Jessica Chloe - Vitoriosa
1 O primeiro dia nem sempre é ruim
Notas iniciais
Olho-me no espelho e respiro profundamente, me preparando para o dia de hoje. Será que vou conhecer logo novas pessoas? Será que os professores são realmente tão bons quanto minha mãe diz serem? Bem, acho que a única maneira de descobrir é indo para a escola. Sinto algo gelado em minha perna e vejo que Lola, minha cadelinha, está me cheirando.
— Oi, Lolita! – Pego minha chihuahua preferida e coloco-a no meu colo. – Quem é a cachorrinha mais linda da casa? Quem é?
Minha irmã Lilian entra em meu quarto. Eu tenho dois anos a mais que ela, que sempre tenta me seguir como exemplo. Ela era linda; tinha os cabelos da minha mãe, loiros e cacheadíssimos. Entrar na nova escola não parece ser um desafio para ela, já que sempre foi a melhor aluna da turma. Seu sorriso era grande, mas acho que ela ainda estava com sono, pois a voz dela não soou muito confiante.
— Mamãe mandou perguntar se já está pronta.
— Só falta eu pentear meus cabelos mais um pouco. – Respondo, e ela revira os olhos.
— Daqui a pouco seu cabelo vai cair, se continuar penteando! – Ela ri, aliviando um pouco mais a cara sonolenta dela. – Já está bom, seu cabelo está lindo. – Ela pega nos meus, lisos e vermelhos.
Ela me puxa pela mão, dando-me somente tempo o suficiente para pegar minha mochila. Minha mãe estava na cozinha, lavando os pratos sujos do café da manhã. Ela se vira para nos ver, nos dando um sorriso largo. Ela estava com os cabelos loiro-claros presos em um coque malfeito. Ela nos dá um abraço de urso e beija nossas testas.
— Eu estou tão orgulhosa de vocês! – Ela exclama. – Passaram no teste de seleção da melhor escola da região! Isso não é pouco, viu?
— Nós sabemos disso, mãe. – Dizemos em uníssono. – Podemos ir? – Digo para ela, um pouco estressada.
— Apressada como o pai. – Ela resmunga. – Me dava nos nervos.
Meus pais estão divorciados há três anos e ela diz que finalmente está feliz com as duas filhas, mas eu sei que não é verdade. Ela parou um pouco de cuidar da aparência. As pequenas rugas apareciam na pele daquela mulher, que só tinha 35 anos. Ela só tinha 19 anos quando entrou na igreja com um barrigão; estava grávida de mim.
Nos despedimos e, juntamente com Lilian, vou para a escola, a pé. Não fica mais que uns 500 metros de nossa casa, então não havia precisão de irmos de carro. Quando chegamos ao perímetro da escola, Lilian se despede de mim.
— Boa sorte, Sica. – Ela me abraça. – Eu queria que estudássemos no mesmo prédio.
— Daqui a alguns anos. – Beijo sua testa. – Boa sorte para você também.
Ela sorri e sai em direção ao prédio do ensino fundamental. Quem olhasse para ela jamais diria que tem somente quatorze anos. Ela é alta para a idade, e seu corpo já se formou totalmente. Já vi vários garotos babando por ela, mas ela nunca deu bola. Lilian é daquelas garotas que vivem enfurnadas nos livros da escola, completamente nerd. Até agora eu não sei como eu passei nessa prova.
Sigo alguns metros, e chego ao prédio do ensino médio. Sabe aquelas cenas típicas dos filmes? Como aquelas líderes de torcida treinando, jogadores de futebol treinando, o povo do teatro ensaiando... Grotesco, eu detesto essas ceninhas. Vou me aproximando da entrada, e algumas garotas olharam para mim de cima abaixo, com uma expressão de nojo. Ninguém merece.
Assim que entro, procuro a recepção para me informar melhor sobre minhas aulas. Chegando lá, uma senhorinha simpática pergunta meu nome logo após me entregar um pequeno mapa do colégio.
— Jessica Chloe Andersen.
Ela digita e abre um sorrisinho.
— Ah, sim! A diretora Angelina Hegels quer falar com você. Vá nesse corredor à esquerda, siga em frente e dobre à direita. Tem uma plaquinha com o nome dela na porta.
