Notas iniciais
Capítulo super-hiper-mega curto, só para dar uma pontinha de esperança para vocês, leitoras queridas!

Eu e Missi estamos sentadas na enorme mesa de mármore que fica na cozinha mesmo. Ela havia posto alguns pratos e eu havia recebido a comida que ela pediu pelo telefone. Não sei como a cena anterior, dela se agarrando com Jack, aconteceu. A única coisa que sei é que ela está bem mais sorridente. Eu já sabia que ela estava a fim dele, mas não imaginei que ele também estava de olho nela.

— Onde você pediu essa comida deliciosa? — Pergunto, tentando descontrair o silêncio da cozinha.

— Tem um restaurante italiano aqui perto. Se bem que tudo fica perto daqui! — Ela fala, super empolgada.

— Ai ai... — Suspiro. — Será que você pode me dizer como tudo isso aconteceu?

Ela solta seu garfo e leva suas mãos para as bochechas.

— A gente estava falando o que aconteceu com você, aí ele começou a perguntar por que não tinha acontecido comigo. Eu falei pra ele que eu não estava perto de você, então ele falou "Ah, tá explicado!".

— Explicado? — Pergunto, confusa.

— Eu não entendi, óbvio, e perguntei pra ele o que ele quis dizer com aquilo... Ele falou que, já que eu era uma garota tão linda e maravilhosa, isso com certeza podia acontecer comigo. — Assim que ela fala isso, solto uma gargalhada enorme. — Tá, essa cantada, se é que eu posso chamar de cantada, foi horrorosa, mas eu estava tão...

— Atraída? — Interrompo o monólogo.

— Exatamente. — Ela suspira. — Ele é fofo demais!

— Aham. — Falo, e ela fica olhado para mim como uma maluca. Meu Deus, será que ela já vai ficar maluca de ciúmes?

— Nem pense em roubar ele de mim! — Ela brinca. — Você já tem o seu.

Antes mesmo de dizer que não quero roubar Jack dela, pergunto:

— Quem é o meu, que eu ainda não conheço?

— O tal do Hector. — Ela dá mais uma garfada em sua lasanha.

Olho para ela com a cara mais perversa que eu posso. Ela nem conhece ele e já fala assim... Ela percebe o quanto eu fiquei chateada com essa brincadeirinha que ela sorri em consideração.

— Desculpa, Sica. — Ela pede. — É que, depois da nossa conversa na praia, eu percebi que você ainda é louca por ele. Não é?

Fico em silêncio, pra logo depois confesso.

— É.

— Arrá, eu sabia! — Ela brinca ainda mais. — Eu quero muito ver uma foto dele. Você tem alguma?

Sorrio para ela. Eu havia guardado uma que eu, Gwen, Hector e Thomas, minutos antes de entrar na sessão do cinema. Aquele dia foi horrível, mas aquela imagem para mim era muito importante. Eu jamais poderia me desfazê-la. Vou até meu quarto e retiro da mala a foto, que estava bem embalada em um saquinho. Pego-a e a levo para a mesa.

— Olha... Essa aqui sou eu, claro. Essa era a Gwen, a irmã dele, e esse era o namorado dela. — Olho para a imagem de Thomas. Poucos dias depois que eu saí do hospital, descobri que ele também havia morrido, com um tiro na cabeça depois de se jogar atrás de Gwen para impedir que ela fosse atingida. Ele morreu na hora. — E esse... esse é o Hector.

Ela fica boquiaberta. Se eu não soubesse que Missi estava a fim de Jack, com certeza ficaria com ciúmes. Como se eu ainda fosse algo dele para poder sentir isso...

— Ele é... Ele é lindo. — Missi fala. — Vocês tinham quantos anos mesmo?

— Ele tinha 17. Faltavam algumas semanas para meu aniversário de dezessete também.

— Acho que agora ele deve estar ainda mais gostoso, depois de dois anos. — Ela sorri maliciosamente para mim. Só de conversar sobre ele dessa maneira tão livre com Missi me deixa desconfortável.

— Eu imagino. — Suspiro, tentando esconder minha vermelhidão. — Mas ele não é mais meu. Ele me deixou, Missi, e doeu muito. Se pudesse apostar, diria que ele deve estar em alguma festa agora, se divertindo com outras garotas...

— Olha, eu sei que deve ser difícil para você, mas já se passou um bom tempo. — Ela toma a foto das minhas mãos para analisá-la mais de perto. — Você tem que parar de ficar se lembrando dele. A menos que você não queira esquecer.

Engulo em seco.

— Eu queria muito esquecê-lo, mas ele é o amor da minha vida, Missi. — Digo, quase sussurrando. — Pessoas importantes assim, ninguém consegue esquecer por completo.

— Entendo. Eu acho, pelo menos. — Ela fala, devolvendo a foto para mim. Guardo-a no mesmo local. — Sabe o que eu acho? Que você vai encontrar tantas pessoas novas aqui que você vai esquecer dele rapidinho.

— Até agora eu só conheci o Jack, o pai da Jasmine, o homem que carrega as malas e aqueles idiotas da praia. E você já pegou o Jack pra você.

