Notas iniciais
Oi, pessoal! Esse capítulo apresenta os dois primeiros personagens. Espero que gostem!

Mali Wisbeck

No primeiro dia após o anúncio em rede nacional, Mali Wisbeck recebeu, assim como os demais jovens de Hocks Abans, uma mensagem no primeiro eletrônico utilizado após às 15h. Mali estava em sua corrida diária, sempre no período vespertino. O comunicado para a jovem de 18 anos e sardas no rosto, veio por meio de uma notificação de voz que tomou seus fones de ouvido. “Olá, jovem de Hocks Abans! Esta é uma mensagem do Conselho Distrital a todos os possíveis participantes do Jaez de Bronze. Se você acredita ter o que é preciso para salvar o seu Jaez, a seguir, as orientações para efetuar a sua inscr…”.

― Uma verdadeira besteira — falou, enquanto lutava para respirar após cinco quilômetros de corrida sem interrupção. Ela sabia que precisava focar em sua respiração, caso desejasse alcançar suas metas e aumentar sua resistência.

Não ligou os fones novamente, não queria correr o risco de ter que ouvir aquela mensagem mais uma vez. Desconhecia os métodos que seriam utilizados pelo Conselho, contudo, tinha certeza que eles poderiam ser bastante convincentes para colocar um projeto em ação. Tratou de deixar sua mente livre daquele assunto, pelo menos enquanto corria. O que não estava em seus planos era receber aquela mensagem em diversos outros meios eletrônicos. A garota foi notificada pelo dispositivo televisivo, pelo smartX, no sistema de automação residencial e dentro do seu jogo preferido, o PickMe. Cada vez que o comunicado surgia, Mali sentia um arrepio percorrer sua espinha. A realidade era que, se de fato as coisas acontecessem conforme a exposição em rede nacional, ao final deste maldito jogo apenas um Jaez sobreviveria.

Mali morava apenas com sua mãe e seu irmão mais novo, o pai abandonou a família com o nascimento de Cairo. Sua relação com o caçula era a mais genuína possível, certamente ele era a pessoa mais importante em sua vida. E isso era o que mais a apavorava: Cairo não pertencia ao mesmo Jaez que o seu. Nascida em meados de dezembro, Mali pertencia ao Solar, enquanto seu irmão pertencia ao Jaez Equilíbrio. Ao consagrar um campeão, na melhor das hipóteses, apenas um dos dois sobreviveria.

No café da tarde, enquanto sua mãe dispunha à mesa, a garota sentiu um nós formar-se em sua garganta. ― Mãe, não sei se consigo lidar com essa situação — confessou, permitindo que lágrimas surgissem em seus olhos.

― Minha filha… — Sua mãe tampouco sabia o que dizer. O comunicado pegou todos de surpresa.

― Só sei pensar em Cairo. Só consigo imaginar que a vida de uma criança de três anos está nas mãos de um estranho. E quem garante que o sistema não escolherá o melhor jogador para defender x Jaez? Eu não confio no Conselho, mãe. Não posso acreditar que esse é o sistema que resolverá os problemas de Hocks — suas voz embargada tentava controlar a emoção que insistia em sair. Ela não queria se mostrar fraca diante daquela situação.

― Mali — sua mãe chamou, uma voz quase inaudível. — Você sabe que nesse sistema, para Cairo sobreviver…

― Eu sei, mãe. Eu sei.

Tony Carter

O jovem de cabelos escuros saltou do sofá assim que o relógio bateu 18h, o horário de início das inscrições para o Jaez de Bronze.

― Que nome sem sentido para algo tão importante — Tony deu de ombros, estava mais preocupado em garantir sua inscrição nos primeiros minutos. — Preciso que eles entendam o quanto eu quero participar disso.

Antony era um exímio jogador, passava horas do seu dia conectado, como se aquela plataforma fosse a sua segunda casa. Ele estava decidido e, mais que isso, acreditava com todas as suas forças que tinha o que era necessário para vencer o “campeonato”, modo como ele estava chamando a situação imposta pelo Conselho. Tony havia destinado muita atenção ao processo de inscrição, entendia perfeitamente cada cláusula do edital e acreditava que esta era a oportunidade de proporcionar uma vida melhor à sua família, todos pertencentes ao Jaez Equilíbrio.

― Engraçado! — Começou ele, conversando com sua mãe, Eleanora — No comunicado na TV, eles não mencionaram o prêmio para o vencedor. Mas, de alguma forma, eu entendo a coerência disso.

― Como assim? Questionou a mãe, tentando acompanhar o raciocínio rápido do filho.

― Imagine você que eles tivessem essa informação no primeiro comunicado. O que aconteceria?

