Jim & Filhote
1 JIM & FILHOTE
Notas iniciais
As repetições de nomes e palavras foram feitas propositalmente.
I
Era uma vez um homem chamado Jim, o qual, apesar de ser jovem, ocupava a profissão de um mercenário. Morava nas terras longínquas europeias, pois se sentia confortável no frio habitual do local e o seu desempenho, tanto o profissional quanto o pessoal, era excepcional. Aliás, estes dependiam somente de Jim e não do ambiente.
Jim matara muitos homens e mulheres malvados, ocupando ou não ocupando um grau destacado de influência social, por contratos de sua vasta clientela. O homem sabia que nem sempre os alvos eram malvados, mas necessitava da quantia considerável de dinheiro disposta por alguns clientes, dos quais provavelmente eram controlados por seus próprios egos. Porém, Jim não entendia os motivos de tais requerimentos e não compreendia do por que os humanos fazem o que fazem geralmente. Tudo isto era parte dos ossos do ofício.
Apesar de gostar profundamente de estar e permanecer sozinho em sua solitude, Jim desfrutava da excelente companhia de Bella, a cadela. Uma outra época, como vale destacar, época da qual o mundo passou por problemas como nenhum anteriormente passados, Bella, a cadela, estava prenha. Sua barriga cresceu e suas tetas escorriam leite. O assassino, que nessa crise não tinha clientes como o usual, estava aproveitando suas férias nas Montanhas de Picos Brancos e o tempo ao lado de sua companhia fiel era o suficiente para a observação da qual concluía-se a uma nova cria.
Calmamente, Jim analisou Bella, a cadela, agir de uma forma peculiar enquanto o tempo passava. Era um dia muito frio quando Bella, a cadela, começou a sofrer as primeiras contrações. O parto aconteceu, depois de horas de esforço da única companheira de Jim, e com o importantíssimo auxilio deste. Foram três cães: dois natimortos e apenas um com vida, sendo este batizado em algum momento futuro de Filhote.
Ali, em uma cama confortável, estavam Bella, a cadela, e Filhote, o filhote. Ao passar semanas, Filhote cresceu e tornou-se mais forte e mais independente da mãe, entretanto, esta permanecia em agir estranhamente: no início, reduziu a ingestão de água e alimento, obrigando Jim a forçar a sua companheira a alimentar-se corretamente; todavia, Filhote desenvolvia-se naturalmente e Bella, a cadela, não ingeria nenhuma caloria e regurgitava qualquer alimento e qualquer liquido. Jim sabia do triste fim.
II
Jim investiu muito tempo monitorando Bella, a cadela, com a indispensável ajuda do pequenino Filhote. Em uma noite, como uma noite fria qualquer, o mercenário fechou o livro do qual lia rotineiramente em frente a lareira, próximo das suas melhores companhias. Desligou as luzes do cômodo onde se encontrava, cobriu Bella, a cadela, e Filhote, o qual dormia profundamente ao lado da mãe, às vezes mamando. Voltou a sentar na aconchegante poltrona onde lia, cobriu-se e dormiu.
Ao amanhecer, Jim ouviu o incessante choro de Filhote ao lado de Bella, a cadela. O homem a chamou a primeira vez, a segunda vez e, por fim, a terceira vez. Em nenhuma das vezes sua melhor amiga sequer mexeu. Jim aproximou-se e passou a mão na cabeça fria de Bella, a cadela. O jovem homem tinha a noção de que não havia vida naquele corpo imóvel e endurecido, pois conhecia intimamente tal situação. Jim chorou, chorou por dentro.
Assim, vestiu o Filhote com uma pequena roupa de lã a qual comprara dias atrás e também preparou-se e envolvera o corpo de Bella, a cadela, no mesmo cobertor no qual manteve sobre ela. Muniu-se de uma pá e colocou o Filhote em um lugar seguro enquanto preparava a cova de Bella, a cadela.
Ao finalizar a tarefa, Jim retornou a cabana para deitar sua melhor amiga em seu novo lar e retornou mais uma vez para pegar Filhote. Sob um grande guarda-chuva negro, proferiu:
“Teu nome será Filhote.”
Os dois voltaram para a cabana e o homem decidiu em colocar o seu colchão em frente da lareira com duas grossas cobertas e sentou-se na poltrona segurando uma xicara com chocolate quente e o Filhote, ainda vestido com a sua roupa de lã, em seu colo.
Quando anoiteceu, ao aproximar-se do horário de dormir, Jim fechou o livro e observou calmamente o Filhote em seu colo, dormindo tranquilamente. Nos segundos mais tarde, estavam ambos sobre o colchão e de baixo das cobertas.
III
Na madrugada, com a temperatura muito abaixo de zero, Jim fora acordado pelo choro estridente do Filhote. O vento balançava as árvores do lado de fora e o humano observava o Filhote. Então, o mercenário resolveu em colocar o pequenino em seu peito e, assim, o choro cessou.
Levado pelo impulso da curiosidade, aproximou seu dedo da boca do Filhote, este abriu-a e mordeu o dedo de seu dono. Ao sentir o miúdo dente canino espetar sua pele, Jim soltou um “ai” baixo.
O assassino devolveu o cãozinho ao seu lado e tirou sua mão de perto. O Filhote aproximou-se daquele ser imenso e o lambeu. Jim permaneceu imóvel.
Percebendo a monotonia daquela atividade, Filhote decidiu explorar as regiões intrigantes ao seu redor. Eram sensorialmente estimulantes e, no mínimo, muito curiosas. Com isto, os primeiros de centenas de milhares de movimentos exploratórios começaram sob a supervisão do par de olhos atentos de Jim.
“Eu me chamo Jim”, divulgou ao Filhote, o qual não se deixou de continuar o seu caminho ao desconhecido.
Sendo notória a grande possibilidade de um tombo eminente, Jim preferiu carregar o pequenino e deposita-lo ao chão.
“Você deve ter cuidado”, avisou Jim.
O Filhote ignorou o sábio aviso do mais experiente e continuou destemidamente a sua jornada da madrugada. Aquele lugar tinha tantas informações, mas apenas um tipo especificamente estava chamando sua atenção: o cheiro de sua mãe. Preferiu, deste modo, em seguir o rastro dela, do qual estava em tudo, ou seja, ela estava por perto, pois conseguia sentir.
Após arrastar-se por “muitos quilômetros”, Filhote encontrou a origem do cheiro que inspirava segurança e conforto. Contente por ter farejado corretamente, chegou o momento de chamar a atenção de sua mãe. Latiu algumas vezes, porém ela não apareceu. A vontade de mamar era latente. Contrariado, resolveu chorar, já que algum momento ele iria conseguir.
“Sua mãe morreu”, avisou Jim casualmente, ao carregar o Filhote.
Aquela situação desagradável deixou Filhote desconfortável, obrigando-o a rosnar. Aquele ser gigante o colocou no mesmo lugar de antes: o início.
“Vamos voltar a dormir”, mandou Jim, ao colocar Filhote em seu peito.
Mesmo furioso, o pequenino cão não tinha forças suficiente para lutar contra o sono causado pelas batidas calmas do coração do infame gigante. Enfim dormiu.
Jim também dormiu, contudo, estava sensível para qualquer mínimo movimento e som vindos do Filhote. Mesmo sentindo um desconfortável sentimento de perda, sabia que tinha um novo dia pela frente do qual permanecia firme e inabalável.
FIM.
Notas finais
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