Jikan Ryoko
1 Capítulo 1: Prolog im Himmel
Notas iniciais
|1— 16 de Maio. Ano 2014, D.C, Japão.| — HONOKA.
Posso dizer que eu estava tendo um sonho muito estranho naquela noite. Mais estranho do que alguém normalmente teria, inclusive mais anormal do que eu provavelmente já tive.
Não que eu fosse a adolescente que tinha o poder de se gabar por ter os sonhos mais normais e clichês do mundo. Mas aquele era demais até para meus padrões de bizarrices — que eram bem estranhos.
Nesse sonho, eu me encontrava em uma sala escura, com um fedor enorme. Havia uma porta entreaberta logo à minha frente, por onde uma brecha de luz entrava. A sala onde eu me encontrava era pequena... Não era aconchegante, muito longe disso. Era estranha e eu tinha medo daquele lugar. Mas o que me dava mais medo era o que eu encontraria depois que atravessasse a porta. Parecia um lugar novo, só que destruído. Era bem sujo, minhas roupas estavam com poeiras, e rasgada — aliás, a roupa que eu vestia era estranha também, para completar.
Não aguentei mais. Abri a porta depressa. Estava pesada, mas consegui passar.
Foi aí que eu me assustei.
Assim que sai, percebi que estava no teto de algum prédio torto e mal-acabado, sujo e destruído. Quer dizer... ele parecia destruído, mas era novo. O chão talvez fosse bem bonito, se não estivesse rachado. Entretanto, o mais bizarro era que rochas do tamanho de caminhões estavam caídas ao meu lado — não, não caídas... arremessadas.
Eu estava mais confusa do que nunca. O prédio onde eu estava parecia ser enorme, embora estivesse torto e... divagando? Era a única forma na qual eu poderia caracterizá-lo.
Eu, tolamente, olhei para baixo para ver o final do prédio. O pacote de surpresas aumentou quando eu simplesmente não o vi. Me vi apenas em cima da metade rompida arrancada de um prédio, que parecia flutuar em cima de alguma coisa bem tensa que me lembrava a via láctea. Realmente era um sonho, apenas um tolo discordaria. Mas esse era diferente... Parecia bem real. E eu tinha completa consciência nesse sonho, o que tornava as coisas ainda mais sombrias.
Ao olhar ao redor, percebi que havia zilhões de construções, e pedaços de construções divagando, quebradas, assim como o prédio destruído no qual eu me localizava: prédios, novos e antigos, igrejas, casas, construções greco-romanas, pirâmides, postes que piscavam de um modo bem estranho, construções abandonadas pelo tempo, todas deteriorando. Flutuavam sem rumo. A maioria era apenas o que restara de sua antiga construção real. Porém, logo à minha frente, o pacote de surpresas subiu ao nível: “tá de sacanagem?”
Vi uma coisa que eu nunca tinha visto antes, pelo menos, não daquele tamanho: um prisma, opaco, da cor branca. Ele flutuava no centro e tinha alguns anéis azuis em volta dele, como se fosse o planeta Saturno em versão ‘’Apple’’. Era o centro de tudo, as construções mantinham distância, e de lá emanava alguma coisa tensa, pra variar. Era como se a função daquela coisa fosse exatamente essa: ficar no centro de tudo.
Aquilo simplesmente me apavorou. Senti um formigamento bizarro no meu corpo, como se ele se recusasse a se aproximar. O pior de tudo era o tamanho daquilo: era imenso. Era, provavelmente, a maior coisa que eu já tinha visto na vida, parecia estar a zilhões de quilômetros longe e, mesmo assim, eu não conseguia vê-lo todo.
Mas eu não estava querendo observar aquela... aquela coisa. Eu estava preocupada com outra coisa, algo que era mais importante do que aquele prisma. Procurava entre as construções uma pessoa. Ao olhar para uma ponte, finalmente tive a felicidade — ou infelicidade — de achá-la.
Em uma ponte bem larga, que se prendia em um prédio mais adiante, estava uma garota estranha. Não consegui vê-la direito, mas percebi que ela tinha longos cabelos castanhos. Eram bonitos, mas estavam sujos e um pouco emaranhados. Ela usava — para encher ainda mais meu pacote de surpresas — um uniforme escolar. Porém, o uniforme estava todo sujo, rasgado e amassado. O braço dela sangrava, um ferimento muito feio que eu não consegui ver direito. E, nesse mesmo braço, tinha um relógio de borda roxo. Mas, diferente dela, estava intacto, brilhante e reluzente, como se fosse uma joia recém-feita no dedo de um mendigo sujo e feio.
A garota parecia ofegar. Ela ergueu seu braço machucado, e em seu corpo apareceram um cinto de couro velho, equipado com armamentos estranhos, e um peitoral e perneiras de couro e prata. Luvas roxas apareceram em suas mãos. Se você pensar, pode parecer um simples anime de garotas mágicas em que a garota vestiu uma roupa fofa. Eu bem que queria que fosse isso. Mas era um armamento de guerra, uma roupa de guerra. Havia sangue no rosto dela.
Duas bazucas apareceram no chão, ao lado dela. Pareciam bazucas de guerra comuns, até o momento em que ela pôs suas mãos em ambas as armas e elas se energizaram, deixando-as mais assustadoras do que realmente eram.
