Notas iniciais
Gente me desculpem a demora pra atualizar, mesmo. Esse não é o site que eu mais uso e estava usando a postagem automática, então não vi que já tinha acabado. Meus rascunhos acabaram no capítulo 13, então posso demorar um pouco mais de tempo para postar desse capítulo em diante, mas até lá, toda semana, sem falta.

Harry seguiu as instruções do diretor e não contou a ninguém sobre sua mãe, mas ao mesmo tempo esperava que Dumbledore cumprisse sua parte do acordo e explicasse algumas coisas a ela.

Na noite de Natal, Harry foi para a cama pensando com ansiedade na comida e na diversão do dia seguinte.

Quando acordou cedo na manhã seguinte, porém, a primeira coisa que viu foi uma pequena pilha de embrulhos ao pé de sua cama.

— Feliz Natal — disse Rony, sonolento, quando Harry pulou da cama e vestiu o roupão.

— Para você também — falou Harry. — Olhe só isso! Ganhei presentes? — Ele não esperava ganhar coisas enquanto tivesse em Hogwarts, principalmente com as encrencas que estava se metendo.

— E o que é que você esperava, nabos? — Respondeu Rony, virando-se para a sua pilha que era bem maior do que a de Harry.

Harry apanhou o pacote de cima. Era uma caixinha dourada pequena embrulhada em um laço vermelho. Ao abrir conseguiu ver um pequeno pedaço de papel, antes de um objeto dourado sair voando. Harry o agarrou e percebeu que era um pomo de ouro. Ainda segurando o pomo, ele leu o bilhete.

Feliz Natal Harry,

É algo simples, mas pertencia a seu pai. Ele amava deixar o pomo escapar de sua mão e depois o agarrava, até parecia que era o apanhador oficial da Grifinória.

Bom, como disse não é muito, mas espero que goste, vai ser bom você ter algo para se lembrar do seu pai.

Lembre-se de aproveitar o Natal, e não se meta em problemas.

Com amor,

Lírio.

Depois pegou o segundo embrulho, emocionado com o presente de sua mãe. Estava embrulhado em papel pardo grosso e trazia escrito em garranchos Para o Harry, de Hagrid. Dentro havia uma flauta tosca de madeira. Era óbvio que Hagrid a entalhara pessoalmente. Harry soprou-a — parecia um pouco com um pio de coruja.

Um terceiro embrulho, muito pequeno, continha um bilhete. Recebemos sua mensagem e estamos enviando o seu presente. Tio Valter e Tia Petúnia. Presa com fita adesiva na nota havia uma moeda de cinquenta pence.

— Que simpático! — Exclamou Harry.

Rony ficou fascinado pela moeda.

— Que esquisito! — Disse. — Que formato! Isso é dinheiro?

— Pode ficar com ela — disse Harry rindo-se ao ver a satisfação de Rony. — Minha mãe, Rúbeo, minha tia e meu tio. E quem mandou esses?

— Acho que sei quem mandou esse — disse Rony, ficando um pouco vermelho e apontando para um embrulho disforme. — Mamãe. Eu disse a ela que você não estava esperando receber presentes... ah, não... — gemeu —, ela fez para você um suéter Weasley.

Harry rasgou o papel e encontrou um suéter tricotada com linha grossa verde-clara e uma grande caixa de barras de chocolate feito em casa.

— Todos os anos ela faz para nós um suéter — disse Rony, desembrulhando a dele —, e a minha é sempre cor de tijolo.

— Foi realmente muita gentileza dela — disse Harry, experimentando as barrinhas de chocolate, que estavam muito gostosas.

O presente seguinte também continha doces — uma grande caixa de sapos de chocolate dados por Hermione.

Restava apenas um embrulho. Harry apanhou-o e apalpou-o. Era muito leve. Desembrulhou-o.

Uma coisa sedosa e prateada escorregou para o chão onde se acomodou em dobras refulgentes. Rony soltou uma exclamação:

— Já ouvi falar nisso — disse em voz baixa, deixando cair a caixa de feijõezinhos de todos os sabores que ganhara de Hermione. — Se isso é o que eu penso que é, é realmente raro e realmente valioso.

— E o que é?

Harry guardou o pomo no bolso e apanhou o pano brilhoso e prateado do chão. Tinha uma textura estranha, parecia tecida com fios de água.

