Jardim Secreto

1 Bara no Ichou // A Rosa Murcha


Desde o amanhecer daquele dia, Dohko havia sido perseguido por um sentimento estranho. As tropas de Minos cercavam o Santuário e o cavaleiro de Peixes desceu para enfrentá-las.

Ao atravessar o templo de Libra, Albafica permaneceu calado. Dohko sabia que devia manter distancia, mas havia buscado seu olhar. Os olhos de Albafica, um sereno azul-celeste, fazendo-o sentir saudades e impotência.

-Adeus Dohko – disse Albafica com um sorriso, mesmo estando longe.

Mas tarde nesse mesmo dia, o cosmo de Albafica havia desaparecido e junto com ele a ameaça ao Santuário. O vento trouxe uma pétala de rosa até Dohko e não pôde evitar ser assaltado por um sentimento de vazio, apesar de que ele sempre soube que as perdas eram inevitáveis.

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Era possível avistar duas pessoas se aproximando.

Dohko sentiu que seu coração dava um nó ao reparar que uma delas era Shion, que carregava Albafica morto em seus braços com uma expressão triste. Apressadamente se aproximou dele. Albafica estaca coberto de sangue com uma rosa murcha entre as mãos.

Shion levanta os olhos. O rosto de Dohko estava coberto de pelo desespero.

-Shion, esta ferido? O que esta acontecendo? Solte-o!

-O... Que?

-O sangue de Albafica é venenoso!

Shion percebeu que Dohko tinha razão, mas não pode deixar de pensar que a sua reação foi um tanto quanto exagerada. Como ele pode falar desse jeito com Albafica morto?

Dohko avançou na direção de Shion no intuito de fazer-lo soltar Albafica num movimento rápido que o quase fez cair no chão. Shion, que havia evitado a queda com dificuldade, não podia sair do seu assombro.

-O que você acha? Esperava que o abandonasse como um lixo depois de tudo o que ele fez por nós?

-Então deixe que eu levo ele!

-Dohko!

-Temos que ir ao patriarca logo, é urgente! – interrompeu uma voz infantil. Era Atla, o menino mensageiro que acompanhava Shion. Até então não notada por Dohko.

-Shion, temos que conversar.

Shion olhou para ele com pesar, doía vê-lo transtornado.

-Eu te ver o mais rápido o possível, entretanto você poderia cuidar por enquanto do templo de Áries?

Vendo que não havia nada o que fazer, Dohko teve que engolir sua angustia e não podia mais assentir. Shion e Atla seguiram seu caminho.

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Segundo a notícia que Atla trouxe era possível que o sacrifício de Albafica teria sido inútil, uma vez que os espectros poderiam retornar à vida. Athena mantinha uma barreira de energia ao redor do templo, que evitava que eles fossem ressuscitados dentro da mesma, mas não seria possível derrotar Hades com ela.


Shion se aproximava do templo de Libra, tentando não ser subjugada por pessimismo. Dohko o esperava nas escadas, pareceu muito mais calmo e ofereceu um sorriso amistoso.

-Shion, está tudo bem? – Dohko perguntou e disse um pouco envergonhado – desculpe pelo o que eu disse.

No olhar de Dohko, Shion se esqueceu de suas preocupações por um momento. Ele não podia culpar Dohko, Albafica era o primeiro Santo de Ouro a cair.

Eles entraram juntos no templo de Libra e Shion foi deixado guiar ao seu lugar secreto. Os lábios de Dohko estavam sempre cheios de ternura e simpatia e foi o que mais precisava naquele momento de tristeza.

Dohko se manteve bastante perto, apoiando sua testa contra a de Shion. Parecia ter sido anseio por este momento de intimidade, tanto quanto ele.

-Está bem de verdade? – Dohko perguntou em voz baixa.

-Claro que sim... não tive oportunidade de lutar de verdade, mas poderia ter feito isso se evitasse o que aconteceu com Albafica.

-Não é isso que eu quero dizer – uma sombra de preocupação cobriu os olhos de Dohko – você entrou em contato com o sangue dele...

-Minha pele não tinha ferida qualquer e você sabe que não é realmente tão fácil ser atingido pelo seu veneno, mas ele sempre ficou longe de tudo... como se tivesse medo de ferir alguém por puro acidente...

Dohko sentiu uma pontada de dor enquanto observava Shion falar sem perceber. Também era difícil para Dohko pensar que ele deixaria de vê-lo. Tinha revelado a sua impetuosidade em campo de batalha e que ganhou o respeito que tanto desejava, mas a preço de que? Observou Shion, sentado a sua frente e se perguntou se todos sofreriam o mesmo destino de Albafica.

Shion, eu não quero te magoar...

Shion mordeu o lábio inferior. Embora Dohko não tivesse pronunciado essas palavras em voz alta, Shion foi capaz de ouvir. O sentimento que lhe provoca era agridoce. Apoiou uma mão no rosto de Dohko, tentando encontrar o brilho nos olhos que ele tanto gostava. Dohko sorriu levemente e dessa vez disse em voz alta.

-É certo que Albafica era muito cuidadoso à respeito de si mesmo, mas há uma razão para ele agir dessa forma.

-Uma razão?

-Chegou o momento de eu te dizer algo – Dohko disse sério – tem a ver com a origem da razão por trás do comportamento de Albafica.

-Você se refere ao fato de ele ser treinado em um ambiente que fez seu sangue ficar venenoso?

-Não, como sabe o medo de Albafica de contaminar os outros foi além do racional – Dohko olhou por uns instante o céu – quero que ouça essa historia para compreender a razão dele ter chegado até esse ponto e se trata de mim também.

Lembra-se daquele tempo, alguns anos atrás, quando passou um tempo fora do santuário?

Áries assentiu, Dohko tomou suas mãos entre as suas e desejou que as imagens de sua mente fluíssem para a mente de Shion.