— Eu sei, eu sou muito rápida.

Sorrio e ela cai na gargalhada. Terminamos de comer o meu delicioso espaguete e a lasanha dela e vamos para a sala. Ela pega seu notebook.

— Vamos ver se a gente encontra o Hector no Facebook. — Ela bate palmas para sua própria ideia. — Vamos nos por a par das notícias.

— O quê? Não vai me dizer que você vai conversar com ele! — Exclamo, meu queixo já caído.

— Claro que não, eu só vou olhar o status. Se ele está namorando ou não, onde ele vai fazer faculdade... Essas coisas, boba.

— Ah. — Suspiro aliviada. Não sei o que faria se logo a Missi tentasse falar com ele.

Ela procura o nome dele no Google e logo o encontramos.

— Andrew Hector Daves... — Ela repete. — É ele, né?

— É sim... — Analiso a foto de perfil dele.

Hector estava um pouco diferente, porém extremamente lindo. Seus cabelos estão mais curtos que da última vez que o vi, há uma nova e pequena cicatriz perto de seu olho esquerdo e agora ele cultivava uma discreta barba por fazer que só dava mais charme à ele. Deus, eu não mereço isso. Missi olhava o status dele.

— Aqui diz Solteiro... — Ela diz lentamente. — Será que é verdade? Conheci uns caras que, mesmo namorando, deixavam o Facebook desatualizado. Uns porque eram preguiçosos para mudar, outros para enganar quem os visse na internet...

— Acho que Hector não é um desses, apesar de saber que ele quase não usa redes sociais. — Falo, sorrindo demais.

— Quanta felicidade nesse coração, não é? — Minha amiga está quase rindo da minha cara. — Mas eu vou ser só um pouquinho estraga-prazer: Ele está só a um Estados Unidos de distância.

— Eu sei... — Falo, entristecida, mas logo retomo meus sentidos. — Mas eu não quero ver ele! Nunca mais...

Ela aperta minha bochecha com força.

— Me engana que eu gosto, bebê. Você tá quase em cima da tela do computador!

— Foi mal. — Me afasto, esfregando minha bochecha dolorida. — Espera... quem é essa garota?

Ela para de descer a página e ficamos analisando uma foto em que ele está abraçado a uma loira peituda. Acho que nunca senti tanta raiva na minha vida.

— Ah, deixa eu ver... Uma tal de Pâmela.

— Pâmela? — Olho para Missi, pânico nos olhos. — Não conheço nenhuma Pâmela.

— Aqui diz que é... Prima dele! — Ela sorri para mim.

— Ai que alívio, senhor! — Sorrio de volta. — Se bem que dizem que primos não são parentes... Não sei nem se devo ficar aliviada com isso!

— Tá vendo como você gosta dele, e o quanto fica preocupada se ele pode estar com outra garota? — Ela se volta para mim. Seu sorriso era doce.

— É... Meu Deus, será que isso tem cura?

— Amor não é doença pra ter cura, Sica... — Missi divaga, olhando para a enorme janela.

Levanto-me do sofá e cruzo meus braços, ainda olhando para ela. Deixo meu sorriso escapar.

— Ai ai... — Suspiro. — Você está tão emotiva!

— Que nada, Jessica! — Ela retruca. — É impressão sua.

— Esse Jack deve estar te deixando louca, pra falar frases de efeito como essa...

— Para, Jessica Chloe Andersen! — Missi começa a ficar envergonhada.

— Tá bom, Missi! Não precisa ficar com raiva! — Levanto as mãos ao alto.

— Eu não sou da polícia, Sica. Abaixa esses braços! — Ela cai na gargalhada.

— É que seu jeito deu medo, agora... — Brinco, sentando-me da poltrona em frente à ela. — Mas me tira uma dúvida... O Jack beija bem?

— Que pergunta capciosa, Sica... Mas a resposta é: muitíssimo bem!

Ficamos rindo feito bobas por um bom tempo. Missi é tão alto-astral que não conseguimos ficar tristes ao lado dela.

— E você dizendo que ele tava de olho em mim... — Falo.

— Na verdade... — Ela pigarreia. — Eu só queria ver se você estava a fim dele. Se estivesse, teria ficado muito alegre pelo que disse, mas você nem deu bola para meu comentário.

— E se, por acaso, eu estivesse a fim dele? — Brinco com ela.

— Aí eu jamais tentaria algo com ele. Eu não sou tão sacana ao ponto de furar o olho da minha amiga. — Ela responde séria. — Por quê, você gosta dele?

— Como um amigo. — Falo, o que a faz sorrir. — Não se preocupe. Ele é todo seu.

— Bem, isso é bom. — Ela fala, indo pegar um sorvete na geladeira. — Chocolate ou morango?

— Uma bola da cada... Estou com tanta saudades de sorvete!

Ela sorri e traz uma taça para mim e uma para ela. Olho para ela, que fica sorrindo para o nada. Ela está tão atordoada que dá vontade de rir da cara dela...

— Ai, Sica... Para!

— Desculpa. Pronto, parei.

Comemos nosso sorvete e ela volta para seu notebook.

