Jai Peur
2 Capítulo 2
"Quero me encontrar, mas não sei onde estou. Vem comigo procurar algum lugar mais calmo. Longe dessa confusão e dessa gente que não se respeita. Tenho quase certeza que eu não sou daqui" (Legião Urbana- Meninos E Meninas)Um jorro compacto os atinge. Alguns táxis passam por eles e ela nem ao menos pede para algum parar. As pessoas usam suas wellington boots* e seus guarda-chuvas sem ao menos olhar para as outras. Com fones de ouvido maltratando seus tímpanos talvez nem possam ouvir o som da chuva, se é que ainda se lembram de como é sentir as gotas tentando bater em sua pele, a sensação sonolenta após ouví-la e a vontade de sorrir quando se está bem acompanhado.
Mas aqueles seres são frios, tanto quanto o vento que lhe agride toda vez que bate contra sua pele descoberta. Sem forças para caminhar sozinho, utiliza a ajuda da frágil mulher ao seu lado. Arrastando a perna ferida e apoiado sobre o delgado ombro, consegue prosseguir. A chuva parece ser algum ácido que invade seus cortes, que ardem. Sente a dor de forçar seus músculos a cada passo, de seu diafragma quando respira, a dor de estar vivo.Tenta não pensar o quão suja é aquela pele na qual encosta. Sente seus pés pisarem sobre o chão imundo. Olha para o céu e vê nuvens cinza e algumas gotículas caem sobre seu nariz. Chega a conclusão que está no inferno. Concreto demais num só lugar.Tem certeza de estar ouvindo uivos por entre árvores, mas está cercado por prédios. A caminhada termina e ele ainda está confuso, assustado. Talvez caminhe pelo lugar mais sujo de Paris. Passam várias mulheres despidas esperando serviço em pequenas ruas. Clubes de strip-tease, casas de sexo explícito e cabarés. Placas coloridas chamam a atenção em cada lugar, como se fosse o paraíso dos pervertidos. As mulheres nem ao menos dizem "Tu viens, chéri?"* para ele, por ver o estado deplorável em que se encontra. Deparando-se em frente a um bélissimo prédio ele fica paralisado. Examina cada milímetro de sua fachada detalhadamente esculpida e lamenta pelos outros que passam por ali, que certamente nem a notam. Um pedaço de borracha preto com algumas bolinhas em relevo separam a calçada da entrada pela qual ela o carrega. Novamente lamenta, por um local tão bonito ter se deixado levar pelo pedaço de plástico. Alguém como ele precisava de um longo tapete vermelho.Tapetes vermelhos! Por que preciso deles? Sou um rei?! Só se for o rei da miséria.Ela está apoiada sobre o balcão, parece estar descutindo com um homem já grisalho que lhe atendeu. Após alguns minutos, volta com um sorriso amarelo entre os lábios e o oferece o braço para que se apóie.Enquanto passam pelo senhor ele os observa, curioso.No vigésimo quinto andar o elevador pára. Logo em frente há uma porta a qual é aberta por uma chave acompanhada por vários chaveiros.Um sofá coberto por um tecido vermelho de quinta categoria é fornecido para que passe a noite. Pensa em perguntar o porquê desta caridade, mas acha melhor aproveitar a sorte que tem.*Botas de borracha, geralmente coloridas.*Tradução: Tu vens, querido?!
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