Jamie apaixonado
1 Capítulo único
- Tessa, não pode ficar assim. Tem algo muito errado com Jamie. Temos que fazer alguma coisa.
Will andava de um lado para o outro no quarto, preocupado.
- Eu sei. — a voz de Tessa estava cheia de cansaço. Ela suspirou e caiu sentada na cama. — Mas eu sinto que não podemos fazer nada, Will. Às vezes, ninguém pode nos ajudar. Você sabe muito bem disso.
Ela observou o marido, que só tinha ficado mais bonito com a idade, pensava ela. Os cabelos brancos começavam a aparecer e a barba rala o deixava com um aspecto mais sério, mas seu cabelo rebelde e olhos sempre jovens não o deixava envelhecer.
Will se aproximou de Tessa e se ajoelhou em frente a ela. Ela estava com olheiras e bem magra — ela emagrecera, pois não conseguia comer bem quando se preocupava muito com alguma coisa — mas, fora isso, continuava a Tessa de sempre.
Ele colocou as mãos no rosto de Tessa e a encarou, os olhos brilhantes.
- Você me ajudou, Tess. Você me salvou.
Ela sorriu um pouco, e depois desabou o rosto nos ombros de Will, enquanto ele passava a mão por seus cabelos.
Tessa fechou os olhos e tentou pensar no que poderia estar errado com seu filho. James era um garoto bom, esforçado e inteligente que, de repente, passou a ter tendências suicidas e a se comportar como um miserável.
- Sabe, o comportamento de Jamie me lembra o seu. — ela sussurrou contra os ombros dele, a mente trabalhando. — Eu acho que ele está apaixonado, Will.
Ele a afastou e a encarou com as sobrancelhas arqueadas.
- O amor não mata, Tess, ele salva. Não creio que Jamie tenha esse tipo de comportamento por...
- Claro que o amor somente salva — ela interrompeu com um tom irônico, um sorriso se formando sem querer no canto dos lábios -, já que é uma atitude muito salutar cavalgar por dois países em direção à morte certa por alguém. — ela pôs a mão direita no rosto dele. — Will, sabemos que as pessoas fazem loucuras quando amam.
Os olhos dele eram uma mistura de ternura e desespero pelo filho. O maxilar estava trincado e o rosto tenso.
- Vou falar com ele. — declarou de repente.
Ela fez uma careta.
- Will, eu não acho que seja...
Mas ele já tinha se levantado e saído do quarto.
Ela suspirou novamente.
Herondales.
Tão difíceis de lidar.
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Will foi até a biblioteca, onde sabia que Jamie gostava de ficar para passar o tempo. Se encaminhou para o canto dos livros em latim, e Jamie estava lá, deitado no chão, os braços largados, olhos fechados.
Will já imaginou o pior, e o desespero que sentia se alastrou. Ele correu até James para ver se...
Não, James não podia...
Will balançou a cabeça, tentando concentrar-se.
- Jamie? — e levantou a mão na direção do filho, a voz trêmula. — Jamie, você...
James levantou a mão, bloqueando o caminho da de seu pai, deixando-a suspensa no ar.
- Não me chame de Jamie. Eu não sou mais uma criança, pai.
O alívio tomou Will, e ele se esforçou para não abraçar o filho. Ele suspirou fundo, acalmando-se.
- James, precisamos conversar.
O filho o encarou com escárnio.
- Eu sabia que essa hora ia chegar. — Ele apoiou-se nos cotovelos para falar com o pai. — Não, pai, não estou amaldiçoado. Só acho que estou fadado a um futuro cruel e não quero que ele chegue.
E voltou a se deitar.
Will encarou o filho com apreensão pelas palavras dele, e sentou-se ao seu lado.
- Eu não acho que está amaldiçoado. — declarou. — Acho que está apaixonado. Apesar de que, dependendo das circunstâncias, essa distinção não faça tanta diferença, na verdade...
Will percebeu que o corpo do filho ficou tenso, e ele sentou-se na mesma hora, os olhos dourados bem abertos.
- Quem contou? Foi a...? — James exasperou-se e colocou as mãos nos cabelos rebeldes, o rosto ficando vermelho. — Ah. Não acredito que estou falando disso com meu pai.
Will teve vontade de rir, mas conteve-se.
- Não é porque sou seu pai que significa que não sou seu amigo.
O tom de Will era amigável e James o olhou, confuso. Talvez o pai pudesse ajudá-lo. Ele tinha passado por situações difíceis, talvez entendesse como se sentia.
Ele lembrou-se do rosto de Grace e seu coração se acelerou dolorosamente.
Não. Ele nunca ia saber. Nunca teve seu amor rejeitado.
- Você não pode me ajudar. — e olhou para o lado, o dourado de seus olhos estavam escuros.
- É Cordelia, não é? — disse o pai, em um tom brincalhão. — Ela parece mesmo ser uma menina difícil.
Will queria muito que Cordelia e Jamie se casassem; além de ela ser uma ótima moça, era uma Carstairs e parabatai de Lucie. Ele ficou na expectativa, até que seu filho o encarou com uma expressão tão horrorosa que chegava a ser engraçada, se fosse uma circunstância propícia para isso.
- Não! Cordelia, argh, não.
