O clima parecia piorar (ou melhorar, dependendo do ponto de vista) do lado de fora e Kyle desejou estar usando roupas, mesmo debaixo daquele tecido grosso que acreditou que poderia o manter aquecido. Christophe, por outro lado não se importou em continuar despido e fora das cobertas, e mesmo assim Kyle jogou um pouco do tecido para ele, que aceitou o mesmo de bom grado.

A MTV exibia o um último videoclipe de uma seleção de quase duas horas, e quando enfim acabou, deu início a outra programação. Kyle chegou mais perto de Christophe, deitando em seu ombro, levando mais uma colher de sorvete à boca. Ofereceu outra para Christophe, mas este recuou prontamente.

Most Wanted era um programa britânico de talk show que estreara naquele mesmo ano alguns meses mais cedo. Kyle deve ter assistido um episódio ou dois nas noites em que desmaiava de cansaço no sofá. O apresentador, Ray-Alguma-Coisa, que tinha um sotaque tão forte que fazia Kyle soltar uma risada baixa quando dizia palavras que ressaltavam seu sotaque, introduzia o programa. Kyle sentiu uma brisa fria atingir seu rosto.

Então ele apresentou o convidado daquela noite. Não, os convidados. Usou seu sotaque britânico para pronunciar o nome de Jack's Road de maneira engraçada, mas Kyle não riu. A colher ainda estava na boca, presa à língua, sendo gradualmente aquecida. Ele nem ao menos piscou.

Sempre ouvia dos discos de Jack pois tinha toda discografia. Desde “New World, Same Old Stupid Mistakes”, seu primeiro álbum de 1986 à “Things That I Can’t Say”, de janeiro de 1994 e o mais recente. Escutava e lembrava com carinho de cada um deles, mas não se aprofundava nisso. Apenas gostava de recordar dos tempos em que eram só eles em uma antiga casinha de ferramentas velha no quintal, fazendo barulho pois não tinham vizinhos para serem perturbados. Era bom lembrar que chegaram em algum lugar, mesmo sem ele. Já havia assistido um show ou dois, duas entrevistas ou três, mas nada nos últimos quatro anos. Era compreensível sua surpresa ao vê-los atrás daquela tela tão inesperadamente.

Kenny, Clyde, Wendy (a atual baixista da banda e vocalista secundária, Kyle descobrira há alguns anos), e Douglas, atual guitarrista, adentraram no cenário, descontraídos e confortáveis, como foram aconselhados a ficarem. Kenny aparentava estar um pouco grogue, com os olhos sonolentos, encostando-se na parede do estúdio, rindo de algo que Clyde dissera para ele enquanto Ray dizia alguma outra coisa para o resto do grupo. Kyle riu, quase revirando os olhos. Era claro que aqueles dois estavam chapados.

Como parte do programa, Ray pediu para que colocassem alguns objetos como camisas e CDs que já haviam no local sobre uma mesa e acrescentassem o que tivessem em seus bolsos que fossem doáveis e ao decorrer do programa, haveria um sorteio. Kyle lembra de um garoto histérico que levou alguns pertences de Osasis chorando ao telefone.

Clyde foi o primeiro a caçar algo nos bolsos, encontrando apenas cinco dólares, uma caneta, um recibo de algo que não fazia ideia e um mini bloco de anotações, colocou tudo sobre a mesa. Wendy tinha uma corda arrebentada do seu baixo no bolso traseiro e todos riram quando disse que não fazia ideia de quando havia enfiado aquela corda lá. Também tinha quarenta e cinco centavos, a carteira de motorista (que voltou para o bolso) e um cupom do Café em que haviam parado para comer assim que chegaram em Londres naquela manhã.

Douglas tinha duas palhetas personalizadas: uma com a primeira letra do seu nome e outra com o nome da banda. Um mini guia turístico e a foto do seu cachorro, o que foi motivo de reações adoráveis. Kenny murmurou algo como “Desculpem se não tiver nada de interessante como a foto do meu cachorro” antes de começar a checar seus bolsos e todos riram. Tinha um isqueiro de cor azulada, sua carteira (que claramente voltaria no bolso, mas não sem antes ser exibida para a câmera sua foto na carteira de identidade na qual tinha uma expressão blasé de quem acordara às cinco da manhã para isso), uma caneta e três moedas.

Ray dizia: “Tudo isso pode ser seu, basta ligar para o número que vai aparecer na sua tela”

No fundo do cenário, o grupo conversava, e Clyde constantemente olhava para câmera, fazendo algum tipo de careta.

Depois do intervalo de dois minutos, nos quais Christophe quase dormiu com Kyle debruçado sobre seu corpo, eles estavam de volta, em um cenário diferente do anterior.

Havia uma poltrona na qual Ray estava sentado, e a banda confortavelmente sentada em dois sofás, cada um segurando uma garrafa de cerveja (com exceção de Clyde, que nunca fora muito fã da bebida). Talvez pelo frio, Kenny puxava a manga do suéter uma vez ou outra, cobrindo uma das mãos.

Ele está mais velho, mas o rosto ainda é exatamente o mesmo de dez anos atrás, Kyle pensou, levando outra colherada à boca.

— Estamos de volta com um bate-papo interessante com nossos integrantes de Jack’s Road. — Ray sorriu para a câmera, segurando o roteiro em suas mãos. Kenny também sorriu para a câmera, Wendy e Douglas ergueram suas garrafas.

— Vamos começar do início, vamos falar sobre o começo de tudo isso, e como aconteceu anos atrás quando vocês explodiram no mundo da música, sim? — Ray gesticulava como um legitimo apresentador de Talk Show — Como foi para vocês?

Todos pensaram um pouco, se entreolharam e Douglas respondeu:

— Uma surpresa, eu acho. — E todos riram, mesmo que concordando.

— É, foi... — Kenny começou desviando o olhar para o chão enquanto pensava, voltando-se para Ray ao encontrar as palavras certas — maravilhoso, de muitas formas. E surpreendente. — Acrescentou a última parte para mais algumas risadas sem sentido. — Quer dizer, a gente sempre trabalhou duro, então é o melhor feedback que poderíamos ter depois de tanto esforço. Simplesmente incrível. — Kenny dizia calmamente. Ao concluir, deu um gole na bebida.

— Posso imaginar — disse Ray — Vocês vieram de uma cidade pequena, onde a banda ganhou vida, estou certo?

— Sim, — Clyde respondeu dessa vez. O castanho costumava ser mais extrovertido nas entrevistas, mas a maconha que já estava perdendo o seu efeito o deixara mais quieto naquele dia. Ainda assim, não abandonou o velho habito de passar os dedos entre os cabelos acima da orelha enquanto pensativo. Era automático. — Viemos de South Park, eu e Kenny.

— Eu não sabia disso. — Christophe comentou, usando a colher de Kyle para enche-la de sorvete, levando-a a boca. Kyle o olhou com o canto dos olhos.

— Wendy e Douglas são de Michigan, e, honestamente, eu não estava totalmente confiante quando chegamos em Los Angeles. Tudo era novo, fora da nossa realidade, mas Kenny estava sempre dizendo: “Cara, você pensa de mais. Apenas... deixa rolar. Para de se preocupar tanto” não era um conselho muito criativo, mas deu certo na maioria das vezes.

Durante a resposta de Clyde, Kenny retirou os sapatos All Star que um dia já foram brancos e se sentou de pernas cruzadas no sofá, pegando mais uma cerveja na mesinha de centro do cenário.

— L.A é sempre tão cheia de vida e pessoas procurando pela mesmo coisa, pode ser intimidador no começo, eu conheço um pouco disso. Acredite. Mas antes disso vocês já tocavam em outros lugares ou eram apenas ensaios?

— Começamos na antiga casinha de ferramentas no meu quintal. — Kenny se manifestou dessa vez, com sua voz dando indícios de embriaguez que somente Kyle e os outros membros da banda puderam reconhecer — Meus pais não passavam muito tempo em casa e nós literalmente não tínhamos vizinhos. Era simplesmente o lugar perfeito. — Ele sorriu. Ray fez uma breve piada sobre a ausência de vizinhos — É, a gente se divertia bastante — fez uma breve pausa pensativa, mordiscando o lábio inferior — E algum tempo depois conseguimos um espaço pra apresentações em um clube local, era...

— Joe’s Star Club. — Clyde o recordou, tomando a cerveja da mão de Kenny para um gole do qual se arrependeu prontamente, fazendo uma expressão azeda e então a devolveu para Kenny. Ray riu.

— É, isso. As pessoas gostavam, e foi quando eu... — Kenny gesticulou com a mão ocupada pela garrafa — vi o quanto valia a pena investir tanto de mim e da minha fé nessa banda, sabe? Eu só... me sentia satisfeito, realizado. Não sei se essas seriam as palavras certas pra descrever isso, mas era algo semelhante.