Não consegui ver direito, mas parecia que havia bombas em seu cinturão. Ela retirou uma delas e a encaixou em algum lugar misterioso de uma das bazucas que, para variar, eu não consegui ver e entender direito.
Foi quando eu percebi que bazucas eram enormes. Ela puxou dois cabos de seu cinto e... saiu voando. Não, eu não estou tirando uma com sua cara. Ela saiu voando, pois dois cabos de couro saíram de seu cinto e se pregaram em um prédio mais à frente, e ela foi simplesmente puxada. Ela ergueu as armas, e começou a atirar no prisma. Seu corpo era puxado e, quando ela aterrissou, começou a atirar. O local rapidamente se encheu de fumaça e explosões.
Foi uma cena extremamente louca. Os prédios começaram a tremer feito loucos, enquanto ela atirava desesperadamente, pulando entre os prédios, e seus tiros avançando como meteoros. Eu não consegui mais ver direito o que acontecia, mas deu pra ver que ela também atirava bombas.
Para a infelicidade dela, uma barreira azul simplesmente apareceu ao redor do prisma, causando uma imensa explosão de poeira — porém, não afetou o prisma. Luzes apareciam, o que dificultava ainda mais minha visão.
As balas foram repelidas. Elas atingiram prédios acima de mim, causando imensas explosões que me fizeram cair no chão e, para minha infelicidade, dar um mau jeito no tornozelo. Coloquei as mãos na cabeça e uma chuva de pedras minúsculas caiu sobre mim, o que doeu bastante.
Percebi que as explosões continuavam e, quando ergui minha cabeça novamente, tentando evitar que meus cabelos ruivos entrassem em meus olhos, a caixa de surpresas que não podia aumentar, cresceu, como o Mário comendo um cogumelo vermelho. Da barreira brotaram criaturas espectrais, negras, mas não um negro comum, um negro profundo e desfocado, meio embaçado. Essas criaturas eram demônios, ou pelo menos pareciam.
Elas eram minúsculas e tinham cerca de trinta centímetros de altura, mas isso não diminuía o desespero que elas emanavam. Tinham olhos vermelhos, chifres, riam diabolicamente alto e se assemelhavam a garotinhas. Elas começaram a atirar bolas negras na garota, que tentava desviar. Quando uma delas tocou um prédio, ele começou a pegar fogo rapidamente.
Os mini demônios riam e brincavam com o medo da garota. Ela tentava atirar bombas nelas, com suas bazucas enormes, mas elas eram indestrutíveis, e ela não teve outra escolha senão fugir. Mas, para outra infelicidade dela, os demônios eram rápidos.
Meus olhos não conseguiam captar direito, pois as explosões agora eram imensas. Mas eram centenas de espectros. Cada um invocou uma barra de ferro gigantesca com uma das garras — o que também não faz o menor sentido, pra variar — e essas barras não pareciam muito amigáveis. Eles simplesmente atiraram as barras em direção à garota.
A garota, no entanto, foi rápida. Pegou suas armas, as uniu em uma só, e a jogou em direção às barras. Uma explosão ainda maior aconteceu, e uma ventania me atingiu. Eu tive que me esforçar pra me manter em pé. Eu estava apavorada.
Queria gritar, mas minha voz não saía. Nunca havia sentido tanto medo antes.
Quando eu finalmente pude ver o que tinha acontecido percebi que ela estava fugindo de várias barras, que vinham em direção a ela a todo vapor, formando uma fila. Eu não aguentei, tive que gritar:
— Não! — gritei desesperada. — Você não consegue sozinha, Minny, volte! Minny!
Ela, no entanto, não me escutou — ou pelo menos fingiu não escutar. Os espectros então começaram a fazer uma roda cantada em torno dela, o que não me cheirou bem.
— Não há outra opção senão lutar. — disse uma voz macabra atrás de mim, o que me assustou mais ainda. Lentamente, olhei para trás, temendo o que encontraria.
Ao me virar, vi um garoto que aparentava ter cerca de dezenove anos. Grande parte de seu rosto estava escondida pelas sombras que a sala proporcionava logo atrás dele, e pude ver apenas seus olhos vermelhos. Ele usava uma jaqueta branca, com as mãos nos bolsos da calça preta e rasgada, em um estilo meio punk. Tinha um sorriso maníaco em seu rosto.
Eu não podia acreditar no que via. Aquele maldito de novo.
— V-você! — Assumi uma expressão de ódio, pois era isso que eu sentia. Aquele maldito, o que fazia ali? Cerrei os punhos. Queria bater nele até seu sangue escorrer pelo prédio inteiro. Mas não adiantaria nada, e eu sabia muito bem disso. Infelizmente. — O que você está fazendo aqui?
— Perdão, você disse? — Ele sorriu mais maquiavelicamente ainda, o que fez minha pele se arrepiar. — Lógico que admirando esta obra-prima. Não tem visão mais agradável? Ah, eu queria tanto que ele estivesse aqui... Logo estará... — ele falava como um psicopata. Eu odiava tanto aquele jeito... Aquele sorriso... Queria apenas matá-lo. Sim, eu senti desejo de matar alguém, pela primeira vez na vida. Só queria ter força pra fazer isso.
