Jennifer Petrovic, entre dois mundos. (HIATUS)
7 Quando eu mato, eu me sinto viva.
Notas iniciais
–Você é muito azarada. –Lá estava a Lisa falando mais que o óbvio!
–Oque eu faço agora? –Comecei a chorar e me joguei na cama. –Eu não vou sobreviver se naquele dia no metrô quase morri com demônios pequenos, imagina com demônios grandes!
Tudo dependia de mim. COMO ISSO?
–E não esquece que você sobreviveu por causa do Nat.
–Nossa LISA! ÓTIMA AJUDA! –Enfiei a cara no travesseiro e gritei aos prantos.
–Calma... –Senti a garota se sentar ao meu lado e logo sua mão estava em meu cabelo acariciando-os levemente. –Eu prometo te ajudar nessa, e o Nat também, tenho certeza.
Fiz um não com a cabeça e fiquei calada por alguns segundos, “contemplando” a minha morte que estava próxima.
Assim que levantei a cabeça para reclamar de algo, Nataniel entrou espantado no quarto e fechou a porta bruscamente.
– Vi um alvoroço, as pessoas falando da Jennifer, de uma tatuagem... Disseram-me que vocês foram falar com os Anjos Maiores, procurei me informar da situação. –Ele falava tão rápido e achei engraçado, porque era raro ver o Nat assim... Aliás, nunca o vi assim. –É verdade?
O fitei com os olhos inchados e assenti.
–Eu não acredito nisso, por que você? –Parecia curioso, se sentou do lado da Lisa que ainda acariciava meus cabelos, apoiou os cotovelos nas pernas, e a cabeça nas mãos, parecia bem pensativo.
–Não sabemos talvez ele só queira bagunçar tudo, olha com quem estamos lidando, Lúcifer! –Lisa entoou e cantarolou o ultimo nome que eu sentia raiva.
–Eu vou morrer! –Exclamei voltando a enterrar minha cabeça nos travesseiros. –Lúcifer vai me matar!
–Não, não vai, eu lhe ajudo nessa! –Disse Nataniel firmemente.
–Tá vendo só? Eu disse... Eu também vou lhe ajudar, é para isso que servem os amigos.
Abri um sorriso torto em meio as lágrimas e um calor envolveu meu coração, seria estranho escutar isso de alguém que você conheceu há poucos dias, mas Lisa e Nataniel me acolheram desde o começo e ser chamada de amiga por eles, era um elogio.
–E como vocês vão me ajudar? –Questionei me sentando na cama.
–Ensinando você a lutar o mais rápido possível e embarcando com você nessa aventura! –Disse Nat se virando pra mim e sorrindo.
–Vamos? –Perguntou Lisa e Nat assentiu. –Isso nós vamos!
–E quando começamos nossos treinamentos? –Indaguei empolgada e ao mesmo tempo com receio.
–Imediatamente! Espero que esteja preparada, partiremos depois de amanhã!
Pisquei os olhos e arregalei surpresa, como assim depois de amanhã?
–Está brincando! –Afirmei mesmo, não perguntei nada do tipo. Afirmei!
–Não, não podemos brincar com isso Jennifer, Lúcifer no momento está no comando e não podemos vacilar. –O rapaz se levantou e colocou a mão na cintura, erguendo a cabeça e olhando para o alto. –Com diabos não se brinca.
Suspirei irritada e preferi não falar mais nada, tinha que ser a vida de Jennifer ‘Martin’ Petrovic para desandar desse jeito, se tiver como ficar pior, pode ficar logo!
–Bem, eu só observo... –Murmurou Lisa.
–Vamos Lisa, vamos pegar nossa permissão para ir ao lado da Jennifer e depois começar o treinamento. Apareça lá às 9 horas dessa noite! –Avisou me encarando.
Lisa olhou o rapaz com um olhar de deboche e sorriu.
– Eu treinar? Você sabe que sou uma das melhores daqui.
– Perdendo para mim! – Disse o garoto se vangloriando. –Se não quer treinar não treine, mas quero ver só quando monstros aparecerem e você se sentir enferrujada.
– Isso não é comigo.
Os dois começaram a rir e saíram, implicando um ao outro.
Não me atirei na cama, não comecei a chorar, não ia resolver nada nesse momento.
Fui ao banheiro e lavei o rosto, prendi os cabelos em rabo de cavalo desajeitado e alto, eu não estava nem ai para o número em mim.