— Isso soa justo, incrível. Mas a formação era outra, não apenas você e Clyde, sim? — Acrescentou uma risada no final, Clyde acompanhou. Kenny pôs a mãos nos cabelos, soltando um sorriso desajeitado, esperando alguns comentários (ou tentativas de piadas) vindas de Clyde acabarem.

— Erámos quatro na época, também. — Desceu as mãos para os braços, abraçando-os, talvez pelo clima ou apenas em um gesto distrativo. Ele não olhava mais para Ray ou para câmera, e insinuava um sorrisinho. — Eu, Clyde, Craig e Kyle. Craig era nosso guitarrista e Kyle, baixista. Nós éramos ótimos. — Passou a mão pelo queixo, olhando para Ray agora.

— O que aconteceu?

Kenny soltou um “hm” pensativo, como se considerasse dar uma longa explicação àquela pergunta.

— É complicado — Clyde interviu, coçando a nuca.

— Acho que... — Kenny pensou cautelosamente — existe um momento pessoal pra cada um de nós onde temos que repensar nossas escolhas e decidir qual caminho seguir, sabe? E nós tivemos o nosso.

— Eu entendo. Isso acontece com bastante frequência com bandas no início da carreira. E ainda com essa formação, a banda continuou crescendo, eu imagino.

Kenny assentiu.

— Fomos convidados para um festival de verão local. Dois anos consecutivos? — Virou-se diretamente para Clyde, perguntando, confuso. Clyde assentiu lentamente.

— Dois anos consecutivos.

Kyle lembrou-se daqueles dois anos no festival de verão de South Park. Foram os dois melhores show que já fizera, justo por ser um público maior que de costume. O festival durava uma semana, e eles tocaram por dois dias.

— Um tempo depois, fomos chamados para Los Angeles.

— E foi quando Wendy e Douglas se juntaram a banda? — Ray mudou de posição, estando mais confortável agora. — Vocês dois estão tão quietos aí atrás.

Wendy soltou uma risada nasal, afastando a garrafa dos lábios, colocando uma mecha do cabelo curto para trás da orelha.

— Acho que não foi muito tempo depois de eles chagarem em Los Angeles. Uma semana, mais ou menos.

— Menos — Kenny se virou para ela — Uns cinco dias. — Wendy assentiu, recordando.

— Eu me lembro que aconteceu na correria. Eu e Douglas estávamos exaustos, já tínhamos estado em duas bandas antes, e foi tudo muito rápido, sabe? — Douglas assentia com cada palavra. — Quando recebemos o convite para participar da banda, estávamos torcendo por algo sólido, duradouro. E conseguimos.

— Posso imaginar o alivio de ter chegado em algum lugar estável. E quanto tempo vocês passaram nessas outras duas bandas?

— Na primeira, durou um ano, quase dois. A segunda sete meses.

— Céus, por quê?

Kenny deitou-se sonolento no ombro de Clyde, e ambos trocavam algumas palavras uma vez ou outra.

— Honestamente nem sabemos bem o porquê. — Douglas disse. — Acho que essa foi a pior parte. Eles apenas vieram até nós e disseram: podem ir pra casa, a banda acabou.

— Isso é horrível — Soou tão indignado quanto aqueles dois.

— É, é sim. Mas acho que foi bem melhor assim no fim das contas. — Wendy disse.

— Eu concordo. — Ray sorriu. Bateu nas próprias pernas e virou-se para a câmera — Vamos ao intervalo e voltamos em breve. Não se esqueça de ligar para participar do sorteio-

Kenny interrompeu a divulgação de Ray, levantando-se do sofá e juntando seus sapatos do chão. Correu com os pés descalços até a mesinha onde estavam os “prêmios” e adicionou seus sapatos a lista. Ray deu mais uma das suas risadas de apresentador.

— Isso fica cada vez mais interessante. — Ray disse, antes de serem cortados para os comerciais.

No sofá de Kyle, na sala quase silenciosa a não ser pela TV não muito alta, havia o silêncio entre aquelas duas pessoas. Kyle voltou a olhar de soslaio para Christophe. Ele sabia que diria algo, pois sugava o ar e soltava, como se fosse dizer algo mas repensasse uma maneira melhor de fazer isto. E então fez de novo.

Separou os lábios, sugou o ar, prendeu a língua no céu da boca, mas não a fechou novamente.

— Eu vou fazer uma pergunta simples, você só precisa responder “sim ou não” — Kyle piscou lentamente, deixando um suspiro cansado pois sabia muito bem de que pergunta se trava — Existe alguma, nem se seja mínima, possibilidade de você ter sido o ex-baixista Kyle de South Park e o Craig, que curiosamente também é guitarrista, também ser um ex-membro dessa banda?

Kyle largou o pote de sorvete ao seu lado no sofá, lambendo os lábios e encolhendo os ombros: — Não sei do que você tá falando — Ele tentou ignorar, mas sentiu os olhos de Christophe queimarem seu rosto — Talvez. — Christophe não disse nada, mas seus olhos continuaram no ruivo — É, era eu. Nós.

— Por que não disse que tinha uma banda? Ou melhor, que essa banda era Jack’s Road? — Tentou manter um tom indiferente, mas a curiosidade estava lá.

— Porque não é relevante. Nunca foi. — Jogou a cabeça para trás e enrolou-se ainda mais no edredom — Esquece isso. Não é tão importante assim.

Christophe resistiu a vontade de fazer mais perguntas e disse:

— Tudo bem. — Houve um pouco mais de silêncio. Christophe arrumou-se no sofá, suspirando. Kyle voltou a atenção para a TV, onde a entrevista continuava.

— Só mais uma pergunta: — Christophe voltou s falar, de repente — o relacionamento complicado foi com qual deles?

— Olha só a hora, Christophe. Hora de você cair fora. — Levantou-se, ainda carregando o edredom nas costas, esperando que outro também se levantasse.

— O quê? Ainda tá cedo. Achei que fossemos passar a noite assistindo TV ou sei lá.

— Mudei de ideia. Nada pessoal, agora sai. — Apontou para a porta. Christophe procurou vestígios de raiva em Kyle, mas não havia nada. Apenas parecia genuinamente cansado. Christophe uma vez disse que iria respeitar seu espaço e assim e o faria. Levantou-se do sofá, e sentiu a brisas fria que a brecha da janela trazia para dentro.

— Eu posso ao menos pegar minhas roupas? — Kyle começou o empurrar para fora, mesmo sem considerar a forçar superior do outro. Força que não foi tão útil. Quando menos esperou, Kyle estava o forçando para fora da casa. — Kyle, tá frio aqui. — Reclamou, colocando as mãos em frente ao pênis flácido. Mas Kyle fechou a porta antes pudesse fazer mais reclamações.

— Kyle! — Disse, em voz alta, esperando ser atendido. Mas a única resposta foi uma vizinha do outro lado da rua que o mandou calar a boca, espiando-o pela brecha da cortina na janela. — Kyle! — Sussurrou desta vez, esperando que escutasse ainda sim.

Poucos segundos depois Kyle reapareceu na porta e o entregou suas roupas, todas enroladas em um bolo. E fechou a porta novamente. Christophe agradeceu, sussurrando, e correu para sua casa.

Na manhã seguinte Kyle acordou, mas não se levantou da cama. A chuva do dia anterior continuava. O ensaio da peça seria mais cedo naquela manhã, às 10h00. Kyle inclinou a cabeça para o relógio abaixo do abajur e viu que marcava ainda 07h34 da manhã. A chuva que ganhava força sugava a coragem de Kyle para sair dali. Se revirou na cama até às 07h59, e resolveu que era hora de fazer alguma coisa.

Arrastou-se até a cozinha, se preparou uma xícara de café e isso seria tudo o que ingeriria pelas próximas horas. Kyle geralmente não se importava com dias ruins, seus dias ruins. Dias que preferia ficar na cama e dormir por um mês ou pelo resto da vida. Embora não tenha dormido mais que três horas naquela noite. Ele pôde ver o resultado ao passar pelo espelho na sala, mas não parou para observar os detalhes.

Mas apenas continuou. Continuou fazendo o que tinha que fazer. Funções matinais básicas do ser humano. Pôr uma roupa adequada ao clima, calçar seus sapatos favoritos (mesmo que sujos), terminar seu café e lembrar de respirar fundo sempre que se sentir sufocado pelos seus próprios fantasmas e demônios do passado. Ás vezes, Kyle sentia o peso de carrega-los nas costas.