Putz... Mal cheguei nessa escola e a diretora já me chama! Calma, Sica. Não deve ser nada. Você não fez nada, não é? Sigo as instruções da secretária, e logo chego na tal sala. Respira, com calma. Não adianta ficar nervosa. Bato três vezes e abro a porta.
É, parece que não era o que eu esperava. Eu já tinha visualizado uma senhora de meia idade, cabelos grisalhos, carranca evidente. Mas o que vejo é uma linda mulher, com no mínimo uns trinta anos, Cabelos lisos e pretos, e ainda era bonita. Ela me dá um sorriso e me convida a entrar e a me sentar.
— Bom dia, Jessica. – Ela me saúda, e eu faço o mesmo. – É uma honra tê-la estudando aqui. Já sabe que você tirou a maior nota nos testes de seleção?
— Não, na verdade eu não sabia. – Sorrio mais do que eu esperava. Eu tinha estudado muito para o teste, mas nunca imaginaria que estaria em primeiro lugar de nada. – Ah, por favor, chame-me de Sica. É meu apelido.
— Sim, Sica. – Ela concorda com a cabeça, para logo depois colocar uma mecha de seu cabelo de volta no lugar. – Eu nunca tinha ouvido falar de uma Jessica com esse apelido. A maioria é Jess ou Jessie.
Dei de ombros. Todos dizem a mesma coisa.
— Bom, lhe chamei mais para parabenizá-la por sua nota. – Ela olha para seu relógio. — Nós temos um novo projeto na escola, especialmente para os novatos. Sei que é complicado se enturmar nas primeiras semanas de aula, por isso eu e os coordenadores decidimos escolher um tutor para cada novato. Esse será responsável a mostrar o prédio, além de lhe apresentar aos alunos. O que acha?
— Claro, parece ser interessante. – Sorrio. Pelo menos não terei que me preocupar em andar sozinha pela escola.
Ela pega o telefone e fala com Marie, a secretária.
— Olá, Marie. – A alegria na voz da diretora era contagiante. – Dê uma olhada na lista de tutores para mim, por favor. – Ela olhou para mim ainda segurando o telefone no rosto, provavelmente esperando um retorno de Marie. – Sim? Ah, é mesmo... Bem, não temos escolha. Pode chamar Hector. – Ela fala, mas a alegria de antes sumiu um pouco. – Ah, e faça uma inspeção nos banheiros. Não admito mais pichações. Obrigada.
Ficamos falando sobre minhas matérias favoritas. Depois de alguns minutos o tal Hector chega.
Ah. Meu. Deus. Você sabe o que eu quero dizer com Deus-grego? Imagine isso tudo incorporado em um adolescente de no máximo dezessete anos. Ele passa a mão em seu cabelo castanho-claro, e levanta o olhar para que possa ver o quão azul é sua íris. Ele olha para mim e, é claro, eu fico vermelha como uma pimenta. Por que eu tenho que ser tão tímida, Deus?
— O que foi? Eu não fiz nada! – Ele vai logo se explicando.
— Bom dia para você também, Hector. – Ela fala sem expressar emoção. – Não sei se você se lembra, mas ano passado você se inscreveu no projeto de tutores, por algum motivo que não me ocorre.
— Me prometeram melhores notas em participação de atividades escolares. — ele é sincero.
— Tenho uma missão para você. — ela o ignora. — Quero que leve Jessica para conhecer a escola. Nada como começar o ano letivo fazendo uma boa ação, não?
Ele resmunga e olha para mim de novo.
— E aí, novata? – Ele solta um risinho e estende a mão para mim – Andrew Hector. Ou somente Hector. Ou Drew. Ou gostosão, é claro.
Olho para a diretora, que revira os olhos. Não precisa ser um gênio para ver que há uma longa jornada entre os dois.
— Jessica Chloe. Ou Sica. – Olho para ele meio sem jeito e aperto sua mão.
Porque eu sempre me sinto atraída por egocêntricos metidos?
— Vamos, Sica. – Ele me puxa de leve e levanto-me. – Temos pouco tempo para conhecer tudo e, se ficarmos por mais tempo aqui, é capaz de irmos parar na detenção.
Antes de podermos partir, contudo, Angelina parece implorar.
