitantes pedem por suas bebidas e por uma extra para o terceiro na mesa. A medida que esperavam seus pedidos, os visitantes misteriosos encaravam o lobo cinzento, que estava incrivelmente tenso e com uma enorme sensação de desconforto em seu estômago. Logo, a serviçal da taverna retorna à mesa com as bebidas, os lobos negros agarram as suas e alcançam a terceira caneca para o mensageiro.

–"Um brinde à amizade, não estou certo?" Disse o líder da dupla. Neros, hesitante pega a sua caneca e brinda com os outros dois, ao mesmo tempo que ele percebe a hiena do outro lado da taverna se dirigindo ao atendente do balcão.

–"Afinal, o que seria de nós sem um companheiro para--" Antes que o lobo negro terminasse, foi escutado uma exclamação vinda do balcão.

–"O QUÊ!?!" vindo da hiena, com o atendente olhando fixo para a caneca na sua frente, chamando a atenção da taverna inteira. Neros, aproveitando a oportunidade, se virou de volta para seus dois acompanhantes e disse.

–"Eu juro por deus! eu já tenho quase toda a quantia que devo! Só preciso de dois dias para--". Antes que ele terminasse, o mesmo lobo levanta a mão, interrompendo a fala de Neros com um sorriso no rosto.

–"Calma, companheiro, nós não estamos aqui para te extorquir nada, não é, Jordan?". E o outro lobo, silencioso, acena com a cabeça.

–"Nosso chefe teve uma mudança de ramo, você não precisa se preocupar com os trocados que você pediu pra ele.". O lobo cinzento, agora confuso, abre a boca para falar algo, mas a confusão o deixa mudo.

–"Olha só, meu amigo viajante, pode ficar tranquilo, beba a sua bebida que nós estamos aqui para nos divertirmos, não é?" Disse o líder, com o consenso de seu acompanhante, e os dois bebem, induzindo Neros a fazer o mesmo, sentindo um gosto estranho, talvez pelo nervosismo.

–"Sabe, meu amigo? Inclusive acho que vamos precisar passar a noite aqui nessa taverna, eu sinto a vontade de virar a noite aqui, não acha Jordan?". e o seu companheiro dessa vez se manteve sério e imóvel. Neros continua confuso e um pouco amedrontado com a afirmação do outro. Os três se encaram por alguns segundos, com o líder dos lobos negros fazendo uma expressão maliciosa e descontraída. De repente, Neros sente sua visão embaçar, e junto, um enorme frio percorrendo sua espinha, ao perceber que o gosto estranho da bebida não era por causa do nervosismo. Ele tenta se levantar da mesa, mas assim que o faz, ele sente uma enorme fraqueza em seu corpo e se senta involuntariamente de novo no mesmo lugar. Sua visão continua a escurecer a medida que ele escuta "Heheheh. Não se preocupe, nosso chefe...mudou...de rumo... ". E assim, Neros desmaia.

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Neros é um lobo sem muita extravagância. Ele teve suas poucas aventuras em sua vida, já conhecia todas as cidades e vilas locais com o seu emprego pacato, já aprendeu a usar espada e arco-e-flecha para se defender e algumas poucas vezes ele o fez, especialmente porque normalmente ele acompanha outros viajantes em suas entregas ou as vezes ele até contratava uma carroça para o levar, sendo normalmente pago com o dinheiro do próprio bolso. Se deixando levar por conversa de falsos amigos, uma hora ele acaba pedindo um empréstimo para um chefe de mercenários, um empréstimo que seria usado para uma longa viagem ao reino vizinho para rever sua família. Tendo recebido em cheio um blefe de seus falso-amigos, ele termina por perder o dinheiro emprestado, e assim, ele acaba por ter que poupar todas as suas economias para pagar sua dívida que ao seu ponto de vista, é exorbitante. Ele já havia visto a bondade no mundo, assim como claramente também a maldade, cavaleiros, assassinos, monstros, bestas, beleza feminina, delicadeza, violência, castelos, cortiços, entre muitas outras coisas. Mas havia um tipo de coisa que ele nunca havia visto na sua vida, e estava prestes a mudar totalmente sua percepção de realidade.

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Está amanhecendo, com um ar fresco de como se uma chuva tivesse acabado de recuar, com o chão lamacento, poucas nuvens no céu, pequenos tufos de mato cintilando com a luz do sol passando pelas suas gotas, e cadáveres ao redor de um vulto ofuscado pela luz do sol. Alguns desses cadáveres estavam incinerados, outros perfurados por flechas, e alguns poucos deles estavam simplesmente esmagados um contra o outro. Todos eles tinham aparência demoníaca, e tinha uma enorme poça de sangue englobando cada um deles, que misteriosamente não tocava no ser ofuscado pela luz.

