Jardim de Memórias
1 I - A Garota de Outro Mundo
Notas iniciais
Enfim, esperem que gostem de Sonhos e Estrelas. É um projeto muito querido para mim.
Aquela era uma cena engraçada para Hans Falkhart.
Prostrado em cima do telhado de uma casa, assistia calmamente o rebuliço na vila de Abrótea. Ali de cima, conseguia ver perfeitamente o fim da vila, a estrada que a cortava no meio seguindo para a direção onde o céu já começava a perder suas estrelas. Podia ver onde começava a floresta que rodeava o local e ouvir o murmúrio do rio que ficava três casas atrás de onde estava.
Mais importante, podia ver os guardas procurando por ele lá embaixo.
— O perdemos de vista, senhor! — anunciou um deles, logo abaixo, e Hans teve de segurar uma risada que certamente o entregaria. Se eles apenas soubessem que o ladrão que procuravam estava logo acima de suas cabeças...
— Continuem procurando! — respondeu o outro. — Aquele rato sorrateiro vai ter o que merece!
E saíram dali, continuando com sua busca. Quando sumiram de vista, Hans se permitiu rir baixinho enquanto avançava na direção oposta à deles, pulando de telhado em telhado.
Pulou na grama logo nos limites da vila, fugindo do amanhecer e se adentrando na noite. Concentrou sua energia em um dos vários anéis de prata do seu dedo, moldado e encantado para dar velocidade ao seu usuário, e correu para o interior da floresta, para longe dos guardas, longe de seus crimes cometidos ali, longe.
O sol ainda não tinha despontado quando ele chegou naquela clareira, a uma distância que considerava segura. Sem o auxílio de magia como o que ele teve, provavelmente levaria algumas horas até que alguém o alcançasse ali, e os guardas tolos certamente ainda acreditavam que ele se encontrava na vila.
Sentindo-se seguro, permitiu-se relaxar e desceu o capuz que cobria seu cabelo platinado e as orelhas pontiagudas, e começou a contar as moedas e analisar as joias que tinha coletado naquela noite.
Um murmúrio vindo atrás de si chamou sua atenção. Em alerta, para o caso de ser alguém que poderia entregá-lo para os guardas – ou coisa pior –, olhou por cima dos ombros, tentando enxergar qualquer forma no meio das sombras. O sangue élfico que tinha em suas veias, ainda que ralo, o permitia enxergar bem mesmo com a luz fraca do alvorecer.
Por que tinha uma garota deitada ali?
A mente de Hans logo foi para as piores possibilidades possíveis, e sentiu seu coração parar ao pensar o que poderia ter acontecido com ela. Mas logo sentiu alívio ao perceber que ela estava respirando, sem nenhum sinal de agressões e roupas intactas.
Roupas essas que eram as mais estranhas que ele já tinha visto.
Aquelas vestes... Hans não se lembrava de ver nada parecido, e isso porque ele já vira coisas bastante bizarras em seus 19 anos de vida. Aquela calça era de um tecido diferente, que parecia desconfortavelmente pesado, e os sapatos tinham um formato esquisito, apesar de parecerem estranhamente confortáveis.
A garota murmurava em seu sono. Palavras soltas chegavam a seus ouvidos sensíveis, como “professor”, “tia” e nomes que nada lhe diziam respeito.
Foi nesse momento em que ela acordou, olhos verdes que o encaravam de forma confusa, perdida.
— Quem é você? — Ela perguntou, a voz ainda um pouco embargada com o sono.
— Eu... — Começou a responder, antes de perceber que aquela talvez fosse uma péssima ideia. Estranha ou não, tinha grandes chances de reconhecer o seu nome e entregá-lo para os guardas em seu encalço. Ou pior. — Acho que eu deveria estar perguntando isso.
— E que lugar é esse? — Ela continuou, sem prestar atenção em sua resposta. — Por acaso foi Sofia que...
Antes de terminar a pergunta, ela olhou bem ao seu redor, percebendo onde estava. Hans notou o medo nos olhos quando ela se virou lentamente para ele.
— Onde eu estou?
Hans arqueou uma das sobrancelhas e olhou de relance para as árvores ao redor deles. Não restava muito espaço para dúvidas sobre que lugar era aquele. Sem esperar por qualquer resposta dele, a estranha garota se levantou, e correu para os limites da clareira. Hans preferiu continuar onde estava.
— Não... — Hans a ouviu murmurar, a voz saindo apenas em um fio, enquanto ela encostava em uma das árvores. — Não pode ser... Eu... Eu estou mesmo aqui! — E riu alto, dando pequenos pulos de alegria. — Eu estou...! Será que é um sonho? — Ela beliscou o próprio braço, com tanta força que soltou um gemido de dor. E logo voltou a rir, rir e rir, no mais estranho deleite que ele já testemunhara. — Não é um sonho! É verdade, verdade! — De repente, parou, encarando um ponto vazio na clareira. — Essa não. Eu não devia... Oh céus, oh céus, o que eu faço?!
Aquilo tudo o confundia muito. Do que, em nome dos deuses, ela estava falando?
— Espere, espere um pouco! — Hans disse, chamando a atenção da garota para si. – Do que você está falando? Quem... Quem é você? De onde você veio para estar... Assim?
A estranha o encarou, absorvendo a pergunta. Já amanhecia, e a luz que começava a banhar o bosque parecia formar uma áurea dourada ao redor dela, tingindo os cabelos escuros de vermelho. Ela mordeu o lábio inferior, com um sorriso sem graça, e uma fenda se formou nas sobrancelhas enquanto ela refletia na pergunta.
— Eu sei que vai soar muito estranho, mas... – Disse de forma tímida. Respirou fundo, ajeitou a postura, e olhou diretamente para ele quando continuou. – Meu nome é Alice Rosa, e eu vim de outro mundo.
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