― Provavelmente as redes estariam congestionadas, tamanho o interesse.

― Exatamente. Contudo, eles não querem pessoas interessadas em dinheiro. Eles querem jogadores habilidosos que tenham a intenção e a missão de salvar seu Jaez por amor, não pela ganância. Poético, não? — Tony riu levemente.

― E é por isso que você vai fazer a sua inscrição, meu filho? — Sabia pergunta de Eleanora.

― Talvez pelos dois, mãe.

E não mentira. No primeiro momento, obviamente, Antony pensou unicamente no instinto primordial de cada ser humano: sobreviver; contudo, ele seria hipócrita em afirmar que o prêmio não mudaria a vida de sua família. Ajudaria qualquer pessoa.

Dentro do seu quarto, Tony trancou a porta para que a mãe não o atrapalhasse durante a gravação do seu vídeo de inscrição. Não que ela fosse fazer isso propositalmente, ela sabia que ele precisaria de tempo e concentração para entregar um bom material, contudo, tinha certeza que qualquer distração o faria ficar nervoso. Posicionou seu SmartX em um suporte, semelhante a um tripé, que possibilita gravar sem o uso das mãos. Antes de acionar a câmera, releu os questionamentos da etapa de inscrição, refletindo sobre as melhores respostas, aquelas que surpreenderiam a equipe de seleção, mas sem deixar de ser transparente e sincero, como sempre fora.

― Vamos lá! — Disse baixinho, apertando o botão vermelho que iniciava a filmagem. — Olá, pessoal! — Falou calmamente, sabia que não valia a pena ficar nervoso. Aquele era o jeito natural de Tony, por isso, precisava apenas ser ele mesmo. Para responder à primeira pergunta, “um resumo do que é você”, o jovem optou por apontar características destaques da sua personalidade. — Aqui é o Antony, Tony, como prefiro que me chamem. Eu tenho 22 anos, sou da Província C e representante do Jaez Equilíbrio. Vocês perceberão que eu sou bastante calmo, sossegado e, por vezes, até um pouco frio. É o meu jeito. Alguns colegas brincam que sou a personificação do meu Jaez e, para ser sincero, eu até que concordo. Sou filho único de Jack e Eleanora, heterossexual, e gosto muito de jogos! Além de jogos, eu gosto de literatura clássica do século XIX, não me julguem. Música clássica também está dentre os meus gostos exóticos…

Mali Wisbeck

Naquela mesma noite, Mali teve insônia. Na sua mente apenas o seu irmão, o destino de uma criança de 3 anos nas mãos de alguém que sequer o conhecia. Como depender de alguém que não sabia pelo que lutar? É verdade que, para Cairo viver, seu próprio Jaez teria que perder. Teria que ser extinto. Contudo, ela estava preparada para aquilo. Não tinha dúvidas que a sobrevivência do seu irmão, do seu maior amor, estava acima de tudo.

Levantou rapidamente. Não tinha mais o que pensar. O relógio marcava 03h45 da manhã quando sua câmera foi ligada. A contragosto, ela já havia lido o edital de inscrição e sabia exatamente o que fazer. Ainda assim, Mali não poderia falar o motivo real pelo qual sua inscrição seria realizada. A organização do Jaez de Bronze jamais permitiria que um selecionado não representasse o seu Jaez, assim, toda a esperança de uma comunidade estaria perdida antes mesmo dos jogadores entrarem na arena.

― O que eu invento? — Disse baixinho, pensativa, tentando arrumar uma ótima história para contar.

A luz vermelha da câmera piscava de 2 em 2 segundos, sinalizando que estava tudo certo com a gravação. O vídeo não podia ser longo, conforme explicado no edital, portanto, ela precisava ser coerente e concisa, preferencialmente. Em uma das perguntas ela conseguiria ser totalmente verdadeira e, sem dúvidas, aquela seria a sua maior chance de mostrar sinceridade e, consequentemente, de chamar a atenção dos organizadores.

― ...Vocês devem conhecer o jogo 3xBet, não é? — Começou Mali, sentindo-se no poder da situação. — Se vocês pesquisarem sobre os campeões do ano passado, verão meu nome na seleta lista. Não foi um campeonato difícil, mas ouso dizer que sou muito habilidosa. Foi lá que tornei conhecida minha segunda identidade, Ninka, a camaleoa curiosa e, se vocês permitirem, pretendo levá-la ao Jaez de Bronze. Se vocês não conhecem a Ninka, conto-lhes um pouco da história dela: ela é nativa de uma tribo há uma tempo esquecida, os huinumpah. Ela tem a habilidade de se camuflar na multidão, assumindo a aparência de qualquer um, além de absorver seu estado emocional para perceber quem é inimigo ou não. Eu não tenho dúvidas que a Ninka será a cereja do bolo nesse grande evento. Não há jovem no Solar que não torça por ela. Vocês terão toda a comoção necessária, tudo o que vocês desejam.

