Jessica Chloe - Vitoriosa
33 Ah, de novo não!
Notas iniciais
Já se passaram duas semanas desde aquele dia horrível, mas meu coração dói da mesma forma desde então. Estou tão triste, é como se não tivesse passado, como se eu ainda estivesse naquele dia. Como eu vou suportar isso?
A pior parte é que, apesar do que aconteceu, ainda me flagro pensando nele, querendo que ele estivesse ao meu lado. Eu não sei como eu consigo ser tão idiota... Hector não é meu. Eu não tenho direito nenhum sobre ele. Nesse exato momento, há uma mulher em Los Angeles que deve estar super ansiosa por um jantar que dará início a uma nova parte de sua vida. Não sei como ela é, mas a imagino sendo uma mulher linda e jovem que o ama de verdade.
E ele a traiu. Comigo. Ninguém merece isso. Sinto uma pena enorme dela, que com certeza nem imagina o que aconteceu entre Hector e eu, mas fico mais arrasada comigo mesma. Não sei o que faria se ele tivesse me avisado antes da existência dela. Eu o entenderia? Eu o odiaria? Não sei, mas com certeza não me jogaria na cama com ele.
E o pior de tudo: eu ainda amo esse canalha.
Estou olhando para o teto, deitada na minha cama, comendo pipoca e ouvindo músicas que antes eu não compreendia, mas agora parecem que foram feitas para mim. Ou para nós. Deus, às vezes eu tenho vontade de esganar a Kerli. Como ela consegue compor músicas tão boas e tão... expressivas? Escutar When You Cry me dá arrepios. E lágrimas, muitas lágrimas. Minha nossa...
Cause baby we are one and the same, when you cry I cry
And I feel all of your pain, when you cry I cry.
So if we fall apart, be careful with my heart
Cause we are one and the same, when you cry I cry.
Será que ele está chorando também? Eu queria tanto saber... Não, não quero! Para de pensar nele, Sica...
— Sica. — Missi bate na porta, abrindo-a discretamente. — Como você está?
— Mal. — Olho para ela, secando os cantos dos meus olhos.
Minha caverna, quer dizer, meu quarto, se tornou meu esconderijo da sociedade. Não quero ver ninguém, não quero falar com ninguém. Nos trés primeiros dias que tudo isso aconteceu, ele passou o dia inteiro me ligando. Missi foi única que conseguiu me impedir de jogar o celular na parede. Ela se aproxima de mim e se senta ao meu lado.
— Sei que você está muito magoada com ele, Jessica. — Ela começa, segurando minha mão. — Mas você tem que parar com isso. Prestar mais atenção em si mesma. Isso está te fazendo mal.
— Eu sei. Mas é que eu não consigo parar de pensar nele. — Olho para ela. — Estou com raiva de mim mesma. Como eu posso ainda gostar dele, depois de tudo que ele fez?
— Quando a gente ama uma pessoa, fica difícil esquecer. Mas não é impossível, Sica. Você tem que sair dessa cama e sacudir a poeira. — Ela suspira, chacoalhando a mão que segurava. — Jack perguntou se você não quer ir andar pela cidade atrás de reportagens para o jornal. O chefe de vocês já percebeu seu estado, pelo visto.
— Não me importo com o que aquele velho pensa. — Franzo a testa. — Quer saber? Se não fosse pelo dinheiro, com certeza já tinha largado esse emprego. Talvez já tivesse voltado para Seattle.
— Você me deixaria aqui sozinha? — Ela sorri, mas não sei se a dúvida dela é verdadeira ou não.
— É, acho que não. Você não sobreviveria sozinha aqui. No primeiro dia em Nova Iorque já estava tendo alucinações!
Missi solta uma risada calorosa, e eu a acompanho.
— É bom saber que você ainda tem seu humor intacto. — Ela comenta, já parando de rir. — Então, você vai com Jack ou não?
— Você vai ficar com ciúme? — Brinco.
— Eu? Nem morta... Tá fazendo no máximo dez graus lá fora, não piso meus pés na rua nem por dinheiro.
Missi abre a cortina da minha janela e eu quase fico cega com a luz que entra. Apesar disso, o dia está um pouco escuro, e posso ver um pouco da geada acumulada no vidro.
— Além do mais, encaro qualquer coisa para te ver rir de novo. — Minha amiga me puxa para fora da cama, e eu não resisto.
— Tudo bem, Missi. Já que você está insistindo tanto, diga à ele que eu vou. — Encolho-me um pouco por causa do frio. — Daqui a uns quinze minutos ele pode vir me pegar aqui.
— Ah, Sica... Ele já está aqui. — Ela fala, corando.
— Como assim? — Indago. — Ele dormiu aqui?
— É... Tem algum problema? — Ela pergunta, preocupada.
Sorrio para ela.
— A casa é sua, Melissa. Você faz o que quiser. Além disso, não precisa me avisar se ele vai dormir aqui ou não.