— Como você se atreve? — Não aguentei. Avancei pra cima dele, jogando meus cabelos ruivos lisos para trás. No entanto, antes que eu chegasse até ele, uma pedra minúscula saiu da sala e atingiu minha testa violentamente, causando uma dor insuportável, fazendo-me cair no chão, com o sangue escorrendo. Aquilo já estava passando dos limites até para um sonho bizarro.
Meu corpo se paralisou. Fiquei caída no chão, com as mãos na testa, mas consegui levantar meus olhos para ele. Aquele homem que eu mais odiava.
— Sabe, você vale muito mais calada do que irritada. — ele falou pra mim. — Não se aproxime. Fique calada. Fique ajoelhada. Fique quieta, uma vez, ruiva. — Minha raiva já estava explodindo dentro de mim. — Eu estou observando meu pai... O novo e magnífico mundo que ele trará na Holy Timeline de dor e sofrimento da carne humana, a veneração do seu sangue... Ah... Uma linha sem interferência...
Houve uma grande explosão atrás de mim novamente, e ouvi o grito de Minny — um grito agudo de dor, que fez meu coração doer. Eu não queria vê-la sofrendo! Eu queria ajudá-la! Mas... eu simplesmente não podia!
— Mi... nny.... — eu murmurei. Lágrimas apareceram em meus olhos. Tudo estava perdido, e eu sabia disso. Não havia escapatória. Aos poucos, meus movimentos foram voltando, mas eu ainda continuava parada. Nada adiantaria eu me levantar novamente. Eu apenas sofreria.
O prédio no qual eu e o homem estávamos tremeu. Ouvi a gargalhada desesperada daquelas garotas espectrais. A risada delas penetrou em meus ouvidos e parecia não querer sair.
— Oh, que pobre garotinha... — o garoto falou, fazendo uma cara de pena forçada. — Não tem chances. Ele cuidará dela.
Eu sabia disso.
Ela não tinha chances.
Nós não tínhamos chances.
Eu ia apenas observar minha melhor amiga morrer aos poucos. Foi quando ouvi gemidos à minha direita... Gemidos baixos e, quando olhei, a caixa de surpresas cresceu mais ainda.
Debaixo de uma das gigantes rochas tinha uma pessoa. Uma poça de sangue estava acumulada ao redor. Era um garoto da minha idade. Ele sofria muito.
— Não... — eu tentei, aos tropeços, chegar à pedra. Queria reconhecer aquele rosto. Queria saber quem estava ali. Quando o reconheci, quase gritei. — Ai, não... Ei, aguente firme!
Eu me ajoelhei perto da pedra, apenas seu braço e parte do rosto estavam visíveis, em péssimo estado. Seu rosto estava roxo e sangrava. Eu tentei, tolamente, retirar a pedra, mas era mais pesada do que chumbo.
— Ei, calma... Eu vou t-te tirar daí.. a-aguenta firme.... — eu realmente tentava retirá-lo, mas meu esforço foi interrompido.
Nesse momento algo brilhou acima do prisma atrás de mim. Uma gigantesca supernova aconteceu, e um barulho ensurdecedor ecoou, me obrigando a tapar os ouvidos com toda a força possível. Quando olhei, uma luz gigantesca encandeou meus olhos e pedregulhos vieram em minha direção.
— M.... M-Minny! — e foi a última coisa que gritei, pois, nesse momento, meus sentidos se esvaíram por completo, e eu fui acordada de meu sonho de forma muito brusca.
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Bom, existem várias formas de interromper um sonho, levando ao despertar de uma pessoa. Eu, geralmente, sou acordada com meu despertador, com os gritos de minha mãe desesperados, os gritos de Erika, chutes na porta, a luz do sol, ou ambos juntos, além de algumas variações. Qualquer coisa meio clichê pra um dia clichê.
Mas acordar com uma porta caindo em minhas costas foi uma experiência nova.
Eu dormia tranquila e delicadamente meu sonho de ruivas, quando, simplesmente, do nada, de repente, repentinamente, uma porta linda despencou em minhas costas com força, delicada e fofamente. Bom, para a porta poderia ter sido assim. Mas, pra mim, foi como dois caminhões caindo em minhas costas.
Eu quase infartei. Minha expressão devia indicar tudo que pudesse expressar dor. De começo, não percebi o verdadeiro peso, talvez nos dois primeiros milésimos. Mas, quando senti, dei um dos maiores gritos da minha vida:
— Mas que... Ah! — o meu coração disparou. A dor em minhas costas era algo incrível. Tão incrível quanto a supernova, ou algo do tipo. De início, não tive realmente certeza de que saí do sonho ou se alguma porta do além de alguma casa flutuante tivesse me atingido. Mas pior do que isso era saber que a porta que foi bruscamente arrancada das paredes era a do meu quarto.
— Good morning, bela ruiva adormecida! — uma voz conhecida riu alto atrás de mim, riu tão desesperadamente que achei que fosse um dos espectros nigerianos das trevas encarnado no meu quarto, mas era apenas Erika. Não sei se isso era bom ou ruim, mas tanto faz, nada mudaria.
