Jessica Chloe - Vitoriosa

20 De volta à minha segunda casa


Acordo as cinco da manhã, assim como planejei. Só não sei quem é realmente que está acordando. Sim, porque eu tenho certeza de que existem duas de mim: uma Sica chorona e romântica, que se lamenta pela perda de seu amado e que provavelmente viverá com no mínimo sete gatos, já que jamais amará alguém de novo; e a Sica que quer ser feliz com o Steven, que está gostando dele e que quer passar vários momentos incríveis com ele. Isso pode ser considerado bipolaridade? Bem, isso não importa. Pego um casaco de lã e desço até a cozinha, para beber um copo d'água. Quando o vejo, ele está saindo do quarto de hóspedes, que fica no térreo.

Minha nossa... Ele mais parece um anjo que caiu no céu. Um anjo bem gostoso, diga-se de passagem. Ele olha para mim e sorri docemente, quase que sem pensar. Isso me deixa tão... nas nuvens. Sério, se eu tivesse perdido um pouco mais do meu autocontrole, cairia de joelhos aos pés dele. E não, eu não estou exagerando. Quando me aproximo dele, ele me agarra pelo quadril e beija minha bochecha, logo depois a ponta do meu nariz. Sorrio para ele e beijo de leve seus lábios. Quando eu estou perto dele, é como se ele me entorpecesse e eu me esqueço de todas as minhas inseguranças, meus medos... Eu gosto disso, dessa sensação de segurança. Ele está sem camisa, e não posso deixar de notar o quanto seus músculos são definidos. Só de pensar que a quimioterapia vai fazer isso tudo ir por água abaixo dá uma pena tão grande... Tá, Nova Jessica mode on.

— Bom dia. — Falo para ele, sorrindo. — Como foi sua noite?

— Boa, apesar da minha vontade enorme de entrar no seu quarto e dormir abraçado à você. — Ele fala, acariciando minha bochecha esquerda. — Ou talvez nem dormir.

— Eu não te conheci tão safado assim. — Brinco. — Eu não sabia desse seu lado... malicioso.

— Ah, você não viu nada. — Ele me segura pelo quadril e me ergue no chão, me deixando a cinco centímetros do chão. Ele me aperta, e fico com medo de que ele me parta em duas. Depois que volto ao chão, ele faz uma trilha de beijos da minha boca até a minha orelha. Ele mordisca o lóbulo dela e depois para, me deixando querendo mais.

— Porque você faz isso? — Sussurro para ele, que fica sem jeito. — Você sabe que...

— Eu não sei de nada não! — Ele se defende de minhas palavras, e é aí que me lembro que ele nunca tentou nada comigo. Só Hector. — Você não gosta?

— Não é isso, é que... — Olho para meus pés, encabulada. — Eu ainda estou muito confusa.

— Desculpa. — Ele fala sério. — Eu prometo que não farei mais isso.

— Steven, tente entender... — Vejo-o ir para a sala. Ele me parece tão triste que me parte o coração. Então a Sica corajosa fala mais alto — Deixe de ser bobo e vem aqui!

Ele se vira para mim um pouco confuso. Antes que ele possa fazer qualquer coisa, aproximo-me dele e o beijo apaixonadamente. Ele fica um pouco perplexo, mas logo me segura pelo pescoço e retribui o meu beijo. Ele me leva até a sala e deitamos no sofá, onde ficamos mais colados que qualquer coisa que exista. Quando o ar falta em nossos pulmões, nos separamos.

— Caramba, Sica... — Ele fala, esbaforido. — Você me surpreende cada vez mais.

— Eu também me surpreendi. Eu... não estou entendendo nada que se passa aqui. — Confesso para ele, apontando para meu coração e me deitando em seu ombro. Mas aí vem uma dúvida bem fútil na minha mente. — Mas porque você não está usando blusa nenhuma?

— Está quente. — Ele fala, como se isso fosse convincente.

— É outono, sabe? Está frio. — Brinco.

— E daí? Isso não impediu de você vestir essa baby doll.

