Jardim Secreto

1 Capítulo Único


Notas iniciais
Ei, amores! Este é um texto inspirado em um de meus poemas, “Neste Jardim Rubro”, postados num só jornal no site Spirit Fanfics. Para quem estiver interessado em ler deixarei o link dele nas notas finais. Enfim, boa leitura!

Jardim Secreto – Capítulo Único

Escrito por @Moonkiss

O coração dela era um jardim secreto, e os muros em volta eram muito altos.

The Princess Bride, William Goldman.

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O céu havia atingido o mais genuíno tom de azul que já vira; forte e singelo, parecendo o desenho de uma criança pequena que rabisca com força o lápis de cor no papel. Nenhuma nuvem foi capaz de roubar a cena naquela manhã de primavera. Sentiu os olhos arderem com a luminosidade do Sol e os estreitou até aliviar um pouco a dor, mas adorava o modo com que os raios acaloravam-lhe a pele. Então abaixou minimamente a cabeça e observou por alguns segundos as diversas tonalidades vermelhas do roseiral de sua mãe. Nunca soube por que as rosas carmesins eram suas favoritas, considerava a preferência um tanto clichê. Satisfeita diante daquela bela visão, Helena retirou as sandálias simples e as largou ali mesmo na porta dos fundos da casa, prestes a caminhar em direção ao jardim.

Cada passo era fundo e confiante. A sensação de ter a grama verdejante fazendo cócegas em seus pés a agradava, como se estivesse conectada à natureza. Os dedos de Helena alisavam as flores conforme ela andava, de vez em quando sorrindo, apenas apreciando a textura suave e o aroma adocicado delas. Por fim chegou ao centro do roseiral e sentou-se de um jeito cauteloso entre as plantas, em seguida deixando a coluna ser vagarosamente puxada para o chão. Ao suspirar, a jovem fechou as pálpebras e cruzou as mãos atrás da nuca, permitindo-se viajar para outra dimensão.

Helena aproveitava os momentos em que a mãe saía para cumprir seu ritual diário. Executava rapidamente seus afazeres e corria ao jardim, sempre no intuito de relaxar a mente como numa terapia. Na maioria das vezes via-se perdida em meio a um turbilhão de pensamentos, fundindo-se a eles e tornando-se mais uma parte daquela bagunça.

Achava que ela mesma não fazia sentido, tal qual um livro de páginas em branco. Já tinha tentado escrevê-las, porém, não conseguia encontrar palavras capazes de descrever o caos dentro de si. Talvez se tivesse alguém de extrema confiança para compartilhar seus devaneios se sentiria menos sobrecarregada. O problema era que, após uma série de acontecimentos desagradáveis, Helena não confiava mais totalmente nas pessoas. Sequer sentia-se à vontade para falar sobre seus sentimentos ou opiniões. Aprendera ao longo do tempo que alguns seres humanos precisam somente de uma brecha aparentemente insignificante para destruírem almas.

Abriu os olhos com cautela devido à luz solar e virou-se para o lado direito. A partir daí começou a admirar uma rosa que se destacava entre as outras, tão linda que sentia o brilho no próprio olhar ao fitá-la. Era grande, rubra tal qual o sangue, e o caule espinhoso de um verde absurdamente vivo. Quase cometeu o crime de arrancar a flor com a intenção de colocá-la em um pequeno vaso na janela de seu quarto, no entanto, teve a consciência de que uma obra-prima não deve ser deturpada. A moça então, com ar de uma curiosidade infantil, tateou a planta minuciosamente a fim de conhecer sua anatomia.

De repente sentiu uma dor aguda na ponta do indicador, entretanto, permaneceu inerte. Algo líquido em fração de segundos percorreu a palma de sua mão, o que a fez verificar. Era óbvio que Helena deveria conter o sangramento, contudo, ficou apenas observando a seiva escarlate descer lentamente. Por um súbito e estranho interesse, resolveu tocar a flor com precisão outra vez.

Os espinhos perfuravam-na, mas as pétalas macias lhe proporcionavam afago. Helena deitou de bruços para brincar com mais conforto. Enquanto estudava a corola, subitamente viu-se naquela rosa: árdua e doce, oscilando entre suas duas versões. Uma delas acalentava a quem ela amava, já a outra afastava as pessoas. Por vezes seus defeitos eram vistos de longe ao passo que possuía distintas qualidades que só ela sabia que tinha. A pequena mulher comprimiu os lábios, contornando com o dedo espetado a borda denteada de uma das folhas.

Sabia que ninguém sai ileso de uma luta; todos absorvem uma experiência diferente vivenciada no campo de batalha, mas cabe a cada um adquirir uma reação boa ou ruim depois da carnificina. Uns passam a atacar e exterminar, outros a proteger e curar. Helena era do tipo de gente que já vivera um longo e doloroso processo até amadurecer. Uma boa porcentagem de suas falhas havia sido extraída das feridas que lhe foram atribuídas durante a trajetória. Plantara flores de várias espécies naqueles hematomas da vida e reconhecera finalmente que para sarar um ferimento é necessário parar de cutucá-lo. Todavia um coração machucado é como cimento fresco: caso alguém pise, a marca sempre estará lá, mesmo que o material fortaleça-se.