Enquanto eu ainda me recuperava do incrível susto e tentava aguentar a dor em minhas costas — será que eu quebrei alguma costela? —, virei a cabeça, inclinando o corpo, apenas para ver uma porta pesada em minhas costas. E olhei para onde deveria estar a porta. Lá estava Erika. Ela tinha a mesma idade que eu, e não era a garota do sonho. Era alta, branca e magra, com cabelos negros que iam até seus ombros, levemente cacheados nas pontas. Ela vestia o mesmo uniforme escolar de Minny — afinal, era o uniforme escolar da nossa escola.
— E-Erika! — gritei, derrubando com toda minha força aquela maldita porta no chão, fazendo minhas costas agradecerem, enquanto Erika ria desesperada, com seu rosto avermelhado e olhos fechados, e sua boca escancarada. Aquela nojenta realmente não sabia acordar alguém. Enquanto ela tinha lágrimas de riso, eu tinha lágrimas de dor no canto dos olhos.
— Ora, bom dia Ho-Ho-adormecida! Seu nobre príncipe encantado chegou! It’s me, Erika!
— M-m-me-meu p-príncipe e-e-encantado que nada! — eu gemi, massageando minhas pobres costas, que eram vítimas daquela guerra, enquanto Erika ainda tentava recuperar o fôlego de tanto rir.
— Desculpa, desculpa... — ela riu descontroladamente depois disso, o que me fez querer meter a mão na cara dela. — Eu te chamei e você não respondeu por 14 vezes, sabia disso? 14 vezes. Bem... eu então dei um chute revoltado na porta... hum... Bem, eu admito que fui meio brusca, mas você sabe como sua lady é. — ela olhava os restos da porta que ainda estavam pregados na parede, e tentou arrancar alguns.
— Que barulheira foi essa? Honoka, Erika, estão bem? Cadê vocês? — era a voz de minha mãe subindo as escadas. Eu senti que meu dia lascado estava apenas começando.
Ela chegou no quarto e tomou um susto quando viu a cena. Ela usava um corte de cabelo Chanel ruivo, uma camisa amarela e uma calça preta. Usava óculos, e ficou olhando a porta caída, enquanto Erika tentava se explicar para minha mãe, o que pareceu não dar muito certo.
Depois de longos minutos em silêncio, minha mãe finalmente falou:
— Essa porta é velha... — eu tentava abafar a dor debaixo dos lençóis brancos. — Ela já aguentou vários chutes seus, Erika. Uma hora ou outra ela soltaria.
— O-olha, senhora Arai, eu... eu sinto muito... — Erika falou. Ela era péssima em se desculpar.
Minha mãe suspirou.
— Bom, fazer o que, certo? Eu devia ter trocado essa porta. Não se culpe, eu vou dar um jeito nisso. — Minha mãe deu um sorriso pra ela. Era isso que eu nunca entendia em minha mãe: ela simplesmente perdoava Erika por tudo. Ela educava errado ela, o que me enfurecia. Minha mãe era muito calma, tanto que irritava. — Aliás, Honoka, você não vai se levantar? — ela perguntou pra mim.
Eu me espreguicei, pois ainda tinha sono. A dor aumentou ainda mais quando isso aconteceu.
— Eu... espera, levantar? — perguntei, desorientada de tudo.
— Honoka, você acha que é cedo pra ficar dormindo aí? Vai se atrasar, é melhor correr — ela deu as costas e desceu as escadas, provavelmente deixando o resto do trabalho com Erika, e me deixando mais confusa ainda.
— Espera... tarde? Hoje não é sábado? Do que... — eu estava confusa, então Erika me respondeu:
— Lógico, Honoka, eu estou usando uniforme em pleno sábado. Querida, são 7h30. Sete. Horas. Honoka, levantada! Hoje é sexta-feira!
Foi aí que eu senti meu mundo despencando, o terror me cercando. Fudeu, fudeu e fudeu. Foi apenas isso que pensei. Eu estava muito atrasada para a escola. Hoje era sexta-feira. Meu Deus, como eu não sabia disso? Eu era sempre atenta aos dias da semana!
— Ai meu Deus do céu Buda Zeus Alá Odin Guesha Marte Athena Exu! — eu exclamei, juntando todas as palavras que vinham em minha mente, e dei um pulo da cama, ignorando a dor. — Estou extremamente atrasada! — exclamei mais alto, e dei um pulo em minha mochila caída no chão, corri pra procurar roupas no guarda-roupa, enquanto Erika entrava em meu quarto. — Erika do céu, por que minha mãe não me acordou?
— Sua mãe estava cuidando da sua irmã. Além disso, culpe sua irmã por eu não te acordar mais cedo, ela é muito fofa e...
— Espere... Você estava brincando com Sakura ao invés de acordar? —eu exclamei. Minha raiva cresceu. — Erika do céu, eu estou atrasada demais!
— Ora, culpe seu despertador! — ela suspirou. — Você já é bem grandinha pra eu ter que te acordar!
Eu tentei não dar atenção e me preocupei em achar minhas roupas. Nunca havia me atrasado assim. Se chegasse mais tarde, pegaria uma detenção terrível! E eu não queria nem pensar na cara da diretora me encarando... Argh! Por que diabos eu tinha que estar no colegial?
As escolas japonesas têm um sistema meio diferente dos adotados nos demais países, então funciona mais ou menos assim: temos três cursos na escola, o primário, ginasial e colegial.