–"até a luz...", diz o ser oculto, e este segue em direção ao sol, com a poça de sangue no seu caminho se desviando dele à medida que ele avançava. É sentido uma enorme força puxando em direção ao vulto, como ele estivesse amarrado à uma corda invisível, e a medida que este é seguido, a poça de sangue fica mais próxima, e quando ela é alcançada, é sentido como se milhares de serpentes agarrassem e tentassem imobilizar os pés e calcanhares, pressionando fortemente contra a carne, como se o próprio sangue em si tivesse vontade própria por criar essas serpentes rubras. E elas começam a subir às pernas à medida que a grande poça é ultrapassada a cada passo mais vagaroso que o anterior. Quando é quase alcançado o lugar sem sangue em que estava inicialmente o vulto, as serpentes de sangue começam a se agitar, a subir mais alto no corpo e a se entrelaçarem como se formassem cordas, puxando agora a cintura, ombro e pescoço. Faltando apenas um passo para a terra limpa, fica o impasse entre as serpentes puxando de volta para a poça de sangue e a vontade de ultrapassar esse mar rubro. De repente tudo para. E o ser ofuscado se encontra logo em frente.

–"A escolha é sua!". E o vulto dá um tapa no rosto. Passa mais alguns segundos olhando para o ser irreconhecível, e ele dá outro tapa. No terceiro tapa, Neros acorda de seu sonho, ele em poucos segundos recobra totalmente a consciência, e enxerga os dois lobos negros olhando para ele com sorrisos em seus rostos. Quando ele se vê amarrado em uma parede, grita em pânico. Quando Neros grita em terror, Jordan dá um soco na barriga dele, fazendo ele tossir pra fora o ar de seus pulmões.

– "Que bom que você decidiu se juntar a nós nessa nossa festinha, a gente tinha medo que você não iria se juntar...", e o líder acena para o outro lobo, e este chega perto de Neros, com os seus braços amarrados para cima, em um pilar, com nós se entrelaçando nos dedos, o lobo negro depois de se aproximar, alcança as mãos atadas do coitado e aperta com uma força tremenda as juntas dos dedos entre os nós, fazendo Neros soltar outro grito de dor. O que está assistindo, se vira ao perceber um som bem abafado de uma porta se abrindo e faz um gesto para o torturador, e este cessa sua ação, e quando Neros para de gritar, o líder diz com uma calma diabólica.

–"Mas bem, tenho que dizer, a festa ainda não está pronta..., nããããããoo! Nós estamos aqui porque ainda estamos esperando outro convidado!". E ele começa a andar em círculos no quarto escuro. Ele pega seu punhal de sua bainha e fica remexendo ela entre os dedos.

–"Mas, me diz, e se nosso convidado não sabe que foi convidado? E se ele estiver perdendo a festa?". logo que ele diz isso, ele acena de novo para Jordan, que aperta de novo as articulações de Neros, que solta de novo outro horrendo grito de dor, e logo em seguida, o líder da dupla sádica dá outro soco com muita força na barriga de Neros, que tosse sangue dessa vez. Neros pergunta tossindo.

–"Porquê?!?...", nesse exato momento, o líder escuta algo de relance, e instantaneamente, ele ajeita eu punhal na mão e rapidamente a encosta na garganta do lobo atado, o olhando nos olhos e fazendo um sinal de silêncio com a outra mão. E ele diz em voz baixa.

–"acho que o nosso convidado especial está chegando". e ele aponta para a luz debaixo da porta que leva para a saída do quarto, e poucos segundos depois, é visto a sombra de alguém atrás da porta pela fresta de luz. O coração de Neros palpita, ele sente um enorme impulso de gritar, dessa vez, pedindo ajuda, mas ele tem medo das consequências que seriam trazidas pelo punhal encostado em sua garganta. O lobo que o segura o olha nos olhos com uma expressão de entendimento, acompanhado de um sorriso no rosto, mostrando seus dentes.

–"Ora, o que foi? não tem vontade de gritar?" ele o disse, aproximando o seu rosto do de Neros, sem mover o punhal de lugar. Logo em seguida, ele ameniza seu sorriso e afasta seu rosto de volta e retira a adaga da garganta do lobo atado, lançando um olhar complexo para ela. Depois, ele olha para Neros com ocanto do olho e diz, fazendo um gesto de brincadeira com o punhal.

–"...não seja por isso, fique à vontade!". Neros, hesitante, abre a boca, mas ele engasga com sua confusão e medo, meramente expelindo o ar de seus pulmões em pavor. Os dois lobos negros mostram seus sorrisos sádicos, e o que segura o punhal se aproxima novamente do refém.

–"Eu acho... que só te falta... inspiração! Jordan, pegue uma mordaça, eu não quero que dure pra sempre!". Neros começa a soluçar de pânico, não sabendo o que ia acontecer, e observa um dos lobos pegarem um pedaço de pano, distraído pela cena. Um instante depois, ele sente uma dor escoriante atravessando seu braço. Quando ele olha, o punhal do líder da dupla está fincada em seu ombro. Neros solta um berro de dor, e no mesmo instante, a adaga é retirada, fazendo o corte jorrar sangue. Logo em seguida é escutado alguém batendo na porta com força, gritando.