— Hector, não faça nada de punível. Pelo menos por hoje. – Ela quase implora. – Dê uma boa impressão para Jessica.
— Vou tentar. – Ele solta um sorriso de lado que só não me faz desmaiar porque estou petrificada olhando para ele.
Ele me puxa novamente, e sou arrastada para fora da sala.
— E aí, Sica? – Ele olha para mim. – Como veio parar nessa escola?
— É uma história curta e estúpida. – Desvio o olhar do dele. Lembrar do fato me faz morrer de vergonha por dentro.
— Entendi... Foi reprovada, não foi? – Ele tentou adivinhar. – Se bem que você não tem cara de repetente. Para ser recebida pela diretora, deve ter se saído bem na prova.
— E me saí. – Digo sem dar mais detalhes. – Na verdade eles me pegaram tentando mudar o resultado de uma prova da minha amiga. Já que eu era a única que ela conhecia que sabia hackear o computador da escola.
Ele olha, espantado. Oh, espero que ele não esteja achando que sou tão bagunceira quanto ele aparentou ser, pela cara da diretora.
— Nunca diria que você seria capaz de fazer isso, lindinha. – Quase morro com o que ele fala. – Pensei que você fosse só mais uma a se somar ao bando de idiotas dessa escola. Me impressionou.
O que ele quis dizer com "bando de idiotas"? Por acaso ninguém nessa escola presta, ou ninguém presta aos olhos dele?
— Ninguém esperaria isso mesmo, mas graças as minhas notas boas eu consegui uma vaga aqui. E sem que eles desconfiassem de nada! – Eu rio e ele também.
Ele me mostrou o prédio todo; as salas, corredores, quadras, áreas verdes... Era realmente enorme. Gostaria de ter mais tempo para explorar cada canto daqui, porém logo o sinal toca, indicando aos alunos a hora de entrar nas salas de cada um. Olho para Hector.
— Qual é sua primeira aula? – Ele pergunta com um sorrisinho no rosto. O que será que ele está pensando?
— Se eu não me engano... – Puxo um papelzinho do meu bolso, onde eu havia anotado todos os meus horários. – Química, graças a Deus.
— Bom, te vejo no intervalo então, Sica. – Ele me lança um olhar tão... Indescritível. – Sério que gosta de química?
Rio e assinto. Ele corre para sua sala e vou em direção a minha. Ele parece bem metido, mas se mostrou bem legal. Chego na sala e algumas pessoas já estão sentadas em duplas, pois cada dupla tem seu material. Sento em uma bancada que está vazia. O professor chega em poucos minutos.
Se eu não soubesse que estava no século XXI, eu juraria que era Albert Einstein entrando na sala. Cabelos brancos arrepiados para cima, bigode, um paletó estranho... Pacote completo. Ele nos dá bom dia e se senta em sua cadeira.
— Hoje nós começaremos com algo não tão convencional. – Ele sorri, e vejo seus dentes amarelos. – Vamos misturar algumas soluções e ver o que acontece! Rá!
Meu Deus, um professor maluco! Eu adoro química, mas detesto professores com problemas cerebrais. Eu até tento prestar atenção, mas não sei por que está tão difícil me concentrar.
Ah, quem eu estou tentando enganar. O porquê tem olhos claros e um sorriso charmoso. Oh oh, Sica. Tão cedo e já está fascinada pelo primeiro aluno que conheci... Devia deixar isso pra lá. Hector deve ser daqueles que vivem rodeados de garotas que babam e suspiram somente se falarem somente um “oi” para elas. Eu não sou assim.
As aulas continuam tediosas, e quero que tudo termine logo. É realmente muito chato um lugar onde você não conhece ninguém. Hora do intervalo. Pego minha bandeja e vou passando pelas comidas nojentas.
— As suas aulas foram boas, Sica? – Escuto uma voz ao meu lado. Hector. – Devia ter te alertado sobre o professor maluco.
Rio com o comentário dele, colocando mais um pouco de comida em minha bandeja.
— Algumas sim, apesar de eu não ter prestado muita atenção. – Rio. –Acho que elas vão ficar melhores quando eu tiver com quem conversar quando estiver entediada.
— Acho que sim. – Ele continua andando. – Quer se sentar na minha mesa? Quero que conheça alguém.