— É uma capa da invisibilidade — disse Rony, com uma expressão de assombro no rosto. — Tenho certeza de que é. Experimente.

Harry jogou a capa em volta dos ombros e Rony deu um berro.

— É, sim! Olhe para baixo!

Harry olhou para os pés, mas eles tinham desaparecido. Correu então para o espelho. Não deu outra, o espelho refletiu sua imagem, só a cabeça suspensa no ar, o corpo completamente invisível. Ele cobriu a cabeça e a imagem desapareceu completamente.

— Tem um cartão! — Disse Rony de repente. — Caiu um cartão!

Harry tirou a capa e apanhou o cartão. Escritas numa caligrafia fina e rebuscada que ele nunca vira antes, estavam as seguintes palavras:

Seu pai deixou isto comigo antes de morrer. Está na hora de devolvê-la a você.

Use-a bem.

Um Natal Muito Feliz para você.

Não havia assinatura. Harry ficou olhando o cartão. Rony admirava a capa.

— Eu daria qualquer coisa para ter uma dessas. Qualquer coisa... Que foi?

— Nada. — Harry estava se sentindo muito estranho. Quem mandara a capa? Será que pertencera mesmo ao seu pai?

Antes que pudesse dizer ou pensar qualquer outra coisa, a porta do dormitório se escancarou e Fred e Jorge Weasley entraram aos pulos. Harry rapidamente deu um sumiço na capa. Por ora não tinha vontade de compartilhá-la com mais ninguém.

— Feliz Natal!

— Ei, olhe só, o Harry ganhou um suéter Weasley também!

Fred e Jorge estavam usando suéteres azuis, uma com um grande F, a outra com um J.

— Mas a do Harry é melhor do que a nossa — comentou Fred, erguendo a suéter de Harry. — Ela com certeza capricha mais se a pessoa não é da família.

— Por que você não está usando a sua? — Perguntou Jorge. — Vamos, vista logo, elas são ótimas e quentes.

— Detesto cor de tijolo — lamentou-se Rony, desanimado enquanto vestia a suéter.

— Pelo menos você não tem uma letra na sua — comentou Jorge. — Ela deve pensar que você não esquece o seu nome. Mas nós não somos burros, sabemos que nós chamamos Jred e Forge.

— Que barulheira é essa?

Percy Weasley meteu a cabeça para dentro da porta, com um olhar de censura. Era visível que já desembrulhara metade dos seus presentes porque trazia também um suéter grossa pendurada no braço, que Fred logo agarrou.

— M de monitor! Vista logo, Percy, todos estamos usando as nossas, até Harry ganhou uma.

— Eu... não... quero — disse Percy com a voz embargada, enquanto os gêmeos forçavam a suéter por sua cabeça, entortando seus óculos.

— E você hoje não vai se sentar com os monitores — disse Jorge. — Natal é uma festa da família.

E os dois carregaram Percy para fora do quarto, com os braços presos dos lados pelo suéter.

Harry nunca tivera em toda a vida um almoço de Natal igual àquele. Cem perus gordos assados, montanhas de batatas assadas e cozidas, travessas de salsichas, terrinas de ervilhas passadas na manteiga, molheiras com uva do monte em molho espesso e bem temperado — e, a
pequenos intervalos sobre a mesa, pilhas de bombinhas de bruxo. Harry puxou a ponta de uma dessas bombinhas com Fred e ela não deu apenas um estalinho, ela explodiu com o ruído de um canhão e envolveu-os em uma nuvem de fumaça azul, enquanto caíam de dentro um chapéu de almirante e vários camundongos brancos, vivos. Na mesa principal, Dumbledore tinha trocado o chapéu de bruxo por um toucado florido e ria alegremente de uma piada que o Professor Flitwick acabara de ler para ele.

Pudins de Natal flamejantes seguiram-se ao peru. Percy quase quebrou os dentes em uma foice de prata que estava escondida em sua fatia. Harry observava o rosto de Hagrid ficar cada vez mais vermelho à medida que pedia mais vinho e acabou beijando a bochecha da Professora Minerva, a qual, para espanto de Harry, rira e corara, o chapéu de bruxa enviesado na cabeça.

Quando Harry finalmente saiu da mesa, estava levando uma montanha de brinquedos das bombinhas, inclusive uma embalagem de balões luminosos e não explosivos, um kit para cultivar capixingui, a planta símbolo de Hogwarts, e um jogo de xadrez de bruxo. Os camundongos brancos tinham desaparecido e Harry teve a desagradável sensação de que eles iam acabar virando jantar de Natal para Madame Nor-r-ra.

