Notas iniciais
Olá pessoal, voltando com uma séculos depois com algo diferente. Ainda quero muito terminar "Caro desconhecido", e irei, mas vamos voltar com calma.

Londres, 1833

Há 1 mês do casamento do duque

Não podia acreditar no que ouvia. Isso era simplesmente impossível. Claire, sua doce e encantadora prima Claire, estava lhe propondo aquilo? Lilian deveria imaginar que quando uma mulher invade a residência da outra e entra abruptamente em seu quarto tarde da noite, era certamente uma medida de desespero, mas nem mesmo ela, que entendia de desespero e tinha uma grande imaginação poderia supor aquele absurdo. Ela olhou para o copo d´água em sua mão e o bebeu de vez, Cristo, como desejava estar com algo mais forte.

— Lily, entenda que eu não pediria senão tivesse alternativa.

— Você se casará daqui a um mês.

— Eu sei, e é por isso que a ideia me correu.

— Por que não solicitar a uma meretriz qualquer?

— Porque ela não me ama e quer meu bem como você, fora que seria escandaloso demais.

— Ora, não ouse usar isso para me manipular!

— Preste atenção, é uma proposta bem simples. Eu imaginei que passar uma semana com uma mulher tão exuberante e interessante como você faria Gabriel reconsiderar.

— É claro que ele não irá reconsiderar, ele te ama.

— Mas eu não o amo. Por Deus, eu juro. Eu achei que era amor, mas não posso me submeter a tamanha infelicidade, nem ele. Odiaria vê-lo sofrer, tentando reaver algo que não existe.

— Ninguém deixa de amar alguém assim tão rápido. Você está confusa. – Lilian sabia que aquilo era verdade, se você deixa de amar alguém em tão pouco tempo, você nunca o amou realmente. E se você ama perdidamente alguém que conhece a meses apenas, você está beirando a insanidade.

— Não, não estou confusa, estou... desesperada.

— Clarie ... – Usou o apelido de infância num apelo para a prima recobrar a consciência

— Não, por favor, me escute. Eu amo lorde Becker. Eu o amei assim que o vi. Quando nossos olhares se cruzaram foi como se o mundo tivesse parado. Eu senti. Gabriel estava ao meu lado, eu simplesmente o esqueci. Meu mundo parou. Eu nunca senti nada parecido antes.

—Você e Gabriel são perfeitos, um casal ideal, são amigos, ele é um duque, pelo amor de Deus! – Claire a estava enlouquecendo.

—Por favor, não blasfeme.

—Viu? Você é certamente uma santa. Converse com Gabriel, diga que tem dúvidas adie o casamento em alguns meses, viaje comigo. Eu convido Daniel para alguns almoços, jantares e piqueniques e vocês podem passar algum tempo juntos até que você perceba que ele não é para você.

—Como pode ter tanta certeza disso? O que há entre vocês? — Claire lhe direcionou um olhar acusatório. O tipo de olhar que recebia em salões de baile quando cometia o infeliz equívoco de estar no mesmo ambiente que Lorde e Lady Cavendish.

—Nada, somos bons amigos, e eu o conheço bem demais.

—Então não me diga nada, deixe que eu mesma forme a minha opinião.

—Para chegar a mesma conclusão que eu?

—Prima, não acredita que o amor pode mudar as pessoas? Daniel com certeza é diferente agora.

—Daniel? Você o chama pelo primeiro nome?

—Temos alguma intimidade.

—De todo modo, seguiremos o meu plano.

Claire se jogou aos seus pés. Seus cabelos loiros se emaranhando entre o tapete e seu vestido.

—Eu não lhe peço nada mais. Quero apenas que o seduza, e case-se com ele.

—O que a faz acreditar em primeiro lugar, que eu tenho o poder para seduzi-lo?

—Você é bonita demais para o seu próprio bem, rica, estupidamente inteligente. Além do mais, se os boatos precedem de algum modo, você é sim capaz de enredar um homem.

— Não deveria dar atenção a fofocas. E eu não deveria nem estar dando corda às suas ideias. Além do mais, eu não quero me casar.

—É perfeito, pense como uma aliança política.

—Claire, a sociedade viraria as costas para mim, a milha família, a nossa família, me ignoraria mais do que já faz.

—Então não seria um grande problema.

—Perdeu o juízo?

—Veja bem, você não tem nenhuma afinidade a ideia do amor romântico. Você é prática.

—Sim, e imaculada até a última vez que conferi.

—Você não será comprometida se é o que quer saber.