— Tudo bem. – Sorrio como uma boba. Que idiota eu sou.
Terminamos de colocar a comida nas bandejas e sigo-o. Isso é muito esquisito; eu, uma novata esquisita, seguindo um cara que é provavelmente extremamente popular. É como se eu pudesse sentir os olhares em cima de nós. Chegando na mesa, vejo uma loira de olhos escuros sorrir para Hector e olhar torto para mim. Ela se levanta.
— Oi, fofinho! – Ela agarra o pescoço dele. – Quem é sua amiga?
Ah, mais é claro. Eu só podia estar delirando quando achava que podia ter alguma coisa com ele. Ele tem uma namorada, que além de loira é linda, bronzeada e líder de torcida, a julgar por seu uniforme. Sabe aquele típico caso de garota popular. E é claro que ela só podia ser namorada dele.
— Tiff, essa é a Jessica. – Ele me apresenta, dando um selinho nela. Argh! – Sica, essa é a Tiffany, minha namorada.
— Prazer em conhecê-la, Tiffany. – Eu falo, forçando meu melhor sorriso. Não estava de boa vontade só porque ela era namorada dele, mas sim por sua aura de nojenta. – Posso sentar aqui, não posso?
— Ah, mais é claro, docinho. – Ela fala num tom enjoativo. – Amiga do meu fofinho é minha amiga também.
Eu ia me sentar ao lado dele, mas ela se arrasta até ficar ao lado dele no banco. Tudo bem, né. Eu sento no banco em frente aos dois. Noto que Hector acena para alguns amigos, talvez convidando-os para sentar conosco, porém eles o ignoram. O que será que está acontecendo?
— Eles ainda estão sem falar com você? — Ela murmura, mas alto o suficiente para que eu escute.
— O que você acha? — Hector responde, parecendo irritado. — Se não fosse você ofendendo Beatrix, eles ainda falariam comigo. Matthew não gosta que mexam com a irmã dele, e os garotos são amigos da menina.
— Besteira. Só fiz uma brincadeira com Beatrix, o irmão dela não devia ligar pra bobagens de garotas. Além do mais, você não teve nada com isso. — Ela volta a olhar pra mim. — Não acha, Jessica?
— Dependendo da brincadeira...
— Jogar ovos podres na garota dentro do estacionamento do shopping. — Ele sussurrou. Meu Deus, essa Tiffany realmente fez isso?
— Ela estava fazendo um escândalo no Facebook que incluía meu nome, eu precisava me vingar. — E admita que foi engraçado.
Hector suspirou profundamente, encarando a bandeja ainda cheia de comida. Um silêncio sepulcral se instalou, até que ele o quebrasse.
— E aí, Jessica. – Ela olha para mim, sorridente. – Deixou muitos amigos na escola antiga?
— Alguns bons amigos. Não sou uma pessoa muito social.
— E namorado?
Putz, bem na lata. Por que ele queria saber? Ele parece estar bem interessado na minha resposta, juntamente com Tiffany, que dividia seu olhar raivoso entre eu e ele, bem depois de quase engasgar com sua bebida.
— Oh, não. Garotos dão trabalho demais. – Rio. – Eu prefiro passar meu tempo livre lendo ou com meus amigos.
Percebo que Hector olha para mim com uma sobrancelha arqueada.
— Claro que não, Jessica! Garotos são fofos. – Ela olha para Hector, dando-lhe um selinho. – Especialmente o meu. Ele é incrível.
— É, percebi. – Digo a ela, minha boca mais rápida que meu cérebro.
— O que você quis dizer com isso? – Ela pergunta para mim com aquela voz arrogante de novo. Gelo.
Ele parece estar se divertindo com a conversa.
— Quis dizer que quando eu o conheci, ele me pareceu uma boa pessoa. – Olho para Hector. Sobrancelha arqueada novamente. Haha, isso é muito engraçado.
Ela se contenta com a resposta e para de falar, Deus atende minhas preces. Eu continuo meu almoço silenciosamente quando Hector fala.
— Então quer dizer que você não tem namorado. – Ele afirma, encarando o nada. – Inacreditável.
— Como assim, inacreditável? – Pergunto, franzindo o cenho por fora, mas meu coração dando pulinhos. Que idiota, ele.
