Notas iniciais
o penultimo capitulo

— Pérola, Pérola!Pérola acordou sobressaltada, ainda sem entender direito onde estava, havia dormido, mas como? Quanto tempo dormiu? Lá fora Connie batia contra o vidro da van, parecia aflita, na verdade desesperada.- Hã Connie? – Bocejou ela ainda zonza abrindo a porta do veículo.- o que foi?- Minha mãe foi chamada para emergência aqui na cidade – disse muito nervosa – uma coisa horrível.Pérola sentiu o cabelo arrepiar o que seria? Steven não era, senão ela já tinha falado. Será que deu certo? Mais desperta, não estava interessada nas aflições de Connie e sim em se o seu garoto retornou. Se Steven voltasse, teria de se defrontar com duas possibilidades. Na primeira, via Steven retomando como Steven, talvez atordoado, de raciocínio lento ou mesmo retardado (só no mais profundo de sua mente esperava que Steven voltasse sem alteração, exatamente como fora — mas, sem dúvida, mesmo isso era possível, não era?), mas ainda seu Steven, o filho de Rose. Na segunda alternativa, via uma espécie de monstro emergindo do jardim de infância. Passara a aceitar tanta coisa que já não rejeitava a ideia de monstros, seres perversos e incorpóreos do além, capazes de se apoderar de um corpo reanimado do qual a primitiva alma tivesse escapado.- você tem que vir.- pediu a garota puxando-a pelo braço — quando vi a van pensei que fosse o Greg, ia pedir para me levar até o templo para chamar uma de vocês...

— Calma, está bem vou ver o que foi – concordou um tanto contrariada acompanhado a menina.

Quando chegaram em frente ao Big rosquinha uma multidão já se aglomerava na porta. Lá dentro a senhora Maheshwaren estava abaixada examinando alguma coisa nos fundos da loja.

