Jaoam - A Mão do Dragão
2 Capítulo 2 - Dura Decisão
Quando a noite já se estendia, ouviu um cântico lúgubre entoar na noite, galgando a encosta da montanha. A procissão erguia archotes e travessas de alimentos, e de maneira inesperada, quando se deu conta já havia diante de si um banquete digno de rei. As velas lançavam sombras esguias. Em um misto de reverência e cochicho, murmuravam sobre a simplicidade da casa onde viveu por toda vida.
— Não tinha ideia de que viviam de forma tão... humilde.
O casebre não era nada além de quatro paredes erguidas em tapumes e restos de madeira marcadas pelos anos. O assoalho era de terra batida, e o teto uma cobertura que era sustentada pela fé.
— O necessário é suficiente — respondeu Jaoam, aceitando uma tigela com um caldo encorpado. — A renúncia ao conforto enriquece a alma, era o que ele dizia.
— Bom, um corpo precisa mais do que apenas orações meu amigo — disse Merlo, o padeiro do vilarejo. — Coma até se fartar, assei pão o suficiente para encorpar três de você. Sempre achei que fosse meio doente, sempre foi tão magro meu amigo.
— Como apenas o suficiente para me manter de pé. Um homem de deus deve ser sustentado por sua fé.
— Nem mesmo uma árvore fica de pé apenas com raízes. Ela precisa de um tronco firme para se sustentar — disse Dona Mercyana. — Suas orações e jejuns não vão te manter vivo pra sempre menino.
Jaoam provou do caldo, tinha um forte gosto de alho, carne de porco, cenoura e alcaparras. Há muito tempo não comia algo tão bom. Molhou um naco de pão no caldo e comeu. Sua barriga pediu por mais. Comeu de uma torta de carne fibrosa, mas bem temperada. Um pernil assado com um forte gosto de mel e lenha, e por fim deixou de lado um vinho caseiro feito por um dos lenhadores.
— Preciso da minha mente sã. Aceito leite — disse.
— Hoje não é dia de ficar são homem. O vinho acalma o coração inquieto e a mente turbulenta — disse Melchor. Era um homem envolto em panos escuros e olhos vermelhos. Há muito os cabelos começaram a cair de sua cabeça, mas ainda restava algum negro ao redor de suas têmporas. Todas as lembranças que Jaoam tinha dele envolviam uma garrafa de alguma bebida e uma mesa onde se debruçar. Todo vilarejo tinha um daquela espécie.
Está para chegar o dia que darei ouvidos a um beberrão.
— Leite me basta.
Então tomou do leite que trouxeram, e agradeceu.
Dona Mercyana, a mais velha de todos, e ainda assim anos mais nova do que Pai Myriel, atentava-se a sua parca residência.
— Olhe só para esse lugar, viveram aqui todo esse tempo? Como não caiu sobre suas cabeças? Veja como é frio, parece uma caverna. Se eu soubesse...
— Foi o suficiente.
— Isso não pode ser chamado de casa.
— Foi a casa que ele pôde me dar.
— Se eu soubesse... há tanto espaço na estalagem. Por que nunca me contaram?
Todos trocaram olhares envergonhados. A verdade era que ninguém sabia. Até aquele dia, ninguém nunca se deu ao trabalho de visitá-los. Pai Myriel e ele iam ao vilarejo todos os dias por quase trinta anos, mas ninguém nunca deu a mínima para como viviam. Viam-nos como um par de bodes que desciam as montanhas e que por alguma obrigação lhes ofereciam o lombo como ferramenta. Apenas na morte veem o valor do homem, pensou.
— É bem-vindo a viver comigo Jaoam — disse a matriarca. — Terá um quarto só seu, como nunca teve. Dormirá em uma cama, muito melhor do que nesse chão terroso, sentindo o frio da noite atingi-lo por todos os lados.
Um quarto?
— Seria mais do que tive em tudo a vida. Não teria como te pagar.
— Não seja bobo, a gente que deveria pagar você por todo o trabalho que você e Myriel fizeram pra gente — retorquiu a senhora.
— Pensarei nisso.
— Pensará? Não tem muitas opções — inquiriu Leta, a esposa de Merlo. Estava agarrada a uma criança que não tinha mais do que dois anos de idade, e rodeada por mais dois gêmeos e o filho mais velho, que já tinha idade para seguir a profissão de Merlo, seu pai. O pai de Jaoam havia ajudado no parto de todos os quatro, e Jaoam contribuído no nascimento da mais nova.
Não tenho opções? O pensamento lhe doía.
— Pode viver com mais conforto com dona Mercyana, e estará mais perto da gente. Não vai precisar descer e subir essa montanha todos os dias. Será mais fácil pra você e pra gente — disse Marite, esposa de um dos lenhadores.
Ouviu de repente o tinir de uma corda. O filho mais velho do padeiro, Morgan, encontrara o tosco alaúde de Pai Myriel pendurado em um prego, e na curiosidade tentara tirar dali algum som. Mas tudo que saiu foi uma coisa que mais parecia o ganido de um animal raivoso. Jaoam até já havia se esquecido do instrumento. Era uma coisa rústica e arcaica, talhada pelas mãos do próprio pai. Não era um alaúde bonito, mas nas mãos certas era capaz de esbanjar alguma melodia.
— Não toque, por favor.
— Ouviu o homem, ponha isso onde encontrou rapaz — disse o padeiro. — Não sabia que tocava Jaoam.
— E não toco, pertencia ao meu pai. Acho que é minha herança, de alguma maneira.
