Jamais engane um duque
6 Capitulo 6
Notas iniciais
Lilian e Claire haviam ficado em quartos próximos, e a pedido da futura duquesa, ela sempre ajudava a prima a se vestir, porém isso não impedia Tia Harriet de fazer rondas noturnas, e acompanhar a filha preparando-se para o jantar, por esse motivo começavam a se arrumar meia hora antes da hora já adiantada, para que mãe de Claire não a visse em roupas intimas, ou sem roupa alguma.
— Acha que minha barriga já começou a despontar? – Claire questionou de frente para um espelho.
— Nada que chame muita atenção, sempre pode dizer que comeu demais, ou que está inchada pela emoção, retendo lágrimas para o casamento.
— Acredita mesmo nisso?
— É claro que não, mas sua mãe sim, e isso é tudo o que importa.
— Às vezes me pergunto o que ela faria se soubesse.
Lilian se levantou da cama para ajudar Claire com o espartilho.
— Bem, eu acho que ela desmaiaria pelo choque, choraria pelo escândalo, imploraria aos céus que você estivesse enganada quanto ao pequeno visconde, e então perdoaria você.
— Pois eu acho que ela morreria.
— Deixe de exageros! – Lilian apertou até onde achou seguro, com medo de machucar a criança.
— Falo sério. Você sabe que eu nunca havia beijado outro homem além de Gabriel, um dia sugeri a mamãe que eu deveria explorar minhas possibilidades, ela ficou vermelha e coçava-se como se mil formigas estivessem sobre ela.
— Tia Harriet é puritana, mas não é...
— Oh ela é! Lilian, mamãe me disse que eu deveria deitar-me na cama e fechar os olhos e contar.
— Contar?
— Sim, contar! Ela disse, se em algum momento os números parecerem sumir é porque estava perto do fim e o marido fez um bom trabalho para você.
— E se eles não sumirem?
— Bom, isso ela jamais comentou.
— Presumo que seu pai tenha feito ótimos trabalhos.
— Lilian! Não esqueça que eu não sou mais ignorante quanto a esses assuntos, não quero pensar em meus pais esquecendo números... Oh Deus, enjoos, pode por favor?
Claire estendeu a mão para um balde e Lilian o passou.
— Como pretende disfarçar os enjoos?
— Não faço ideia, por enquanto consigo disfarçar, mas não sei como farei no jantar.
— Bem, eu posso tentar lhe socorrer, teremos um sinal, algo como coçar os cabelos e eu pensarei em algo para distrair os outros.
— Obrigada, estou evitando Gabriel mais do que posso, em três dias recusei todas as atividades que exigissem esforço, com a desculpa que não queria me acidentar para o casamento.
— Não foi a mais convincente.
— Sim, mas me deu a oportunidade de observar as pessoas, o que elas andam fazendo, e eu não pude deixar de perceber que você tem interagido bastante com Lorde Hastings.
— O marquês é um homem muito divertido.
— Sim, Gabriel sempre falou bem dele, apensar de ultimamente estar um pouco incomodado, vive falando o quão desnecessário é que Hastings seja sempre galante e bem-humorado.
— Foi apenas o que ele disse?
— Foi... Ele deveria dizer algo mais?
— Ah, não.
— Lilian, não deveríamos ter segredos uma da outra.
— Bem, você manteve seu amor por Daniel em segredo por muito tempo.
— Então está amando alguém? O marquês?
Claire bateu palmas alegremente, como se tivesse ganho um pônei.
— Claro que não, Lorde Hastings é apenas divertido.
— E lindo.
— E lindo, e só.
— Se você estiver apaixonada por ele deve me dizer, não posso pedir que se arrisque a perdê-lo.
— Deixe de fantasias amorosas, e se apresse! Tia Harriet batera na porta em segundos para pentear seu cabelo.
Como um relógio tia Harriet bateu na porta e entrou no mesmo segundo, para logo começar a falar sobre a importância do jantar, e sobre como estava feliz com o comportamento de Lilian e sua proximidade com Lorde Hastings. Passou os minutos restantes falando sobre as vantagens do casamento e como Lilian seria afortunada agora que sua prima tão próxima estava associada a um duque.
*****
O jantar seguia tranquilo como sempre, a duquesa viúva e Tia Harriet discutindo os detalhes da decoração e lamentando a decisão de uma cerimônia simples na capela da vila. Claire estava sentada ao lado de Gabriel e de frente para Daniel, que estava à esquerda de Lilian, que permanecia atenta aos olhares e sorrisos que ele lançava para sua prima até perceber que ficará rígido. Verificando a mesa percebeu que o motivo de sua repentina mudança de humor era Gabriel segurando ternamente as mãos da noiva.
— Sugiro que mude sua postura agora mesmo, afinal não tem exatamente o direito de sentir-se assim.
Lilian sussurrou discretamente enquanto levava a taça a boca.