Também se sentia mal por Christophe. Foi desnecessário, ele sabia muito bem. Esse era o topo do descontrole das suas emoções e se sentia um imbecil.

Pegou as chaves do seu carro – um carro que comprou na venda de automóveis usados em Denver no último ano, mas que ainda estava em ótimas condições – e deixou a casa. Antes de entrar no veículo desviou o caminho até a casa de Christophe, em passos apressados, agarrando-se ao próprio casaco como se isso fosse impedi-lo de congelar até a morte ou diminuir a quantidade de chuva que caia sobre ele agora.

Bateu na porta várias vezes, mas não foi atendido. Insistiu mais algumas vezes e, ainda sem sucesso, tentou olhar pela vidraça da janela. Não viu muito além da escuridão. Christophe não costumava sair cedo, mas era evidente que ele não estava. Foi para o carro e seguiu para o estúdio de tatuagem de Christophe.

Era um estúdio pequeno, Christophe o comprou há alguns anos e mesmo progredindo no seu trabalho e recebendo mais, nunca se mudou de lá. A localização era perfeita para ele. Haviam artes de pichações coloridas que decoravam a entrada e sempre faziam Kyle se perguntar se Christophe as teria feito. Eram lindas.

Havia uma placa na porta de vidro que dizia “aberto”. Kyle entrou com um pouco de receio. Bebe, a balconista, uma mulher alta e loira de cabelos perfeitamente ondulados, com maquiagens pesadas e escuras, tatuagens que decoravam os braços, as pernas e até as laterais do rosto. Ela sorriu gentilmente.

— Ele tá ocupado. — Disse quando Kyle se aproximou do balcão. — A agenda tá cheia. Até veio trabalhar no turno da manhã.

— É o que acontece quando se tem o único estúdio de tatuagem na cidade. — Kyle suspirou. A água da chuva escorrendo pelos cabelos e pingando em sua roupa. Estava pálido de frio.

— Você não quer uma toalha ou alguma coisa...? — Perguntou, preocupada.

— Não, obrigado. Só quero conversar com ele. É rápido. — Pediu, um pouco de desespero em sua voz.

— Tudo bem. Um cliente acabou de sair, ele deve estar organizando o material.

— Obrigado.

Kyle caminhou até a porta preta ao lado do balcão de Bebe.

Uma música baixa ecoava pelo ambiente. Paint It Black, Kyle quis sorrir ao identificar a música, mas não o fez. O estúdio era tão colorido quanto a entrada do local, com artes mais bonitas que as outras decorando as paredes de maneira admirável. Kyle adorava aquele lugar.

Christophe procurava por uma outra agulha dentro da gaveta, com as mãos enluvadas, balançando a cabeça no ritmo da música. Disse para Kyle esperar um momento sem encara-lo, imaginando que fosse um cliente.

— Chris. — Kyle o chamou, tomando sua atenção no mesmo momento. Fechou a gaveta lentamente sem perceber que estava fazendo, segurando a agulha. Havia uma forte expressão de confusão estampada em seu rosto.

— Kyle, — soltou um meio sorriso, um tanto forçado para o gosto de Kyle — o que tá fazendo aqui? — Kyle deus dois passos lentos a frente, entrelaçando sua mão na outra de maneira nervosa.

— Eu vim me desculpar por ontem. — Sorriu de maneira infeliz, sentindo-se um grande um grande idiota. — Aquilo foi estúpido e desnecessário. Desculpa, de verdade. — Apertava os dedos entrelaçados sem pensar muito sobre isso.

Chris se sentou no seu banquinho com rodinhas, mordendo os lábios, pesando nas palavras que diria. E sorriu amigavelmente.

— Acho que acabei ultrapassando o seu lado pessoal. Não se preocupa com isso, tá tudo bem.

— Você não fez nada demais. — Levou as mãos ao rosto, tapando-o e abafando um suspiro pesado. — Eu sou um idiota.

— Você não é um idiota.

— Sim, eu sou. Quem em sã consciência tranca outra pessoa nua pro lado de fora? Naquele frio?!

— Minha mãe. — Focou o olhar para longe, pesando nisso por menos de um segundo. — Escuta, eu tô bem, Kyle. Pare de se desculpar. — Olhou em seus olhos, querendo assegura-lo disto, mas Kyle ainda parecia incerto.

— Tem certeza? Você parece meio chateado.

Christophe moveu-se com o banquinho, arrastando as rodas barulhentas até Kyle. Separou as duas mãos entrelaçadas do ruivo e as segurou, em um gesto de confiança.

— Kyle.

— Sim?

— Eu não me importo. Para de ser um chato. — Kyle fez uma careta que seria engraçada em qualquer outra ocasião. — Eu não tô chateado, foi até engraçado. Não é grande coisa. — Soltou suas mãos e levantou-se do banquinho, deixando Kyle e voltando para o armário com mais gavetas do que Broflovski imaginou ser necessário. Abriu uma das portas de cima e tirou uma toalha de rosto amarela, entregando-a ao outro.

— Desculpa... — Disse de novo, Christophe arqueou as sobrancelhas — por ser um chato — concluiu e aceitou a toalha, enxugando o rosto primeiro.

— Por isso eu não posso desculpar. — Brincou. Kyle enxugava as pontas dos cabelos que não paravam de pingar.

— Eu estava pensando em fazer algo, depois do meu ensaio. — Devolveu a toalha.

— Desculpa, agenda cheia. — Encolheu os ombros. Kyle fechou os olhos, lembrando-se do que Bebe havia dito.

— Ah, é verdade. Bebe me avisou sobre isso.

Paint It Black havia acabado, dando espaço a alguma música de Led.

— Mas à noite, umas 11h, eu vou estar livre. Se quiser, podemos sair e jantar em algum lugar que feche depois das 2h. — Kyle assentiu.

— Parece perfeito. — Kyle sorriu, finalmente satisfeito com aquela conversa e parcialmente convencido de que Christophe não estava chateado. — Vou indo, te vejo mais tarde então.

— Na pior lanchonete da cidade — Acrescentou, brincando.

Kyle deixou o estúdio, ainda debaixo de chuva.

Foi um longo dia. Um dia que começou ruim, e foi gradualmente se revigorando, Kyle pensou consigo mesmo. Depois da conversa com Christophe, ele convenceu a si de que não tinha mais nada com o que se preocupar. Havia tirado peso de suas costas, não havia? Ele acreditava que sim.

Os ensaios e as aulas iam cada vez melhores. Ele nunca estivera tão bem.

Ele estava ótimo.

Mas aquele incomodo psicológico, que virou um outro emocional, e logo uma dor física nos seus músculos dos ombros, diziam o contrário. Não era um dor nova, mas Kyle se esquecera que estava lá por um tempo.

Agora ele caminhava para a lanchonete ao lado do teatro após o ensaio. Estava acabado, entregue a derrota contra o cansaço, mas ainda ignorava aquela tensão nos músculos; não queria pensar sobre ela.

Christophe estava sentando em uma mesa na calçada, bebendo água como bebia cerveja. Kyle chegou de sorrateiro por trás, abraçando-o em volta do pescoço. Christophe identificou seu perfume antes de mostrar seu rosto. Os cachos caindo sobre seus olhos adoravelmente.

Kyle sentou-se na cadeira em sua frente.

— Ei.

— Oi. — Disse, baixo.

— O que aconteceu?

— Nada — passou a mão na nuca, demonstrando a exaustão. As pálpebras pesavam como se ele fosse desabar naquela mesa a qualquer momento.

— Você parece cansado ou chateado. Não sei bem. — Christophe tinha um tom preocupado.

— Só cansado. Foi um dia pesado.

— Posso ver. — Deu um gole na sua água — Se não se importar, minhas mãos têm ótimas habilidades — Moveu os dedos — E só pra deixar claro, estou falando de massagem. — Kyle não conseguiu evitar a risada

— Ótimo. É a única habilidade das suas mãos que eu estou aceitando agora.

— Tem certeza?

— Absoluta.

— Você que sabe. — Deu-se por convencido — Mas já sabe: multifuncional.

— É, eu sei.

O movimento na lanchonete era pequeno devido ao horário, e ainda assim conversas paralelas preenchiam o espaço livre, sussurros arrastados pelo vento. Kyle tremeu um pouco de frio.

Uma garçonete esguia, pálida e de cabelos curtos os serviu com dois hamburguês, um prato de batatas fritas, um copo com refrigerante e outro com suco natural de laranja. Ambos agradeceram a serventia.

— Olha só quem memorizou os pedidos. — Kyle disse.

— Frequentamos esse lugar há meses. Uma hora ou outra isso aconteceria. — Justificou.

— Mais cedo do que eu imaginei.

Kyle segurou seu hambúrguer, enojado, embora desejasse ingeri-lo.