A mãe de Connie estava desconcertada, nunca tinha visto nada parecido. Então Pérola entendeu o motivo de Connie estar tão desesperada.Dois corpos no chão quase que irreconhecíveis, parecia que suas carnes haviam sido sugadas dos ossos, covas dos olhos vazias, havia sangue, muito sangue. Perola levou a mão a boca em reconhecer o casal infeliz.- Não sei como explicar isso – disse a doutora Maheshwaren intrigada enquanto examinava os corpos com cautela – parecem que foram sugados até os ossos, já viu algo assim?- Nunca – respondeu Pérola, e era verdade, durante sua existência nunca viu algo como aquilo – pobres coitados... – mas sua frase morreu no meio do caminho seus olhos se arregalaram quando viu as pegadas de lama no piso da lanchonete, ninguém reparou naquilo? Ela reconheceria aquelas pegadas em qualquer lugar – Steven... – murmurou eram pegadas de Steven, Steven tinha estado lá, tinha estado lá enquanto ainda era noite, e, portanto, onde estava agora?- O que disse? – Perguntou a doutora. — Nada! – Desconversou Pérola, tentando manter a calma, Steven esteve ali, para onde foi? Olhou novamente os corpos desfigurados e estremeceu, será que tinha algo a ver com aquilo? Ou uma macabra coincidência?- com certeza alguma coisa muito perigosa fez isso com eles – disse Pérola tentando dizer sem trair sua voz, Steven seria capaz de tal coisa? Não! Mas parece que de repente a voz de Peridot soou em seus ouvidos. “ Nada de lá volta como antes”. — Eu vou falar com Garnet talvez ela saiba melhor...- disse inventando uma desculpa qualquer e se afastando – eu vou ver. – deu as costas apressadamente abrindo caminho no meio da multidão.Um pouco mais distante, se encostou num muro para ganhar folego, se sentia extremamente exausta, aquele lugar... aquele lugar a deixou assim, não era comum ficar tão cansada daquela forma. Mas seus pensamentos voltaram em Steven, onde ele estava? As pegadas, era lama da árida terra do jardim de infância, com certeza.- Tudo bem com você?- Aaahhhh – gritou ela levando um susto, era Connie que havia a seguido e estava logo atrás dela.- não faça isso! – Bronqueou – claro que estou bem... apesar daquela cena terrível...Connie não estava acreditando muito nela quando ia abrir a boca para dizer isso seu celular começa a tocar. Quem seria? Quando verifica o número vê que era o número de Steven, será que alguém no templo querendo falar com ela? Atendeu seus olhos quase saltaram das orbitas quando ouviu quem falava.- Alou Connie? – Era a voz de Steven do outro da linha – quer vir brincar?Instintivamente ela solta o aparelho, que caiu no chão sem desligar. Pérola pega imediatamente o telefone.- Alo?- Olá Pérola – a voz dele soou animada – estava chamando a Connie para viram brincar comigo aqui no farol. Eu já brinquei com o Lars, com a Sadie, depois com meu pai aí a Peridot veio e eu brinquei com ela também. – Riu divertidamente – você quer vir brincar também?- Steven... o que... você fez? — Perguntou Pérola pausadamente tentando manter o controle, do outro lado da linha ouviu um riso – O QUE FOI QUE VOCÊ FEZ? – Gritou dessa vez, a risada soou mais alta e o telefone ficou mudo.A respiração dela estava arquejante, o peito subia e descia descontroladamente, ele tinha feito alguma coisa muito ruim. Os corpos na lanchonete! Ele fez aquilo. Peridot estava certa? Oh céus Peridot! Greg! Tinha que ir até eles. Cobriu o rosto com as mãos e sentou-se por algum tempo, um débil som de desespero lhe saindo pela garganta.- Pérola — era a voz de Connie. Distante. Um misterioso som de pombos ecoando nos ouvidos dela. —Pérola? Mais perto agora. Alarmada. O mundo voltou a entrar em foco. — Você está bem? E aquela voz? Aquela era a voz do Steven!- Greg e Peridot correm perigo – foi a única coisa que conseguiu falar seus olhos percorreram a rua até encontrarem o carro da mãe da Connie. – Preciso ir até o lava-rápido do Greg.- O carro da minha mãe- Connie parecia ter a mesma ideia- estou com as chavesPérola pegou as chaves da mão da menina e entrou no carro, Connie pulou para o banco do passageiro.- Não Coonie – avisou – é perigoso.- Eu não saio daqui sem você me explicar o que está havendo. Ela não tinha tempo para argumentar, acelerou o carro com a menina junto, o pneu cantou e ela se dirigiu o mais rápido possível até o lava-rápido de GregDurante o percurso tentou concentrar todas suas faculdades e suas forças. Mas Connie não parava de perguntar.- Pérola por que Steven estava naquele telefone, o que está acontecendo, me fala! – agora a garota esbravejava quase histérica. – O que está acontecendo!?- Chega! Está bem, eu falo! – Gritou Pérola de um modo que a menina se encolheu no banco assustada. Ela pronunciou a palavra seguintes com um imenso cuidado – Era o Steven, sim! A boca de Connie abriu numa exclamação muda, Pérola continuou, as lagrimas já correndo pelo rosto sem sinal de ceder.- eu... levei Steven... para o jardim... De infância. – Suas palavras agora eram intercaladas por soluços- enterrei –o lá na esperança que voltasse para nós. Peridot me alertou, mas eu nem quis saber, a dor da ausência dele era demais para mim, estava desesperada....Parou o carro encostou a cabeça no volante e continuou a chorar.- Alguma coisa deu errado! O que foi que eu fiz? O que foi que eu fiz? — Repetia entre as lágrimas as mãos segurando a cabeça agarrando os próprios cabelos.- Calma Pérola – disse Connie, seus olhos também haviam lagrimas – vamos resolver isso.O semblante de pérola se tornou sério, nunca imaginou que diria uma coisa dessas mas declarou com veemência.- Vamos acabar com isso! – Acelerou o carro em direção ao lava rápido de Greg. Quando finalmente chegaram, Pérola desceu do carro Connie logo atrás começaram a chamar.- Senhor universo? – Chamou Connie. Apenas silêncio.

Do outro lado do recinto Pérola viu a mangueira caída, a agua escorria molhando todo piso, então ela viu as pegadas novamente. Com o coração batendo forte, Pérola seguiu as marcas. Contornou o carro do prefeito e viu os pés de Greg abertos no chão, as calças azuis velhas que usava em casa, a camisa regata. Estava esparramado no meio de uma grande poça de sangue já quase coagulado. As mãos de Pérola bateram com força nos olhos, como se quisessem tirar-lhe de vez a visão. Mas era impossível não ver. E ela viu os olhos, os olhos abertos de Greg, acusando-a,

— Oh, Greg, sinto muito — ela sussurrou. Os olhos brancos de Greg a fitavam. — Sinto muito — Pérola repetiu. Seus pés pareceram caminhar sozinhos e de repente sua mente estava de volta ao dia do funeral de Steven, o rosto chocado de Greg pela briga entre ela e Ametista. Agora isso, chegou tarde demais para ele. Connie chegou logo atrás ao ver a cena soltou um grito aterrorizada, se agarrou a Pérola afundando o rosto contra o peito dela querendo fugir daquela imagem.

