Jasmine - O labirinto dos Reis
3 Capítulo 3
Havia um sol escaldante. As roupas podiam parecer leves, mas aumentavam o calor de forma considerável.
Jasmine andava meio se escondendo entre o aglomerado de pessoas e algumas vielas. Devia evitar os guardas, a maior parte deles a conhecia e a sua reputação. Estavam tão atentos quanto uma águia, quase farejavam, mas não a procurava, ao menos ainda não. Procuravam Jonathan. Eles não tinham fotos, era um tiro no escuro.
Não tinha ideia de quem era a menina que ajudou Jhoni a fugir da cadeia, mas não cheirava nada bem. Não tinha as características, nem pistas, nem nomes, não possuía absolutamente nada. Apenas uma adaga incomum.
— Sabe como a adaga é? – perguntou Jasmine avaliando uma bancada de joias sem nenhum interesse.
Nathan deu de ombros.
— Falaram que era estranha, houve várias versões. Eles não estavam sóbrios e nenhum deles presenciou a fuga... Mas algumas coisas coincidiram. Todos concordaram que tinha um escorpião pendurado nela, com os olhos feitos de pedras brilhantes e vermelhas.
Ela só tinha os rumores de beberrões. Passou a mão nas têmporas, estava com dor de cabeça.
— Não pode ser um objeto comum, conseguiu abrir a fechadura da cela com aquilo. – pensou alto.
Ela não tinha outra escolha a não ser recorrer aos serviços da madame Violet. Tão perigosa quanto Anabel, tão poderosa quanto, não por dinheiro, ela possuía algo com mais valor que ouro em determinadas situações, possuía informações. Era um grande risco, em poucos minutos todo o reino saberia que ela estava ali, não havia conhecido ninguém em toda a sua vida que conseguia e espalhava informações tão rápido quanto ela, muito menos alguém que conseguisse adquiri-las com a mesma velocidade.
Andou um pouco mais apressada até o bar que ficava em um canto sujo da esquina mais afastada do centro. Ela abriu a pequena porta e entrou sem fazer questão de se esconder. Pegou uma das moedas de ouro e debruçou sobre o balcão nojento.
Madame Violet aproximou-se com um sorriso triunfante e perigoso.
— A lendária Jasmine em meu humilde estabelecimento. – ela diria que nojento era um apelido. – Como posso ajuda-la?
— Com informações, é claro. — elas já haviam feito isso tantas vezes que aquela formalidade era ridícula.
Jasmine sentiu todo o bar se calando, para uma tarde de quarta feira, não havia mesas vazias em um lugar tão fétido. Também não havia particularidades, o motivo para aquelas pessoas estarem ali, mesmo com a longa data de “amizade”. Era um centro de informações mais rápido do que os jornais. Sobre tudo e sobre qualquer coisa.
Jasmine soltou a moeda de ouro reluzente que estava em uma mão e bateu a outra no balcão, dando ênfase ao tintilar de dinheiro. Não havia nada do que aquela mulher gostasse mais, além de suas preciosas informações.
O sorriso de Violet tornou-se ainda mais assustador. Ela continuou limpando o copo com um pano encardido, encostou um cotovelo no balcão com o rosto quase colado no seu.
— Soube que teve uma fuga da prisão semana passada. – começou.
Violet abaixou os olhos e colocou a língua entre os dentes, fazia isso quando pensava se iria ou não falar algo.
— Como ficou sabendo disso? Ah, deixa, não quero saber. – balançou a mão no ar, estranho ela não querer saber de algo. Muito incomum, quase errado. – O fato é que a Duquesa Anabel subornou o reino para que mantivéssemos a boca fechada. – ela olhou o fundo do copo fechando um dos olhos – Não é minha culpa se alguém comentou algo.
Gastar dinheiro com algo a toa não era o feitio da duquesa. Ele deve ter feito algo bem grave.
— Sabe o que foi roubado da Duquesa? – Jasmine bateu a moeda mais uma vez para que ela visse seu brilho dourado.
— Está querendo mudar de lado, fiel justiceira? Eu não a culparia, trabalhar para os ricos tem seus lucros. – o sorriso zombeteiro instalou-se em seu rosto como cola. Estava a provocando.
Jasmine manteve-se calada, não havia como esse silêncio não incomodar os outros ao seu redor.
— Não faço a menor ideia, mas é algo muito precioso, de fato. Os soldados estão caçando o ladrão igual cachorro. Soube que é bem difícil encontrá-lo, ninguém sabe como ele é.
No entanto descobriram onde morava. Jasmine estalou a língua pensativa.
— Porque está tão interessada nessa história? – quis saber finalmente deixando o copo na bancada.
Precisava pensar no que dizer. Os boatos correriam livres assim que colocasse os pés na rua, ou antes.
— Sabe para onde eles foram?
Violet mexeu no cabelo visivelmente perturbada com as perguntas.
— É uma questão confidencial. — ela sabia.
Jasmine estalou o pescoço sem que percebesse. Pegou mais uma moeda e colocou no rosto o sorriso mais sínico que conseguiu.