— Céus, como uma coisa pode ser tão nojenta e tão deliciosa ao mesmo tempo? — Disse antes de leva-lo a boca, enfim saciando sua fome.

O ruivo comia como um se não comesse nada há dias. Suas últimas “refeições” teriam sido um copo de café e rosquinhas no intervalo do ensaio. Normalmente Christophe era o que comia com tanto prazer, mas agora mal beliscava o próprio lanche. Kyle o assistiu fazer aquilo por sólidos vinte segundos.

— O que há de errado?

Christophe olhou para ele de repente, com se despertasse de um pensamento profundo.

— Comigo? Nada. — Voltou a comer como uma tartaruga, Kyle o assistiu mais uma vez.

— Ainda é sobre ontem?

— Céus, Kyle, esqueça isso.

— Bem, eu tô tentando, mas você fica aí desse jeito e não me diz o porquê. — Christophe não respondeu. Desviou o olhar para a rua, e Kyle aguardou, insistindo o olhar sobre ele.

— Eu estou indo embora.

— Como assim “indo embora”?

— Kyle, eu tô indo embora de South Park.

E aqui estava ele, outra vez.

E Kyle não respondeu. Analisou a situação e respirou fundo.

— E para onde você vai? —Tentou não parecer tão abalado quanto estava. Era aquele velho filme de novo.

— França — Ele disse — Minha mãe precisa de mim, aparentemente — Kyle não sabia muito sobre sua mãe, embora já houvesse a mencionado em diversas conversas de maneira casual. Nunca detalhes.

— Ela está bem?

— Vai ficar. É o ser humano mais forte que conheço — sorriu, seguro de suas palavras.

— Eu espero que sim.

Kyle voltou a beliscar o jantar com pouco interesse, seu estomago passou a recusar qualquer coisa drasticamente. Pensou nas palavras apropriadas para matar uma curiosidade, cauteloso para não soar rude — Você vai voltar algum dia?

Christophe encolheu os ombros, suspirando.

— Eu não sei, talvez. Daqui a alguns meses quem sabe... — pensou — ou anos. Eu realmente não sei.

— Oh, tudo bem — Kyle voltou a comer forçadamente, mas Christophe apenas o observou pelos próximos segundos.

— Kyle.

— Sim?

— Eu estava pensando... talvez, só talvez — Christophe soou receoso — Por que não vem comigo, Kyle? — Finalmente disse. Kyle permaneceu estático em seu lugar, olhos arregalados parados sobre a figura arrependida de Christophe. — Você tá bem?

— É, eu estou. É que eu... eu não posso fazer isso, Chris, me desculpe-

— Não, tudo bem, eu me equivoquei um pouco. Você tem a peça, o curso... foi um pedido estúpido.

— Não, não é estúpido, é adorável na verdade. E eu adoraria se não tivesse tudo isso acontecendo. Mas — fez uma pausa para respirar — foi um ótimo convite, Chris, obrigado.

Mais alguns poucos segundos de silêncio se passaram, e Kyle voltou a falar.

— E a casa? Quer dizer, você vai manter?

— Eu não sei. Se eu ver que não tenho como voltar, posso coloca-la a venda.

Uma brisa gelada bateu contra o rosto de Kyle, cortando sua pele sem dó, tirando os fios que recentemente têm coberto parte do seu rosto.

— E quando você parte?

— Ainda a amanhã, pouco antes do meio-dia.

— Oh. — Pensou no pouco tempo que ainda tinham. Bem, pelo menos ele não esperou de malas prontas o táxi chegar para me avisar sobre isso, pensou, e então afastou o pensamento. — Vai fazer alguma coisa até lá? — Christophe negou.

— Bebe me dispensou mais cedo — Riu, brincando. — Disse que pode cuidar de tudo. Você vai estar ocupado?

— Não. Sabe que não — Kyle deu um meio sorriso.

— Na sua casa ou na sua?

— Seu gato me odeia.

— É, ele odeia. Na sua é melhor — Kyle assentiu em meio uma risada.

Ficaram juntos até a manhã do dia seguinte, às 11h15 da manhã.

No decorrer da noite, Christophe disse que levaria seu cachorro Floyd com ele, mas seu gato, Pink, o que odiava Kyle, seria entregue ao abrigo de animais. Sua mãe era alérgica a gatos. Impulsivamente, Kyle se ofereceu para ficar com o gato, arrependendo-se no momento seguinte. Até quando Christophe perguntou se ele tinha certeza disso e ele disse: “Sim, claro, absoluta”, e se arrependeu novamente. “Uma hora ele aprende a gostar de mim”, acrescentou, ainda falando da boca para fora.

Christophe também disse que venderia o estúdio por um preço razoável, e que se preciso, reabriria outro na França.

O voo de Christophe partiu às 11h45, Kyle foi com ele até o aeroporto e permaneceu até que embarcasse.

Em novembro de 1994, Kyle não cortou o cabelo.

Estava maior do que costumava deixar, mas pensou melhor e decidiu deixar crescer até que os fios começassem a incomodar. Também percebeu uma barba rala crescendo em seu rosto ao olhar-se no espelho do seu banheiro.

Acabara de acordar, com a cara amassada e um cansaço estampado em seu rosto. O som da banheira sendo preenchida ecoava pelo pequeno cômodo, assim como a rádio tinha sua contribuição.

“Mais um dia frio em South Park não faz diferença, mas uma boa playlist para começar seu dia com certeza faz!” alguém disse na rádio.

Kyle não prestava atenção, tinha a cabeça cheia naquela manhã. Acabou por se distanciar do mundo. Nada com o que se preocupar demais. Os negócios ainda iam bem, os ensaios ainda melhores. Tudo estava de acordo. Exceto por, bem, também havia o divórcio dos seus pais, que não fazia muito tempo, Gerald ainda estava no processo de mudança aparecendo para pegar mais algumas de suas caixas algumas vezes na semana e sempre que Sheila ligava para ele ao encontrar algo seu. Os últimos trinta e dois anos da sua vida em algumas miseras caixas de papelão.

Kyle teve a impressão de que estava infeliz ao busca-las na casa que agora era apenas de Sheila, mas não tanto quanto quando estavam vivendo sob o mesmo teto. E foi um processo amigável, sem brigas ou ressentimentos, pois ambos concordaram com isso para poderem seguir em frente, pois reconheciam a necessidade de não precisarem mais fingir um amor que morreu há alguns anos atrás.

Até mesmo pessoas como seus pais tinham seus limites.

Kyle pensou bastante sobre isso naquela semana.

Ele estava feliz por eles. Verdade seja dita, ele sabia isso não demoraria a acontecer, não foi uma novidade tão grande no final. E embora fosse um processo demorado e complexo, todos ficariam bem.

“Mas antes, vamos às notícias matinais” Disse um outro alguém, uma voz feminina entusiasmada, “o inverno esse ano será o mais rigoroso do que do ano anterior, afirma geólogo local”

Kyle desligou a torneira, vendo que já tinha o suficiente.

“Após a morte de Kurt Cobain em abril desse ano, fãs ainda se reúnem em tributo em frente a casa onde o cantor passou a infância, comovendo os familiares do ex-vocalista da Nirvana. ” Continuou a voz feminina “Na noite de ontem, a banda Jack’s Road anunciou uma pausa na carreira por tempo indeterminado”

Kyle finalmente entrou na banheira de água morna, soltando um gemido reprimido.

Clyde Donovan, co-fundador e baterista da banda, pediu aos fãs que não coloquem muita expectativa em uma volta em breve, mas que não percam as esperanças tão cedo. Essas foram as notícias deste sábado, doze de novembro. Mais tarde teremos uma entrevista exclusiva com o ex-baixista de uma das maiores bandas punks dos anos 70, Gregory-”

O ruivo estralou a língua e passou por trás dos dentes, ainda sentindo o rastro do sabor da fatia de bolo que comera no café da manhã. A água levava todo o estresse dos últimos dias embora, e Kyle podia respirar com mais tranquilidade, como mágica.

A rádio soava distante agora, tocando alguma música da Garbage que Kyle desconhecia.

O quase-silêncio.

Kyle tem tido muito disso nos últimos anos, mas depois que Christophe se foi, esse quase-silêncio tornou-se apenas silêncio, e ganhou um eco de si. Broflovski precisou se acostumar de novo. Um parceiro de uma única noite não poderia fazer esse eco ir simplesmente embora, era insignificante a ele. Por outro lado, ele até gostava, apreciava e nunca reclamou, não de verdade ou em voz alta.