Em frente àquele fato, Helena exalou um suspiro novamente. A dor que sentia em virtude do machucado se intensificou, soava tal qual uma nota musical aguda. Mas não se abalou, já que estava acostumada a espetar-se com as rosas. Embora conseguissem feri-la, de alguma maneira enigmática, eram naquelas flores as quais ela encontrava a mais sincera companhia. Não entendia a razão de se sentir melhor ao lado delas ou de animais do que com humanos. Provavelmente porque junto à natureza tinha a sensação de liberdade, de expor seu verdadeiro eu sem que algum indivíduo tirasse proveito disto ou a julgasse uma estranha. Seus livros também lhe propiciavam a jornada ao universo que criara, onde os problemas sociais não existiam, o meio ambiente era preservado e o amor ainda estava acima de tudo.

Regularmente sentia falta de compartilhar ideias. Amava os poucos amigos que possuía, porém, não ajustava-se no meio deles ou sempre surgia algo que a fazia evitar desabafar. Helena não era antissocial. No decorrer dos anos ela havia desenvolvido a capacidade de se adaptar à solidão, logo não encarava como um infortúnio o fato de ser um lobo solitário. Contudo, vez ou outra seria legal conversar, manter uma conexão mental com alguém. Em geral as pessoas só falam.

Posto isso, a jovem obscuramente sentia um profundo prazer em sangrar. Aquele roseiral servia de consolo para Helena, sempre disposto a ampará-la em seus estados de agonia. Melancólica, sentou-se de pernas cruzadas e limpou o sangue na sua roupa, dado que não tinha mais onde enxugar o indicador.

A barra do vestido médio, outrora alvo tal qual a neve, ficou ensanguentado. Após secar o dedo, Helena observou aquilo durante delongados segundos e em conclusão assemelhou a cena com o assassinato de um coelho branco. De algum jeito tenebroso, a comparação se igualava ao seu espírito e recordou-se então de terem manchado sua pureza no passado. Repentinamente lágrimas germinaram nas pálpebras inferiores dela. E chorou.

Helena encolheu-se, logo depois deitando em posição fetal. Seu peito doía somente em se lembrar das noites insones, dos planos suicidas e de todo sofrimento que passara. Tentou desencharcar o rosto, mas foi em vão. Por um súbito instante sentiu-se vulnerável, como a pele daquele coelho hipotético que um predador deixou para trás. Parecia que o animal sanguinário levara consigo a alma de Helena e tudo o que sua boca conseguira carregar.

Vez ou outra o cenário se repetia: sozinha, ela derramava seu pranto, que não podia ser revelado publicamente, em meio às flores. Toda água retida era desencarcerada graças àquele paraíso secreto, sempre eficiente em transmitir confiança e harmonia para Helena. Gradativamente os soluços cessaram. Fungou um pouco e teve sucesso quando secou a face. Seus batimentos cardíacos retornaram ao ritmo normal, e logo estava em condições de levantar-se.

Já em pé, arrumou suas vestes, sentindo o calor agradável do Sol. E então uma brisa soprou levemente no local, fazendo os cabelos de Helena e as rosas oscilarem. Apesar de sua melancolia anterior, uma paz repentina preencheu o coração da moça. Era apenas daquilo que precisava: descarregar a tensão. Seus pulmões encheram-se de ar puro e expirou profundamente, no intuito de soltar o oxigênio e o restante dos anseios.

De repente sentiu algo úmido rastejar sobre sua panturrilha direita, o que a fez quase saltar de susto. Riu ao ver que era o pequeno Átila pedindo-lhe atenção, com os olhos inocentes como os de qualquer outro cachorro. Helena agachou-se para pegar o yorkshire, pensando na forma sigilosa com que ele tinha caminhado até ela. Erguido diante de si, Átila tocou a ponta de seu nariz com a patinha e a lambeu seguidamente. A jovem abriu um sorriso espontâneo devido à ternura que o olhar dele irradiava e o aninhou nos braços, afagando os pelos sedosos. Era presumível que o bichinho estava com fome, embora tivesse colocado comida para ele assim que acordara.

— O que foi? — perguntou docemente. Átila inclinou de modo sutil as orelhas baixas para frente, emitindo seu estado de alerta — Você quer papar de novo?

O cãozinho obviamente não entendia a sua língua, todavia, já tinha decorado e sabia o significado daquelas palavras mágicas. Hiperativo, ele se esforçou para pular do colo de Helena a fim de rodopiar ao redor dela e latiu em alto e bom som como resposta. Ela gargalhou, pondo-o no chão antes que a machucasse sem querer. Átila então correu entre as plantas e entrou para aguardar sua dona.

Helena sem delongas direcionou-se à casa da mesma forma que chegara ali: acarinhando as rosas enquanto andava. Agradecia por ter se recuperado, havia sido uma semana difícil. Assim que parou na porta, deu uma última olhada para trás após calçar as sandálias novamente.

O fruto de sua imaginação não enxergava aquilo somente como uma plantação de rosas; era a base da criação de seu universo, seu reino encantado, onde nada e ninguém poderia invadir. Era aquele jardim rubro seu tão querido e amado refúgio.

Notas finais
Jornal dos poemas: https://www.spiritfanfiction.com/jornais/poemas-de-minha-autoria-2255172 Espero que tenham gostado, desde já agradeço a atenção de todos! Isso é tudo, pessoal. Beijos com sabor de pimenta e até a próxima! ♥
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!