Se olhares matassem, com certeza eu e Hector já estaríamos mortos por causa de Tiffany.
— Ele quis dizer que uma garota simpática como você, jamais poderia estar sozinha. Não foi, fofucho?
— É... Foi sim. – Ele bebe sua coca.
É claro que ele ia dizer que eu era linda demais para estar sozinha. Até parece; eu mais pareço um pato desengonçado. Mas tudo bem, eu já me conformei com isso. Espera aí, tonta... Ele ia dizer isso. Meu Deus... Não. Ele não falou nada. E ainda por cima concordou com ela, certo? Então esquece isso, Sica.
Continuamos nosso almoço até que o intervalo acaba.
— Qual é sua aula, amor? – Ela pergunta para ele.
— História. Sala 307.
— Sério? Eu tenho aula lá agora também. – Falo.
— Bem, tenho aula de Inglês. Tchau, lindo. – Ela o beija, dessa vez de verdade. Que nojento. – Até mais, Jessie! – Como eu odeio que me chamem de Jessie!
Eu e Hector fomos pegar nossos livros no armário e seguimos juntos para a sala. Ele estava calado, e seu cabelo caía sobre os olhos. Ah, não podia ser mais fofo. Ele olha para mim e percebe que eu estava olhando ele esse tempo todo. E, é claro, fico mais vermelha que meu cabelo. Porque ele faz isso comigo?
— Tiffany é incrível, não é?
— Ah... É sim, eu acho. – Falo, soando confusa demais. – Mas vou avisando que não faz meu estilo ser amiga de uma patricinha. Sinto muito. – Falo sem pensar. Que mania a minha! – Desculpa. Eu aqui falando mal dela para o próprio namorado.
Surpreendentemente ele ri. Só não sei se ele achou engraçado ou só está com pena de mim.
— Você não falou nenhuma mentira. Eu também acho que não faz seu tipo. – Ele suspira. – E nem o meu.
Eu franzo o cenho. Como assim? Por favor, não me diga que ele vai usar meu ombro para chorar por causa dela. Não admito ser travesseiro de ninguém.
— A Tiff é legal, bonita e sexy. – Ele começa. – Mas, sei lá, acho que só estou com ela por causa do “Ah, os dois são populares, então obrigatoriamente eles devem ser um casal perfeito”. – Ele desabafa. – No começo, eu achava que eu gostava mesmo dela. Hoje em dia parece mais uma... Obrigação, sabe?
Tento medir minhas palavras antes de falar.
— Mas você me pareceu feliz com ela. – Menti. Estava na cara que eles não iam bem. A raiva que ele sentia da maioria do colégio, os amigos dele o evitando, e agora essa conversa só provavam o quanto a relação deles parecia ser tóxica, principalmente para ele. Mas, de qualquer maneira, achei melhor não esfregar isso na cara dele.
— Fala sério. – Ele diz, percebendo que eu estava mentindo. – Às vezes eu acho que ela não gosta de mim. Que ela está comigo porque eu aumento sua popularidade aqui. Tudo isso me parece forçado demais. Sei que é bobagem, essa coisa de ser popular ou não... Às vezes me sinto um velho pensando assim.
Não posso deixar de rir.
— Se você quer meu conselho, você devia fazer o que é melhor para si mesmo. Terminar com ela, ficar sozinho por um tempo, sair com seus amigos, sabe? – Suspiro, e ele me encara fascinado. Bochechas vermelhas ativadas novamente. – Mas acho que nós não temos muita intimidade para falar sobre isso, não? – Solto, tentando acabar com o assunto pesado.
Ele olha para mim, concordando em silêncio. Chegamos em frente a sala.
— Ah, e antes que eu esqueça, naquela hora que eu disse que era inacreditável, eu não estava falando sobre sua simpatia. – Ele ri de lado e entra na sala. Ai, Deus... Porque ele tem que ser assim?
Entro na sala e ele já está com sua turma ao redor dele. Sento-me em uma cadeira vazia quando uma garota de cabelos azuis e curto se senta ao meu lado.
— Oi! – Ela sorri, simpática. – Meu nome é Gwen. É novata, não é?
