Jiban End
23 No covil do inimigo

Yoko abriu lentamente os olhos e sentiu alguma dificuldade para enxergar. Sua visão estava turva e a iluminação do lugar onde se encontrava, não ajudava muito. O ambiente além de escuro, era bastante frio.
Ela teve a impressão de que alguém a observava, e esse alguém pressionava sua cabeça dolorida. Ela precisou de mais alguns instantes para que seus olhos se acostumassem e focassem na figura a sua frente, até que finalmente reconheceu o rosto de Ayumi.
A menina exibia uma expressão que misturava medo e preocupação. Ela usava o lenço, que antes amarrava seus cabelos num rabo de cavalo, para estancar o sangue, que ainda escorria pela testa da policial, através do ferimento aberto durante seu breve enfrentamento com Camaleonoide no hospital.
- Você acordou! Que bom! – animou-se a menina, ao ver que depois de quase uma hora desacordada, a policial finalmente apresentava algum sinal de vida.
- Ayumi? Onde estamos? – perguntou a moça, enquanto olhava ao redor e tentava se sentar. Ela havia pegado o lenço das mãos da menina, para fazer ela mesma o estancamento do sangue.
- Eu não sei exatamente. Mas estamos em uma cela dentro de uma caverna.
Com a ajuda da menina, a policial se pôs de pé. O lugar parecia uma espécie de calabouço, com o chão, o teto e as paredes de pedra e grades trancadas com correntes.
- Você está bem, Ayumi?
- Estou. Fiquei preocupada com você. Tive medo que você pudesse morrer. – disse a garotinha, agora mais aliviada, enquanto dava um forte abraço na policial, que fez a moça sorrir.
- Não se preocupe comigo, eu estou bem. Foi só uma pancada. Se eu não estivesse com essa mão machucada, eles iam ver só. – falou, dando uma piscadela, tentando acalmar a menina. – Eu só estou com vergonha...
- Vergonha de quê?
- Eu disse a ele para descansar e não se preocupar, porque eu tomaria cuidado. Mas cá estou eu, machucada, prisioneira de Biolon e, ainda por cima, deixei que eles pegassem você também.
- “Ele”? – perguntou a menina, curiosa, mas Yoko não teve a chance de responder.
- Então quer dizer que você ainda não morreu? – intrometeu-se uma voz feminina forte e cheia de maldade, vinda do outro lado das grades.
- Madogarbo! Para onde vocês nos trouxeram? – inquiriu a moça, irritada.
- Você está tendo a honra de conhecer o nosso esconderijo secreto. Deveria estar mais agradecida. Seja bem-vinda, Yoko Katagiri. – disse ela com sarcasmo, pouco antes de abrir o cadeado, que prendia as correntes, e entrar na cela. – A Ayumi já esteve aqui por algum tempo, mas parece que ela não se lembra do período em que foi nossa hóspede, então, bem-vinda de volta, menina Igarashi.
A garotinha recuou e ficou atrás da policial, enquanto Madogarbo vinha na direção delas, ameaçadoramente.
- Confesso que eu teria ficado mais feliz se você tivesse feito a gentileza de morrer, mas já que não fez, venha comigo. O Dr. Jean-Marie quer ver vocês duas. Andem! – ordenou ela, já puxando Yoko pelo braço. A policial queria aproveitar aquela chance para tentar escapar, mas percebeu que os inimigos haviam tomado sua arma e suas algemas. Ela estava completamente indefesa. Por mais que quisesse reagir, um ato impensado só acabaria colocando ela e Ayumi em perigo, então era mais sábio obedecer naquele momento. Ela segurou a mão da menina e tentou acalmá-la.
- Vamos, Ayumi. Está tudo bem.
A menina obedeceu em silêncio e as duas foram conduzidas para fora da cela por Madogarbo, através de um corredor mal iluminado, que na verdade parecia mais com um túnel escavado na rocha. Ayumi tinha razão, elas estavam mesmo dentro de alguma caverna.
O local para onde Madogarbo as estava levando não ficava longe e elas logo adentraram a uma sala bem ampla, também escavada na rocha, porém, melhor iluminada, com alguns móveis e vários equipamentos eletrônicos.
Marshall, Cannon e o Dr. Jean-Marie estavam lá.
- Finalmente estou frente a frente com a policial que tanto atrapalhou nossos planos. É um prazer, Srta. Katagiri. – disse o líder de Biolon, educadamente. Yoko não respondeu àquele homem que, por fora, parecia humano, mas não era. Ela apenas o olhou seriamente. – É bom tê-la de volta também, pequena Ayumi. Agora finalmente você vai nos contar, ou melhor, vai nos mostrar, tudo o que queremos saber. Vamos descobrir quem é Jiban e onde ele se esconde. Você querendo ou não.