— Oh, céus – arquejou num gemido sufocado – o que foi isso! Quem fez isso?

— Steven – limitou-se a dizer a gem. Sempre lembrando dos dizeres de Peridot “ ficam traiçoeiros, não voltam como antes...” então lembrou também de Peridot!

— Onde ela está, Peridot?- chamou Pérola, em vão.- Pérola ali – disse Connie com a voz esganiçada apontando para o chão.

Pérola então, viu algo brilhando reconheceu a gema de Peridot, pegou a pedra tremula, porem em seguida a pedra se desfez em pó e escorreu entre os dedos delas carregado pelo vento. Os joelhos de Pérola vergaram e ela se deixou cair no chão. Tremia violentamente

— Oh, Peridot – as lágrimas formaram uma nevoa nos olhos de Pérola embaçando a visão dela – você me avisou e eu não escutei, o que eu fiz? O que eu fiz? — Podia sentir sua lucidez começando a escapar tinha que agir antes que a loucura tomasse conta dela.

Se levantou decidida. Pegou uma toalha e cobriu o corpo de Greg, Connie chorava convulsivamente, estava muito confusa como Steven, seu querido Steven poderia ter feito uma coisa dessas? Contra seu próprio pai? Seus amigos?

— Essa coisa não é o Steven – disse Pérola como se tivesse lido os pensamentos da garota – é uma coisa, uma coisa morta — ele precisa voltar a dormir...- Como? Num lampejo, lembrou que a maleta da mãe de Connie estava no carro, correu até lá, será que tinha o que ela procurava? Sim, tinha o que ela procurava, no meio dos medicamentos encontrou seringas de injeção e três ampolas de morfina, cada dose o suficiente para matar um cavalo.Você arranjou a coisa, ela é sua, e o que é seu acaba sempre voltando as suas mãos... – pensava Pérola enquanto enchia as seringas com o medicamento -Mais dia menos dia abriria uma porta e lá estaria Steven, uma paródia demente do antigo eu, sorrindo um riso encovado, o castanho dos olhos transformado num amarelo de dolorosa estupidez. Ou Ametista abriria a porta do banheiro para o banho matinal e lá estaria Steven dentro da banheira, o corpo salpicado das cicatrizes e calombos de seu acidente fatal, lavado, mas com o fedor do túmulo. Oh, sim, aquele dia viria, não tinha a menor dúvida.Não podia deixar Connie no lava-rápido fazendo companhia para o corpo sem vida de Greg, tinha que leva-la junto para o farol.Estava calada enquanto guiava o veículo, mas sua cabeça estava a mil. Pensamentos lhe assaltavam a mente sem parar. — Como pude ser tão imbecil? — Gritou para a si mesma, não se importando de estar outra vez falando sozinha ou com Connie. — Como? Trouxe o Steven de volta, mas antes dele reviver foi tocado por uma coisa cujo toque despertou os mais horríveis apetites. Mas tenho de dar um jeito nisso, não é? Sim. Claro que sim. Tinha de pensar em Steven. Steven ainda estava lá fora. Em algum lugar lá fora.

Quando chegaram ao farol o tempo começava a mudar outra tempestade se aproximava, o vento soprava forte, nuvens carregadas escureciam o céu.

— Era o que faltava – suspirou Pérola sentindo os primeiros pingos de chuva assim que saiu do carro — Connie não saia do carro – ordenou se eu não voltar em meia hora vá para o templo e avise as outras.

— Não seria melhor pedir ajuda agora? – Questionou a menina preocupada.

— Não – respondeu sem nenhuma dúvida – ele é um problema meu, eu fiz isso eu resolvo- e levou a mão a cintura onde guardada as seringas com a morfina. Deu uma última olhada em Connie, e percebeu o quanto a queria bem, que não sofresse mais que havia sofrido com o acidente de Steven, não queria que ela presenciasse mais uma vez a morte do amigo mais que querido.- eu vou voltar, prometo. – Correu em direção ao farol.