— Olha! O tal do Hector postou alguma coisa!

— Dá pra parar de chamar ele de "o tal do Hector"? Anda, o que foi que ele postou?

— Bem... Ele colocou "Arrumando as malas para a viagem... Fazer isso logo antes que fique com preguiça." Bem, nada específico.

— E alguém comentou? — Pergunto desesperadamente.

— Sim... Um tal de Joel perguntou para onde ele vai.

— Ele respondeu? — Olho para Missi.

— Não. — Ela fala, parecendo estar realmente triste com isso. Ela dá refresh na página. — Ei! Ele acabou de responder! Ai meu Deus, Jessica!

— O que foi, criatura? — Falo tão ansiosa que não sei como não caio do sofá.

— Ele vem para Jersey! -Ela grita em meu ouvido.

— Jersey? Pensei que fosse para mais perto... — Falo, cabisbaixa.

— Você é louca? Jersey fica praticamente dentro de Nova Iorque! — Ela surta. — Você não podia pedir coisa melhor. Mentira, ele podia vir morar aqui nesse prédio.

Cubro meu rosto com as mãos. Como eu sou idiota!

— É perto? Deus, eu nunca fui boa em geografia mesmo... — Fico rindo feito uma boba. É o que eu sou, não é?

— Ai ai, Jessica... Quando eu digo que você é sortuda, você é!

— Sério que você me acha sortuda? Sou qualquer coisa menos isso...

— Claro que é! Pensa assim: Você teve câncer, mas se curou! Quanta gente... — Ela fica em silêncio. Missi é assim mesmo, começa um assunto até então normal mas do nada vira algo tão pesado para ela... — ...Quanta gente não tem a oportunidade de continuar viva?

— Missi... — Dou um abraço nela. Sei que esse assunto é difícil, mesmo tendo passado tanto tempo.

— Quando você me contou sua história e a dele, consegui entender perfeitamente o fato de ele querer sair, se mudar para bem longe de Seattle. Se eu pudesse, teria ido para o mais longe possível... Mas eu quis tentar ficar. Ora, meu irmão estava lá, e eu não queria o perdê-lo... Mas ainda assim não consegui. Olha aí eu do outro lado do país!

— Eu... acho que entendo, ou pelo menos estou começando a entender... — Encaro o chão. — Ele não me explicava nada direito, só queria, acho que essa é a palavra mais correta, escapar daquela dor.

— É isso mesmo. — Ela deixa uma lágria cair. — Não sinta raiva dele por ter ido embora. Ele devia estar tão transtornado... Sem pensar direito. E eu creio que ele esteja arrependido de não ter mantido nada com você, mesmo que fosse um namoro à distância.

— Você sabe o que me dizer... — Sorrio para ela. — Isso é algo que eu prezo muito em uma amizade.

Ela desliga o notebook e o coloca na mesa de centro. Missi me encara, e percebo que ela estava quase chorando. Seguro sua mão e a aperto com força. Ela funga o nariz e consegue arranjar forças para continuar.

— Eu sei que a morte da Gwen está recente, e ela era sua melhor amiga... Não que eu queira tirar o posto dela, mas eu adoraria que nós pudéssemos ter uma amizade tão bonita e verdadeira como vocês tiveram.

— Pra mim a gente já tem. Você tem sido a pessoa que mais me ajudou como a Gwen me ajudou também. Eu não tenho dúvida nenhuma em dizer que você é a minha melhor amiga. Não que eu tenha esquecido da Gwen, porque essa amizade é um espaço em mim que jamais poderá ser substituído por ninguém. Ela foi, pra mim, como um anjo da guarda.

— E eu serei sua cupida! Obrigada, Face! — Ela descontrai o ambiente pesado que a conversa havia transformado. — Ele está praticamente aqui, Sica!

— Ai meu Deus... — Fico nervosa só de pensar em vê-lo novamente. — E se eu me encontrar com ele no meio da rua? Como é que eu devo reagir?

— Eu não posso falar pra você como você deve reagir, até porque eu sei que você poderá fazer tudo ao contrário na hora, do jeito que você é nervosa...

— Deixa de me avacalhar, Melissa! Mas eu estou tão nervosa... Bobagem, ele vai morar é em outra cidade! Nem vai vir pra cá...

— Nova Iorque é um ímã, meu bem! Qualquer um vem pra cá quando está nas redondezas! — Ela brinca.

— É... Você tem razão. — Sorrio. — Será que ele vai me reconhecer, agora que eu tô com esse cabelo enrolado?

— Não sei, mas eu tenho que dizer, pelas fotos que sua mãe mostrou pra mim de como você era antes, você está muito mais bonita agora.

— Sério? — Indago, para logo depois achar estranho. — Por que raios minha mãe mostrou fotos minhas pra você?

— Não sei, mas tem uma sua tomando banho na banheirinha que é muito fofa!

— Ai, não... Ela te mostrou essa! Eu mato a mamãe, sério!

Ela fica rindo enquanto faço que vou bater nela. E é entre cócegas e gargalhadas que passamos o resto da tarde.

Notas finais
E aí? A humilde escritora aqui merece reviews?