Olho para a roupa que eu estou e vejo que estou usando a baby doll mais curta que tenho. Não é tão curta, a ainda estou com um casaco por cima, mas ainda assim fico um pouco constrangida. Ora, ela é muito confortável! Ele fica sorrindo para mim e sorrio de volta para ele.

Touché. — Falo para ele enquanto eu vou para a cozinha. — Quer comer alguma coisa?

— O que você acha? — Ele fala malicioso. Olho para ele com uma cara tão surpresa e ao mesmo tempo assustada que ele fica sem jeito. — Qualquer coisa.

Abro a geladeira e vejo que mamãe havia deixado um enorme pode com salada de frutas para mim. Também vejo que ainda temos um pouco de pão e geleia.

— Que tal salada de frutas? — Pergunto para ele. – Ou torradas com geleia de uva?

— Pode ser torradas pra mim. — Ele fala, sorrindo.

Pego o pão e coloco na torradeira e quando estas estão prontas, Steven as pega e leva para a mesa junto com a geleia. Pego a salada de frutas para mim; maçãs, bananas, morangos, abacaxi e manga, tudo em cubinhos. Pego o leite condensado na geladeira e coloco um pouco por cima. Tá, sei que isso não é saudável e nem devia estar comendo isso, mas convenhamos: vai ficar muito mais delicioso. Pego dois copos e levo um suco de uva para a mesa. Ele, que estava me esperando terminar de por minha comida em meu prato, começa a comer junto comigo. Fazemos nossa refeição em silencio, mas de vez em quando olhava para ele, que sorria para mim. Quando acabamos, colocamos os pratos na pia.

— Eu vou trocar de roupa. — Ele fala.

— Você não quer uma roupa do meu pai?

— Não, eu uso a minha mesmo. Acho que já abusei demais. — Ele sai e vai para o quarto de hóspedes. Aproveito e vou para o meu quarto e troco de roupa, colocando um short jeans e uma blusa qualquer. Quando desço, ele já estava lá, recebendo meus pais e Lilian. Gelo ao ver a cena.

— Steven? O que faz aqui? — Mamãe e papai perguntam ao mesmo tempo.

Vendo a cara de pânico dele, logo me antecipo a responder.

— Eu pedi para ele dormir aqui, para não ficar só em casa. — Falo, e eles arregalam os olhos. — Ele dormiu no quarto de hóspedes, ora! Como vocês são!

Eles suspiram arrepiados. Olho para Lilian, que ainda parece chocada. Eu sei que ela tem uma quedinha por ele, mas o que eu posso fazer? Ela sobe irritada para seu quarto, desejando um "bom dia" frio para Steven e eu, e fico um pouco culpada. Deus... Tudo isso podia ser mais fácil, não?

— Bem, vocês já tomaram café da manhã? — Mamãe pergunta.

— Sim. — Respondemos em uníssono. Ela sorri para a gente e vai até a cozinha. Papai ainda olha torto para nós, mas vai para seu quarto.

— Valeu. — Ele fala para mim, sorrindo. Ele diz para mim que já vai para casa. Despeço-me dele e ele vai para casa. Mamãe volta para a sala e fica olhando para mim, com raiva.

— Você devia ter me falado que ele ia dormir aqui. — Ela fala, extremamente séria. – Não gosto da ideia de um garoto estranho aqui em casa com você. Mesmo que ele seja seu amigo.

— Desculpa. Eu me esqueci completamente de lhe avisar. — Falo, muito arrependida. — E Steven não é estranho. Ele está sendo muito gentil comigo, e...

Ela finalmente dá um sorriso.

— Pelo visto o encontro de vocês foi muito bom.

— Foi sim. – Suspiro. – Ele sabe que eu ainda estou triste com tudo o que aconteceu, mas ele está me ajudando a superar. Eu queria ter conhecido ele primeiro, antes de tudo acontecer.

Não sei ainda o que sinto por ele, mas sei que se eu tiver o mesmo tempo com ele que tive com Hector, eu o amaria. Talvez eu leve ainda menos tempo. Eu só quero esquecer Hector... Esquecer tudo. Começar de novo.

— Mas, voltando ao assunto. – Clareio meus pensamentos. – Desculpa mesmo por não ter avisado.