Harry e os Weasley passaram uma tarde muito alegre ocupados em uma furiosa guerra de bolas de neve. Depois, frios, molhados e ofegantes, voltaram para junto da lareira na sala comunal de Grifinória, onde Harry estreou o seu novo jogo de xadrez perdendo espetacularmente para Rony. Suspeitou que não teria levado uma surra tão grande se Percy não tivesse tentado ajudá-lo tanto.

Depois de lancharem sanduíches de peru, bolinhos, gelatina e bolo de frutas, todos se sentiram demasiado fartos e sonolentos para fazer outra coisa senão sentar e assistir a Percy correr atrás de Fred e Jorge por toda a torre de Grifinória porque eles tinham furtado seu crachá de monitor.

Fora o melhor Natal da vida de Harry. No entanto, no fundinho da cabeça alguma coisa o incomodara o dia inteiro. Somente quando finalmente se deitou é que teve tempo para pensar nela: a capa invisível e a pessoa que a mandara.

Rony, cheio de peru e bolo e sem nenhum mistério para perturbá-lo, caiu no sono assim que puxou as cortinas de sua cama de dossel. Harry debruçou-se pela borda da cama e puxou a capa que escondera ali.

Do seu pai... aquilo fora do seu pai. Ele deixou o tecido escorregar pelas mãos, mais macio do que seda, leve como o ar. Use-a bem, dissera o cartão.

Tinha de experimentá-la agora. E saiu da cama e se enrolou na capa. Olhando para as pernas, viu apenas o luar e as sombras. Era uma sensação muito engraçada.

Use-a bem.

De repente, Harry se sentiu completamente acordado. Toda a Hogwarts se abria para ele com esta capa. Sentiu-se tomado de excitação em pé ali na escuridão silenciosa. Podia ir a qualquer lugar com a capa, qualquer lugar, e Filch jamais saberia.

Rony resmungou adormecido. Será que Harry devia acordá-lo? Alguma coisa o deteve — a capa do seu pai —, sentiu que desta vez — a primeira — queria usá-la sozinho.

E saiu sorrateiro do dormitório, desceu as escadas, atravessou a sala comunal e passou pelo buraco do retrato.

— Quem está aí? — Perguntou esganiçada a Mulher Gorda. Harry não respondeu. Saiu depressa pelo corredor.

Aonde deveria ir? Parou, o coração acelerado, e pensou. E então lhe ocorreu. A seção reservada na biblioteca. Poderia ler o tempo que quisesse, o tempo que precisasse para descobrir quem era Flamel. Foi, então, puxando a capa para bem junto do corpo ao andar.

A biblioteca estava escura como breu e muito estranha. Harry acendeu uma luz para enxergar o caminho entre as fileiras de livros. A lâmpada parecia que estava flutuando no ar, e embora Harry sentisse que seu braço a sustentava, aquela visão lhe deu arrepios.

A seção reservada era bem no fundo da biblioteca. Saltando com cautela a corda que separava esses livros do resto da biblioteca, ele ergueu a lâmpada para ler os títulos.

Eles não lhe informavam muita coisa. Suas letras descascadas e esmaecidas formavam dizeres em línguas que Harry não entendia. Alguns nem sequer tinham título. Um livro tinha uma mancha escura que fazia lembrar horrivelmente de sangue. Os pelos na nuca de Harry ficaram em pé. Talvez fosse imaginação dele, talvez não, mas achou que ouvia um sussurro inaudível vindo dos livros, como se eles soubessem que havia alguém ali que não deveria estar.

Precisava começar por alguma parte. Pousando com cuidado a lâmpada no chão, ele procurou na prateleira mais baixa um livro que parecesse interessante. Um grande volume preto e prata chamou sua atenção. Puxou-o com esforço, porque era muito pesado, e equilibrando-o nos joelhos, deixou-o abrir ao acaso.

Um grito agudo de coalhar o sangue cortou o silêncio — o livro está gritando! Harry fechou-o depressa, mas o grito não parou, uma nota alta, contínua, de furar os tímpanos. Ele tropeçou para trás e derrubou a lâmpada, que se apagou na mesma hora. Em pânico, ouviu passos que
vinham pelo corredor do lado de fora — enfiando o livro gritador de qualquer jeito no lugar, ele correu para valer. Passou por Filch quase à porta. Os olhos claros e arregalados de Filch atravessaram-no, Harry escorregou por debaixo dos seus braços estendidos e saiu desabalado
pelo corredor, os gritos do livro ainda ecoando em seus ouvidos.