Curso Primário: (obrigatório, e o mais legal) Tem seis anos de duração, dos sete aos doze anos. Os horários das aulas do primeiro e segundo ano eram das 8h às 14h. Do terceiro em diante era das 8h às 15h30. E era o mais legal provavelmente porque temos menos obrigações — ter menos obrigações é sempre melhor.
O segundo é o Curso Ginasial, a linda etapa em que a Erika e eu estamos estudando. Ele também é obrigatório e tem três anos de duração, que vão dos treze aos quinze anos de idade. O horário das aulas é das 8h às 18h. Nesse curso, deve-se optar por uma atividade física, além de termos a escolha de entrarmos em um determinado grupo de algum assunto específico. É bem legal, apesar de tudo. Lógico, temos mais obrigações, mas é legal mesmo assim.
E, por último, temos o curso colegial. Esse já não é obrigatório, porém muitas pessoas o fazem mesmo assim. Ele também tem três anos de duração, dos dezesseis aos dezoito anos, e o horário das aulas é de 8h às 18h. Também deve-se escolher uma atividade física, exceto no terceiro ano, pois os alunos são dispensados para se dedicarem para o pré-vestibular — o que eu acho o certo. Nunca fui boa em educação física.
Erika e eu temos quinze anos, ou seja, estávamos no terceiro ano ginasial. Portanto, na maior parte do tempo, estávamos ocupadas com alguma coisa da escola — estudo, dedicação aos grupos, trabalhos, essas coisas. Eu fazia parte do grupo de música e Erika acabou entrando também por certa insistência minha. Eu simplesmente sou louca por piano e violino, música clássica e, claro, a doce e graciosa música alemã. Erika gosta de músicas mais recentes, como rock alto e grave.
Bom, acho que agora devo falar um pouco sobre mim. É, eu sei que devia ter feito isso antes, mas eu sou péssima com ordens. Por incrível que pareça, sim, Erika e eu somos melhores amigas, e eu digo isso porque nossas personalidades são radicalmente diferentes.
Eu confesso que sou tímida. Sempre tive um problema estranho de fazer amizades. Sou contida, e várias vezes insegura e indecisa. Afinal, uma coisa leva a outra. Sou calma, amo músicas clássicas, ler, escrever, e gosto de desenhar.
Sou mais na minha, odeio me meter nas vidas alheias e, claro, gosto de estudar. Sempre fui mais na minha, alguns me consideram esquisita, bizarra e antissocial. Bom, antissocial eu confesso que sou. Mas não tenho problemas quanto a isso.
Tenho uma personalidade meio fraca. Mas o que isso quer dizer? Bom, basicamente, eu sou muito insegura em aspectos de opinião. Se alguém vier tirar sarro do que eu penso eu não sou muito boa em defendê-la. Lógico que eu tento, mas nem sempre dá certo. E as pessoas gostam de me apelidar.
Sou filha de um agente de uma empresa famosa, e de uma vendedora de moda. Meus pais, Hotaru e Namido, são bem legais. Meu pai tem um jeito bem engraçado, e minha mãe um jeito mais quieto. Em geral, somos meio afastados. Não somos tão aproximados como uma família normal é, pois eles são bem ocupados. Eu fico mais em meu quarto estudando, lendo ou ouvindo música.
Já Erika é completamente diferente: ela não é nada tímida. É extremamente exibida, decidida, não enfrenta problemas de fazer amizade, além de ser uma pessoa energética. Ela tem uma forte personalidade — e uma mão forte. É muito encrenqueira, pois vive se metendo em confusões.
Sua família tem um estilo marcial de luta, na qual Erika sempre treina fortemente em seu dojo. Por isso, acaba sendo bastante violenta. Assim como eu, gosta de escrever, mas odeia críticas, qualquer que seja. É um pouco mimada e, quando eu tento criticar algo que ela escreveu, ela sempre reclama. Ela amava sair de casa e, principalmente, me arrastar em suas aventuras felizes. E, na maioria das vezes, ela me metia em confusões, pra variar. Ela gostava de ler, mas não tanto quanto eu.
Na maioria das encrencas em que Erika se metia eu estava junto — e não olhe pra mim assim! Não era encrenqueira como ela, longe disso. O problema é que ela sempre me via como ‘’aquela pessoa que está junto com você na delegacia um dia”, ou algo desse tipo. Ela tinha um dom muito tenso de persuadir pessoas, e logicamente usou esse dom em mim diversas vezes.
Mas eu confesso que éramos inseparáveis. Onde quer que eu fosse, ela estava junto, e vice-versa. E, para completar, ainda morávamos no mesmo bairro — que era minúsculo. Todos os bairros do Japão são pequenos, mas o meu queria ser menor do que os outros, e assim era.
A mãe de Erika é amiga da minha mãe. Ela é jornalista, e seu pai também. Erika dizia que talvez fosse seguir o caminho dos pais, já que não havia outra profissão da qual gostasse. Já eu queria me tornar uma pianista. Ou uma violinista. E quem sabe uma escritora. O chato é que nenhuma das profissões da qual gosto tem especialização na faculdade, apenas jornalismo. Medicina eu gostava, mas, sinceramente, não tinha estômago para aquilo. Eu nunca aguentei ver muito sangue e nem curtia muito o corpo humano. Eu não curtia odontologia. Talvez eu me formasse em psicologia, pois era a única profissão na qual eu realmente me encaixava.