Red dizia que sua casa era fria, não apenas como o clima do lado de fora, mas como casas que pessoas como Kyle costumavam ter, pessoas solitárias. Kyle negava ser uma pessoa solitária, ele tinha Red, Stan, Craig e até Ike, para todos os efeitos, e sempre que dispostos, reuniam-se para uma cerveja ou um filme. Ele não era solitário, porque se sentia perfeitamente bem vivendo sozinho na maior parte do tempo, e estava satisfeito podendo vê-los quase todos os dias. Como poderia ser solitário dessa forma? Red não respondia, mas a expressão que fazia dizia por ela que não acreditava nisso.

Ele não poderia negar que essa brisa gelada o atingia às vezes, com agressividade até. No entanto, de alguma forma, ele sabia que isso não era sobre a solidão que nunca tivera, mas quem sabe seus fantasmas que rodeavam sua vida, tocando seu ombro no meio da noite e trazendo sentimentos que preferiria não sentir, lembranças que preferia que não passassem de papeis e fotos em uma pequena caixa de madeira com um “11” esculpido nela. Era a sua caixa de pandora, a décima primeira caixa do que Kyle desconfiava ser uma coleção delas, mas que nunca soube, pois apenas ganhara aquela individualmente de alguém no seu passado, alguém que foi trancado naquela mesma caixinha de madeira.

Apenas um fantasma, e ele congelava a sua sala de estar até mesmo nos dias raramente quentes.

O telefone da sala de estar tocou em um familiar e irritante toque que todos tinham em seus aparelhos de comunicação. Ignorou solenemente. Não sairia dali até sentir que estava pronto para isto e prosseguir seu dia. O bip da secretária eletrônica tocou e uma mensagem foi depositada. Kyle não pôde entender o que dizia, mas não durou mais que um minuto e alguns segundos.

20 minutos depois, ele estava decidindo qual par de luvas usar; a cinza feita de um tecido grosso, fofo e elástico era a sua favorita, mas a usou durante quase toda a semana, e não gostava das luvas sem dedos tanto assim, mas ela acabou por vencer essa decisão.

Alimentou Pink, o gato ranzinza de Christophe, enchendo sua vasilha de ração até que despejasse para fora. Kyle era um ótimo dono, sempre tentava amigar com gato, fazendo agrados ou comprando alimentos caros, e o gato, com o tempo, passou a aturar seu novo companheiro, dando-lhe um tempo do seu ódio. Kyle era grato por isso agora que podia chegar perto do animal sem levar um arranhão por isso. Até gostava do maldito gato.

Agora poderia ouvir o recado deixado em sua secretária eletrônica.

— Ei, seu cuzão, é o Ike. Não acredito que ainda tá dormindo. Caramba, você não trabalha? — Kyle revirou os olhos, encaixando melhor as luvas nas mãos — De qualquer jeito, é sobre o Stan. Shelly ligou hoje cedo — Kyle franziu o cenho, ouvindo com atenção — O tapado desabou do quinto andar de um prédio em chamas. Ele queria salvar um cachorro, ou uma criança, eu não sei. Mas o piso acabou cedendo e ele atravessou cinco andares. — Ike fez uma pausa — O estado dele é estável, um médico disse, mas acabou entrando em coma. Ele tá internado no único hospital bom dessa cidade. — Suspirou — É isso. Shelly pediu pra te avisar. Eu sei que vai querer dar uma visitada por lá, porque se não quiser é o pior melhor amigo do mundo.”

Era certa a expressão evidente de preocupação estampada no rosto de Kyle assim que o recado terminou. Teria ensaio aquela manhã, e não se importaria nenhum pouco em faltar para ver seu melhor amigo inconsciente.

A rádio já não tocava mais e Kyle estava de saída. Pegou um pequeno chaveiro quase enferrujado que continha todas as chaves que precisaria ao longo do dia, incluindo a do seu carro, e deixou a casa.

Do lado de fora, algo curioso acontecia; um homem engomadinho de terno cinza estava parado em frente a (antiga) casa de Christophe, assistindo outro homem, que ao contrário deste não havia nada de formal, martelando uma placa no gramado em frente à casa. Kyle se aproximou da cena para matar sua curiosidade.

— Oi, — se aproximou do homem de terno que deu meia volta, antes virado de costas para ele e de perfil para o que ocorria no gramado. — A casa está à venda? — Tentou olhar para o que a placa dizia, mas não conseguiu do ângulo em que estava.

— Sim — sorriu o aparente corretor de imóveis com aquele sorriso que apenas eles sabiam dar. O forte sotaque australiano chamou a atenção de Kyle — Interessado?

— Não, eu moro na casa ao lado — Apontou rapidamente, usando uma das chaves sem perceber.

— Oh. — Seu sorriso interesseiro imediatamente diminuiu.

— É que o antigo vizinho e eu éramos amigos, agora ele está na França e... — Kyle percebeu que estava fugindo do ponto e repensou suas palavras — Por que ele pôs à venda? Achei que fosse retornar.

O corretor se virou para Kyle por completo, olha-o de perfil. Forçou uma expressão deprimida no rosto enrugado de um homem saindo da casa dos 40.

— Christophe e eu tínhamos um acordo: caso desistisse da residência, entraria em contato comigo e eu colocaria ela à venda. Dois dias atrás ele me ligou e disse que não retornaria, não tão cedo. — Arrumou o chapéu engraçado em sua cabeça — Pelo o que sei a sua mãe faleceu e ele vai precisar ficar por lá por um tempo indeterminado, sabe? Arrumando papelada, resolvendo assuntos inacabados da família.

O homem atrás dele havia parado de martelar. O serviço estava feito. Acenou para o corretor que acenou de volta para ele, e entrou no belo carro prateado estacionado em frente à casa.

— Seja o que for, vai manter ele por lá por um bom tempo. — Kyle assentiu, hesitante, pensando no que o corretor engomadinho dissera.

— Tudo bem. Obrigado. — Disse. O corretou lançou um sorriso de plástico novamente.

— Por nada. Tenha um bom dia. — Arrumou seu chapéu desnecessariamente mais uma vez. Caminhou até o carro prateado. E Kyle foi para o seu, dando uma última olhada para a placa no gramado.

Em dezembro de 1994, a peça de Kyle e Red estreou no antigo teatro abandonado de South Park. No dia 02, às 19h30. E Kyle achou que fosse morrer naquele dia, realmente morrer. Naquela mesma manhã, acordou em um susto, arfando. Talvez pelo sonho que não se lembrava, mas ainda tinha a sensação armazenada dentro de si. Foi um dia que começou ruim, definitivamente, e foi se tornando cada vez mais estressante com o passar das horas. Ele estava tenso e sobrecarregado, e Red sugeriu que ele relaxasse durante a tarde.

E com relaxar, estava falando de dois cigarros de maconha atrás do teatro no fim da tarde. Kyle teve admitir que precisava daquilo tanto quanto acreditava, e Red estava certa no fim das contas.

O desempenho de ambos naquela peça foi espetacular, creio que essa seja a palavra certa, pois um crítico local a usou em sua coluna no jornal na manhã seguinte. “Desenvolvimento medíocre de personagens” também foi dito em algum outro jornal por outro crítico aleatório, mas não é como se Kyle tivesse dado atenção a isso.

Ele estava feliz e extremamente satisfeito com seu trabalho e todo o esforço dos últimos anos. Ninguém poderia tirar isso dele.

Stan havia acordado do seu coma nas primeiras horas daquele mês, para o alivio de Kyle e da família do rapaz. Sempre estiveram bem informados sobre não ser uma situação de risco, segundo a escala de coma de Glasgow, estava em um coma leve. Ele sairia bem. Mas os primeiros dias não deixaram de ser assustadores por isso.

Durante aqueles poucos dias em que esteve inconsciente, Kyle o visitara em todos eles quando chegava no final do dia e compartilhava algumas palavras, não se importando em não receber uma resposta.

— Eles me disseram que você pode ouvir o que eu digo, então se prepara pra ouvir bastante minha voz enquanto estiver aí, de férias do mundo. O que não faz diferença, você sempre foi um melhor ouvinte do que conselheiro — Kyle brincou, tentando manter o humor diante da situação na primeira visita que fizera a ele. Stan teria rido, depois o xingado, pensou o ruivo.

Mesmo com todos os médicos assegurando que ele ficaria bem, Kyle não tinha essa segurança quando o olhava daquele jeito, respirando com ajuda de máquinas, o rosto bonito que tinha quase irreconhecível, feridas, pequenas e leves queimaduras espalhadas pela visão limitada que tinha do seu corpo.

Aquele nó na garganta e o desconforto descia por todo o seu corpo com agressividade.