O pessoal trocou olhares embasbacados. Meia centena de pessoas e ninguém sabia que ele tocava. Conheciam ele tão bem quanto um coelho sabe o que é voar, pensou.
— Pai Myriel nunca me pareceu muito favorável a ter coisas — disse Gasper, um homem de braços grossos e rosto riscado por pequenas cicatrizes. Era lennhador e marceneiro. — Já tentei dar pra ele alguns talheres, mas ele recusou.
— Ele recusava tudo que dessem pra ele.
— O velho e suas manias de pobreza — pigarreou a velha Mercyana.
— Ele nunca quis perder o foco no que é realmente importante — Jaoam tentou justificar. — Não possuir nada além da própria vida é o maior privilégio que um filho dessa terra pode ter.
— Mas ele tinha um alaúde — observou Morgan.
Sim ele tinha. Sempre me impediu de ter até uma bota, mas ele tinha um alaúde. Uma vez Jaoam recebera de um mercador itinerante um conjunto de vestes. Considerando aquilo como uma posse inconcebível, Pai Myriel o fez devolver o presente no dia seguinte. Em outra ocasião o fez doar um par de botas que ganhara, considerando que outra pessoa precisava mais delas do que ele. Se não fosse por ele, hoje eu não teria tantos calos.
Jaoam ignorou o comentário do filho do padeiro.
— O mundo não terá outro como Pai Myriel — alguém disse, e todos concordaram.
— Uma alma inestimável.
— Um coração gigantesco.
— Um pai — disse Jaoam. — E eu o enterrei.
— Como um bom filho faria.
— Nunca quis desagrada-lo, sempre tentei ser grato por tudo que ele fez por mim.
— E ele sabia disso, tenho certeza meu filho. Ele nunca se arrependeu de ter você como filho. Foi um garoto obediente por todos esse anos — disse Dona Mercyana.
Isso era uma meia verdade. Seguia ele aonde ele fosse e fazia tudo que lhe era ordenado, sem procrastinar. Foi desobediente uma única vez. E pagou caro por isso.
Jaoam coçou os olhos marejados. Sentia-se exausto e nem se dera conta. Os dedos ainda doíam pela tentativa inútil de cavar a sepultura com as próprias mãos. Os músculos latejavam. Há quanto tempo não sentia o sabor do cansaço?
— Está cansado, deve querer descansar, vamos descer para o vilarejo meu filho. Dormirá em uma cama decente a partir de hoje — disse a Dona Mercyana.
— Não hoje minha senhora, preciso de um tempo com meus próprios pensamentos. Prefiro dormir aqui, ao menos por enquanto.
— Mas... menino.
— Deixe-o velha, ele não é um menino há muito tempo. Já tem mais pelos na cara do que eu na bunda — disse Melchor, engolfando uma garrafa do que parecia ser vinho.
Alguns convivas riram, mas a velha franziu o rosto.
— Terá sempre uma cama te esperando na minha estalagem Jaoam.
— Sou grato. A todos vocês.
Todos se despediram e partiram, deixando-o a sós com os restos da cerimônia e a fogueira que ainda crepitava. Melchor voltou uma última vez para pegar uma garrafa que ficara para trás.
— Não te fará falta, né?
Jaoam anuiu.
— A primeira noite é sempre mais difícil, é a noite em que os fantasmas ainda estão frescos. Seria bom manter a fogueira bem acesa — disse o beberrão.
Sabedoria de bêbado.
— Não poderia pedir por conselho melhor — respondeu, irônico.
Melchor não estava bêbado o bastante para não notar sutilezas. Silvou e voltou pra trás.
— Não seja como ele meu camarada, ele se privou de muitas pequenas alegrias e te arrastou junto — colocou a garrafa de volta onde a pegou. — Fica com ela, vai ser mais útil pra você. Tem pensamentos que é bom a gente afogar pra deixar outros virem à tona — cambaleou para o lado, se endireitou e sorriu. — A lua enfim apareceu, tá com uma cor estranha. Parece que tem uma luz nova iluminando sua vida.
Dizendo isso, Melchor virou as costas e desceu a montanha, deixando-o para trás com uma lua de tom avermelhado. Apenas um eclipse, nada de mais, há eclipses todos os anos, pensou. Pegou-a a garrafa e observou o conteúdo dela. Tirou a rolha com os dentes e cheirou. Tinha cheiro de uvas azedas. Torceu o nariz e atirou a garrafa montanha abaixo. Bem distante, pensou ter ouvido o ruído dela se estilhaçando lá embaixo.
Pai Myriel nunca aprovara o consumo de bebidas, deixara sempre bem claro seu desgosto por aqueles que embriagam a consciência. Jaoam fora obediente a ele em vida, seria também em morte. Um homem só deixa de existir quando suas palavras são esquecidas.
Pai Myriel viveria para sempre, ou enquanto Jaoam tivesse fôlego em seus pulmões.
Naquela noite demorou a pegar no sono, pensando em qual seria seu destino. Não tinha motivos para viver solitário naquela casa, mas também não queria viver próximo daquela gente. Onde é meu lugar?
Quando enfim adormeceu, sonhou com um fantasma envolvido em brumas misteriosas. Tinha uma face estranhamente amigável e olhos aguçados como navalhas. "Por que se conformar com pouco quando tem o sol a sua frente?" Disse o fantasma, soando tão presente quanto um amigo íntimo.
Assim que despertou de manhã com a alvorada em seu rosto, já havia tomado uma decisão.
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