- Mas eu não sei quem é esse Jiban, nem me lembro de nada do que aconteceu antes de dois meses atrás. – retrucou a garotinha.
- Mas isso não é problema. Se você não se lembra mesmo de nada, então vai até ficar feliz com a minha mais nova invenção. Liguem o aparelho!
Assim que Jean-Marie deu a ordem, Cannon apertou um botão em uma das máquinas que ali existiam. Uma pequena tela de cristal líquido se acendeu, porém exibia apenas chuviscos e estática.
- Coloquem a menina no aparelho!
- Não toquem nela! – gritou Yoko, impedindo que levassem a menina para a tal máquina.
- Por acaso a senhorita deseja ir primeiro? – perguntou Jean-Marie. – Acho até que gostei da ideia. É bom fazermos um teste primeiro. Coloquem a policial antes.
- Sim, senhor!
Yoko tentou reagir, mas foi arrastada por Madogabo até a cadeira ao lado da máquina cheia de botões e luzes piscantes. Seus pulsos e tornozelos foram atados aos braços e pernas da cadeira e ela ficou imobilizada. Em seguida, vários eletrodos foram colados em sua testa, com fios que os conectavam à máquina.
- Podem ligar!
- Eu acho que pode doer um pouquinho. – disse Cannon com uma risadinha, ligando o aparelho logo em seguida.
Yoko sentiu como se uma corrente elétrica percorresse todo o seu corpo em apenas um segundo e sua cabeça ficou pesada. Era como se aquele aparelho estivesse estimulando seu cérebro e várias memórias foram trazidas a sua mente de forma desordenada e ela se sentiu meio tonta. Logo em seguida ela ouviu a própria voz saindo de um alto-falante. Ela reconheceu aquelas falas.
“Eu disse a ele para descansar e não se preocupar, porque eu tomaria cuidado. Mas cá estou eu, machucada, prisioneira de Biolon e ainda por cima deixei que eles pegassem você também.” –foi o que ela ouviu, enquanto na tela aparecia o rosto de Ayumi, meio desfocado, mas reconhecível.
“Mas essa foi a conversa que tivemos agora a pouco...” – pensou Yoko. – “Eles estão vendo... as minhas memórias?”
- Parece que isso foi há pouco tempo. Precisamos voltar mais. – disse Jean-Marie. – Aumentem a voltagem. Cannon obedeceu e apertou um outro botão. Outras luzes se acenderam no aparelho. Yoko sentiu uma nova onda de energia percorrer seu corpo e sua cabeça começou a doer. Uma nova memória apareceu na tela.
“Jiban! Jiban!” – dizia a voz desesperada de Yoko pelo alto-falante novamente. A policial virou a cabeça para o lado para tentar enxergar a tela do aparelho. Lá ela viu suas próprias mãos amparando Jiban em seu colo. Ele estava deitado no chão e sangrando. Seichi estava logo à frente, desesperado tentando conter o sangramento com as mãos. “Nós precisamos tirar a armadura para tentar parar o sangramento!” – disse ele.
-Parece que você fez mesmo um belo estrago, Madogarbo. Muito bom. – disse Jean-Marie, achando graça da cena que via. – Mas ainda não é isso o que queremos saber. Precisamos descobrir quem é Jiban e onde ele está escondido. Aumentar a voltagem!
Com essa terceira investida, Yoko sentiu uma dor forte na cabeça e seu corpo todo formigava. Dessa vez não houve nenhum som saindo do alto-falante. Apenas aparecia uma imagem na tela. Ela virou a cabeça para o lado novamente, com dificuldade, e viu o rosto sorridente de Naoto, enquanto acenava para ela.
- É aquele policial idiota que trabalha com ela. Até que é bonitinho, deve ser o namorado. – sugeriu Marshall. – É seu amor secreto? – perguntou a mulher, mas antes que Yoko pudesse dizer qualquer coisa, acabou perdendo a consciência e a imagem desapareceu da tela.
- Bom, não conseguimos o que queríamos, mas como pudemos ver, a máquina funciona perfeitamente. – concluiu Jean-Marie. – Tirem ela daí. Agora é a sua vez, Ayumi Igarashi.
Eles desamarraram os tornozelos e os pulsos de Yoko e tiraram a policial inconsciente de lá, para colocar a menina em seu lugar. Assustada, Ayumi se viu também sendo amarrada à cadeira, enquanto arrastavam a policial desacordada e a colocavam no chão, à sua frente.
Fale com o autor