Jamais engane um duque
30 Capitulo 30
Notas iniciais
Gabriel caminhou pelo Hyde parque, não a encontrou. Correu discretamente, passando por confeitarias e modistas, não a encontrou. Seguiu a cavalo para a casa Hastings, ela não estava. Ninguém tinha notícias de Lilian, por Deus..., o homem tinha uma revelação a fazer, enorme e impactante, uma que precisaria de folego e lágrimas, e mais de cem laudas de desculpas! Onde estava sua esposa, que não em qualquer lugar onde ele pudesse despejar o discurso minucioso que vinha repassando a cada minuto?
O duque se acalmou, afinal eles se encontrariam no baile a noite, e seria um momento mágico. Gabriel correu para a casa dos Norington e remanejou algumas coisas, com o respaldo do ducado e se comprometendo com um apoio ou outro em uma votação no parlamento, ele organizou um baile em homenagem a sua esposa. Ele faria tudo, daria tudo para ter Lilian novamente.
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Lilian estava distraída, diria até mesmo no mundo da lua, enquanto Nicholas e Caroline organizavam horários e falavam sobre os planos para próxima semana, sua mente voltava cinco horas. Quando Claire a surpreendeu com as crianças, quando Gabriel entrou e ficou congelado ao vê-la segurando uma criança como se isso fosse a coisa mais improvável do mundo, quando Gabriel se deu conta de Claire, de Claire e dos filhos de Claire... Naquela tarde ela teve um arrependimento, deveria ter ficado para ver a cara de seu marido ao fazer a associação. Cristo, ela queria presenciar o choque, saborear a decepção. Não que ela precisasse de tal coisa, mas seria interessante.
Quando chegaram a residência dos Norington, Lilian precisou piscar algumas vezes, ela estava diante de algo lindo, mágico, que há tempos não via. Ela observava o ambiente de cima, o salão decorado de vermelho e branco, havia arcos com mulheres penduradas que giravam e se balançavam, dançarinas e dançarinos exibindo muito mais pele do que se era esperado, labaredas de fogo crepitavam perigosamente altas... Ah, que maravilhoso! Era de fato o melhor baile de despedida.
Lilian ouviu quando Nicholas e Caroline pediram que ela aguardasse, eles sumiram por alguns segundos e a orquestra parou de repente. Palmas, aquilo eram palmas? Lilian vasculhou o salão procurando respostas, todos a olhavam felizes ou admirados. Ela notou Gabriel, até então seu marido, no pé da escada, esperando que ela fosse até ele, e ela colocou um pé após o outro, tomando um gole de ar após o outro, se mantendo firme o suficiente para que na hora que aterrizou ao lado de seu marido, perguntar entre os dentes, enquanto sorria "o que está acontecendo aqui?" Em resposta, ele sorriu, e a levou para o meio do salão.
— Muitos sabem uma coisa ou outra sobre nossas vidas, mas poucos sabem o que realmente importa.
Gabriel estava prestes a fazer um discurso? Que Deus tivesse piedade.
— Minha esposa, é um dos poucos membros da sociedade que conheço que de fato se importa com algo além do imediato para uma boa cena. A duquesa de Kahn, é responsável por um centro de acolhimento e educação daqueles que para a maioria de nós são invisíveis. E por isso, por ter um coração e uma mente inabaláveis, esse baile é em sua homenagem. Pelos serviços prestados discretamente, mas que causam grandes impactos. Um viva a Lady Lilian!
Em resposta, lordes e ladies ergueram suas taças e gritaram: Viva!
Um tambor soou
Atordoada descreveria como ela estava se sentindo.
— Por ser a pessoa mais generosa que eu conheço: um viva a Lady Lilian!
Outro erguer de taças, outro caloroso viva.
Um tambor soou.
— Por ser justa, paciente, e a pessoa mais fácil de amar. Por ser o melhor que o destino poderia me reservar, por me inspirar, por ser forte, e por provocar em mim a melhor das emoções.
Viva! Taças foram erguidas. E Gabriel a girou, colocando-a em seus braços, prontos para alguma dança.
— Esposa, eu te amo.
O sibilo de espanto de Lilian foi interrompido, quando Gabriel colou os lábios rapidamente aos dela. Um violino soou discretamente, seguido pelo estrondo de toda a orquestra. Lilian rodopiava no salão. Sua mente perplexa. O que acabou de acontecer, o que...?
— Não tem nada a dizer?
— Pelo visto terei mais visitas no chá da tarde.
— Lilian, sua prima...
— Sua amada Claire.
— Eu te amo.
— Eu ouvi o que disse, eu e metade da nobreza. Foi tão fácil, não é? Agora que o brinquedo está quebrado você o acha interessante. É engraçado. Eu saí de casa hoje, convencida de que eu não faria o que eu tinha certeza em meu coração que eu deveria fazer.
— Não me abandone.
Ele a girou e aumentou o aperto na cintura de Lilian.
— Você falando em abandono? Não me faça ter um ataque de risos Gabriel. Você foi uma peça essencial na minha educação pessoal. Ao seu lado aprendi que um homem ainda pode ter meu coração, infelizmente esse homem era você. Neste momento, eu estou tomando de volta o que me pertence, o controle da minha vida e das minhas escolhas. Você de repente perceber que me ama, após ver Claire e descobrir a verdade... Não faz de você alguém que me mereça.
— Você me deu motivos para crer...
— E lhe dei motivos para confiar, tentar. Eu implorei que perdoasse, que esquecesse. E o que você fez? Usou aquilo que lhe era conveniente, meus beijos quando era conveniente, minhas palavras quando era conveniente, meu corpo quando era conveniente. Você esqueceu que eu tenho uma alma.