- Mas ela seria uma ótima esposa, Jamie. E com certeza não o faria sofrer assim.
O rosto de Jamie agora trazia uma carranca.
- Sofrer. O que você sabe sobre sofrer, pai? Foi amado a vida inteira, mesmo não querendo isso.
O lado paternal de Will sobressaiu-se ao de amigo, e ele olhou feio para o filho.
- Não diga o que não entende, James.
- Você que não diga o que não entende! — James levantou-se, o rosto vermelho de raiva. — Eu já percebi que quer que Lucie e eu nos casemos com um Carstairs, em primeiro lugar. Eu sei que é para tentar restabelecer a ligação que você tinha com seu parabatai, o tal James Carstairs, mas ele se foi, pai, e você não vai consegui-lo de volta. — o tom de James era rude, e ele estava despojando nas palavras todo o desespero e raiva que estava sentindo. — É só nisso que você pensa! Em casamentos arranjados e na sua vontade, você não se importa realmente com o que sinto por Grace e...
Ele calou-se, sabendo que tinha revelado seu segredo. Ele queria, mais do que tudo, sair correndo dali; mas, também, queria saber a reação de seu pai.
Will se levantou vagarosamente.
- Grace... Grace Blackthorn? — sua expressão demonstrava surpresa. Depois, incredulidade. — James, essa garota é cheia de problemas, manipuladora, uma pessoa terrível! — ele olhava para o menino como se não fosse o filho dele.
- NÃO FALE ASSIM DE GRACE! — James estava tremendo de raiva, mal acreditando que seu pai pudesse falar assim dela, e isso só que confirmava que ele sempre fora o idiota que achava que fosse. Mas, isso — isso já era demais. Era repugnante falar dessa maneira de alguém que não compreendia e simplesmente julgava.
- ELA NEM É NEPHILIM, JAMES! — gritou Will. — Coloque algum juízo na sua cabeça! Imagine, casar-se com uma menina metade fada, que desonroso, que...
- E você se casou com uma mulher demônio! — gritou James, e ele sentiu certo prazer quando seu pai o encarou com um choque assombroso estampado no rosto. — E teve aberrações como filhos. Que vida a sua, William Herondale. — e James transformou-se em sombra, só para irritar ainda mais seu pai.
- JAMES, VÁ JÁ... — ele respirou fundo, apertando as mãos em punho, e falou com a voz trêmula. — Apareça e vá para seu quarto. Agora.
James apareceu, um sorriso maléfico estampando-lhe o rosto, e foi para a porta da biblioteca. Ao abri-la, viu sua mãe se afastando da porta, o rosto impassível.
Ela tinha ouvido sua conversa.
James sentiu vergonha e desprezo indefiníveis por si mesmo, seu estômago ficando pesado, o coração se apertando, e tocou o braço dela, como que se desculpando. Seu pai sempre cometia erros quanto às pessoas e em quem se devia confiar, mas sua mãe sempre fora boa com ele e tentava enxergar seu lado da situação. Não era justo que ela tivesse ouvido aquilo, ele dissera somente para afetar o pai...
- Mãe. — começou. — Mãe, eu não quis...
- Obedeça seu pai, James. — ela disse baixo, mas com a voz firme.
Ela o olhava sem nenhuma expressão, apenas as olheiras demarcando o rosto mostravam o quando estivera preocupada.
Ele correu pelo corredor, e Tessa o observou desaparecer escada acima.
Ela entrou na biblioteca e viu Will com o rosto entre as mãos.
Ela se aproximou, pegou as mãos dele por um tempo e, depois, o abraçou.
Ele retribuiu o abraço, e os dois ficaram assim até ele se acalmar, afastar-se e olhar para ela com os olhos azuis escurecidos.
- Você tinha razão. Ele está apaixonado. — Will deu uma pausa e fez uma careta. — Por Grace Blackthorn.
- Eu sei. Eu ouvi.
- Você ouviu? — ele empalideceu. — James não quis dizer o que...
- Sei que não, Will. Eu estou inconformada é com você.
- Comigo? — os olhos dele se arregalaram. — Tessa, ele...
Ela levantou a mão, em um sinal para ele parar de falar.
Ele obedeceu.
- Will, você sabe que Jamie está certo. Você tem sorte de eu ser metade Caçadora de Sombras, ou então você teria tido um destino parecido com o de seu pai, e nem mesmo poderíamos ver Jem novamente. — ele a escutava atentamente. — Você não pode julgá-lo, e não podemos nos confrontar com os sentimentos. Pense no tanto que tentou não me amar, no tanto que tentei te odiar, Will. — ela acariciou o rosto dele, e ele fechou os olhos. — Essa é uma parte difícil da vida de James, e só o que podemos fazer é apoiá-lo. Também não gosto de Grace, mas Jamie não merece passar por isso com a repreensão dos pais.
Ele pegou a mão dela que estava no rosto dele e entrelaçou os dedos.
- Obrigado por sempre dizer a coisa certa, Tess. — fez-se um momento de silêncio. — Vamos passar por isso juntos.
- Vamos, vamos sim. — ela sussurrou. — O amor suporta tudo, Will, sabemos disso.
- Sim. Sabemos.
E ficaram no silêncio da biblioteca, confortando um ao outro, como sempre faziam.
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