— Legalmente ainda não, mas é uma questão de horas não é mesmo?
Ela revirou os olhos e voltou-se para sua direita, onde Lorde Nicholas a olhava.
— Milorde, sua comida vai esfriar.
— Não pude deixar de notar sua proximidade com o visconde.
— Somos amigos de longa data. Só poderá sentir ciúmes em quatro anos.
— Tem razão, vou me limitar a curiosidade de um amigo.
— Acho que de fato precisarei de um novo amigo, logo Beker tomará outro rumo.
— Ora, o renomado libertino foi laçado?
Acidentalmente, deixou escapar uma informação, mas tentou permanecer calma. Nicholas por sua vez, era muito mais atento e esperto do que ela estava acostumada, teria que se esforçar um pouco mais para manter-se plena ao lado dele. Enquanto raciocinava como sair daquela situação, percebeu que Claire começava a coçar os cabelos fervorosamente. Cristo! Logo agora?
— Ouvi dizer que um certo homem de moral contestável saíra do mercado dos solteiros... – Lilian disse em alto tom para que toda a mesa escutasse.
— Como? – responde Tia Harriet com os olhos brilhando com a possibilidade.
— Lady Lilian, não deveria dar informações que pusessem em dúvida a moral de um homem. – Gabriel e sua postura inabalável arguiram.
— Ora, mas não fui eu e sim os jornais, Claire querida, não lemos exatamente isso no jornal da saleta?
Sua prima confirmou e pediu licença para buscar a prova, recusando companhias. Restou na sala um clima estranho e silencioso, e Lilian percebeu que talvez a prima não tivesse conseguido ir tão longe, poderiam ouvir o barulho.
— Não é engraçado Lorde Gabriel, como um homem luta para defender a moral de outro, sem ao menos saber de quem se trata, ou se os boatos são verdadeiros, mas não se incomoda nem um pouco em questionar a moral de uma mulher?
— Não costumo ver vantagens em boatos sejam quais forem, independente de quem sejam destinados.
— Tem razão, não há quem se favoreça. A não ser, é claro, os cavalheiros que podem se gabar de suas conquistas.
— Lilian! Não fale assim com o duque! – Tia Harriet a repreendeu.
— Ora, mas estou mentido? Lordes Nicholas e Daniel, não são os melhores exemplos de retidão moral, aposto que frequentam lugares onde os cavalheiros fazem apostas e comentários indiscretos.
— Lady Lilian tem razão, não vejo como defender os meus pares. Não que participe de rodas que motivem esse tipo de comportamento, mas não é algo incomum. – respondeu Daniel.
— Devo dizer que não sou de fato um exemplo de retidão moral, como Lady Lilian atestou, e tão pouco me incomodo em ser, não vejo vantagens em permanecer engessado em certas regras que são desfavoráveis e só beneficiam os que não são merecedores.
— Interessante milorde, sobre qual regra exata estamos falando?
A mesa estava atenta àquela discussão, de maneira que os que não estavam participando apenas anuíam com a cabeça.
— Creio que estamos entre amigos e podemos falar abertamente sobre tais assuntos sem demais preocupações, não podemos?
Lilian olhou para a duquesa viúva, como se esperando uma aprovação e a mulher lhe deu um olhar curioso.
— Pois bem, o casamento por exemplo. – Lorde Nicholas continuou. – Quantas mulheres podem se dar ao luxo de não se casarem, ou de se casarem com alguém que tenham algum interesse mínimo.
— Exatamente. Aos homens é permitido que explorem e admirem o cardápio de mulheres elegíveis, selecionado por família, fortuna, reputação e beleza. E as mulheres o que é oferecido? A verdade é que somos espectadoras de nossas vidas e desejos. Observamos o desenrolar do nosso futuro a cada visita à modista, penteado elaborado e dança. Qual vestido devo usar para que algum cavalheiro de chame para dançar?
— Eu diria que cores fortes combinam com a senhorita. – disse Lorde Beker, e Lilian gargalhou.
— Pois então, Lorde Beker me vê em uma bela musselina verde água, porque apesar de vermelho, combinar muito comigo, não é uma cor adequada. E então, Lorde Beker me tira para uma valsa, e no dia seguinte devo esperar flores, e mais danças no próximo baile, e damos início a corte. É claro que antes... Antes de Lorde Beker vê minha beleza, inteligência ou verdadeiramente me ver, ele deu ouvidos ao que a sociedade dizia. "Herdeira, boa família, será uma excelente esposa". E tantas outras mil insinuações que o façam considerar quão excelente seria a nossa união. Um dia eu estou valsando com um desconhecido, no outro esse homem é meu marido e eu estou à deriva. Nada de liberdades, nada de independência. Não opine demais, não escandalize o lugar, comporte-se como a viscondessa que deve ser. E o que me sobra?
— Amor. – Gabriel a interrompeu.