— Nem assim você vai se livrar de mim. — Kyle retornou a falar, movendo uma mecha do cabelo moreno de Stan para trás da orelha. Estava tão mórbido, exatamente como nos filmes. — Eles disseram que você salvou uma criança. Atravessou cinco andares abraçando ela e a protegendo com a sua vida. — A voz de Kyle quebrou, mas se esforçou para manter as lágrimas para si — Ela está se recuperando bem, a criança, se você quer saber e eu aposto que sim, — sua voz tornou-se pequena. — você a salvou, você é o maldito herói que sempre sonhou em ser.

Kyle riu de si mesmo, melancólico.

— Droga, eu prefiro você com a função de fala.

No dia 01 de dezembro, Kyle estava novamente naquele quarto de hospital. Shelly passou a noite fazendo companhia para o irmão, e Kyle assumiu depois disso. Levou mais algumas roupas limpas para Stan em favor de Sharon, e jogou mais um buquê de rosas mortas que estava para a decoração da janela na lixeira ao lado. Sempre dizia: “Eu não entendo o porquê dessas flores. Elas só fazem murchar e morrer no fim das contas. Estamos em um hospital, por Deus!”

— Acho que as pessoas só gostam de observa-las. Elas nem têm um cheiro tão bom. — Stan disse e.... Stan disse. É, essa era definitivamente a voz de Stan, fraca e rouca, quase irreconhecível, mas ainda sim a voz do seu melhor amigo. Kyle se virou para cama com a respiração pesada.

— Céus, quase me matou de susto. — Pôs a mão sobre o peito em um gesto dramático. — Achei que seu espirito estivesse dando uma escapadinha ou eu tinha enlouquecido.

— Nem assim você vai se livrar de mim. — Repetiu a fala de Kyle em um tom divertido, e Kyle riu. Não do comentário necessariamente, mas de poder ouvi-lo novamente.

— Eu senti tanto a sua falta — O abraçou cautelosamente entre aqueles tubos e ferimentos que ainda se curavam.

— É, eu também senti minha falta. Da minha voz principalmente. — Manteve o humor e Kyle deu um leve tapa em seu ombro.

— Não me faça te pôr em coma de novo.

Stan riu e Kyle chamou por uma enfermeira.

Embora tivesse recuperado a consciência, seu corpo ainda não estava completamente recuperado dos ferimentos, tais como algumas queimaduras de grau mais elevado que outras ou a sua perna quebrada. Houveram mais alguns outros fatores que acrescentaram não serem preocupantes, mas ainda eram relevantes para a continuação de supervisão médica. Ele passaria mais um mês naquela cama e Stan não ficou nenhum pouco feliz com aquilo.

Era teimoso demais, queria sair dali e voltar a exercer seu trabalho o mais rápido possível, sempre choramingando para os médicos ou para Shelly, ou para Kyle ou Red na maior parte do tempo. Era exatamente como uma criança.

As visitas de Kyle continuaram, com mais frequência até, e Red estava sempre lá com ele.

Era bem melhor agora em que poderiam manter uma conversa.

Na saída do hospital para uma aula, no dia 5 de dezembro, pouco antes de precisar chegar no curso, Kyle procurava pela chave do lugar dentro da mochila. Costumava carregar naquele chaveirinho como sempre, mas o tirou em uma ocasião que não se lembrava, agora estava perdido em meio a bagunça. E com um copo de café em uma das mãos a procura se tornava ainda mais difícil. Mas ele a encontrou, finalmente.

Deu mais um gole no seu café antes de continuar, apoiando as costas na parede do corredor que levava até a saída, tomando mais um tempo para si antes de atravessar. Alguns enfermeiros e familiares de pacientes passavam por ele algumas poucas vezes. Nas paredes a sua frente, haviam cartazes sobre saúde, tratamento e propaganda do hospital, assim como avisos para não fumar ou evitar o uso de celular em algumas áreas especificas.

No entanto, uma em especial chamou a atenção do ruivo; haviam cartazes desejando boas festas aos que os lessem, com funcionários e pessoas aleatórias sorrindo naturalmente para a câmera usando gorros com decorações no fundo da foto, com a frase: Boas Festas! Em letras cursivas de cor vermelha, sendo grandes e chamativas. Abaixo, um pequeno projeto que dizia: “Ajude uma criança do hospital HP nesse natal”, e em seguida uma introdução ao projeto cuja o objetivo era incentivar os visitantes de pacientes ou os próprios familiares a proporcionarem um natal “mágico” às crianças que passariam mais uma noite de véspera internadas naquele lugar. E abaixo disso, pequenos cartões que seriam cartas de pedidos escritos por essas crianças pregados com pequenos alfinetes coloridos em uma cartolina vermelha, com a instrução em letras pequenas ao lado: “Pegue um cartão e ajude uma criança!”

Haviam vários espaços vazios entre cinco ou sete cartões que permaneciam no mesmo lugar, e pelo que Kyle observou, já estavam ali há algum tempo. Ele caminhou até lá vagarosamente e pegou um cartão verde aleatório, e o virou. Pertencia a uma criança chama Nichole. Nichole tinha nove anos e uma letra adorável, usando corações em vez de pequenos pinguinhos nos “I”. Ela pedia docemente por um presente que sonhava em ter há muito tempo, e que compreendia que poderia ser caro, e por isso dava alternativa de deixar a critério do “papai Noel” em lhe dar o que quisesse.

Kyle pôs o cartão na mochila e deixou o hospital.

Quando o assunto era “planos para o natal” (Porém, Hanukka para os Broflovski) era certo que Kyle passaria na casa dos seus pais todas as noites da festividade, e no último dia desta, voltaria para casa antes do final da noite, ou da festa, para ficar bêbado na companhia de Stan e Red, fazendo sua própria festa. Era um ótimo plano e sempre deu certo para ele. E agora com seus pais recém-divorciados, não sabia se queria passar sete noites tentando fingir que não existia um gigante elefante na sala, procurando desesperadamente por assuntos que nos anos anteriores simplesmente fluiria. E, claro que Gerald não apareceria por lá, disse à Kyle que iria para Denver passar o resto do mês com seu irmão, e seria “maravilhosamente nostálgico”. Kyle não duvidou, ele realmente estava tentando e merecia créditos por isso.

Sheila não se chateou quando Kyle disse que não comemoraria a festividade naquele ano, principalmente porque ela estava aliviada. Não tinha humor para festas agora e Kyle estava ciente disso depois do que passaram na Ação de Graças.

Mas ficar sem seus melhores amigos não era bem uma opção.

Red não iria para Denver em 1994 de qualquer jeito, e Stan passaria seu natal em uma cama de hospital. Eles não se importariam em passar aquela noite ao lado dele.

E no dia 9 de dezembro, Kyle foi ao supermercado.

A compra costumava ser um hábito quase diário até pouco tempo atrás, mas isso era uma das poucas coisas que o ruivo passou a procrastinar recentemente. Até não encontrar mais seu pote de sorvete na geladeira em uma noite fria, especificamente às 23:55 do dia 08, e resolveu ir ao supermercado 24 horas há sete minutos de distância de onde morava.

Ele tinha uma lista em algum lugar daquele casaco, sabia disso, a fez durante o café da manhã da segunda-feira de duas semanas atrás quando planejava ir ao mercado, mas acabou esquecendo no decorrer do dia, e das semanas seguintes. E encontrou a lista. Não era pequena, e apenas queria pegar seu sorvete e ir para casa. Ainda assim, procurou por tudo o que estava na lista e jogou preguiçosamente no pequeno carrinho de compras.

A movimentação era claramente lenta, Kyle deve ter visto duas pessoas e três ou mais funcionários entre os corredores de produtos de higiene pessoal e produtos de limpeza. Uma música que esteve tocando na rádio durante toda a semana tocava mais uma vez entre os autofalantes do supermercado em um volume quase inaudível, que alguém dificilmente notaria, porém Kyle repetia alguns versos pois mesmo sem querer os havia decorado durante o tempo que passava dirigindo.

A lista estava quase no final, e Kyle encarava a prateleira de comida conservada como se fosse algo de outro planeta. Era sempre assim, e geralmente pegava o que parecia ser mais barato e ainda comestível (raridade, ele acreditava). Pegou uma lata de algo e jogou no carrinho, outra lada de outra coisa e leu cautelosamente, mas alguma coisa nos avisos o fez pôr de volta no lugar. Pegou outra e leu novamente.

No entanto, algo atrapalhou sua leitura repentinamente; um pequeno borrão de uma cor rosa pastel passou pelos cantos dos olhos dele. Kyle franziu o cenho e se virou para saber do que se tratava, não tinha visto uma criança sequer até então. Antes que pudesse perceber a ação, esse pequeno alguém o abraçou. Ao olhar para baixo, encontrou a figura feminina de cinco anos de idade o abraçando fortemente. Ele riu, devolvendo a lata para o lugar sem presta atenção.

