Jardim de Infância Maldito
12 Fazer o que deve ser Feito.
Notas iniciais
Pérola já estava no farol, a parte mais alta da torre e não encontrou ninguém, será que ele foi para o templo? Devia ter avisado as outras, viu o carro parado lá embaixo e percebeu que não tinha ninguém dentro!
— Connie...! – exclamou – então escutou um som vindo de baixo, teve um pressentimento muito ruim repentinamente. Desceu a escada correndo, tinha que ir até o carro confirmar se a garota estava ainda lá. Quando chegou ao térreo correu para porta, mas antes que chegasse ela se virou e foi contemplada pela visão da garota. Estava estendida no corredor, morta, as pernas esparramadas como as de Greg, as costas e a cabeça esticadas contra a parede. Parecia alguém que tivesse dormido enquanto lia na cama. Ela se abaixou.
—Oh, meu bem, você saiu do carro...
O sangue se espalhava na parede em formas absurdas. Fora atacada uma dúzia de vezes, vinte vezes, quem podia saber? O canivete cumprira sua missão.
E subitamente ela tomou consciência do que estava vendo, conseguiu realmente enxergar o que tinha diante dos olhos... e começou a gritar. Os gritos ecoaram, vibraram com estridência por uma torre onde, só a morte vivia e caminhava. Olhos esbugalhados, face lívida, cabelo arrepiado nas pontas — gritava; o som brotava na garganta dilatada como sinos do inferno, guinchos terríveis que assinalavam o fim da lucidez. Em sua mente, todas as imagens hediondas soltaram-se ao mesmo tempo. Greg morto no chão do lava-rápido, a pedra de Peridot se desfazendo em pó, o chinelo de Steven no meio da rua, cheio de sangue, Coonie não fora apenas morta. Tinham feito mais alguma coisa... tinham feito mais alguma coisa com ela!
De algum lugar nas sombras veio uma risada. Um frio e mórbido riso que fez a pele de Pérola formigar em suas costas. Faça o que deve ser feito! Veja só tudo que você causou!
— Steven, quer ir para a casa comigo?
Aquele riso de novo, então da penumbra surgiu o garoto que estava parado debaixo da escada caracol.
Era ele! Pérola ergueu os olhos entorpecida, o grito ainda tremendo na garganta e, enfim, lá estava Steven, a boca manchada de sangue, o queixo pingando, os lábios repuxados num sorriso infernal. Trazia o canivete numa das mãos pronto para atacar.
— então Pérola ? – começou a falar – Como se sente fazendo parte disso tudo? Nada disso seria possível se não fosse você! Nossa que idéia idiota , não Pérola querida?
— Foi um problema de dor, não de imbecilidade. – respondeu ela a mão tocando disfarçadamente a cintura onde tinha uma surpresa para ele -Há uma diferença... pequena, mas fundamental. Eu esperava que meu Steven voltasse e não isso.
— é minha querida Pérola, voltei aqui estou. A bateria daquele jardim de infância está em bom estado. E agora estou aqui como você quis! – e avançou contra Pérola.
Mas quando quis dar o primeiro golpe, Pérola o empurrou num reflexo instintivo. A lâmina passou rente a seu rosto, mas Steven cambaleou. Num movimento rápido, deu-lhe um chute no pé, ele caiu pesadamente e, antes que conseguisse se levantar, Pérola estava a cavalo sobre ele, um joelho imobilizando a mão que segurava a lâmina.
— Não — a coisa arquejou. O rosto se torcia, se contorcia. Os olhos eram de inseto, um olhar maligno cheio de uma raiva estúpida.
Pérola agarrou com força uma das seringas. Teria de ser rápida. A coisa sob ela era como um peixe ensebado, e por mais que lhe dobrasse o pulso, não largaria o canivete. Aquele rosto parecia ondular e se alterar. Ora a face de Greg, morto de olhos abertos, ora o rosto de Connie, os olhos rolando estupidamente dentro das órbitas; ora, como se estivesse diante de um espelho, era seu próprio rosto o que via, um rosto horrivelmente pálido, enlouquecido.
—Não, não, não-não-não... A coisa deu um tranco sob ela. A seringa caiu-lhe das mãos e rolou pelo chão. Ela pegou outra e enfiou-a com decisão no fundo das costas de Steven.
Steven berrava, o corpo retesado, escorregando, quase escapando. Com um estranho grunhido, Pérola pegou a terceira seringa e aplicou-a no pescoço de Steven, calcando o êmbolo até o fim. Saiu então de cima dele e começou a recuar lentamente pela sala.
Steven se levantou devagar e começou a cambalear em sua direção. Cinco passos, e o canivete lhe caiu da mão. Atingiu o chão com a lâmina e ficou cravado na madeira, vibrando. Dez passos, e aquela estranha luz amarela em seus olhos começou a apagar. Uma dúzia, e ele caiu de joelhos. Então Steven ergueu os olhos e, por um instante, Pérola viu seu garoto, seu Steven real, o rosto amargurado e cheio de dor.
