Jardim dos Monstros

1 Jardim dos Monstros


As madrugadas sempre foram difíceis pra mim, parece que quando a noite cai, os monstros que vivem em minha mente resolvem se mostrar.

Nem sempre foi assim, mas não sei o que me levou a criar tantos monstros, a cultivá-los como um jardim macabro em meu cérebro. Já fui o tipo de pessoa que não precisava fingir estar tudo bem, porque as coisas realmente estavam indo bem, eu realmente estava feliz, eu sabia o que era ser feliz.

Em algum momento algo aconteceu. Será que foi uma amizade que eu achei que seria para a vida e acabou? Será que foi um amor não correspondido? Ou foi um coração partido? Aquela mentira boba que contei um dia achando que ninguém iria descobrir? Eu realmente não sei, mas também pode ser a soma de todos esses momentos, cada coisinha foi como um pouco de água nesse jardim, foi como alimento para esses monstros.

Essa noite eles resolveram fazer festa, resolveram que iriam torturar cada resto da minha sanidade. Será que eu poderia ter sido mais feliz? Será que ainda poderei ser feliz? Não é como se eu quisesse dar um fim nisso tudo, mas eles me fazem pensar nisso com mais frequência do que eu deveria. Ou será que a frequência que deveríamos pensar nisso não existe? Que pessoas normais não pensam nisso?

Nas ultimas noites eu já morri de tantas formas... Mal sabem esses monstros que eu não tenho coragem de fazer o que eles me fazem pensar. Talvez seja por isso que eles façam isso, para ver até onde eu aguento, até onde eu consigo apenas imaginar o fim e não querer por isso à prova. Já fiz inúmeras listas de como poderia colocar um ponto final, de forma a acabar com isso tudo de uma forma que eu não sofra mais do que eu estou sofrendo.

É engraçado pensar o tanto de dor que eu sinto mesmo morrendo de medo de sofrer, de me machucar. E sabe o que me dói mais? Ser capaz de esconder isso tudo de forma que ninguém conheça esses monstros, que ninguém saiba o que passa em minha cabeça. Eu sou apenas mais uma mulher que parente estar bem, aparenta ser feliz e tem uma vida normal.

Para falar a verdade, durante o dia eu também me vejo assim, não me vejo como a pessoa que eu sou quando estou sozinha na madrugada. As vezes até esqueço que na noite anterior o barulho estava mais alto do que eu conseguia suportar, que eu chorava tentando encontrar o silêncio, pensava em formas de fazer isso parar, questionava se seria tão ruim assim acabar no fim de uma corda, mas as manhãs são melhores, parece que foi tudo uma ilusão, era outra pessoa, era um pesadelo, mas eu sabia que não era.

Meu maior medo é não suportar e ceder. São tantas questões, tantas lembranças que, quando os monstros acordam, parecem ser de outra vida, parecem ter sido imaginadas, pura alucinação. Eu já conheci a felicidade? Eu ainda a reconhecerei se um dia voltar para a minha vida?

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