Como tinha acabado de tomar banho vesti uma legging de ginástica preta, um top cinza e um coturno preto.
Sabe por que um guarda roupa de anjos é bom? Porque tem tudo que você imaginar.
Vesti uma crooped por cima e agora só faltava eu esperar as horas passarem e minha sessão de tortura iniciar.
Me olhei no espelho e comecei a rir, nunca me vesti assim, sempre tive vontade e como um treinamento iria começar, decidi usar esse visual já que eu não tinha muito tempo de vida, o jeito era disfrutar do visual novo!
***
Quando deu o horário do treinamento eu fui para o mesmo local que tinha ido de manhã, o castelo estava vazio – bem, pelos arredores que passei não tinha ninguém ali.
Estavam todos lá fora, sentados, jogando conversa fora.
Antes de iniciar toda aquela palhaçada, eu encontrei a cozinha e pedi uma das mulheres que se encontrava ali um pouco de qualquer comida. Sentia-me uma mendiga.
A senhora usava um uniforme, seus cabelos grisalhos eram presos em uma touca, sua mãos eram cálidas, uma pele morena clara e seu olhar bondoso, por mais que sua aparência não mostrasse isso.
–Por que não foi jantar com todos os outros? –Perguntou a mulher pegando algo da geladeira.
–Desculpe-me, eu sou nova aqui, está tudo tão confuso... –Falei com a voz embargada.
–Criança tola, não chore! –Fez uma careta e me entregou uma bandeja. – Filha de Meredith?
Arregalei os olhos e peguei uma maça e dei uma mordida, suspirei e afirmei.
–Éramos ótimas amigas! –A senhora sorriu e sentou em um banco velho e cruzou os braços.
–Ela vinha muito na cozinha? –Perguntei pegando um sanduíche de atum, que estava uma delicia e dei um gole no suco de laranja bem geladinho.
–Oh criança, você acha que só vivo aqui? –Perguntou com malícia. – Não sou uma simples cozinheira.
Dei de ombros e continuei minha refeição, mas sem esperar a senhora velhinha se transformou em uma bela mulher, corpo curvilíneo e bem distribuído, cabelos e olhos negros, sua pele tinha ficado um pouco mais escura e um sorriso acompanhado de um olhar alegre.
– Uau. –Falei impressionada, como uma velha, virou uma mulher assim? –O que você é?
– Um tipo de anja menor, a anja dos sabores existentes.
– Existe isso também? Nossa. –Mordi mais uma vez meu sanduiche e voltei ao assunto anterior. – Você e minha mãe eram amigas?
– Inocente. –Soltou uma risada. – Eu consigo ver, você será que nem a sua mãe.
Imediatamente perdi a fome. Ser oque? Uma vadia.
É oque eu entendi, minha mãe e essa mulher eram amantes?
–Preciso ir! – Me levantei bruscamente e segui direto para a sala de treinamento, não merecia isso e eu não vou ser que nem a minha mãe!
Assim que cheguei à sala o Nataniel estava lá sozinho, deitado no chão golpeando o ar com uma espada.
–Atrasada, senhorita Petrovic! –Disse imitando o professor de história.
–Oh, me desculpa senhor Mitcheel, não era minha intenção. –Dei continuidade à brincadeira chamando Nataniel pelo nome do professor, e me sentei ao lado do garoto. – Ai como eu sinto falta disso.
–Pensei que não iria me apegar, mas me apeguei.
–Um anjo da guarda. –Sorri. – Como assim Nataniel é meu anjo da guarda?
Ele sorriu, mas logo se levantou.
–Vamos quanto mais cedo começarmos melhor.
***
O treinamento foi bem rigoroso em relação a acertar vários alvos de uma vez só, mas teve uma hora que consegui acertar três diabinhos invocados pelo Nat, ele disse que em treinamento era permitido, no começo foi algo ardiloso, mas estava me adaptando a esse novo estilo de vida.
Ficamos em um silêncio agoniante, não sou do tipo de pessoa que suporta ficar calada, mas se o Nat não falava era por que ele não estava afim, seria melhor assim, mais concentração.
Nat soltou uns dez demônios de uma classe baixa, mas o ataque deles era fatal, o garoto disse que se você levar um arranhão, sua pele descasca, seus olhos ficam vermelhos e acaba morrendo se não for curado com um tempo.