— Pérola! — Steven gritou e depois caiu de frente, batendo com o rosto no chão.
Pérola ficou um instante imóvel, depois se aproximou, cautelosa, esperando algum truque. Mas não houve truque, nenhum salto repentino com as mãos arreganhadas como garras. Levou os dedos com perícia pressionando o lado da garganta de Steven, encontrou o pulso e deteve-se nele. Ficou sentindo o pulso, sentindo até não haver mais nada, nada por dentro de Steven, nada por fora.
Quando por fim estava tudo acabado, Pérola ficou de pé e se afastou até um canto afastado. Agachou-se lá, encolhendo-se como uma bola, apertando-se muito, muito, contra a parede. Ficou assim por mais de duas horas... E então, pouco a pouco, uma ideia sombria, mas sem dúvida plausível, apoderou-se dela. Pérola se pôs de novo (ei, iá, vamos lá) em movimento.
No cômodo de cima pegou um lençol e levou-o para baixo, em direção a Connie. Embrulhou o corpo da garota carinhosamente. Depois pegou um galão de gasolina que tinha no último andar. Derramou um pouco por lá. Depois passou para a sala com a lata ainda inclinada, borrifando gasolina no tapete, no sofá, fez o mesmo por todos os cômodos .O cheiro era forte e penetrante. Os fósforos estavam ao lado de uma mesa. Pérola pegou-os. Caminhou para a porta da frente, atirou um fósforo aceso pelo ombro e saiu. A rajada de calor foi imediata e muito intensa, fazendo o seu cabelo chamuscar.
A chuva terminara, a tarde estava acabando e a noite ia começar, ela carregou Connie até o templo. Ametista a viu chegar mas percebeu o fogo na casa do farol.
— O que está acontecendo? — Quis saber — o que é isso? — Perguntou quando viu aquele estranho embrulho manchado de vermelho.
Pérola nada disse a boca se crispou. Daí a um instante, Ametista percebeu que ela estava tentando sorrir.
— Ametista — disse num tom rouco, hesitante. — Olá, ametista. Vou enterrá-la. Tenho de fazer isso sozinha, eu acho. Pode demora até o anoitecer. O solo lá do jardim de infância é muito pedregoso. Sei que você não vai querer me ajudar, não é?
Ametista abriu a boca, mas nenhuma palavra saiu. Apesar da surpresa, apesar do horror. Não estava entendendo a Pérola ...
— Pérola — conseguiu falar num tom de grunhido —, o que aconteceu? Meu Deus, o que aconteceu?
— Esperei muito tempo com Steven — disse Pérola indo em direção ao transportador — Alguma coisa tomou conta dele porque esperei demais. Mas vai ser diferente com Connie, Ametista. Sei que vai.
Pérola cambaleou um pouco e Ametista percebeu que a amiga enlouquecera... com toda a clareza. Pérola estava louca e profundamente exausta. E só o cansaço lhe parecia pesar na mente desnorteada. A garota, enrolada num lençol ensanguentado, estava em seus braços.
— Vou me transportar para o portal mais próximo do jardim de infância – explicou com uma naturalidade insana. Ela falava de um modo de que certa forma, enterrar alguém lá no jardim de infância não parecia errado, parecia ...muito natural. E sumiu pelo portal.
Ametista aterrorizada, não sabia se ia atrás de Pérola ou se corria para a casa no farol acudir o incêndio.
Chamou Rubi , que estava no quarto de Safira para contar o que acabou de acontecer. Quando entrou , viu Rubi tentando reanimar Safira que estava inconciente no chão.
— ela simplesmente desfaleceu- disse preocupada – antes disse algo, sobre uma tal barreira ser atravessada novamente.
— fica com ela vou atrás da Pérola.- disse Ametista sem saber onde ela foi e qual transportador ela usara. Não lembrava qual era o mais perto do jardim de infancia.
Pérola sabia que Ametista não viria tão cedo atrás dela, pois destruiu o transportador, mais próximo do Jardim. E seguiu em frente com o pequeno corpo nos braços.
Quando voltou , não foi ao templo, foi direto ao farol, que estava semi destruído pelo incêndio. Ninguém a procuraria ali, e esperou. Jogou cartas sozinha até bem depois da meía-noite. Estava começando uma nova rodada quando ouviu a porta de trás se abrir.
Você arranjou a coisa, ela é sua, e mais cedo ou mais tarde acaba voltando às suas mãos, Pérola pensou. Não se virou, continuou olhando as cartas, enquanto os passos lentos, rangentes se aproximaram. Os passos cessaram bem nas suas costas. Silêncio. A mão fria caiu no ombro de Pérola. A voz de Connie era um chiado que parecia cheio de terra.
— Olá, Pérola— disse a coisa.
Fim.
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