P.O.V. Ilena.

Hoje veio ao salão um rapaz e uma moça chamada Carolyn.

—Ilena!

—O que?

—Tá queimando o cabelo dela.

—Ai meu Deus! Desculpe! Desculpe!

Eu vi o cabelo queimado se regenerar. Instantaneamente.

—O que? Ai, que bobice Ilena.

Continuei cacheando o cabelo dela como se nada tivesse acontecido. Devo estar trabalhando demais. Estou ficando meio louca.

Foi rapidinho. A prática leva a perfeição. Passei um pouquinho de laquê e pronto.

—Prontinho. Agora você vai com a Rose. Ela vai fazer suas unhas.

—Obrigado Josette. Quer dizer, Ilena.

—De nada.

Eles olhavam pra mim como se tivessem vendo um fantasma. Isso era tão estranho e muito muito desconfortável pra mim.

P.O.V. Edward.

Ela estava claramente desconfortável com a situação.

—Ilena, você já pode ir. Obrigado querida.

—De nada mãe. A Joyce vai passar pegar o Michael?

—Não. Você vai.

—Eu?

—Sim. Agora vai.

—Que merda mãe! Podia ter chegado mais cedo e me avisado!

—Eu fiquei presa no trânsito Ilena!

—Essa merda de cidade não tem trânsito!

Ilena saiu batendo a porta.

—Me desculpem. Ela tem o fogo das Petrova.

—Quem é a Joyce, se não se importa que pergunte é claro.

—É a minha parceira.

—E quem é esse Michael?

—Meu neto.

—Neto?

—Pois é. Ilena teve o azar de comprar uma camisinha que estava com problema antes do problema ser detectado e daí ela ficou grávida do Michael.

—Ela ao menos sabe quem é o pai?

—Sabe. O ex namorado dela. Diego.

Ilena passou pela porta com a criança nos braços.

—Ele veio aqui outra vez?! Eu não aguento mais ele mãe!

—Posso pedir á Joyce uma medida cautelar. Assim ele não pode mais se aproximar de você e nem do Michael.

—Se ele ficar irritado vai acabar sobrando pra mim e pro meu filho mãe.

—Exatamente por isso Ilena! Não pode passar a vida com medo minha filha.

Ela começou a chorar. Desabou em lágrimas.

—Eu vou ligar pra Joyce tá bem?

Como Ilena não estava em condições de responder simplesmente assentiu.

—Pode terminar essa cliente pra mim enquanto vou falar com a Joyce?

—Tá bem.

Ilena colocou o bebê no carrinho e voltou sua atenção para a cliente. Ela secou as lágrimas com a manga da blusa, pegou o secador de cabelos e a escova e continuou de onde sua mãe havia parado.

Estranhamente o pequeno Michael continuava adormecido.

—Ele não se incomoda com o barulho do secador?

—Não. Ele já acostumou, acho que nem escuta mais.

—Você ajuda sua mãe sempre?

—Sim. E ainda faço estágio na Runway magazine.

—Porque?

—Eu sou formada em moda. Precisava de uma especialização e um estágio.

—Porque?

—O mercado de trabalho é um lugar cruel e eu tenho um filho pra alimentar.

—E quanto ao pai de Michael?

—Ele está sempre cansado e quebrado, cansado e quebrado. Não sei o que eu tinha na cabeça pra transar com aquele babaca. E verdade seja dita, não foi romântico nem nada assim, eu não senti nada.

Enquanto ela falava olhava pra mim e mesmo assim mexia nos cabelos da mulher.

—Prontinho Dona Ester.

—Quanto eu lhe devo?

—Vinte.

—Aqui está. Obrigado.

—De nada. Obrigado por vir.

—Você sabe que eu adoro vir aqui não sabe? Esse salão parece aquele do filme com a Queen Latifa.

Ilena riu.

—Tudo bem então. Tchau, tenha um bom dia.

—Igualmente e bom serviço.

A senhora foi embora e Ilena colocou o dinheiro na caixa registradora.

—Pronto. Mais um cliente satisfeito.

Um homem entrou encapuzado.

—Senhor, não sabe ler? Não se pode entrar de capuz no estabelecimento.

—Todo mundo quieto. Isso é um assalto.

—Ai é?

O rapaz estava apontando uma arma para a cabeça dela.

—Passa a grana vadia.

Ilena mexeu em alguma coisa no balcão e ao invés de tirar de lá o dinheiro tirou uma espingarda.

—Passa a arma mané.