Em geral, não tenho outra amiga fora Erika, embora me dê bem com algumas garotas. Porém, eu tinha um melhor amigo. O nome dele era Bob Nelson — sim, é um nome bem estranho para um japonês. Acontece que sua mãe, Angela, era brasileira. Ela havia ido para o Japão para poder ter mais dinheiro e melhores condições de vida.
***
Depois de me vestir, saí correndo do banheiro. O tempo ia passando como um avião competindo contra uma bicicleta e, obviamente, eu era a bicicleta. Eu saí tão apressada do banheiro que esqueci de pôr a saia da escola, ficando apenas de calcinha, sapato e camiseta. Erika me esperava lá embaixo, e conversava com minha mãe, que sempre fazia de tudo para ela se sentir à vontade — e obviamente ela amava isso. Enquanto eu pegava minha mochila rapidamente e colocava livros escolares lá dentro, ouvi a voz delicada e meiga de Erika:
— Ah, vamos logo, Honoka! — ela gritou, e ouvi seus passos na escada. — Estamos atrasadas! Vem logo, você sabe como são os professo...
— E-e-estou indo! — eu disse, enquanto pegava meus livros da mesa do meu quarto e os colocava em minha estante. Eu havia sido gaga até os oito anos de idade e, embora tivesse superado isso, ainda tinha crises de gaguejamento de vez em quando.
Eu amarrei meus cabelos em dois rabos de cavalo, um de cada lado da cabeça. Erika sempre dizia que eu ficava melhor de cabelo solto, mas eu discordava. Coloquei meus óculos, que, pra variar, já ia esquecendo. Estava quase pronta. Erika já havia voltado pra sala e eu tentava ignorar a maldita dor nas costas.
Dei um chute na porta pra tirar debaixo da minha cama meu relógio. Aquele trambolho caiu quase em cima da minha televisão, mas eu ignorei. Eu não podia me atrasar. Sim, eu estava desesperada. Eu odiava me atrasar, e odiava mais ainda a diretora da escola.
Peguei o livro ‘’A menina que roubava livros” que eu lia na noite passada enquanto escutava Bob Dylan — que, para quem não conhece, é um dos melhores criadores das melhores músicas da humanidade —, e eu acabei me perdendo no horário. Quanto olhei o relógio, era mais de meia-noite. Esse é o lado ruim em ser leitor ou leitora: você perde o horário lendo, mas lógico que depende do livro. Eu fui dormir com meus olhos pregando.
E então eu me lembrei do meu sonho. Aquele sonho havia sido o mais estranho que eu já tive. Neste momento minhas memórias dele iam se perdendo, mas eu ainda me lembrava bem da central dele. Eu me lembrava do local apocalíptico e do prédio. Lembrei-me da garota que lutava contra alguma coisa. Lembrei-me, então, que ela estava em desvantagem. Lembrei-me das garotas espectrais — afinal, o que diabos eram elas? — e do garoto bizarro do qual eu sentia tanto ódio. Lembrei-me da pessoa esmagada. Eu parecia sentir muito ódio dele, e queria ajudar de alguma forma a garota.
Mas havia pontos que estavam muito sem sentido: que lugar era aquele? Provavelmente eu tenha lido histórias demais. E que garota era aquela? Provavelmente anime demais. E aquela sanguinária? Livros sangrentos demais. Mas porque eu odiava tanto aquele homem e quem era aquela garota? Por mais que eu tentasse, não me lembrava do nome dela. Era algo com M... Não, era com I... Até que eu não fazia mais a menor ideia do nome e do rosto dela.
Era um sonho extremamente real, mas agora eu não lembrava mais de verdade do sonho. Eu apenas me lembrava que tivera o sonho mais estranho da vida. O lado ruim desses sonhos — pelo menos para mim — era que, quando eu acordo, eu acabo achando que ainda estou no sonho, e nesse não foi diferente. Eu era bem estranha nesse aspecto, mas podia jurar que, se não fosse pela dor, eu gritaria quando acordasse: ‘’Não, não vá!”.
Mas talvez você se pergunte: Nossa, para que tanta pressa, acalme-se e pense sobre seu sonho e seu significado. Foi isso que você fez, certo?
Quando se é uma estudante do terceiro ano do colegial, eu pensava apenas em me apressar. Principalmente quando a primeira aula de sexta-feira era meu terror ginasial, o câncer de Hazel Grace, a dislexia de Percy Jackson, Draco Malfoy de Harry Potter: a maldita aula de Física.
Eu simplesmente era péssima em Física. Eu não costumava ter quaisquer problemas com as matérias, nem mesmo matemática; eu era o que se podia dizer "uma aluna mais ou menos exemplar". Mas Física era diferente. Eu simplesmente tinha algum problema em entender o que se passava naquela aula, era difícil engolir aquele conhecimento.
Eu até conferi a lista pregada na parede de horários rapidamente enquanto estava embaixo da cama procurando algumas outras coisas, apenas para descobrir que realmente era Física. Oh, Deus...