Como eu já estava sabendo manejar a flecha bem, de acordo com Nat, ser uma anja do amor ajuda nisso, você já nasce com o instinto de usar um arco muito bem e só precisa de algumas horas de treinamento.
Os diabinhos corriam loucamente em minha direção, e eu estava a 10 metros de distância, suspirei e me concentrei nada de pânico, se eu entrasse nesse momento aconteceria merda agora e quando tudo isso fosse verdade.
Puxei uma flecha e coloquei no arco em que todos renegavam, puxei a flecha e soltei acertando um dos e partir daí entrei em sintonia, como um dançarino entrava quando começava a dançar, ou alguém quando cantava sua música favorita.
Uma série de flechas era puxada e eu me esquivava de alguns e em seguida dava o caminho para a sua morte.
Mas teve um momento que faltava apenas um diabinho e uma flecha. APENAS UM. Assim que a puxei para posicionar no arco, o demônio se apossou do meu joelho e acabei derrubando a única que flecha que possuía.
Olhei para o Nat, espantada e ele deu de ombros e me olhou com a cara do tipo “Se vire!”. Bem, não tinha tempo para pensar, dei um soco certeiro no rosto esbranquiçado, esses diabinhos eram bem mais feios que o do metrô, suas cabeças giravam e era um pouco maior, suas pernas se pareciam com a de um ser-humano e suas mãos, mãos não, na verdade patas, patas de um tigre, o corpo roliço e apenas dois fios de cabelo na cabeça.
O diabinho resistiu e acertei outro soco mais forte, agradeço por ter amigos que lutavam karatê, o Josh um dos meus melhores amigos era faixa preta e eu sempre assistia seus campeonatos e às vezes ele me ensinava alguns truques.
“Caso alguém lhe ataque na rua.” Me concentrei nessas palavras e dei outro soco, o diabo caiu e eu lhe dei um chute em sua barriga com vontade, eu estava me sentindo mais solta, eu estava descontando tudo naquele coitado... Quer dizer, coitado porra nenhuma.
Corri em direção a minha flecha e acertei em um dos seus olhos, assim que fiz isso, respirei ofegante e apoiei as mãos no joelho e sorri.
–MEU DEUS, ISSO É DEMAIS! –Gritei eufórica. –Manda mais vinte.
–Calma. –Ele sorriu me sentando no chão e sorriu batendo palmas. –Você foi demais.
–Eu sei. Eu sei. Por isso quero mais, matar é divertido. –Sorri encarando-o. –Eu me sinto mais viva com isso.
–Certo, mas isso não é uma coisa que uma filha do amor diria. –Resmungou confuso. – Você é bem estranha.
–Só porque matei e me senti bem? Só porque entrei em sintonia? Qual é não exagera.
Ele assentiu e se deitou e eu fiz o mesmo e olhei para o teto, que estranhamente era o céu estrelado, o telhado deveria ser de vidro.
–Vamos treinar ainda? –Perguntei respirando calmamente.
–Às vezes você não tem noção não é? –Ele sorriu e se virou olhando pra mim. – Já são três da manhã.
–Nossa, foi divertido que passou rápido. –Suspirei e eu já estava aconchegada com o chão. – Acho que meu corpo se entregou ao cansaço.
Bocejei e me espreguicei olhando as estrelas.
–Quando você acordar treinará a sedução e tudo que um anjo do amor possui.
– Você será o meu cobaia? –Perguntei brincalhona e o garoto corou, mas não me deixou sem resposta.
–Não sei não gosto disso, tenho que medo que você veja mais além.
Fiquei curiosa e lembrei-me da conversa dele com o Ronald.
–Quer me contar? –Perguntei sem um pingo de insistência na voz, não queria forçar a barra.
–Não. –Ele olhou sincero e eu sorri. – Creio que o passado tenha que ficar no passado.
Fiquei calada e não retornei a falar, o garoto fechou os olhos e sua respiração ficou pesada, o Nat dormiu.
Pensei em suas palavras e levei a mão ao peito, talvez eu devesse levar essas palavras comigo, e viver o agora, não podia mais pensar nas coisas ruins que me ocorreram no passado, se não o meu agora iria desandar e o futuro poderia ficar pior.
Respirei fundo e virei de costas para o garoto, fechei os olhos e a melhor coisa agora era dormir, amanhã seria um dia longo e cansativo e algo dizia que essa viagem iria ser ardilosa e difícil.
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