— Sou sim. Meu nome é Jessica. – Sorrio, um pouco intimidada com a energia dela. — Belo cabelo.
— Obrigada. Eu os pinto desde o ano passado. Acho que enfim encontrei meu estilo! – Ela ri, e não posso deixar de rir também. Acho que ela percebeu que eu estava achando nossa conversa super estranha. – Eu adoro me enturmar com novatos. Os veteranos daqui são insuportáveis.
— Cheguei quase agora e já sei que é verdade. – Concordo. Já é a segunda pessoa que diz isso. – Mas mudando de assunto: O cabelo do professor de química é de verdade ou é peruca? Porque eu achei bem falso.
— Segredo. – Ela fala, se aproximando do meu ouvido. – Ele é carequíssimo, e já fez vários tratamentos para aumentar o cabelo... Tudo em vão. Aquilo lá é tudo implante! O sonho dele é ser parecido com o cientista maluco que eu esqueci o nome.
Rio muito, e ela sorri. Ela me parece ser legal. Espero que eu não esteja enganada. Ela olha para trás, para Hector. Ela olha para mim e sorri.
— Eu vi vocês dois andando juntos pelo colégio. O que é que tá pegando? – Ela me olha sapeca.
— Entre eu e o Hector? Nada! Ele está sendo meu tutor nas primeiras semanas. – Digo, tentando transparecer o porquê de eu estar andando com ele para cima e para baixo. – Sem falar que ele tem namorada.
O sorriso dela é substituído por uma cara sarcástica.
— E daí? Isso nunca o impediu de pegar outras. Todos sabem que os dois não estão muito bem. Quase todas as garotas estão se jogando em cima dele, mas a maioria tem medo da Tiffany. E pelo visto ele gostou de você, garota.
— Não, não... Ele nunca tentou nada comigo. E eu não sou de ficar com um garoto assim que o conheço. – Mas nada me impede de achar um garoto gostoso logo de cara.
— Ele pode não ter tentado nada, mas quer... Olha como ele fica te secando! – Eu já vou virando a cabeça para olhar para ele. – Disfarça melhor, Jessica!
Eu finjo que converso com ela, e depois viro minha cabeça, bem rápido. E realmente ele estava olhando para mim, um pequeno sorriso se formando eu seu rosto ao perceber que eu estava olhando para ele. Viro-me para Gwen bem rápido e ela sorri.
— Eu não disse? Ele está, com certeza, de olho em você, Jessica.
— Me chama de Sica. – Falo ainda vermelha pelo fato de saber que ele está de olho em mim. Mas podia ter sido uma coincidência, não? Ele não me pareceu como a Gwen falou. Se ele era mesmo galinha, porque não tentou nada? Se bem que, se ele não tentou nada, talvez ele não seja tão ruim quanto eu pensei.
— Tudo bem, Sica. Ah, olha, essa é nossa professora de História.
Uma loira de olhos castanhos entra na sala, com uma minissaia e blusinha de decote. Meu Deus... Porque essas mulheres adoram se vestir em trajes minúsculos? Ela é professora, não tem que ficar exibindo as pernas. Tudo bem, quem sou eu para falar alguma coisa.
— Bom dia, classe! – Ela sorri, mas depois fica bem séria. – Hoje nós vamos revisar tudo o que vimos ano passado. Vai ser bem rápido, e prometo que não será cansativo!
Ela se vira para a lousa e começa a escrever. Eu transcrevo tudo no meu caderno, e ela começa a explicar realmente tudo. A aula, a única que foi interessante até agora, terminou bem rápido, e todas as outras também. Logo eram cinco da tarde. Tinha que buscar Lilian para irmos para casa. Despeço-me de Gwen e procuro por Hector, mas não o acho. Porque eu queria vê-lo? Não fazia sentido, então desisti da ideia.
Fui para o prédio do Ensino Fundamental e ela já estava me esperando.
— Oi mana! Como foi seu dia? – Ela me abraça. – Não surta, mas tem um cara muito gato atrás de você. – Ela sussurra no meu ouvido.
Viro para trás e vejo Hector se aproximar.
— Está me seguindo? – Rio.
— Na verdade, minha casa fica nessa direção. Se meu carro não estivesse quebrado, poderia até dar uma carona para vocês. – Ele sorri de volta, e olha para Lilian. – Oi, meu nome é Hector. – Ele fala, e estenda a mão para ela.