Ela vê que estou arrependida de verdade, e então me dá um abraço.

— Tudo bem. O importante é que você está segura. — Ela suspira, um pouco estranha. — Aconteceu alguma coisa? Alguma coisa do tipo...

Ai, já sei o que ela quer dizer.

— Não, mãe. — Trato logo de responder. — Eu já lhe disse que, quando eu achar que estiver pronta, será a primeira a saber. Não confia em mim?

— Claro, filha... Mas mesmo assim a gente tem que perguntar...

Assinto e sorrio para ela. É claro que eu a entendo, então não reclamo. Eu gosto que ela se preocupe comigo, afinal ela é minha mãe. Ela beija minha bochecha e vai até seu quarto. Fico sentada por um tempo e depois decido conversar com Lilian. Bato em sua porta e ela me recebe, bem triste.

— Lilian... Posso conversar com você?

Ela não me responde, então entro assim mesmo. Sento-me em sua cama e ela, relutante, senta ao meu lado. Fico olhando para ela, que não tenta nem olhar nos meus olhos. Eu fecho meus olhos e escuto-a chorar baixinho. Quando abro-os, ela me abraça tão forte que me esmaga, chorando cada vez mais alto.

— Você pode me falar, Lilian... Diga-me, por favor. Eu sei que posso lhe ajudar. – Acaricio as costas dela.

— O que há de errado comigo? Por que eu estou sentindo essas coisas esquisitas na minha barriga? Por que eu fiquei com tanta raiva de vocês? Eu...

Ela me libera do abraço. Olho para ela, franzindo o cenho. Ela percebe que eu não entendi nada e tenta me explicar.

— Eu... — Ela repete, ficando mais envergonhada. — Toda vez que eu vejo Steven, eu... me sinto tão estranha. É que eu sou muito tímida, mal falo com ele mas, sei lá... — Ela olha, finalmente para mim. — Isso é tão constrangedor, conversar isso com você...

— Por quê, mana? — Olho para ela. — Eu sou sua irmã. Você não deve sentir vergonha de nada.

— É que eu... acho que estou...

Acho que ela não tem coragem de completar a própria frase, então eu mesma faço isso.

— Apaixonada? Apaixonada pelo Steven?

Ela fica em silêncio. Dou um pequeno sorriso para ela, que volta a chorar baixinho. Eu a envolvo em meus braços e tento consolá-la.

— Se eu soubesse... Eu pensava que era só um encantamento, sabe? Do mesmo jeito que você se encantou com o Hector.

— É diferente, Jessica... O que eu estou sentindo por Steven é diferente. E agora ele está namorando a minha irmã. Até dormiram juntos!

— Nós não dormimos juntos, Lilian! — Exclamo para ela, indignada. — Lilian, você é a pessoa mais importante nesse mundo para mim. Eu faço tudo por você, até mesmo parar de sair com ele.

— Eu não quero atrapalhar a sua vida. Se você quer sair com ele, saia. Eu prometo que não vou ficar desse jeito. Além do mais, ele gosta é de você. Não adianta eu falar para você parar de sair com ele, por que ele vai continuar gostando de você. — Ela olha para o chão. — Seja feliz com quem você queira ficar.

É nessa hora que a Sica chorona e estúpida aparece. Uma lágrima escorre pelo meu rosto, e ela enxuga-a do meu rosto. Ela me pede desculpa sem emitir som, e eu somente assinto com a cabeça. Eu não posso culpar Lilian por isso. Ela nunca teve muitos namorados, então ela não sabe a reação de uma paixão, digamos assim. Eu não consigo culpá-la por gostar dele. Eu só... quero consolá-la.

Quando eu estava com Hector, isso não aconteceu. Ela gostava de Hector, mas não era esse mesmo gostar de agora. E Hector também nunca havia falado nada sobre minha irmã, mas não foi somente uma vez que Steven a elogiou. Sei que é o jeito dele, mas não posso deixar de pensar nisso. E se Steven tivesse conhecido Lil antes de mim? Eu sei que ela já não estava tão bem com Chris, e talvez ela e Steven pudessem ter tido algo. Sei que não tenho culpa, mas não posso deixar de me sentir assim ao ver minha irmã chorando por causa de um cara que está saindo comigo.