Parou subitamente diante de uma alta armadura. Estivera tão ocupado em fugir da biblioteca que não prestara atenção aonde estava indo. Talvez porque estivesse escuro, ele nem sequer reconheceu onde se encontrava. Havia uma armadura perto das cozinhas, ele sabia, mas ele
devia estar uns cinco andares acima.

— O senhor me pediu para eu vir direto ao senhor, professor, se alguém estivesse perambulando durante a noite e alguém esteve na biblioteca, na seção reservada.

Harry sentiu o sangue se esvair do seu rosto. Onde quer que estivesse, Filch devia conhecer um atalho, porque sua voz baixa e untuosa estava se aproximando, e para seu horror, foi Snape quem respondeu:

— A seção reservada? Bom, eles não podem estar longe, vamos apanhá-los.

Harry ficou imóvel no lugar em que estava quando Filch e Snape viraram o canto do corredor à frente. Eles não podiam vê-lo, é claro, mas era um corredor estreito e se chegassem mais perto esbarrariam nele — a capa não o impedia de ser sólido.

Recuou o mais silenciosamente que pôde. Havia uma porta entreaberta à sua esquerda. Era sua única esperança. Esgueirou-se por ela, prendendo a respiração, tentando não a empurrar e, para seu alívio, conseguiu entrar no aposento sem que percebessem nada. Eles passaram
direto e Harry apoiou-se na parede, respirando profundamente, ouvindo os passos dos dois morrerem a distância. Fora por pouco, por um triz. Passaram-se alguns segundos até ele reparar em alguma coisa no aposento em que se escondera.

Parecia uma sala de aula fechada. Os vultos escuros das mesas e cadeiras se amontoavam contra as paredes e havia uma cesta de papéis virada — mas escorada na parede à sua frente havia uma coisa que não parecia pertencer ao lugar, alguma coisa que parecia que alguém acabara de pôr ali para tirá-la do caminho.

Era um magnífico espelho, da altura do teto, com uma moldura de talha dourada, aprumado sobre dois pés em garra. Havia uma inscrição entalhada no alto: Oãça rocu esme ojesed osamo tso rueso ortso moãn.

Já livre do pânico, agora que não ouvia sinal de Filch e Snape, Harry aproximou-se do espelho, querendo mirar-se sem ver nenhuma imagem como antes. Adiantou-se para o espelho.

Teve de levar as mãos à boca para não gritar. Virou-se. Seu coração batia com muito mais fúria do que quando o livro gritara — porque não vira somente a própria imagem no espelho, mas a de uma verdadeira multidão por trás dele.

Mas o quarto estava vazio. Respirando muito depressa, ele se virou lentamente para o espelho.

Lá estava ele, refletido, parecendo branco e assustado, e lá estavam, refletidos às suas costas, pelo menos outras dez pessoas. Harry espiou por cima do ombro — mas continuava a não haver ninguém mais. Ou será que eram todos invisíveis também? Será que estava de fato
em um aposento cheio de gente invisível e o truque desse espelho é que ele refletia tudo, invisível ou não?

Olhou para o espelho outra vez. Uma mulher parada logo atrás de sua imagem sorria e lhe acenava. Ele esticou a mão e sentiu o ar atrás dele. Se ela estivesse realmente ali, ele a tocaria, pois suas imagens estavam muito próximas, mas ele pegou apenas ar — ela e os outros só existiam no espelho.

Era uma mulher muito bonita. Tinha cabelos acaju e os olhos — os olhos são iguaizinhos aos meus, Harry pensou, acercando-se um pouco mais do espelho. Verde vivo — exatamente do mesmo formato, mas então reparou que ela estava chorando, sorrindo, mas chorando ao mesmo tempo. A mulher era sua mãe. O homem alto, magro, de cabelos negros, parado ao lado dela abraçou-a. Usava óculos e seu cabelo era muito rebelde. Espetava na parte de trás, como o de Harry. Parecia com seu pai na fotografia.

Harry estava tão perto do espelho agora que seu nariz quase encostava em sua imagem.

— Mamãe? — Murmurou. — Papai?