— Tudo bem. — Ela se levanta. — Eu vou avisar a ele. É melhor você se arrumar.
Ela sai do quarto, e eu vou direto para o banheiro. Ah, o que um banho d'água quente pode melhorar, pelo menos um pouco, o nosso humor... Quando termino, visto minha camisa de manga longa e minha jaqueta de couro. Sim, está fazendo muito frio. Pego minha calça jeans grossa e minhas botas de inverno. Meu cachecol, um pouco de dinheiro no bolso e minha máquina fotográfica — será que ela danifica na neve? — e estou pronta para sair de casa.
Entro na sala e vejo os dois abraçados. Eles são muito fofinhos juntos... E isso me dá raiva. Eu podia ter achado um cara tão legal quanto o Jack, não? Em vez de um pamonha que me enganou.
— Bom dia, Sica. — Ele se levanta do sofá e me abraça. — Pronta para sair pela cidade congelada?
— Sim. — Falo, sem expressar nenhuma emoção.
— Então vamos. — Ele sorri em consideração e se vira para Missi, beijando-a. — Você tem certeza que quer ficar aqui sozinha? Depois do trabalho, nós três poderíamos passear por aí, sabe. Melhor que ficar em casa.
— Sim, eu tenho certeza. — Ela responde, jogando-se no sofá. — Mesmo aqui dentro estou sentindo frio.
— Tudo bem, preguiçosa. — Ele sorri para ela, que dá a língua para ele. — Vamos, Sica.
Acompanho-o e descemos até o saguão. Várias pessoas se refugiam da neve. Nossa, será que o tempo está tão ruim assim?
Quando saímos do prédio, vejo que sim, está horrível. Você acredita que há vários caros parados, repito, parados, no meio da Quinta Avenida? Tudo bem, não são a maioria, mas isso ainda é inacreditável. Deus, está frio. Encolho-me e Jack percebe.
— Muito frio, né? — Ele também se encolhe. — Que tal um café antes das fotos?
— Claro. — Falo, pra depois perceber que estamos caminhando ao Starbucks. Quero gritar, dizer pra ele que não quero voltar lá, mas não faço. Ele ficaria preocupado, e além disso eu preciso enfrentar isso. Não vou me privar de ir em lugares só por que ele estava lá. Isso seria doentio.
Entramos na loja. Muita gente tomando café, com certeza com frio. Sento-me em uma cadeira e Jack se senta na minha frente. Uma garçonete vem e pergunta o que queremos: eu, cappuccino e Jack, chá verde. A atendente volta e ficamos olhando um para o outro, sem assunto algum.
— Sica — Ele interrompe o silêncio. — Você se importa em me falar o que aconteceu naquela noite? Sei que é muito invasivo, mas eu fiquei preocupado de verdade.
— Obrigada pela preocupação, Jack. — Sorrio ternamente. — Bem, acho que eu posso contar sim. Foi um ex-namorado meu. A gente se encontrou aqui.
— Em Nova Iorque? — Ele pergunta.
— Mais precisamente aqui mesmo. — Falo, encolhendo os ombros.
— Oh. Você quer ir embora? — Ele pergunta.
— Não. — Sorrio, mas ele não se convence. — Eu não quero, Jack! Deixa de ser bobo.
— Tudo bem, tudo bem. Você quem manda. — Ele ri. — Bem, continue.
— Eu realmente fico um pouco constrangida em falar essas coisas... Bom, ele me enganou. Disse que ainda me amava, mas eu acabei descobrindo que ele vai se casar com outra garota.
— Ele é bem mané, não é? — Ele fala, e a garçonete traz nossos pedidos.
— É...
— E você ainda gosta dele. — Ele sorri.
— Tá na cara, né? — Franzo o cenho. Deus, como eu me odeio.
— Tá sim. — Ele brinca. — Mas não liga não. Eu sei bem o que é isso que você está passando.
— Sério? — Pergunto.
— Sim. — Ele olha para a mesa e suspira. — Quando eu tinha uns dezessete anos, eu namorava uma garota chamada Deborah. Ela era incrível, meiga, engraçada... Eu a amava. Mas então eu descobri que ela me traía. Eu jamais ia imaginar isso dela.
— Entendo. Foi horrível, não foi?
— Claro. Me senti despedaçado, como se ela tivesse arrancado um pedaço meu. Mas aí eu percebi que ela não era a mulher da minha vida. E então eu parei de pensar nela.
— Como você conseguiu isso?
— Pensando que, se ela fosse minha mesmo, desde sempre, ela jamais me trairia. E não foi isso que aconteceu.
— Eu queria ter essa força de vontade. — Olho para meu cappuccino ainda intacto. — Mas eu tenho certeza que ele é o amor da minha vida. Eu sempre soube disso.
