Jardins de Papel
1 Fui à floresta porque queria viver livre...
Notas iniciais
Capítulo Único
.
Jardins de Papel
Fui à floresta porque queria viver livre...
.
Não éramos amigos exatamente, e sei que o surpreendi.
Sua cabeça estava baixa, as mãos unidas... Ele refletia quieto. Apenas contava que eu ficasse calmo, com o semblante sereno enquanto suas palavras jorrassem. Enquanto suas palavras o agredissem, e talvez assim, ele se absolvesse. No entanto, reagi espantosamente. E toda a paz que eu normalmente represento foi estragada por uma sinceridade ríspida.
— Pare com isso Gustavo, eu sei que você é gay. — o choque luziu em seu olhar, para depois desviar-se, incômodo. E eu soube que deveria continuar, deveria prosseguir autoritário. — Por que fingir-se de homofóbico? Aprenda a enfrentar a vida.
Foi então que ele se sentou para pensar. Olhos marrons fitos ao chão.
Um tanto desconfortável, fiquei a analisar meu cenário tão desconexo.
A sala de minha casa era toda desenhada a mão com lápis de cor, um mundo colorido e fantasioso. Havia florestas de longos troncos verdes e um pôr do sol cores arco-íris. Pássaros cantavam com vozes azuis.
E havia luz, luz nos abajures, nos lustres, nos quadros e nas janelas. Luz que refletia nos sofás azuis, na estante branca e na televisão roxa, formando espectros coloridos por cima de sombras escuras. Aquele não era um local para aflição, como fazê-lo compreender?
Eu tinha consciência de que ele me amava, mas que jamais seria capaz de assediar-me.
Na sua impotência de admitir, em seu preconceito contra si mesmo e achismo de que eu era inatingível, revoltou-se. Não adivinhara que eu era observador, sempre pareço tão alheio.
Ele cobriu o rosto com as mãos, chacoalhava-se, chorava internamente.
Andei até onde ele estava e cingi meus braços ao seu redor. Não de um modo romântico, quis oferecer-lhe um suporte. Minha pele tocava a dele e era curioso ver tamanho contraste entre as cores. Ele moreno, eu, descendente de alemães. Num país desses, eu era o estranho.
— Desculpe minha grosseria. — sussurrei e então sorri. —Veja aquela floresta, a que se encontra atrás do sofá mais largo. — ergueu a cabeça, senti que estava nervoso por minha presença. — Meu pai quem desenhou. Ele foi alguém que sofreu a vida inteira por privações, por sua sensibilidade, pelo mundo. Pergunto-me quando foi que ele começou a desenhar alegria...
Acho que assim selamos a amizade. Ele necessitava de mim, e não pude negar-me. Era errado, pois eu também o desejava.
E minha Kathleen?
Tudo era diferente demais.
Mais tarde, estava eu em sua casa. Luzes altas e brancas iluminavam nosso jardim fantástico, sempre úmido e ventilado. Retirando pedaços de grama presos no cabelo dela, eu meditava buscando o inicio. Sei que houve um inicio.
Cresci num outro universo. Pai e madrasta eram atores. Eu vivia nos bastidores, observando. Antes mesmo de meu pai morrer eu já fazia pequenas peças. E dois anos após o luto, eu continuava lá.
Até onde a beleza me levou e quando a escalada foi sustentada somente pelo talento, eu nunca soube, nem me interessei. Valia a sensação de saber que iam ali para me ver, e por mim, esqueciam seus problemas. Só isso, e sempre isso.
Por que o teatro salvou-me da dor nos primeiros anos. Sustentei-me na corda bamba. Inocentes são mortos, claro, e assassinos não. Todavia, quem poderia dizer que todo ser humano é completamente mal?
Amparo-me num mito, na existência da bondade humana.
Com quinze, eu já sabia que a vida era mais triste para uns do que outros. E quando nosso protagonista, aquele homem de fala grossa e com seus trinta anos ajoelhou-se aos meus pés, reverenciando-me, bem... eu entendi.
Ele implorou-me com os olhos para que não o impedisse, porque ele necessitava daquilo... As mãos nervosas e a boca descontrolada. Falava da beleza, de como esquecia os transtornos através do belo. Soube que ele desejava tomar-me por apenas alguns minutos, ter algo bonito em seus braços. Eu deixei que fizesse.
Não me excitava com aquilo, não. Apenas deixe-me ser esvaziado, lentamente. Retire o que precise de mim, eu não careço de muito... o que restar já basta. E fui eu quem teve de consolá-lo, sempre fui.
E por várias vezes me ocorreu situações como essa. Toques famintos, possessivos e carentes... E eu acolhia como se fossem bondosos. Porque eu entendia que em algum momento, em alguma razão, deveriam ser...
Gustavo era diferente? Seu chamado de ajuda atraia-me, eu não conseguia desenlaçar-me, não conseguia fingir-me de surdo. Quando percebi, um intrincado marrom se formara em minha volta. Não tinha audácia de quebra-lo.
No entanto, talvez a atração viesse também por conta de seu desejo ser mais puro. Ele não queria apossar-se de mim, ao contrário, deixaria que eu o usasse sem pestanejar. Essa sim é uma estranha bondade.
E Kathleen? A doce e rica garota de olhos verdes.