Eles apenas olharam para ele, sorrindo, e lentamente Harry olhou para os rostos das outras pessoas no espelho e viu outros pares de olhos verdes iguais ao seus, outros narizes como o seu, até mesmo um velhote que parecia ter os mesmos joelhos ossudos que ele — Harry estava
olhando para sua família completa, pela primeira vez na vida.

Os Potter sorriram e acenaram para Harry e ele retribuiu o olhar, carente, as mãos comprimindo o espelho como se esperasse entrar por dentro dele e alcançá-los. Sentiu uma dor muito forte no peito, em que se misturavam a alegria e uma terrível tristeza.

Quanto tempo esteve parado ali, ele não sabia. As imagens não esmaeceram e ele continuou mirando-as até que um ruído distante o trouxe de volta ao presente. Não podia ficar ali, tinha de encontrar o caminho de volta para a cama. Com esforço, desviou os olhos do rosto de seu pai, sussurrando “Eu volto” e saiu depressa do aposento.

— Você podia ter me acordado — falou Rony, aborrecido.

— Você pode vir hoje à noite. Vou voltar, quero lhe mostrar o espelho.

— Eu gostaria de ver sua mãe e seu pai — disse Rony, animado.

— E eu quero ver toda a sua família, todos os Weasley, você vai poder me mostrar os seus outros irmãos e todo o mundo.

— Você pode vê-los a qualquer hora. É só vir à minha casa neste verão. Em todo o caso, talvez o espelho só mostre gente morta. Mas é uma pena você não ter achado o Flamel. Coma um pouco de bacon ou outra coisa qualquer, por que é que você não está comendo nada?

Harry não conseguia comer. Vira os pais e iria vê-los de novo à noite. Quase se esquecera de Flamel. Já não lhe parecia tão importante. Quem ligava para o que o cachorro de três cabeças estava guardando? Quem ligava realmente que Snape fosse roubar a coisa?

— Você está bem? — Perguntou Rony. — Está com uma cara tão estranha.

O que Harry mais temia era não conseguir encontrar o aposento do espelho outra vez. Com Rony coberto pela capa também, eles tiveram de andar muito mais devagar na noite seguinte. Tentaram refazer o caminho de Harry ao sair da biblioteca, andando a esmo pelos corredores escuros durante quase uma hora.

— Estou falando — disse Rony. — Vamos esquecer tudo e voltar.

— Não! — Sibilou Harry. — Sei que é em algum lugar por aqui.

Passaram pelo fantasma de uma bruxa alta que deslizava na direção oposta, mas não viram mais ninguém. Na hora em que Rony começou a reclamar que seus pés estavam dormentes de frio, Harry identificou a armadura.

— É aqui... logo aqui... é.

Eles empurraram a porta. Harry deixou cair a capa dos ombros e correu para o espelho.

Lá estavam eles. Sua mãe e seu pai sorriram ao vê-lo.

— Está vendo? — Harry cochichou.

— Não consigo ver nada.

— Olhe! Olhe eles todos... ali, montes deles...

— Só consigo ver você.

— Olhe direito, vamos, fique aqui onde eu estou.

Harry deu um passo para o lado, mas com Rony diante do espelho, não conseguiu mais ver sua família, apenas Rony com o seu pijama de lã escocesa.

Rony, porém, estava mirando a própria imagem, petrificado.

— Olhe só para mim! — Exclamou.

— Você está vendo toda a sua família à sua volta?

— Não, estou sozinho, mas estou diferente... pareço mais velho, e sou chefe dos monitores.

— O quê?

— Estou... estou usando um crachá igual ao do Gui... e estou segurando a taça das casas e a taça de quadribol, sou capitão do time de quadribol também!

Rony despregou os olhos dessa visão magnífica para olhar excitado para Harry.

— Você acha que esse espelho mostra o futuro?

— Como pode mostrar? A minha família está toda morta. Me deixe dar outra espiada.

— Você teve o espelho só para você a noite passada, me deixa olhar mais um pouco.

— Você só está segurando a taça de quadribol, que interesse tem isso? Eu quero ver os meus pais.

— Não me empurre...

Um ruído repentino do lado de fora no corredor pôs fim à discussão dos dois. Não tinham se dado conta do como estavam falando alto.

— Depressa!