— Você tem certeza? — Ele me pergunta, e eu assinto. — Bem, então eu acho que você devia perdoar ele. Não sei quais foram os motivos dele ter marcado casamento com outra, mas pra alguém ter te deixado desse jeito, com certeza ele deve estar morrendo por dentro agora.
— Você acha isso mesmo? — Indago.
— Claro. Olha, nós homens somos imprestáveis mesmo, mas quando a gente ama uma garota, magoá-la é pior que o inferno. — Ele dá mais um gole em sua bebida. — Acho que eu me odiaria para sempre se machucasse a Missi.
— Fico feliz que você se importe com ela tanto assim. — Sorrio.
— Ela é bem maluquinha, mas... — Ele sorri olhando para o nada, como se estivesse lembrando dela. — Não sei se é cedo para falar, mas acho que estou apaixonado por ela. Eu gosto dela de verdade.
Ele parecia se conter para não dizer que a ama, tão cedo assim na relação deles. Isso só me faz lembrar de quando eu e Hector nos declaramos um para o outro. Revendo a situação, com certeza foi um ato rápido para nós, mas com certeza não me arrependo. Quer dizer, talvez se tivéssemos levado nossa relação mais lentamente, nada do que nos aconteceu teria se tornado realidade.
— Missi definitivamente é uma garota de sorte. — Falo, tentando esconder meus pensamentos, e ele ri.
Por fim, bebemos nosso cappuccino e chá e vamos para fora. O tempo deu uma aliviada, mas ainda está frio. Andamos pela cidade e tirei fotos de algumas crianças brincando na neve, fazendo anjinhos e bonecos. É quase Natal... Estou morrendo de saudades de casa.
Deus, estou sentindo uma tontura forte. Sento-me na neve e Jack, que estava a uns cinco metros de mim, entrevistando uma senhora, corre para ver o que está acontecendo comigo.
— Não sei... — Olho para ele. — Liga para a Missi. Ela sabe para onde...
Não consigo terminar a frase. Apago, caindo nos braços de meu amigo.
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— Jessica? Sica? — Ouço a voz de Missi. Lentamente abro os olhos.
Não estou em casa, e sim em um hospital. Olho vem volta e vejo Missi e Jack, um em cada ledo meu, olhando para mim fixamente. Escuto uns bips, e vejo que é minha pulsação. Deus, e eu pensando que havia me livrado disso tudo...
— O que aconteceu depois que eu desmaiei? — Pergunto.
— Eu chamei Missi e ela nos trouxe pra cá. — Jack explica.
Olho para Missi e vejo que ela está quase chorando.
— Por favor, Missi... Não chora agora, senão eu vou chorar também.
— Eu fiquei tão preocupada... — Ela enxuga uma lágrima. — Pensei que tivesse acontecido algo muito sério.
— Mais sério que isso? — Pergunto, um pouquinho indignada. — Missi, pode ser o tumor.
— Nem brinque com isso, Jessica Chloe Andersen. — Ela fica furiosa. — Não vou perder mais alguém pra essa doença maldita.
Sorrio para ela. Aquele ato de preocupação inunda meu peito. Ela realmente se importa comigo. Ela realmente me quer bem. Quer melhor prova de amizade que essa?
— Bem... — O doutor entra no quarto. — Jessica, meu nome é Flinn Daniels.
— Meu novo neurologista. — Suspiro.
— Isso mesmo. — Ele parecia entusiasmado por ser meu médico. — O doutor Augustus me mandou seu caso por e-mail e, tenho que dizer, você teve muita sorte.
— Eu sei. — Sorrio. — Eu sempre agradeço a Deus por isso. E claro, a equipe que me ajudou.
— Eu custei a acreditar que você chegou a morrer na mesa operatória e depois de tão pouco tempo conseguiu sair do hospital sem nenhuma sequela! — Ele sorri. — Um milagre, realmente.
— Bem, doutor, mas o que aconteceu com ela agora? — Missi pergunta, completamente nervosa.
— É difícil dizer. A senhorita Andersen está dentro dos padrões cardíacos, mas devido ao histórico oncológico dela, não dá para ter certeza. — Ele volta a olhar para mim. — Amanhã iremos fazer todos os exames possíveis, incluindo a tomografia, para termos certeza de que não é nada relacionado ao seu câncer.
— Tudo bem. — Falo. — Eu estou exausta. Muito mesmo.
— Acho melhor deixar ela descansar. — O doutor fala e Jack e Missi concordam.
— Sica — Missi fala, antes de ir embora. — Eu liguei pra sua mãe. Falei pra ela não se preocupar, e que daqui a pouco eu ligaria pra ela para dar notícias.
— Fez bem. Obrigada. — Falo, já com os olhos fechados.
— Mais tarde eu volto, viu? — Ela fala, já saindo do quarto. — Não se preocupe.
— Tudo bem. — Suspiro. — Vou tentar não me preocupar.
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