Quando abriu a porta, a tempestade desabara do lado de fora, os raios cortavam o céu e o trovão não se fazia esperar. Com a luz da sua gema Pérola vasculhou o primeiro andar do recinto. Suspirou fundo, como uma guerreira gem que viveu muitas batalhas , sentia que poderia matar Steven (se Steven fosse apenas um recipiente contendo a alma de algum outro ser) com bastante facilidade. Não se deixaria levar por súplicas ou artimanhas. Seria capaz de matá-lo como mataria um rato transmissor de peste. Não precisava haver melodrama na coisa. Assim ela acreditava

— Steven? – Chamou – Steven eu cheguei – continuou, mas não houve nenhuma resposta.

Continuou sua busca subindo as escadas para os outros andares da torre, sempre atenta para mais nenhuma surpresa. Um silencio mortal reinava na torre deserta, apenas rompido pelo murmúrio do vento e da chuva que crescia lá fora.

Connie sentada dentro do carro, torcia a mão nervosamente, ainda estava processando tudo o que estava acontecendo, a imagem de Greg caído numa poça de sangue, a cena da lanchonete, a pedra da Peridot se esfarelando. A chuva grossa formava uma cortina densa quase não dava para ver o farol. De repente um clarão de relâmpago iluminou o farol e toda sua extensão revelando um vulto obscuro do lado de fora.

— Pérola? – Murmurou incerta, mas sabia que não era.

Não estava se sentindo segura no carro, pegou a lanterna no porta luvas, abriu a porta e correu em direção ao farol, castigada pela chuva que caia. Chegou até a porta e fechou atrás de si, ofegante.

— Pérola? – Tornou a chamar, mas não muito alto, como se não quisesse chamar a atenção de mais alguém. Correu a luz da lanterna por todo o recinto, mas era insuficiente.

De súbito surgiu na sua frente o mesmo vulto que vira lá fora.

Um involuntário “oh” escapou de seus lábios quando ela recuou um passo, e caiu de costas contra uma parede, deixando a lanterna escapar de suas mãos. Até onde era possível ver na penumbra reconhece a forma distinta que se projetar no seu campo de visão.

— Connie você está bem?

Era Steven, tinha sujeira por todo o corpo e manchas de lama subindo pelas calças. O cabelo estava imundo, todo enroscado e cheio de nós. Ele simplesmente estava ali. Pela bruxuleante luz da lanterna caída ela pode vislumbra-lo, ele sorria gentilmente para ela, seu rosto não estava sujo, mas nojento, salpicado de sangue. E parecia inchado, como se depois de sofrer ferimentos terríveis tivesse sido colado por mãos rudes, relaxadas.

Estendeu a mão afim de ajudá-la a se levantar. A garota se encolheu contra a parede assustada. Ele olhava com doçura para ela, a mão estendida. Não podia crer que a vida havia abandonado aquele corpo, era ele sim seu querido e amado amigo.

— Ei Connie vai me deixar esperando? — Ele deu uma piscadela, num inexprimível poder de sedução Connie não conseguiu recusar a mão estendia a ela . Quando segurou na mão fria , sentiu puxa-la com uma força que ela desconhecia nele. Ele apertou o corpo dela contra o seu num abraço firme, mas continuava com uma das mãos atrás das costas, como se escondesse um buquê de flores colhido em algum fundo de quintal.

Então ele fitou a garota por alguns segundos, ela pode perceber que agora ele a olhava de um jeito tão angustiado, alguma coisa lutava dentro dele por trás daquele olhar. Uma lagrima brotou no canto de um dos olhos dele.

— Me perdoa Connie – sussurrou junto ao ouvido dela – eu lamento muito, não queria...me perdoa... me perdoa...

Então a mão saindo de trás das costas. Connie viu o que estava escondendo desde que entrou. Era um canivete, o canivete de Lars. Ela percebeu então a extenção daquele gesto. Seu amargo grito de dor se perdeu dentro do som de um trovão.

Connie ainda presa no abraço mortal de Steven, sentiu um calor escaldante quando a lamina fria do canivete se alojou em seu estomago. A dor começou abaixo do peito, percorreu todo o corpo e os olhos umedeceram. Caiu para frente ...lutando contra a dor, a mancha de sangue crescendo em seu vestido. Ela ainda pode ver o olhar aflito de Steven, como se não quisesse fazer o que estava fazendo. Até que sua fisionomia muda completamente e os olhos iluminados de uma alegria insana, imóveis e amarelos sorrindo e sibilando.

—Acabou, minha querida.