— Sou Lilian, a irmã da Sica. – Ela sorri encabulada. Se existe alguém que fica mais vermelha que eu em situações constrangedoras, essa pessoa com certeza é a Lil.
— Você não me disse que tinha irmã, Sica. – Ele olha para mim.
— Você não perguntou.
Ele pergunta se pode nos acompanhar até em casa.
— Só porque a diretora te mandou me apresentar a escola, não significa que virou meu guarda-costas. – Tento brincar um pouco, mas pela cara que ele fez, acho que o ofendi um pouco.
— Eu só estou tentando ser gentil, Jessica. – Ele me olha com raiva. Droga! – Minha casa fica a poucas ruas da sua, pelo visto. Eu posso te acompanhar?
— Você já está me acompanhando, Hector. – Eu forço um sorriso. – E eu não me importo se você me acompanha ou não. O problema é que...
— O quê? Eu gostei de você, Sica. – Meu Deus. – Você me parece ser uma garota legal e divertida. – Meu Deus! – O que custa a gente se aproximar? Eu quero ser seu amigo.
Lílian me dá um cutucão. Era óbvio que ela estava percebendo que eu estava gostando dele. Ela é bem intuitiva nessas coisas.
— Desculpe-me, Hector. Eu não queria ser chata. – Ignoro os cutucões de Lilian e olho para ele. – Mas é que eu sinto que sua namorada não gostou de mim e, sem querer ofender, não quero estragar algo que já não está tão bem.
Acho que o peguei desprevenido, pois demorou mais alguns minutos para que ele me respondesse.
— E daí? Ela não pode regular com quem eu quero ter amizades. – Ele olha para mim com aqueles esplêndidos olhos azuis. – Ela não manda em mim.
Ele sorri, e eu sorrio de volta.
— Olha eu não vou ficar de vela, não! – Lilian resmunga, me deixando completamente envergonhada.
— Que é isso, Lil? Que ideia mais absurda essa sua! – Olho para ela com os olhos arregalados. Cala boca, Lilian!
Enquanto eu morria de vergonha, não pude deixar de notar a risada escandalosa dele. Acho que acabei rindo junto, ou por ser contagiante, ou por nervosismo mesmo.
— Deixa sua irmã, Sica. – Ele olha para mim. – Essa é sua casa?
— É sim, obrigado. – Eu sorrio, e inconscientemente o abraço. O quê? Ele retribui o abraço e me aperta mais forte. Meu Deus, ele é forte demais, vai me partir em duas! Mas isso é tão bom...
— Até amanhã, Sica. – Ele me solta, e percebo que ele está vermelho. Ai que fofo! – Até mais, Lilian. Ah, antes que eu me esqueça: qual é seu telefone? Para eu colocar na minha agenda.
— 555-9348. – Respondo, sorrindo.
Ele se despede novamente e continua em seu caminho. Entro em casa mal consigo fechar a porta antes de Lilian gritar.
— AI MEU DEUS, MÃÃÃEEEE! A SICA TÁ GOSTANDO DE UM GAROTO DA ESCOLA!
Minha mãe chega correndo, com um sorriso de orelha a orelha. Como elas são bobas! Isso tudo é porque eu não costumo namorar. Só porque eu acho que garotos é uma perda de tempo.
— Quem é ele, Sica? Conta para sua mãe!
— O nome dele é Hector. – Lilian responde por mim. – Ai, mãe, ele é tão gato! Tem uns olhos azuis de dar inveja!
Elas continuam falando sobre ele enquanto eu vou para meu quarto, tomar um banho. Eu estava totalmente esgotada, tanto fisicamente quanto mentalmente. Eu estava tão confusa... Afinal, ele gostava ou não de mim? Ele estava olhando para mim, na aula de história. Ele ficou envergonhado quando eu o abracei. Mas ele também me disse que queria ser meu amigo. Isso não tem nada a ver com namoro, não é? Eu detesto me sentir confusa.
Saio do banho e me visto, e seco meus cabelos. Estou tão concentrada que mal vejo minha mãe entrando no quarto.
— Oi, querida. Posso conversar com você?