— Ora, milorde, é claro que não. O amor não é parte do acordo. A maioria das damas deve se contentar com um casamento conveniente, produzir herdeiros e gastar a fortuna dos maridos. Não é que sejam fúteis, faltam-lhes oportunidade de pensar fora do que foi planejado para elas.
— Nem todo futuro de uma dama, é tão sombrio e infeliz como descreve Lady Lilian. – O duque retornou.
— Perdoe-me por não compartilhar da sua visão colorida dos fatos milorde, mas sempre estive do outro lado e um pouco abaixo. Afinal, tão pouco sou considerada uma dama para adentrar os exclusivos círculos sociais, já me imaginou como marquesa?
Lilian ousou relembrar a Gabriel o insulto de dias atrás. Ele recebeu a frase com um leve apertar de lábios.
— Pois eu vejo, Lady Lilian.
Vitória se pronunciou pela primeira vez, Lilian esperava que estivesse espantada com tais opiniões e ideias, mas ela olhava a com admiração.
— Peço que perdoe minha sobrinha, vossa graça, ela tem ideias pouco ortodoxas.
— Não há do que se desculpar, sua sobrinha tem razão. O mundo é pouco colorido do nosso lado. Mas eu a vejo como uma marquesa, e o faria muito bem, diria até que muito melhor do que a maioria das damas que futuramente ocuparão esse cargo... Não acha Lorde Hastings?
Gabriel engasgou e Nicholas o escrutinou com os olhos.
— Certamente. Lady Lilian é um refresco de sensatez.
— Sinto-me tentada a fazer esse enlace acontecer, se me permitem a ousadia, já que estamos entre amigos não irei me ater a tanta formalidade. Lady Lilian seria uma excelente futura marquesa de Hastings.
Gabriel se engasgou novamente, e sua mãe chamou sua atenção.
— Ora Gabriel, está com algum problema?
— Creio que o duque não compartilhe do seu pensamento, Lady Vitória. – Lilian ergueu uma sobrancelha em direção a Gabriel.
— Apenas acho que esse não seja um assunto a se discutir no jantar.
— O duque acha, até onde me permiti entender que não sou adequada para ser a esposa de seu melhor amigo.
— Não creio que seja adequada para ser esposa, em primeiro lugar.
Lilian sentiu seu coração gelar, era fácil imaginar, mas ouvir aquilo doeu mais do que ela imaginou. Percebendo o silêncio que se seguiu Gabriel tentou se corrigir.
— Não me entenda mal, falei apenas porque Lady Lilian já disse em alto e bom som que não tem ideias românticas sobre o casamente nem desejo algum de se casar. Perdoem-me por esperar que cavalheiros, principalmente meu amigo, tenho um casamento com uma dama pela qual tenha sentimentos.
— Ora, tenho muitos sentimentos por Lady Lilian. Acho que ela é espera, inteligente, divertida, muito bonita, e suas opiniões não me incomodam. – Lorde Nicholas a defendeu, e ela desejou sentir-se aconchegada.
— Então casa-se com ela ao invés de declarar falsas intenções.
— Infelizmente milorde, nem todos podem compartilhar do seu conto de fadas, um amor juvenil, uma linda amizade, alguns devem se contentar com a conveniência, ou com o ordinário conforto de casar-se com alguém meramente agradável. Como já deixou muito claro sua opinião, permita-me não mais incomodá-lo com a minha vida. Se me dão licença.
Lilian saiu. E pôde ouvir os alguns pigarros e sons de talheres voltando a se movimentar em um claro desconforto. Sua mente girava tentando entender de onde sugira esse desgosto que o duque tinha por ela, podia jurar que quando se conheceram eles tinham de alguma forma se conectado.
— Lilian.
Ela se virou a tempo de ver Nicholas se aproximar.
— Não quero me casar com você.
— Estou consternado, mas não ia lhe pedir em casamento. Eu respeito meus acordos, apenas em quatro anos voltarei a me ajoelhar.
— Não crie muitas expectativas.
— Gosto apenas da sua amizade.
— Obrigada por me defender.
— Não acho que precisava, mas me sento obrigado a defender a honra dos que considero amigos. Sabe atirar?
Ela piscou com a mudança de assunto tão repentina.
— Poderia sugerir que desafiasse Gabriel apenas por ele questionar seus méritos para esposa.
— Não são esses os méritos que me interessa o reconhecimento.
— Sei que não. Mas o que há entre vocês afinal? Gabriel jamais perdeu o controle com alguém.
— Aparentemente eu desperto o melhor no duque.
Nicholas a olhou intensamente até que o olhar desapareceu, ele estava intrigado, desconfiado talvez, nada lhe tirava da cabeça que ele descobria a verdade e atrapalharia seus planos para defender o amigo. Lorde Hastings era acima de qualquer dúvida, leal, e rezava que ele a perdoasse se descobrisse, pois gostava da sua amizade.
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