Apressada, levantei a cabeça debaixo da cama, e tive o azar de batê-la na madeira. Eu procurei não me importar com o calo que nascia ali. Cheguei na cozinha depressa, descendo as escadas com minha bolsa, onde encontrei a nojenta da Erika comendo biscoitos de amendoim, e minha mãe lavando os pratos. Ela usava um avental meio esquisito de flores amarelas sorridentes.
Minha irmãzinha, Sakura, estava na cadeirinha pequenina, e Erika amava brincar com ela. Ela também era ruivinha, e tinha o dom de me bater com alguma coisa que encontrasse.
— Ah, finalmente você saiu da toca! — Erika exclamou, virando-se pra mim, e fez uma expressão meio tensa quando seu olhar bateu nas minhas pernas.
— Ah, Honoka. — minha mãe falou virando-se pra mim. — Você poderia... Espere, onde está sua saia escolar?
— S-saia? — Eu senti um friozinho em meu quadril quando finalmente me toquei disso, e fui baixando minha cabeça devagar.
“Ai não.... Por favor, me diga que não... Ah, meu deus, não...”
Erika caiu no riso, pra variar. Eu, com um susto, percebi que estava de calcinha. Mas o pior não era a calcinha em si, e sim as rosas com sorrisos meigos e com um príncipe encantado no meio delas. Senti meu rosto ficar quente. Minha mãe também começou a rir, o que me deixou enfurecida, fazendo-me parecer um pimentão invocado.
— Honoka, pelo amor de Deus, vai pôr uma saia... — Minha mãe ria que nem uma retardada.
— C-c-c-cale a-a b-b-boca. — O meu rosto parecia ferver. — M-m-mãe, p-para de r-rir! — eu então corri pro meu quarto, enquanto Erika ainda tinha um ataque.
Minha irmã não entendeu muito, mas ficou nos observando com aquela carinha fofa e angelical. Sério, como bebês conseguem ser tão fofos e inocentes!
— Nossa, Honoka vai conquistar todos os garotos com sua calcinha super fashion! — Erika gritou em meio aos ataques de riso, o que me fez querer ir lá e jogar ela do telhado. Mas eu não tinha tempo, e tinha sanidade para não ir lá sem calcinha enquanto ambas riam, e minha irmãzinha ria também, sabe-se Deus porque, ela nem entendeu. Bom, eu sei lá.
Foi aí que eu percebi que esse não seria meu melhor dia.
***
Depois que eu coloquei uma saia decente e Erika terminou de comer, eu peguei apressadamente um pão com manteiga e me despedi depressa, e fui junto com Erika para a escola, enquanto eu devorava o pão.
A escola ficava a 15min de distância, e nós tínhamos 13min, pelo menos segundo meu relógio. Por isso, nós aceleramos o passo um pouco mais do que o de costume.
Enquanto eu enfiava na minha boca o resto do pão com manteiga, ela chupava três pirulitos ao mesmo tempo. E não, não me pergunte como ela fazia isso, só sei que ela amava colocar uns cinco pirulitos na boca, e em menos de 15min ela colocava tudo pra dentro.
Como eu prendi meus cabelos a cada lado da cabeça, além dos meus óculos que deveriam ser um pouco menores, eu parecia mais nova do que eu realmente era. Parecia ser mais nova de qualquer modo, pois meu rosto era meio infantil. Porém, eu tenho que admitir que era mais ou menos bonita — pelo menos eu esperava que fosse um pouco decente na aparência.
Erika era muito bonita, mas sempre que um cara tentava dar em cima dela, Erika deixava para suas mãos cuidarem disso, dependendo do caso. Por isso, alguém com juízo não quereria confusão com aquele ser.
— Honoka, por falar nisso... — Nós não estávamos falando de nada, mas ela disse isso mesmo assim. — Você terminou a tarefa de casa que a professora passou ontem? — ela se aproximou um pouco de mim, com os braços para trás da cabeça e aqueles pirulitos na boca.
— O-o que... A-ah, sim, eu fiz sim, assim que cheguei em casa ontem. E você?
— Droga, eu fui a única que não fiz! — bufou Erika de um modo bem estranho, pois ainda tinha os pirulitos na boca. — Mas, Ho-chan¹, você vai me emprestar, né, friend? — Ela me abraçou por trás, colocando as mãos aproximadas dos meus seios, e me fez ficar corada com o modo pervertido daquela nojenta. As pessoas que passavam olhavam, e algumas seguravam o riso.
— E-E-Erika-chan! N-não me abrace assim n-na rua... — Algumas pessoas viam e riam, e eu ficava mais furiosa.
— Eh? Ho-chan fica vermelhinha quando alguém a abraça em público? Isso Erika-sama² não pode perdoar! — E, de repente, ela começou a fazer cócegas em mim, fazendo-me rir descontroladamente enquanto eu tentava escapar, mas aquela maldita tinha essas manias estranhas de vez em quando. — Vamos, sua nojenta! Empreste a atividade, deixe de ser malvada!
— Q-q-q-quem e-está sendo m-malvada é-é você, Erika! M-M-M-M-M-M-Me solte! — Eu tentava controlar o riso, mas as cócegas eram hardcores. Eu tentava me desvencilhar dela, que acidentalmente deixou cair um pirulito no chão. “Benfeito!”
— Ei, o que está acontecendo? — disse uma voz masculina atrás de nós. — Vocês enlouqueceram?