Com ela, eu discutia sobre Ingmar Bergman, sobre anarquismo, Beatles e Ernest Hemingway. Ela fazia balé e amava teatro. Eu possuía minha paz e ela não se afogava. Seus pais eram esquecidos e a vida discorria brilhantemente.
Sempre sentados juntos, sempre minhas mãos desfazendo os cachos castanhos. A mão dela estudando os contornos de meu cotovelo. Ela era minha boneca amada. Porcelana, estilhaços e magoa.
Gustavo falava do Eminem, de futebol e animes. Eu não sabia nada disso e ele apenas continuava a dizer. Assim não andaríamos em silêncio, porque o silêncio nos força a confissões. Nunca deve-se escutar as confissões.
E foi como continuou.
Havia a escola e frequentávamos o último ano. Uma instituição cinza em cores e clima.
Minha boneca percebeu a forte amizade minha com Gustavo. Ela sentiu meu carinho por ele e retraiu-se, dia após dia, em palavras e olhares. O cinza fundiu-se com o verde até dominá-lo, e espalhava sua tonalidade por cima das feições.
Mas eu não a estava traindo, não em meu mundo. Em meu mundo marrom e verde formam árvores, capim e terra.
À noite fui visita-la. Pelo portão, via-se que as luzes na casa estavam desligadas. A tranquilidade era visível no verde debaixo de meus pés e no céu sem nuvens. Entrei com minha chave e comecei a procura-la.
— Você me assustou. — eu lhe informei, depois de vê-la em pé do outro lado da piscina. Ela gargalhou e entristeci-me. — Você bebeu? — conteve sua gargalhada. Olhou-me como se estivesse decidindo-se por algo.
— Eu posso consertar as coisas – afirmou, séria.
Com passos lentos e meigos de bailarina, foi caminhando até a borda da piscina. Ela estava tão bonita, vestida de renda branca.
Então saltou na água gelada... Vários círculos se formaram, oscilando até as beiradas. Ela não subiu rapidamente.
Então eu pulei. Fui resgatá-la, ela não poderia afogar-se. Nunca poderia afogar-se...
Quando me viu debaixo d’água, ela sorriu. Peguei-a e ela agarrou-se fortemente em mim, auxiliando-me a retira-la dali.
Novamente sentados com o cheiro da grama molhada a cobrir-nos, eu a ninava como a uma criança. Ela tremia de frio e eu também.
— Não estou mais bêbada, vê? — murmurou. Apertei-a contra meu peito e balancei a cabeça.
— Como um dia eu poderia lhe deixar? — confessei, sim, confessei. Ela sorriu e aconchegou-se mais. Então seus olhos encheram-se de dúvidas.
— Se você não me buscasse, eu me afogaria? — apenas beijei seus cabelos. E desse modo ficamos. Tínhamos nossa paz.
No dia seguinte, já na sala de aula, Gustavo me procurou. Seus olhos brilhavam tristes enquanto verificavam a existência de mais alguém no local. De repente, a mesa entre nós me pareceu intransponível.
— Pensei em ir a uma boate gay. — expôs utilizando-se de um tom sarcástico. Ele trajava cinza e imaginei se não queria camuflar-se. Era o que eles às vezes me dizia. Todavia, ele me espantou. Passos grandes, meu amigo, nos fazem tropeçar.
Não emiti som algum.
— Mas fui a uma normal. — ele me fitou e deu um sorriso desanimado. — E mesmo assim, eram todos tão decadentes, tantas pessoas que já não amam mais nada, que saí. Em meio aquela pegação toda, ninguém parecia capaz de enfrentar a vida... — Deu de ombros. — Eu só queria poder observar a floresta de seu pai novamente...
— Claro. — respondi-lhe delicadamente, e pensando que talvez não fosse a solução correta, continuei — Mas você pode criar sua própria floresta... ou mesmo um jardim.
— É... — ele olhou para seus all stars.
— Eu lhe ajudo. — ele riu baixo. Senti então, um braço envolver meus ombros.
— Eu também quero ajudar... — Kathleen disse suavemente, esticando o braço e passando a mão na cabeça raspada de Gustavo. Ele sorriu.
— Obrigado.
Os dias passaram. As dificuldades ainda surgem e a faculdade já é um fato. A vida, dita toda noite, pacientemente em meus ouvidos:
Amanhã vocês terão de me enfrentar como adultos, e fantasias talvez não adiantem.
Mas nós temos um jardim numa casa abandonada. Nossa floresta-jardim, na realidade, fica nos fundos. A grama verde cobre toda a extensão de terra. Flores arco-íris de papel crepom, molhadas pelas constantes chuvas, espalham suas tintas. Em seus miolos, pequenas lanternas as iluminam. Grandes árvores de papelão firmam-se com pedaços de madeira. Altos troncos marrons, amplas copas verdes.
Eles aparecem. Algumas vezes de azul, em minha homenagem. Eu sabia que ambos estão prestes a desmoronar. Eu deixaria que se escorassem em mim.
Serei a rocha que os manterá com os pés no chão. Aquele que enfrentou furacões e resistiu. Alguém capaz de aguentar terremotos, vulcões e enchentes...
Então que viessem, retirassem de mim o que era preciso.
Suguem-me até que não sobre mais nada. É o que desejo, é o que posso dar. Um porto seguro.
Fale com o autor