O rapaz ficou chocado e o revólver que ele segurava foi parar no chão.

—E isso é por ter me chamado de vadia na frente dos meus clientes e do meu filho.

Ilena bateu na cabeça dele com o cano da arma e o ladrão caiu inconsciente.

—Alguém faça o favor de ligar pra polícia.

Minha irmã pegou o celular e ligou para o departamento de polícia que mandou uma viatura e eles levaram o bandido inconsciente para a delegacia.

A xerife fez cara feia para Ilena.

—Eu já não te falei pra não fazer isso Ilena? O rapaz podia ter atirado na sua cara.

—E o que queria que eu fizesse? Deixasse esse idiota folgado entrar no meu salão e levar todo o dinheiro que eu trabalhei o dia inteiro pra ganhar?! Eu que fico de pé aqui, nesse calor do inferno lidando com chapinha e secador e vem me dizer que eu não devo reagir quando um imbecil aponta uma arma pra minha cabeça, me chama de vadia e diz que quer levar todo o MEU dinheiro embora como se não fosse grande coisa?!

A mãe dela veio correndo.

—Eu ouvi a sirene. O que houve?

—Eu acabo de dar conta de um bandidinho á toa que queria levar o nosso dinheiro.

—Ilena! Esse homem podia ter te matado minha filha!

—Espingarda X Revólver. Espingarda vence.

—Ai menina. Toma jeito nessa cachola! Você tem um filho!

—Eu sei. Felizmente, o Michael... Michael?

Ela colocou a mão no peito da criança.

—Mãe ele não tá respirando!

—O caninho minha filha.

—Que merda! Eu esqueci disso.

Ilena tirou da bolsa um tubo que ela colocou no nariz do filho e acoplou a um tanque de oxigênio.

—Respira filho. Por favor, o meu filho.

—Ele tá respirando?!

Ela colocou o ouvido no peito do filho e respirou aliviada.

—Sim mãe. Ai, como eu sou idiota.

—Você não é idiota. Se esse ladrão não tivesse entrado aqui isso não aconteceria.

Ilena pegou o menino nos braços.

—Me perdoa meu filho. Eu pensei que tinha perdido você.

Ela encheu o pequeno Michael de beijos.

—O que é isso?

Perguntei com o caninho na mão.

—Ele tem um problema raro. Uma síndrome.

—Que síndrome?

—Síndrome de Eckart Grayson. Os pulmões dele ficam cheios de líquido e tem que ser constantemente drenados se não ele não consegue respirar e pode morrer.

—E existe uma cura?

—Infelizmente não. Mas, existem pessoas que dedicam suas vidas a salvar as vidas de pessoas como o meu filho. Médicos e médicas, biólogos, químicos.

—Gente que passa a vida procurando uma cura para a Síndrome de Eckart Grayson.

—Sei. Lamento.

—A única cura que existe não pode ser utilizada pelo meu filho agora. O Michael só tem três meses e á menos que um bebê de três meses venha a falecer e que a mãe concorde em doar os órgãos da criança vamos ter que esperar até ele ficar mais velho e rezar para conseguirmos um doador compatível, dinheiro pra pagar pelo transplante... Bom, é complicado.

—Lamento.

—Eu também. Mais do que você consiga imaginar. É culpa minha sabe, eu era dependente química, mas depois que eu descobri que estava grávida eu me coloquei numa clínica de reabilitação e estava determinada a me livrar das drogas. Eu já usei tudo o que você possa imaginar, mas eu parei pelo meu filho e mesmo assim estraguei a vida dele.

Ela chorava.

—Calma filha. Tá tudo bem.

—Se os seus pais te disserem não use drogas, acredite neles. Eu não sei o que foi pior, ficar viciada ou a abstinência.

—Abstinência?

—Vou te falar como é uma crise de abstinência de droga. É mais ou menos assim, você tem cólica no estômago, parece que a sua cabeça vai rachar, você começa a se desesperar, parece que você está morrendo da forma mais lenta e dolorosa quanto possível.

—Nossa!

—Quando você começa a passar pela crise você oferece qualquer coisa, faz qualquer coisa por uma dose. Eu fiz coisas horríveis, coisas das quais não me orgulho por causa de uma única dose. Eu me vendi, me prostituí, roubei.

—Tudo bem. Não precisa mais ser assim.

—Eu sei. Acho que vou tentar a terapia de hipnose mãe. Para apagar essas lembranças ruins.

—Não. As suas lembranças fazem você ser quem é! Essa menina forte, madura e inteligente.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.