Ela o largou, com um enorme sorriso no rosto.

— Kyle!

— Céus, Kristen, você quase me matou do coração — Ele disse entre a risada — Não é meio tarde pra você estar em um supermercado? — Ela balançou a cabeça negativamente de maneira exagerada, as duas tranças feitas de cada lado balançado divertidamente. — Então o que faz aqui?

— Mamãe disse que eu podia vir, e posso escolher o que quiser. Até chocolate.

— Ah, mesmo? Isso é novidade. — Disse. Karen evitava ao máximo deixar que sua filha comesse chocolate. Talvez ela estivesse de bom humor.

— E o que você está fazendo aqui a essa hora? — Perguntou em um tom autoritário, apontando o dedinho indicador para o ruivo. Ele sorriu.

— Bem, eu sou um adulto, senhorita, tenho mais liberdade de estar aqui nesse horário do que você. — Ela riu — E acredite, quando se é adulto isso já não é mais tão divertido assim — Ele sussurrou, como se contasse um dos maiores segredos da vida. Ela não concordava com isso.

— Eu duvido. — Disse, xeretando o carrinho de Kyle. Tinha bastante besteira, Kyle admitia que não tinha a melhor alimentação que poderia dar a si mesmo, e jogava algumas frutas no meio daquele desastre em compensação.

— Ei, — Kyle olhou em volta, e depois para Kristen — Cadê a sua mãe? Ou seu pai?

Ela respondeu depois de alguns segundos

— Você tem tanta coisa legal aqui. — Virou-se para ele rapidamente — Meus pais estão em casa.

— Hm. Então, quem está com você?

— Titio.

Kyle teve um sentimento estranho. Kevin estava em Denver, até onde se lembrava.

— Não sabia que Kevin estava na cidade. — Ela balançou a cabeça.

— Não é ele, é outro.

— Outro?

— É, o de cabelo amarelo.

O coração de Kyle palpitou, como se fosse sair pela boca. Ele separou os lábios lentamente, pensando de verbalizaria ou não a pergunta seguinte. E respirou fundo.

— Kenny?

— É, esse. — Disse com indiferença — Ele é famoso, mamãe disse. Eu não conhecia ele, mas agora conheço. — fez uma pausa para ler com dificuldade uma das embalagens de doce — Ele é legal.

Kyle soltou um “Oh” distraído, olhando em volta, mas não via ninguém. Kristen pegou um pacote de rosquinhas com pedaços de chocolate.

— Eu adoro esse. Posso pegar? Não sei onde ficam os outros.

— Claro, querida. — Kyle respondeu sem prestar muita atenção no que ela dizia.

— Kristen! — Uma voz a chamou atrás de Kyle, ofegante e preocupada — Por onde você-

Ele parou no caminho até ela ao olhar para o ruivo. Imóvel no meio do corredor. Kyle também parou estático em seu lugar, nervoso e ansioso, parando de respirar inclusive. Ele piscou algumas vezes. Kristen até parou de cobiçar o pacote de rosquinhas para alternar o olhar entre os dois.

— Olá? — Kristen disse aos dois no mesmo momento em que a lata de ervilhas que Kyle colocou de mal jeito na prateleira enfim derrapou, fazendo todos quase pularem de susto.

— Jesus. — Kyle sussurrou para ele mesmo.

Kenny se aproximou de Kristen, curvando-se para ficar a altura dela.

— Kristen, você não pode sair correndo por aí assim. Esse lugar é maior do que eu me lembrava — Ela deu de ombros, abraçado o pacote de rosquinhas.

— Eu tô bem. Encontrei Kyle e minhas rosquinhas favoritas. — Ele sorriu.

— Tudo bem. Ainda pode pegar o tanto de chocolate que quiser — Disse o louro — mas não demais ou sua mãe mata nos dois. — Ela concordou.

— Certo. Tchau, Ky. — Ela se afastou, balançando a mãozinha para Kyle – que devolveu o gesto –, e foi para o corredor ao lado.

Kyle se abaixou para pegar a lata de ervilhas do chão, colocando-a em segurança em seu lugar dessa vez. Kenny se aproximou dele com um sorriso torto. Kyle abriu um quase forçado, desconcertado.

— Oi.

— Oi.

Eles fizeram uma troca de olhar, uma análise rápida e precisa.

Kyle podia ver perfeitamente a marca dos anos no rosto do loiro; deixando claro o homem que chegara na casa dos trinta há pouco, com traços de exaustão e cansaço nos olhos, mas também poderia ser o horário, não soube diferenciar. Seu cabelo estava grande e deixou uma barba crescer, deixava-o bonito, Kyle pensou.

Kenny também fez suas observações sobre a mudança que o tempo trouxe para Kyle. Não era apenas a aparência um tanto magra, mas saldável que ele tinha, ou algumas poucas linhas de expressão em seu rosto, havia uma maturidade diferente daquela que ele sempre tivera desde que se conheceram. Era algo que se adquiria com os anos. Era o que sua áurea passava com força, e Kenny não duvidou que ele teria se tornado o homem que ele sempre imaginou que se tornaria.

— Então... — Kenny confinou as mãos nos bolsos. Kyle olhou para o lado, inquieto. — É bom... te ver.

— É, é bom ver você também. — Sorriu novamente.

— Você parece ótimo. Deixou o cabelo crescer, ficou perfeito.

— Ah... obrigado — mordeu o lábio inferior — Também tá com o cabelo grande. Adorei a barba. — Kyle ergueu o braço roboticamente, apontando para seu cabelo.

— É, eu pensei se ficaria legal, e acabei acostumando.

Kyle puxou seu carrinho para perto, colocando as mãos sobre o apoio para empurra-lo. Parecia que todo aquele pouco movimento pelo supermercado havia se tornado apenas eles dois. Não ouvia mais os passos de Kristen pelos corredores e a música havia desaparecido dos autofalantes.

— Não sabia que estava na cidade. — Kyle comentou, mais relaxado agora.

— Cheguei ontem de manhã.

— Ah. Clyde também veio?

— É, ele veio passar o natal com os pais.

— Isso é ótimo — O ruivo sorriu com sinceridade, um sorriso fraco. Kenny assentiu. O silêncio apareceu mais uma vez, e Kyle pensou em se despedir logo, queria desesperadamente ir para casa.

— E quanto a você?

— Desculpe, o que disse?

— Você tá bem?

— Eh... é, eu tô bem sim.

— Isso é.... — a frase empacou, mas Kenny a terminou — ótimo!

O silêncio.

Kyle olhou envolta.

— Eu preciso ir. — Disse — Tá tarde, estou exausto e aparentemente terminei minha lista. — Lançou uma rápida olhada para o carrinho para se certificar do que dissera. Pegou uma lata de ervilha e milho em conversa a lançou dentro do carrinho. — Quer dizer, agora está.

— Tudo bem. Eu também preciso levar Kristen pra casa. — Apontou para o corredor ao lado, e Kyle balançou a cabeça, empurrando o carrinho vagarosamente. — Foi bom te ver.

— Até, Jack.

Seguiu pelo corredor até dobra-lo. Kenny o acompanhou com o olhar e respirou fundo, ainda tenso. Lembrou-se de Kristen e correu para o corredor ao lado. A encontrou parada em frente a uma prateleira com várias barras de chocolate entre os braços, e alguns caindo dos seus bolsos, transbordando para fora.

Os dias seguintes foram mais difíceis do que Kyle pensou que poderiam ser. Ele tentou de verdade não pensar demais sobre isso, exatamente como anos atrás, ele apenas queria ignorar todos os sentimentos que insistiam em ficar. Mas agora apenas lutava para que não voltassem, ele já havia superado isso, não havia? Não era justo. Com nenhum dos dois.

Desde que Kenny partiu, Kyle fez o que pôde para se manter de pé e não deixar que a destruição que esse relacionamento deixou para trás o atrapalhasse em seu caminho, e, porra, estava tudo indo tão bem, mesmo com a partida de Christophe ele estava bem. Mas nos últimos dias ele parecia estar perdendo a cabeça mais uma vez, uma recaída cruel que o fazia sentir como os últimos anos não houvessem o ajudado tanto quanto ele acreditava que haviam.

Ele tentou evitar o assunto, mas Red o viu em algum lugar da cidade a caminho do curso, e disse: “Merda, agora eu sei porque você tá estranho”. Red conheceu Kenny pouco antes de ele partir, durante uma noite no bar depois da aula de teatro na qual Kenny estava presente, aparecendo depois do seu expediente na loja de discos.