O lado bom foi que Erika me soltou pra olhar pra trás, parando com as cócegas, e eu me virei também, ignorando as pessoas que riam quando passavam. Ali estava um garoto alto, de cabelos castanhos e olhos da mesma cor, usava um uniforme escolar e sua mochila estava pendurada apenas por uma alça.
Era Bob Nelson, meu melhor amigo. Ele olhou os pirulitos no chão, e eu vibrei um “Bob, que bom vê-lo!” em silêncio.
— Ah, Bob... — Eu ainda me recuperava do ataque repentino de Erika. — Eu achei que você já tinha ido na nossa frente, por acaso se atrasou? Não é o presidente de sala? Será que a diretora vai gostar disso?
— Na verdade, eu tive que ajudar minha mãe em algumas coisas e, por isso, acabei me atrasando. Tudo bem com vocês? — O lado bom de Bob é que ele era o único normal no meio de nós. Ou pelo menos o menos estranho.
— Nossa, incrível ver você aqui quando acabamos de sair da casa de Honoka — Erika comentou. Era notável uma antipatia entre os dois, e não vou negar: eles nunca se deram muito bem.
— Bem, caso a sua mente pequena não tenha reparado, minha casa fica na mesma rua de Honoka. — Bob respondeu, encarando ela, e novamente as pessoas olhavam para nós, o que me causava constrangimento. — E, como esse é o único caminho até a escola do bairro, eu acho óbvio que eu esteja indo por aqui, não? Eu não vou atravessar as casas, certo? E não fez sua atividade e quer copiar de Honoka? — Eu não sabia como ele sabia disso, mas provavelmente os gritos de Erika a denunciaram. De uma forma ou de outra, era notável que Bob a estava provocando cada vez mais. — Que feio para a presidente de esportes, Erika-senpai³...
— Ah, cale a droga da sua boca! Eu preferiria que passasse por cima das casas, pois assim não teria que encarar essa sua cara ridícula! — ela respondeu, praticamente declarando uma guerra naquela discussão. Mas eu já conhecia aquele filme. Eles discutiriam, e estávamos atrasados, e as pessoas ficavam nos olhando. Eu odiava quando as pessoas nos encaravam, e acabei me intrometendo, sem saber muito o que fazer:
— E-e-ei, ei ei, vocês dois! — eu tentei puxar Erika pelo braço, o que não adiantou. — V-vamos pra aula, certo? Nós estamos atrasados, certo, gente? Certo, Erika? — eu tentava chamá-la, na esperança de que ela concordasse.
— Hum! Fazer o que, né. — Para minha surpresa ela se virou e voltou a andar. Bob Nelson suspirou e voltou a andar também, juntamente comigo.
— Enfim, vocês começaram a estudar? Sabe, para a próxima prova de química, depois de amanhã? — ele perguntou, tentando esquecer a quase briga entre ele e Erika, e tentando ficar de boa.
— Ah sim, eu já comecei a estudar. — eu respondi. — E você, Erika-chan?
Ela tirou o último pirulito que sobrou na boca e bocejou.
— É óbvio que eu só vou estudar na véspera. Ah, por favor! Até parece que eu vou estudar três dias antes! — esse era outro defeito de Erika: ela odiava estudos. — Afinal, eu estou vendo seriados importantes. Não se preocupem, eu vou ficar bem — E botou novamente o pirulito na boca.
— Por isso suas notas são deploráveis... — Bob comentou comigo, elevando a voz propositalmente, como se tentasse provocá-la. Aff, Bob!
— Como é? — Erika perguntou, demonstrando estar realmente irritada. — Ah, você ama tentar me tirar do sério, só porque é presidente de classe e bom em esportes, gosta de tentar me tirar do sério? — As pessoas olhavam e eu suspirei, olhando pra cima e pensando ‘’começou de novo...’’. Agora Erika pouco provavelmente largaria a discussão. Isso já estava um saco.
— Eu consegui? — Bob deu uma risadinha, o que levou a raiva de Erika aos céus.
— É, talvez sim! — Ela avançou pra cima dele, na verdade, tentou, pois eu consegui detê-la. Olhando no relógio, tínhamos cinco minutos restantes.
— Ah, gente, por favor, vamos parar com isso! — eu disse alto. — Por favor, vamos apenas ir pra escola, olhem, faltam cinco minu...
— Ah, faça silêncio, Honoka! — Erika disse, e aparentemente Bob se divertia com a raiva de Erika. — Eu estou resolvendo pacificamente um probleminha com Bob-kun¹+³, certo? — Ela então começou a dar bolsadas nele, que ainda soltava piadas, enquanto eu simplesmente sobrei ali. Enquanto eles discutiam, eu simplesmente suspirei.
Foi quando eu me toquei de uma coisa.
Uma coisa bem bizarra, mas que eu não havia me tocado antes.
Em meu sonho, havia alguém esmagado, muito bem, obrigado. Sangrava muito, estava de uma forma... argh. Eu tentava desesperadamente tirá-lo dali, foi quando me toquei.
O garoto esmagado era Bob Nelson.
Senti um formigamento estranho em meio corpo, como se algo tenso fosse acontecer naquele dia, e a partir dali que mudaria minha vida para sempre.
Mas eu mal sabia que eu estava.
Absolutamente certa.
Ω
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