— Vamos lá, não há confidencialidade entre nós.
Violet mordeu os lábios. Isso ai, garota. Ela pegou uma safira tão vermelha quanto sangue, o que fez Violet soltar um suspiro discreto.
— Exato, não há mesmo. Porque está tão interessada em um ladrãozinho qualquer? Sua bondade foi para o ralo e agora quer defender vermes da sociedade? Estaria mesmo mudando de lado?- sorriu mostrando seu dente de ouro.
Jasmine ia puxar as coisas que ocasionalmente “caíram” no balcão sujo. Ela rapidamente segurou a mãos de Jasmine.
— Estou interessada na adaga que ela usou.- foi a primeira coisa que passou na sua cabeça.
Um longo suspiro e uma expressão séria, Violet mostrou-se decepcionada. Jasmine largou o ouro e sentou-se para ouvi-la.
— Minhas fontes informaram que a jovem não é daqui, eles correram em direção a fazenda do moinho, os soldados atiraram então eles desapareceram. Puf... – ela fez um gesto que indicava fumaça. – Não foram mais encontrados. A propósito, é uma adaga tridente, ficará ótima na sua coleção. — sorriu cinicamente.
Ninguém sabia de sua coleção, ou assim achava. Ficaria surpresa se fosse outra pessoa que soubesse de algo confidencial, mas não essa pessoa.
— É um prazer fazer negócios com você, madame Violet. – Ela não escondeu o desprezo que sentia ao ter que dizer aquelas palavras, obrigatórias sempre que alguém dava ou recebia uma informação.
— O prazer é todo meu, Jasmine. — com o pronunciamento em voz alta, todos eles se calaram dessa vez.
Jasmine deixou o ouro para trás e puxou Nathan para longe daquele lugar que logo ficaria uma loucura. A porta abriu-se antes que conseguisse chegar perto, ela que já segurava o pulso de Nathan o puxou para um das inúmeras sombras daquele lugar escuro. Havia ao menos quatro guardas, ela abaixou e o puxou pelos cantos em direção as porta de trás.
Os guardas não foram em direção a Violet, pararam no meio do salão e olharam em volta. Péssimo, péssimo sinal.
— Ouvimos dizer que Jasmine estava na cidade. Ela e um garoto. — o soldado que vestia dois tons de azul, cor da guarda real, esperou que alguém se pronunciasse. – Qualquer um que os vir e nos disser seu paradeiro receberá uma quantia de cinco moedas de ouro.
Mesmo assim todos permaneceram quietos, ninguém falava nada publicamente naquele estabelecimento a menos que tivessem consentimento de Violet, eles estavam na jurisdição dela. O guarda olhou em volta novamente, alguém havia denunciado Jasmine, esse alguém já sabia da recompensa.
— Você. – virou-se para Violet.
— Droga. –Jasmine sussurrou. – Corra.
Jasmine e Natan já estavam perto da porta, era só abrir e passar por ela, correr e se esconder feito ratos em quanto os guardas seguiam em uma direção errada. Eles correram, saíram antes que Violet tivesse tempo para delata-los.
Eles não escolheram justamente aquele lugar para fazer um pronunciamento desses. Os guardas estavam tentando ser discretos, até mesmo cortês mesmo sob a circunstancia do local. Isso indicava que queriam a simpatia do povo. O que o rei queria com Jasmine? Nunca precisou mover um dedo para que houvesse perseguições a ela. Deixava que os nobres lesionados e ameaçados fizessem esse trabalho sujo. Era melhor assim para o rei, não ter qualquer tipo de ligação com Jasmine para que não circulasse especulações, visto que todos sabiam da posição social dela.
Tanto cuidado jogado fora, justamente agora. Uma teoria forma-se em sua cabeça, ela implorava para que não fosse o que imaginava.
Precisava tomar cuidado com seus passos, precisava tomar cuidado com Nathan também. Ela sabia que iriam associar o garoto a ela. E teria Anabel no seu pé. Os nobres a detestavam.
Moinho de vento. Era para lá que deveria ir o mais rápido possível.
Voltaram até a entrada da rua deserta da qual desceram. O criado aguardava impaciente na carruagem.
Jasmine abriu a porta e mandou que Nathan entrasse.
— Vá para a reunião dos aliados, não vou conseguir chegar a tempo. Quero que observe, você conseguirá ver quem está tramando e desviando suprimentos do acampamento. Está entendendo?- Jasmine falava rápido como em um surto de adrenalina, porém Nathan conseguia entender perfeitamente.
— Estou. – mesmo assustado com a responsabilidade repentina ele sentiu-se útil e um tanto importante.
— Ótimo. Bom garoto. Assim que souber sobre o suspeito, fale com Barão Edgar, fomos a sua casa hoje, diga a ele para tomar as medidas cabíveis. Para o bem de todos. – Jasmine ignorou os olhos assustados do garoto e fechou a porta torcendo para que ele acertasse, seria o inicio de seus testes e menos uma coisa para que se preocupasse.
Assim que a carruagem partiu a deixando para trás, Jasmine apressou os passos.
Fazenda dos moinhos então.
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