— Claro que sim, mãe. – Faço menção para ela se sentar na cama. – O que foi?
— Você já está bem grandinha, Sica. – Ela conversa, e já sei onde essa conversa vai nos levar. Mães... – A Lil me contou sobre esse tal de Hector. Ela me contou como ele olha para você, minha querida.
— Ela estava exagerando, mãe. – Falo. – Ele não olhava para mim daquele jeito. Ele tem até namorada!
— Isso não impede um homem de olhar para outra mulher que ele acha atraente. – Ela olha para mim e tira uma mecha de cabelo do meu rosto. – Quando você vai entender que é bonita?
— Quando eu for. – Digo, desviando o olhar para o chão.
— Olha para mim, Jessica Chloe. – Ela levanta minha cabeça, ao encontro de seus olhos. – Só você não percebe o bando de garotos que ficam olhando para você. Você é bonita sim, de rosto e de corpo. E é por isso que eu estou preocupada.
— Preocupada por quê?
— Você já tem dezesseis anos. E nessa idade... Os hormônios estão à flor da pele mais do que nunca e... – Ela fica nervosa.
— Eu acho que estou entendendo... – Fico encabulada. — Não se preocupe mãezinha. Quando chegar o momento que eu achar que estou pronta para, você sabe o quê, a senhora será a primeira que vai saber.
— Ai, filha, isso é tão bom de ouvir! – Ela me abraça. – Você sempre pode contar comigo, meu amor.
Ela sai do quarto me dizendo que o jantar está quase pronto. Ela sempre se preocupando comigo, bem diferente do meu pai. Ele nunca ligou para nós... Mas não quero pensar nele. Eu desço e o jantar já está na mesa.
— Deve estar delicioso! – Eu exclamo. Minha mãe é uma ótima cozinheira. – Eu adoro sua comida, mãe.
— Obrigada, querida! – Ela sorri e nos sentamo-nos à mesa. – Bem, Lil me falou desse Hector, mas você não me deu detalhes, Sica.
— Bem, quando eu cheguei no prédio, a secretária me disse que a diretora Angelina estava me esperando. Quando entrei na sala dela, ela me deu os parabéns pela nota na prova. Sabia que eu tirei a nota mais alta?
— Ai, meu amor, que incrível! – Ela sorri, mas fica bem séria depois. – Sem hackear nada?
— Eu já aprendi minha lição, mãe. Sem hackear. – Eu sorrio. – Então, ainda faltavam alguns minutos para as aulas começarem, então ela chamou o Hector para me apresentar melhor essa escola.
— Mãe, ele é lindo de morrer! – Lilian exclama. – Você precisa ver. Um deus-grego.
— Ele é lindo assim? – Ela pergunta para mim, com um sorrisinho.
— Bem... É. – Eu fico encabulada.
Elas começam a comer, olhando para mim. O que elas estariam pensando... Eu começo a jantar também. Logo terminamos e ela nos mandou fazer as tarefas de casa. Subo ao meu quarto e percebo que meu celular está vibrando. Uma mensagem de um número desconhecido.
Oi lindinha,
Só queria te dar boa noite. Aproveite e salve esse número no seu celular. Até amanhã, Sica. Não vejo a hora de nos encontrarmos de novo. Ainda tenho que lhe apresentar alguns professores e, além disso, acho que você é a melhor novata na escola para conversar.
Hector.
Como ele é fofo... Porque ele está fazendo isso comigo? Assim eu vou me apaixonar... Pela pessoa errada. Ele não pode fazer isso comigo, não é certo.
Oi Hector,
Seu número já está salvo. Também estou ansiosa para amanhã, espero que seja ainda melhor que hoje.
Sica.
Faço minhas lições, que estão poucas hoje, para tentar tirá-lo da cabeça por algum momento. Logo eu visto meu pijama, pensando em como será amanhã. Ouço sons baixinhos vindos do quarto da minha irmã, que é ao lado do meu. Saio do meu e bato na porta dela.
— Tudo bem aí, Lil?
— Tudo bem, Sica. – Ela fala e os sons param. – Boa noite.
— Boa noite. — Falo e volto para meu quarto.
Deito-me na cama e durmo. Pelo menos o quanto eu conseguiria, estando tão nervosa.
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