Jeremy & Caleb
3 Capítulo III - O Que Eu Decidi
Notas iniciais
Saíra pela porta demorando-se mais do que de costume para largar a maçaneta e seguir pelo corredor. Se era de fato o fim, então por que parecia irreal? A única evidência de que não estava em um pesadelo eram os músculos da face doloridos. Caminhou lentamente pelo curto corredor abaixando a cabeça quando passava por alguém, pois não queria ter que explicar como adquirira os ferimentos.
Contudo entrou no elevador e foi levado até seu próprio andar no prédio percorrendo desanimadamente o caminho até a porta do apartamento que, anteriormente, pertencia ao primeiro amigo que fizera no emprego. Este lhe alugou o pequeno espaço quando casou-se e mudou-se para uma casa mais espaçosa junto com a esposa.
Inicialmente o homem loiro de íris pretas apenas utilizava-o como estúdio, porém em momentos de brigas com o amado, tal lugar tornava-se seu lar temporário. Ao entrar, sentou-se no sofá e por um tempo pôs-se a absorver os acontecimentos do dia.
Amanhecera normalmente e como de rotina, arrumou-se e foi trabalhar. Almoçou e ao término da carga horária seguiu para a casa do amado conforme tinha sido solicitado via mensagem. Não criara expectativas nem boas nem ruins sobre o pedido, no entanto quando chegou e tocou os lábios familiares e notou que estavam frios, sem emoção percebeu que algo não estava certo e foi então que o parceiro introduziu o assunto, sendo bastante objetivo:
— Temos que ter uma conversa séria.
A conversa tornou-se discussão, depois agressão e por fim...o fim.
Sentiu algo morno escorrer-lhe pela face e, a principio, relutou em permitir que as lágrimas expressassem o quanto se importava com o que perdera, mas por que mesmo ele estava reprimindo a dor? Não havia ninguém para flagra-lo em sentimental ação. Ninguém. Nem para vê-lo, nem para confortá-lo. Estava só. Escondeu o rosto na mão e deixou que as emoções emergissem por seus olhos e pelos soluços de seu choro.
Em meio a tristeza, acabou por recorda-se de quando tinha seus quatorze anos e entrara sorrateiramente, tarde da noite, pela janela do amado e foi golpeado por um travesseiro gorducho.
~Flash Back On~
— Ei! Por que fez isso? — Questionou ao retirar o objeto de suas mãos.
— Caleb? — Perguntou o outro dando alguns passos para o lado e acendendo o abajur. — Isso é jeito de entrar na casa alheia?
— Desculpe, não queria que sua família me visse. Mas, afinal, por que me bateu com um travesseiro? Ainda está zangado comigo?
— Não, é que eu pensei que fosse um ladrão.
— Quem agride um assaltante com algo macio como o travesseiro? — O garoto loiro não conteve o riso.
— Não ria! O travesseiro era o objeto mais próximo do meu alcance.
Cruzou os braços e virou a cabeça para o lado afim de demonstrar que ficara bravo com a piada, mas o loiro ocupava-se abraçando o travesseiro macio e que, de certo, fora recém lavado pois podia perfeitamente sentir o aroma do amaciante utilizado. Era uma pena que não pudesse sentir o cheiro do garoto de olhos verdes no tecido. No entanto, ocorreu-lhe que não precisava de um pedaço de tecido, pois a fonte do perfume natural que o inebriava estava diante de si.
Foi até o garoto e o abraçou apertado, mantendo o travesseiro entre seus corpos.
— O que está fazendo?
— Estou deixando nossos cheiros no seu travesseiro. De um lado vai ficar o seu e do outro lado o meu.
Era uma ideia tola, mas o dono das íris negras gostaria de poder deixar ao outro alguma espécie de prova de que o pertencia e não importava com quem estivesse, o loiro não esquecia-se disso em nenhum momento.
O garoto cujos cabelos castanho avelã encontravam-se bagunçados, cedeu e acabou por levar seus dedinhos, ainda que tímidos, aos ombros alheios e recostar a face perto ao pescoço do outro e desabafou:
— Quando você me empurrou, realmente fiquei com medo de que fosse me bater.
— Nunca faria isso! Porém você tem que admitir que chamou a minha atenção da pior maneira possível.