— Não foi o que aconteceu.
A primeira valsa terminou e outra recomeçou. Mais pares eram trocados, enquanto o ducado de Kahn estava em batalha.
— Não? Não me recordo de um momento em que esteve comigo sem estar ressentido.
— Lilian, meu amor...
— Oh Deus, tantas vezes eu sonhei com essas palavras saindo da sua boca... Pensei que ficaria feliz em ouvi-las, mas cada vez que diz que me ama eu tenho medo do que vem depois. Qual novidade ele trará ao me desprezar? Qual argumento para evitar me tocar? Não sou adequada?
— Eu juro...
— Poupe-me suas juras Gabriel, já nos magoamos demais. É hora de seguirmos nossas vidas separados. Parabéns por ter vencido a guerra. Se me der licença...
— Não pode abandonar uma batalha em curso.
— Estou me retirando do campo de batalha.
— Então se renda a mim, ou deixe que eu me renda a você, não me abandone Lilian, vamos tentar.
— Eu não consigo olhar para você sem querer me afastar e me encolher, esperando o próximo golpe, meu ou seu. Não quero ser a mulher ríspida e vingativa que me tornei com você.
— Eu te darei qualquer coisa Lilian, por favor!
— Eu queria, que tivesse dito que me amava no início da manhã, que tivesse ido atrás de mim, que não tivesse saído correndo ontem a noite. Queria que tivesse ouvido. Mas agora, agora é tarde demais. Eu estou exausta, e muito longe da mulher que eu amo ser.
— Eu direi que te amo e que pedirei desculpas mil vezes.
— Eu quero ser livre. Quero liberdade para escolher meu caminho.
— Eu estarei no seu caminho?
— Prefiro que saia dele, por favor, me deixe em paz, Gabriel.
Antes da última corda de violino encerrar a música, Gabriel observou sua esposa, a mulher que amava intensamente, correr escada acima. Ele olhou ao redor, e encontrou Nicholas, lhe dando um sorriso pesaroso, pior ainda, Caroline o olhava com compaixão. Não havia sinal mais claro, o duque deixou-se enganar por sua mente, fantasiou, mascarou, ele se colocou no fundo do poço.
*****
Tudo o que Gabriel precisava era saber onde sua esposa estava. Ele a havia perdido em todos os sentidos possíveis. Não queria recuar. Queria pegar o trem em curso, queria correr e gritar e se jogar de cabeça se isso significasse encontrá-la de todas as maneiras que importam. Contudo, sua conversa com Caroline latejava em sua mente.
— Gabriel...
— Não consigo compreender, eu faria, eu farei, tudo...
— O problema não estava no que está disposto a fazer, mas no que ela está disposta a aceitar. Eu te diria que pegasse um cavalo e fosse voando até ela, mas com qual propósito? Lilian está decidida, e pediu que eu te entregasse isso.
A mulher ergueu uma carta e depositou em suas mãos.
— Correndo o risco de que ela me mate por isso, vou lhe dizer onde ela está. Mas pense muito bem no que ela precisa, acima de você e do quanto a ama. Você a traiu de mais formas do que imagina, apenas... Não seja estúpido.
Se fosse inteligente, Gabriel não abriria aquela carta, ele certamente não iria gostar do conteúdo. Toda a desgraça e desencontro da sua vida aconteceu por ter lido coisas que sentia que não deveria ler. Mas a curiosidade, e o coração batendo tão forte que se fazia impossível ouvir a voz da razão, deram a Gabriel o meio e o motivo para ler o que sua esposa havia escrito.
Estou certa de que essa não é a melhor maneira de começar uma carta, nem mesmo uma que tenha sido escrita apressadamente, muito menos uma que carregue um conteúdo tão importante.
Sinceramente não te entendo, mas é fácil imaginar, acabei me tornando sua última opção ou algo assim.
Não faça outra cena, não me coloque no meio de um palco novamente, você atrapalhou bons planos meus ao fazer isso. Seria estupidez exigir um divórcio por qualquer que seja o motivo agora, há muito em jogo, não deixarei que tome mais nada da minha vida.
Não se preocupe, não te odeio (achei importante que ficasse com o que resta do seu coração tranquilo quanto a isso).
Em termos práticos, continuamos casados, se precisar que eu o acompanhe em um evento político importante estarei presente, basta entregar a solicitação a Caroline. Creio que esteja familiarizado como os termos, afinal, focou tanto em outras histórias que não a nossa, que não será difícil reconhecer que estou te presenteado com o que você sempre sonhou, um casamento igual ao dos seus pais.
Espero que essa carta o encontre em boa saúde.
Sendo livre, Lilian Doncaster (Mesmo sendo a duquesa de Kahn).
Era esse o derradeiro fim da história da sua vida. Fadado a repetir fracassos e colher decepções. Gabriel, segurando uma dose de brandy e com olhos cheios de lágrimas, olhou ao redor da biblioteca, aguçou os ouvidos. Silêncio. O peso do silêncio rugia em seus ouvidos. Anos passariam, eles se encontrariam em raras ocasiões formais, aniversários e eventos inevitáveis, distribuindo falsos sorrisos, dando desculpas para nunca estarem em casa, ou nunca estarem juntos.
Três meses se passaram e ele brindou a sua incompetência. Brindou ao pior fim para sua vida. Viver com Lilian de agora em diante era exatamente como acreditar que poderia tocar as nuvens. Impossível e ilusório.
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