—Você quer fazer um escândalo.

—Um escândalo privado.

—Me explique como isso seria um escândalo privado.

—É muito simples. Daniel planejou tudo.

—Oh, é claro! Isso não poderia ter partido de sua cabeça, é claro que não.

—A ideia central foi minha, ele só me ajudou com alguns detalhes.

Lilian arqueou as sobrancelhas para Claire, e a prima a ignorou veementemente.

—Já criamos um ambiente favorável, com algumas insinuações sobre Gabriel.

—Então pretende abalar a reputação do duque também...

— De certo modo, será mais uma rachadura na fachada.

—Deus..

—Eu pedirei uma prova a ele, pedirei que me comprometa.

—Ele nunca vai...

—Ele já está inclinado a aceitar. Umas doses a mais, e um beijo apaixonante serão suficientes para que não me rejeite em seu quarto. Quando eu chegar, você já estará lá, escondida é claro. Eu irei servir uma taça de vinho com uma erva que deixará os sentidos dele abalados. A última coisa que Gabriel se lembrará, com certeza será dele indo se deitar com uma mulher.

—Com você. Ele acha que a mulher será você.

—Sim, mas não será. Nada precisa acontecer, você vai se deitar ao lado dele e quando ele acordar o senso de justiça o fará reavaliar tudo. Ele achará que comprometeu você. Se casará com você, e eu estarei livre.

—E se ele não se casar? E se quiser manter a farsa?

—Oh, ele nunca conseguirá fazer isso. Ele tem um grande senso moral, e se nada adiantar, eu direi que vi vocês, que estava esperando por ele quando entraram juntos.

—O que meu marido dirá quando na noite de núpcias perceber que eu sou virgem?

—Você pode disfarçar, adiar. Eu tenho certeza de que vocês terão o mínimo de afinidade, ele sentirá culpa.

—Ou sentirá que foi enganado, ou que é o pior dos homens. Claire! Eu não sou uma paladina da moral, mas até eu vejo que isso é incorreto. Teríamos de casar-nos às pressas, toda a sociedade comentaria. Você submeteria a Gabriel a uma grande infelicidade.

—Eu sei que isso soa egoísta.

—Isso é egoísta.

—Mas eu não posso fazê-lo sofrer. Ele não é nada além de perfeito.

—Mesmo que eu o fizesse, mesmo que desse cabo a essa loucura. Ainda existirá a possibilidade de ele me odiar. Gabriel acharia que o seduzi, de maneira arbitraria, por puro despeito. Já fui odiada minha vida toda, não posso ser odiada pelo meu próprio marido.

—Bem... então estou perdida.

—Você voltará a amá-lo.

—Este não é todo o problema. Eu, diferentemente de você, não sou mais imaculada.

Lilian piscou repetidamente, certamente ela piscou mais naquele momento do que em toda a sua vida, e então Claire completou.

—Estou fertilmente comprometida. Eu estou grávida de Daniel. Quase dois meses que minhas regras não vêm.

—Minha nossa... – Liana olhou para o corpo de Claire, absurdamente magra e delicada, em pouco tempo ficaria evidente que cedera seu ventre para um hospede.

—Quer escândalo maior?

—Gabriel assumiria a criança.

—Sim, mas saberia que eu não fui fiel. E então eu seria a mais odiada das mulheres... eu não teria forças, eu...

—Pensasse nisso antes de se deixar comprometer! Pelo amor de Deus Claire!

—Você quase foi comprometida, sabe o que é, o amor é...

—Não fale de amor. Isso não tem a ver com amor, e sim com desejo, o desafio, a tentação do proibido. Oh, Deus, Claire!

—Não sei mais o que fazer, simplesmente não sei. – Claire se pôs em lágrimas, e soluços.

—Podemos fazer isso. Eu posso arruinar seu noivado, mas eu não me casarei com o duque.

—Mas como?

—Seguiremos com o plano, eu acordarei ao lado dele, ele deve pensar que eu sou uma meretriz, você entrará no quarto, fará um breve escândalo, a tempo de ele despertar, será o tempo em que eu sairei. Ele nunca me verá, nunca vai saber quem eu sou, ele vai achar que te traiu com uma cortesã qualquer. Você não irá perdoá-lo, e o resto... bem, depois pensamos em como disfarçar a sua fertilidade com uma criança nascendo com 7 meses.

Claire caiu aos seus pés.

—Oh obrigada, obrigada, obrigada!

—Não me agradeça ainda, eu irei cobrar este favor.

Notas finais
Espero que tenham gostado.