Ao finalizar o vídeo, Mali tinha certeza que fora apelativa o suficiente e, mais que isso, que seus argumentos foram bons o bastante para chamarem atenção. Penso que teve sorte em participar do único campeonato de 3xBet e ter sido bem colocada. Aquela credibilidade poucos teriam e, certamente, aquilo era uma vantagem e tanto para a garota. Quando terminou o envio do vídeo já eram quase 5h e, apesar dela não ter visto o tempo correr tão depressa, acreditou que foram horas de sono perdido que valeriam a pena, se tudo corresse bem.

― Você só está com olheiras enormes, Mali — Disse a si mesma, como quem julga a má apresentação do vídeo. — Mas tanto faz, eles vão me conhecer através da Ninka, não como Mali.

Tony Carter

Não tinha como negar: viver sem a certeza de uma aprovação (ou não) era a parte mais difícil de todo o processo. Tony precisava continuar sua rotina diária, mesmo com todos os anúncios sobre o Jaez de Bronze disparando em seus olhos, tornando-o mais ansioso do que nunca.

No final daquele dia as inscrições seriam encerradas, contudo, o resultado com o selecionado de cada Jaez seria divulgado apenas no dia seguinte, também no período da noite, em um anúncio em rede nacional.

Ao chegar em casa após o emprego de meio-período, Antony jogou-se no sofá e lá permaneceu até alguém surgir.

― Acho que vou dormir até amanhã de noite, mãe. Não estou aguentando tamanha ansiedade — Falou assim que a viu caminhar pelo ambiente.

― Deixa de ser dramático, meu filho. Adianta de algo ficar assim? — Sábio, porém, não compreendia o que ele estava passando.

― Eu sei disso, mas, não é algo que estou conseguindo controlar — Admitiu. — Você sabe o quanto eu preciso dessa vaga, mãe. Eu quero ter a oportunidade de defender meu Jaez, de defender a gente.

― Estou torcendo por isso, Antony. Não tenho dúvidas que você será um ótimo jogador. Tenho medo, meu filho, do que isso pode implicar, do que pode acontecer. Mas eu não confiaria minha vida a ninguém, senão você — Eleanora sentou-se ao seu lado e acariciou sua cabeça rapidamente. — Bom, agora vou preparar o jantar. Seu pai deve estar chegando daqui a pouco e nós sabemos como ele fica uma fera quando está com fome.

― Mas o pai sempre está com fome — Tony riu.

― Isso é verdade!

Tony caminhou em direção ao seu quarto quando a mãe foi à cozinha. Iria pesquisar novas notícias sobre o Jaez de Bronze, algo que tornara-se rotina desde o anúncio a todo o Distrito. Ligou o computador e, no pesquisador de notícias, nem precisou digitar nada, apenas atualizou a tela já pesquisada.

“Candidato do Jaez Equilíbrio tem mais de 500 mil seguidores e é um dos favoritos no processo de seleção ao Jaez de Bronze”.

Seu corpo passou a tremer no mesmo momento. Ele não podia acreditar que havia alguém tão influente a se candidatar para o campeonato. Antony não queria admitir que alguém seria tão bom quanto ele para assumir a posição de defensor da sua comunidade.

A notícia foi lida rapidamente, por três ou quatro vezes. Em questão de minutos ele já havia pesquisado sobre toda a vida do tal candidato. Viu suas fotos, idade, formação e como ele se tornou alguém conhecido no Distrito. Era fato: o garoto era muito bom e, possivelmente, seria escolhido pela organização. O apelo seria grande, algo que ele não conseguiria promover de imediato, sem que as pessoas tivessem a oportunidade de conhecê-lo.

― Qualquer chance que eu tinha não existe mais — Gritou a todo pulmão, para que a casa inteira pudesse ouvir.

― Meu filho, vem ver isso — Eleanora gritou tão alto quanto, em um chamado urgente.

Antony saiu em direção à sala, onde seus pais estavam, imóveis em frente à televisão. Lá, radiante em um dos canais de mais sucesso de Hocks Abans, estava o dito cujo sendo entrevistado, portando-se como se a escolha já tivesse sido realizada ou, pior, como se já soubesse do resultado dos selecionados.

Notas finais
Curtiram? No próximo capítulo pretendo já trazer a divulgação e a preparação para os jogos, com a reunião dos selecionados. Enfim, as inscrições abertas em http://bit.ly/jaezdebronze Convidem seus amigos! ♥
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.