— Agora eu vou me sentir mal toda vez que sair com ele. — Desabafo. — Isso se eu voltar a sair com ele.

— Não! Não se preocupe, mana. — Ela enxuga uma lágrima e dá um sorriso forçado. — Viu? Eu já estou melhor.

— Tá, eu vou fingir que acredito. — Sorrio para ela. Ela finalmente ri com vontade, e a tensão que estava entre a gente some. Ainda é estranho o fato de minha irmã gostar do mesmo cara que eu gosto, ou pelo menos quero bem. Deus...

— Eu quero descansar, mana. — Ela fala para mim.

— Tudo bem, loirinha. — Sorrio para ela, que suspira de volta. — Você não dormiu?

— Eu estava preocupada com a vovó. E com você também. Eu pensei que você havia ficado em casa, sozinha. Você deve ter sentido medo em ficar em casa assim.

— E fiquei. Foi o único motivo de eu ter pedido para Steven ficar aqui. — Falo. De repente, sinto uma fraqueza nos braços. Nada demais, logo voltei ao normal. — Bem, acho que eu preciso descansar também. Ainda é muito cedo. Bem, melhor descansar um pouco antes que a gente tenha que ir pra escola.

— Sim. — Ela fala, se ajeitando para cochilar. — Boa noite.

— Boa noite. — Brinco com ela.

Deixo-a dormir e vou até o quarto de minha mãe. Ela estava sentada em sua cadeira em frente a penteadeira, e papai estava na cama, mexendo em seu laptop. Quando eles me veem, sorriem tão lindamente que me deixam feliz.

— Mamãe, eu queria saber se a senhora poderia nos dar uma carona mais tarde para...

Caio no chão. Eles se levantam tão rapidamente que mal consigo entender o que aconteceu. Eles me colocam na cama, me olhando com preocupação. Falo para eles que está tudo bem, foi só uma fraqueza. Mas vamos combinar que essas fraquezas não são tão simples, pelo menos quando são comigo.

— Filha, tem certeza de que não quer ir no médico? — Ela pergunta para mim.

— E o que você comeu de café da manhã? — Papai pergunta, aflito.

— Tenho certeza sim. — Minto. Eu estou enxergando quase tudo vermelho. — Eu só preciso de...

De repente, tudo fica escuro.

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— Mamãe?

Aquele lugar bem familiar para mim; a cama de um hospital. Mamãe se aproxima de mim, quase chorando. Papai vem logo atrás dela, e fica olhando para mim com preocupação.

— O que aconteceu, mamãe?

— Você desmaiou, Sica. — Ela olha para meu pai, com medo.

— Desmaiei? — Fico incrédula. — E por quê isso aconteceu?

— Você não se alimentou direito. Quer dizer, os alimentos que você estava comendo não devem ser consumidos por você. Como por exemplo o doce de leite e o abacaxi da salada de hoje de manhã.

Eu não mereço isso. Eu realmente não mereço isso...

— Por causa da quimioterapia? DESSA PORRA DE QUIMIOTERAPIA?

Eles pedem para que eu me acalme. Depois dessa doença maldita, eu não posso fazer nada. Não posso me alimentar direito, não posso levantar peso, ajudar na casa, não posso me cansar... Nada! Eu estou me sentindo uma completa inútil!

— E agora? Quando eu vou voltar para casa?

— Você vai ter que ficar mais um pouco aqui, para garantir que nada aconteça, coisas mais graves. – Ela segura minha mão. – Talvez amanhã ou depois de amanhã, no máximo.

Assinto e ela se senta no peque no sofá que fica perto da porta. Papai fica acariciando minha mão e logo depois sai para a cantina do hospital. Deus... me sinto muito fraca. Como se eu não comesse há três dias. Realmente, eu preciso ficar aqui, eu estou muito indisposta. Quero ficar aqui e quero que todas as pessoas que se importam comigo aqui, comigo também. E é quando eu tenho esse pensamento que a Sica chorona vêm à tona novamente

Eu queria que Hector estivesse aqui.