— Lamento não ser tão habilidoso nesse quesito quanto aquela menina.
O garoto de pele bronzeada sorriu divertido e beijou a bochecha do amado.
— Seu bobo. Se soubesse como é capaz de chamar a minha atenção mesmo sem tentar.
Sentiu um suspiro resvalar em sua pele e em seguida o menor pronunciar, com voz chateada:
— Acha que o que sentimos é errado?
— É o que a maioria das pessoas dizem. — Disse e sentiu os dedos alheios apertarem-no um pouco — Mas por que perguntou isso de repente? Está pensando que devemos romper novamente? — Questionou o loiro, principiando ficar aflito quando apenas recebeu silêncio. — está?
— Não. Não vou facilitar as coisas para aquela sardenta de lábios grudentos! Eu só...é que a mentira pesa no meu coração e o machuca.
— Sabe o que eu faço quando estou machucado?
— Põe um curativo na ferida?
— Sim, mas também faço isso — Beijou amavelmente os lábios mornos e com frescor de menta — Seu beijo cura qualquer dor que eu possa sentir.
Os olhos verdes brilharam ligeiramente, contentes pelo que seu dono ouviu e por puro impulso do desejo jogou ao chão o travesseiro que os dividia e uniu seus corpos e bocas num beijo alegre e atencioso que apenas encerrou-se dois minutos depois quando o ar lhes fizera falta e suas línguas pediam um mínimo descanso.
— Não que isso importe — pronunciou o loiro. — mas a sardenta estava a me contar que gostava de você. E até me pediu conselhos para te conquistar.
— O quê?!
~Flash Back Off~
Após passar um bom tempo ali a expressar a mágoa para o vento, procurou pelo cômodo uma garrafa de vinho que guardara lá há pouco tempo na intenção de usá-la em uma ocasião especial, como em uma prometida futura promoção no trabalho, porém que agora seria empregada em um momento amargo de sua vida. Acabou por solver o conteúdo da garrafa quase que por completo e depois dormir um sono pesado e livre de sonhos, fossem eles bons ou ruins.
Despertou apenas no dia seguinte mais tarde do que pretendia, então optou por não ir ao trabalho já que sua carga horária terminaria dali a quatro horas. Notou uma mensagem em seu celular e não pode conter a expectativa de que o remetente fosse do homem de olhos verdes, no entanto decepcionou-se ao verificar que apenas se tratava de seu chefe questionando-lhe o motivo de sua falta incomum e se ele passava bem.
Esforçou-se a ver somente a preocupação de um empreendedor capitalista que não queria perder tempo e dinheiro com funcionários preguiçosos, mas sabia que havia mais.
Seu superior já demonstrara, ainda que discretamente, interesse em si e Caleb não poderia negar que a ideia de ceder a tentação, em um outro momento nublado de seu relacionamento, insinuara-se em seus pensamentos vergonhosos. Seu chefe era de fato atraente. Cabelos escuros, pele perfeitamente aromática, barba devidamente cuidada, sorriso encantador, roupas discretamente elegantes, personalidade cativante...realmente atraente.
Mas quando pegava o celular por simples costume de ter o aparelho eletrônico em mãos e involuntariamente abria a galeria de fotos onde encontravam-se um considerável número de fotos do parceiro, algumas boas outras estranhas demais, ele lembrava-se porque não renderia-se a um tolo desejo carnal. Jeremy não era o ser mais fotogênico, no entanto o que isso importava? Era exatamente o fato do homem de cabelos castanhos avelã e olhos verdes não ser um modelo perfeito que o fascinava!
Os defeitos do amado eram o que mostravam à Caleb, todos os dias, que o que vivia ao lado do outro era real. Acostumara-se com as olheiras do outro pela manhã e com seu estojo de corretivos e bases para esconde-las, sua adoração por biscoitos de batatinha e pipoca doce embora nunca aprendera a fazê-las, a sua mania de monopolizar o cobertor. Acostumara-se a sua insegurança quanto a solidez do afeto recebido — provavelmente derivação da separação abrupta de seus pais quando criança -, a frustração silenciosa de quando algo que tentara não obtinha êxito.