–"EI!!!". E o outro lobo amordaça Neros imediatamente, enquanto esse tenta uma ultima vez soltar outro grito abafado. Nesse exato momento, a porta do quarto é arrombada, e uma silhueta de um grande ser encapuzado é vista pela visão embaçada do refém.

O ser de capuz sacode os ombros e avança na direção dos lobos negros. O que segura o punhal aponta para o vulto e grita.

–"Borrifa ele!!!" Logo, o outro estende o braço para frente e borrifa uma lufada de fumaça verde em direção à o enorme ser encapuzado, que estende seu braço para se proteger. Neros, alheio ao que estava acontecendo, ficou espantado ao ver o enorme ser, engolfado na fumaça verde, que produzia um chiado em tudo que tocava. Seus dois carcereiros deixam escapar seus sorrisos maléficos com a fumaça corrosiva ocupando a direção até a porta. O mensageiro começa a recuperar o fôlego e com o passar dos segundos vagarosos, ele começa a se ver novamente em perigo. O lobo com o punhal se vira com um sorriso estampado no rosto para o amordaçado e diz.

–"Ora, quem diria que iria acabar tão rápido..., mas ninguem disse que temos que parar por ai, não é?". E os dois lobos negros, depois de esperarem por mais alguns segundos olhando para a densa fumaça verde, se viram de volta para o amordaçado, ignorando a fumaça verde escapando para fora do quarto. Quando os dois começam a rir de novo, eles percebem pelo canto do olho a fumaça se movendo para fora do quarto, de repente eles se dão conta de que a fumaça não está saindo para fora, mas ela está se juntando na mão do ser misterioso, que estava no mesmo lugar, ileso da fumaça, a não ser pelo seu capuz, que com pequenos respingos tendo caído nele, mostrando por baixo da sujeira, uma runa desenhada no ombro em um tecido azul, mostrando ser uma capa de mago. Com a fumaça verde agora totalmente condensada em uma pequena bola verde na mão do intruso, que largou a bola, deixando ela corroer o chão onde tinha caído, os dois lobos se viram para a silhueta em capuz, agora ambos de expressão séria e com punhais em mãos. E Neros percebe que o ser de capuz é a hiena que ele viu mais cedo, antes de desmaiar. E apesar de receber uma pontada de esperança, ele ainda estava muito confuso e não sabia se ainda teria chances de escapar da situação. O líder da dupla encara o ser de capa azul, agora mostrando seus dentes em um sorriso com fúria.

–"Ora, ora... parece que você é bem forte". E os dois lobos avançam até a hiena. Neros já havia assistido à brigas antes, sendo em viagens, em tavernas ou em qualquer outro lugar convencional. E imaginava claramente que duas pessoas que sabem brigar podem muito bem derrubar qualquer ser bruto, desde que o encurralassem ou atacassem com o mínimo de inteligência. Com os lobos avançando juntos até a hiena, Neros não se via terminando no labo bom da história, e fechou os olhos com um ar pesaroso. Foi então, depois que seus carcereiros começaram a avançar, Neros ouviu o som de um enorme pedaço de metal sendo esfregado em pedra. Ele abre os olhos e enxerga os lobos negros se contorcendo de dor, parados no meio da sala e deixando cair seus punhais, onde caia gotas de sangue no chão. E a hiena permanece imovel com o seu braço direito estendido para longe de seu corpo. Neros fica atônimo. Logo em seguida, a hiena estende seu braço esquerdo também e o cruza com o direito, e os lobos negros se chocam no ar com uma força incrível, logo em seguida, ele estende os braços pra fora de novo e os lobos se chocam, cada um contra uma parede oposta do quarto, e depois caem no chão, a hiena estende seus braços para cima e os lobos se chocam contra o teto, os braços se estendem para baixo, e os lobos caem à uma velocidade incrível, a hiena junta os braços para a esquerda, e os giram para a direita, chocando os dois lobos junto contra a parede apontada. E quando estes, já surrados e caídos no chão, começam a dar sinal de vida, a hiena afasta seu pé esquerdo, se apoiando sobre ele, estende seus braços para os lobos, e gira o seu corpo para a esquerda com determinação, fazendo os carcereiros decolarem até a janela que estava trancada, aniquilando ela no processo e criando uma forte corrente de ar na sala, fazendo a chuva entrar pela abertura por alguns segundos. A hiena fica parada com os braços estendidos e apoiado sobre sua perna esquerda por alguns segundos, e depois retoma a sua postura ereta, olhando para a janela. Depois ele olha curioso para o lobo amordaçado, que o encara com uma expressão de espanto.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.