Rony atirou a capa de volta para cobri-los na hora que os olhos luminosos de Madame Norr-ra apareceram à porta. Rony e Harry ficaram imóveis, ambos pensando a mesma coisa — será que a capa fazia efeito para os gatos? Passado um tempo que pareceu uma eternidade, ela se
virou e foi embora.

— Isto é perigoso. Ela pode ter ido buscar o Filch, aposto que nos ouviu. Vamos.

E Rony puxou Harry para fora do quarto.

Naquela terceira noite ele encontrou o caminho ainda mais rapidamente do que nas anteriores.

Andava tão depressa que sabia que estava fazendo mais barulho do que seria sensato, mas não encontrou ninguém.

E lá estavam sua mãe e seu pai sorrindo de novo para ele, e um dos seus avós acenava feliz com a cabeça. Harry se abaixou para sentar no chão diante do espelho. Não havia nada que pudesse impedi-lo de ficar ali a noite inteira com a família. Nada.

A não ser...

— Então, outra vez aqui, Harry?

Harry sentiu como se suas tripas tivessem congelado. Olhou para trás. Sentado em uma das mesas junto à parede estava ninguém menos que Alvo Dumbledore. Harry devia ter passado direto por ele; tão desesperado estava para chegar ao espelho, que nem reparara.

— Eu... eu não vi o senhor.

— É estranho como você pode ficar míope quando está invisível — disse Dumbledore, e Harry sentiu alívio ao ver que ele sorria.

“Então”, continuou Dumbledore, escorregando da cadeira até o chão para se sentar ao lado de Harry, “você, como centenas antes de você, descobriu os prazeres do Espelho de Ojesed.”

— Eu não sabia que se chamava assim, professor.

— Mas espero que a essa altura você já tenha percebido o que ele faz?

— Bom... me mostra a minha família...

— E mostrou o seu amigo Rony como chefe dos monitores.

— Como é que o senhor soube?

— Eu não preciso de uma capa para me tornar invisível — disse Dumbledore com brandura. — Agora, você é capaz de concluir o que é que o Espelho de Ojesed mostra a nós todos?

Harry sacudiu negativamente a cabeça.

— Deixe-me explicar. O homem mais feliz do mundo poderia usar o Espelho de Ojesed como um espelho normal, ou seja, ele olharia e se veria exatamente como é. Isso o ajuda a pensar?

Harry pensou. Então respondeu lentamente:

— Ele nos mostra o que desejamos... seja o que for que desejemos...

— Sim e não — disse Dumbledore. — Mostra-nos nada mais nem menos do que o desejo mais íntimo, mais desesperado de nossos corações. Você, que nunca conheceu sua família, com exceção da sua mãe, a vê de pé à sua volta. Ronald Weasley, que sempre teve os irmãos a lhe fazerem sombra, vê-se sozinho, melhor que todos os irmãos. Porém, o espelho não nos dá nem o conhecimento nem a verdade. Já houve homens que definharam diante dele, fascinados pelo que viram, ou enlouqueceram sem saber se o que o espelho mostrava era real ou sequer possível.

“O espelho vai ser levado para uma nova casa amanhã, Harry, e peço que você não volte a procurá-lo. Se algum dia o encontrar, estará preparado. Não faz bem viver sonhando e se esquecer de viver, lembre-se. E agora, por que você não põe essa capa admirável outra vez e vai dormir?”

Harry se levantou.

— Senhor, Prof. Dumbledore? Posso lhe perguntar uma coisa?

— Obviamente você acabou de me perguntar — sorriu Dumbledore. — Mas pode me perguntar mais uma coisa.

— O que é que o senhor vê quando se olha no espelho?

— Eu? Eu me vejo segurando um par de grossas meias de lã.

Harry arregalou os olhos.

— As meias nunca são suficientes. Mais um Natal chegou e passou e não ganhei nem um par. As pessoas insistem em me dar livros.

Foi somente quando estava de volta à cama que ocorreu a Harry que talvez Dumbledore não tivesse dito a verdade. Mas, pensou, enquanto empurrava Perebas para longe do seu travesseiro, fizera uma pergunta muito pessoal.

Notas finais
Então? O que acharam? Eu sei que isso é todo o texto de Harry Potter e a Pedra Filosofal, mas eu prometo que não farei isso nos capítulos seguintes, não todo o capítulo, se não me engano o 10 já não tem esses textos retirados dos livros. Daqui a uns três capítulos mais ou menos, já chegaremos no terceiro ano em Hogwarts. Vocês sabem o que isso significa?
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.