Tão bobo. Tão amado. E agora, passado. Portanto, como tal deveria ser deixado para trás, raciocinou o dono das íris negras deletando as fotos do outro, porém não sem antes fita-las uma por uma como se se despedisse. Poupou apenas uma, onde o garoto aparecia adormecido com a testa suada e a boca um pouquinho aberta imagem esta que assemelhava-se com a cena de quando eles acabavam de fazer amor, porém quando registrara aquela foto apenas ria internamente da situação cômica de seu ar condicionado ter parado de funcionar na estação mais calorosa do ano.
Largou o aparelho em cima da mesa de centro estreita e tratou de ir banhar-se com intenção de que a água, de algum modo místico, o purificasse e o fizesse sentir-se mais centrado. E de fato permitir que as gotas molhadas escorressem por seu corpo era uma sensação agradável.
Vestiu-se casualmente, procurou com os olhos as chaves do apartamento e as encontrou abandonadas no sofá. Abriu a porta e surpreendeu-se ao ver, caminhando pelo corredor em direção a sua porta, o homem de cabelos castanho avelã e olhos verdes.
— Oi — Disse ansioso, antes que o homem sanasse por completo a distância entre ambos — Veio falar comigo?
— Não. Eu...não vim falar...vim entregar-lhe isso. — estendeu uma sacola grande e preta que o loiro nem sequer reparara estar em suas mãos. — São pertences seus que estavam no meu apartamento.
O dono das íris negras pegou o objeto das mãos alheias e proferiu:
— Obrigado. Eu...esqueci de verificar se havia pertences seus comigo, então...se quiser entrar e procurar...
— Não, tudo bem. Mesmo que tenha algo, deve ser apenas filmes piratas, não é importante.
— Então tá.
— Então tá. — pausou Jeremy à espera de ter alcançado seu objetivo em parecer casual — Você vai pegar o elevador?
— Sim. Vou tomar café da manhã na padaria...você quer ir?
— Não.
Ao notar a expressão desconcertada do vizinho, se corrigiu
— Hum...não estou te chamando para sair como se ainda fôssemos um casal, eu só...bom é que você é bem magrelo e eu pensei que...talvez você quisesse comer.
— Eu entendi. Respondi não por que não tenho costume de tomar café...mas compreendo que não saiba de algo tão bobo sobre mim, afinal você sim tem um emprego de verdade e precisa sair cedo para trabalhar.
— Sutil. Quase tão sutil quanto vim entregar-me minhas coisas em um horário que você sabe bem que eu não costumo estar em casa.
Apesar de ter suas intenções tão cuidadosamente planejadas sendo desvendadas tão facilmente, o homem de olhos verdes manteve-se imparcial e disse:
— De qualquer forma acho que vou utilizar a escada.
— Estamos no sexto andar. Você mora no segundo.
— Estou pretendendo aderir a prática de exercícios físicos.
— Você? O sedentário cujo o formato da bunda é quadricular por ficar o dia inteiro sentado na cadeira em frente ao computador? — Riu incrédulo — Se não quer dividir o elevador comigo é só dizer, não é preciso que invente desculpas.
— Não é um pretexto para evitá-lo...realmente quero começar uma vida nova.
Reinou o silêncio constrangedor. O dono dos fios loiros e íris negras simulou ter esquecido algo no apartamento regressando para o interior do mesmo com a intenção de fugir do ambiente desagradável.
Vida nova. Fazia parte de sua meta de vida nova livrar-se do relacionamento longo? Talvez estivesse a planejar isso a algum tempo. De fato, nos últimos meses, tornara-se distante, implicante e rabugento. Inicialmente pensara ser carência e tentou sana-la proporcionando ao outro uma madrugada prazerosa que não vivenciavam a semanas, entretanto, ainda assim tornavam-se emocionalmente distantes.
Romper fazia parte do seu projeto. Como ele não percebera que seu parceiro almejava novas experiências...sensações...amores. Foi descuido seu? Foi desatenção? Falta de empenho?
Não. Não devia culpar-se pelo término. Afinal, pretendia consertar o que se rompera se a chance lhe tivesse sido dada. Portanto, não lamentaria. Faria como o homem de fios castanho avelã e seguiria vida nova. E seria feliz. Mesmo sem Jeremy.
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