— Eu não estou estranho, um pouco distraído talvez. E não é só por isso. — Kyle se defendeu, organizando seus papeis dentro de um classificador.

O dia chegava ao fim e ele passaria sua noite no hospital, fazendo companhia para Stan. Mas, céus, ele queria sua cama e uma boa noite de sono mais do que qualquer coisa.

— Então pelo o que mais?

Kyle pensou por um momento.

— Meu melhor amigo está internado, eu não tenho dormido muito bem porque Pink passa a madrugada destruindo a minha sala de estar e...— pensou mais um pouco — Bem, acho que é o suficiente.

— Quando seu melhor amigo estava em coma, não parecia tão distante assim. E você dorme feito uma pedra, duvido que aquele gato raivoso te acorde assim fácil ou cause tanta destruição. — Kyle franziu o nariz — Você tem um problema e ele tem cinco letras. E agora que ele voltou você anda por aí como um morto-vivo negando que esse problema existe.

Kyle pôs a mochila na costa, e relaxou o corpo, desmanchando-se contra a parede atrás de si.

— Eu não consigo passar por isso de novo, Red. Já faz muito tempo e eu nunca imaginei que se eu o visse de novo eu iria me sentir como a dez anos atrás. Isso é ridículo. — Confessou — Estou preocupado e com medo de que essa sensação nunca vá embora, sabe? Eu não quero me sentir assim de novo.

— Você tá tendo um ataque de pânico e esqueceu de considerar que isso pode ser só nostalgia. — Ela disse. Kyle pensou sobre isso. — Vocês tiveram um termino fodido e ele foi seu maior relacionamento, isso é normal.

— É, talvez você esteja certa.

No dia de 24 de dezembro, Stan estava se sentindo ótimo.

Como ele mesmo disse várias vezes naquele mesmo dia para os médicos, seus pais e Kyle. Mas era óbvia a tentativa de convence-los a deixarem voltar para casa, onde qualquer pessoa gostaria de estar naquele dia do ano. Mas com semblantes de pena, diziam que ainda não poderia, e então ele já não ficava mais tão ótimo quanto fingia estar.

Por volta das 15h29 da tarde, Kyle e Red apareceram em seu quarto com gorros e cada um com uma caixa de papelão nas mãos. Decorações brilhosas de natal caiam para fora delas, e ao os ver, Stan riu, riu alto, porque além de tudo, Red ainda cantava:

Jingle bells, jingle bells, Stan's doing well! But he can't go away — that's what the doctors say, hey! (Stan está indo bem! Mas ele não vai embora — isso é o que os médicos dizem, hey!)

Toda a decoração foi feita entre conversas e risadas. Em 40 minutos, um pequeno pinheiro estava montado no canto do quarto, luzes piscando em diversas cores e decorações que variavam entre verde, vermelho e branco penduradas ao redor de todo o quarto, deixando aquele ambiente como todo o resto da cidade estava naquele dia, e Stan tinha uma coroa de papel enfeitando sua cabeça. E embora o dia tenha amanhecido com alguns feixes de luz escapando entre as nuvens carregadas, agora nevava. E todos admiravam os pequenos flocos caírem do outro lado pela grande janela de vidro.

Às 20h, a família Marsh apareceu. Todos felizes e muito bem arrumados como se fosse apenas mais um ano em casa, carregando presentes nos braços e elogiando a decoração feita pelos dois amigos sentados nas cadeiras ao lado de Stan. Estavam satisfeitos em ver Stan feliz de verdade depois de pouco mais de um mês naquele lugar. Foi uma noite divertida, Kyle diria, uma das melhores de sua vida.

Durante a ceia que consistia em latas de refrigerante da máquina no corredor, saquinhos de amendoim, pudim de chocolate e pizza, Kyle tentou dar uma escapada rápida quando não estavam olhando, exceto Stan, que chamou sua atenção sem que os outros percebessem antes que saísse de perto dele.

— Ei, aonde vai?

— Preciso dar um presente a alguém. Volto logo. — Stan não disse nada, mas assentiu com um sorriso. Alguém chamou seu nome, e Kyle aproveitou a distração e caminhou para fora do quarto, pegando algo que havia guardado próximo as caixas de decorações vazias atrás da porta horas antes.

Os corredores estavam muito mais agitados do que o normal, o que não era de se estranhar. Passou por vários casais e famílias enquanto perdido pelos corredores do hospital movimentado. Mas passou a seguir as pequenas placas pregadas na parede que mostravam o caminho para as outras alas.

Com toda aquela agitação, seguiu para o final do corredor do terceiro andar, de onde vinham algumas risadas agudas e gritos entusiasmados. Certificou-se de que estava no lugar certo.

Era uma sala grande e espaçosa, provavelmente existia com o propósito de manter alguns pacientes em repouso, mas agora estava sem qualquer aparelho médico e tão decorada quanto o quarto de Stan estava. Crianças correndo para todos os lados com presentes em suas mãos e uma enorme mesa farta. Alguns enfermeiros supervisionavam e controlavam a situação, não se importando em passar a noite em passar a véspera proporcionando uma noite agradável àquelas crianças eufóricas. Haviam também alguns familiares. Kyle sentiu seu coração se aquecer.

Uma enfermeira tocou seu ombro.

— Está procurando alguém? — Kyle assentiu, voltando a realidade.

— Sim, hum.... — Pegou o cartão do seu bolso — Nichole Daniels. — Entregou o cartão a enfermeira, que sorriu docemente para ele.

— Ela está... — Procurou cuidadosamente entre as outras crianças, com dificuldade em encontra-la — Ah, olhe, ali — apontou — Ela está ao lado da janela, a de cabelos presos. —Kyle a viu.

— Certo, obrigado.

— Por nada. Tenha um feliz natal.

— Você também.

Nichole estava sentada ao lado de outra garota, conversando com ela sobre algo e rindo no intervalo de alguns segundos. Ela usava galochas rosas e segurava um gingerbread man que já havia perdido sua cabeça. Respirava com a ajuda de um tubo ligado a um pequeno taque de oxigênio. Mais tarde, Kyle descobriria que ela sofria de fibrose cística.

Kyle pegou seu presente que carregava nas costas e o abraçou ao caminhar até ela, passando em meio a correria.

— Com licença, você é Nichole Daniels? — Perguntou, fingindo uma expressão curiosa. A garotinha assentiu, balançando a cabeça três vezes. — Olá, Nichole, eu sou o Kyle. — Sorriu, gentilmente.

Ela inclinou a cabeça, curiosa sobre a figura desconhecida, esperando que continuasse.

— E eu, sou o ajudando do Papai Noel e ele me pediu pra te trazer algo... — Retirou o cartão do bolso — Isso é seu? — Ela assentiu novamente, soltando um “uhum”. — Bem, aqui diz que você sempre quis ter um instrumento, um baixo, porque seus pais são músicos, é isso? — Ela balançou a cabeça, dando mais uma mordida em seu biscoito. — Então, acho que isso aqui também é seu.

Ele puxou o contrabaixo que havia deixado deitado no chão por alguns instantes, dentro de uma capa de dura onde esteve nos últimos dez anos. Stevie Nicks ainda estava em sua melhor condição, mesmo com alguns arranhões, pequenas manchas, e alguns adesivos de bandas ou ilustrações aleatórias já encardidos que não sairiam dela com tanta facilidade.

Kyle a comprou quando ainda tinha 15 anos. A viu na vitrine e se apaixonou perdidamente por ela. Trabalhou durante todo o verão de 1979 para consegui-la, e quando a conseguiu, sentiu-se satisfeito, orgulhoso do seu trabalho. E embora houvesse aprendido a tocar com ela, não acreditava que poderia ter sido melhor com qualquer outra. Porque ela era única, e ele a amava tanto.

Quando Kenny partiu, Kyle a pôs na capa e colocou no armário, sem considerar o que aquilo significava. Ele não pretendia deixa-la por tantos anos, mas aconteceu. A guardou e a evitou, irracionalmente, chegando a comprar um baixo novo no ano seguinte. Mas esse, ele nunca nomeou, e nem se apaixonou ao vê-lo na vitrine. Era apenas um contrabaixo no canto do quarto.

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E era hora de fazer alguma coisa sobre isso.

Os olhos de Nichole se abriram ainda mais, brilhando, refletindo felicidade gradual que acontecia em seu rosto. Os orbes se perdiam pelo instrumento, exatamente como Kyle quando viu Nicks pela primeira vez. Mas então a felicidade morreu, parecendo confusa.

— É pra mim?

— É, é sim. Você gostou?

— Eu amei! — Ela riu graciosamente — Posso pegar?

— Mas é claro! — Ele entregou o instrumento a ela cuidadosamente em seus braços, pois era desproporcional ao seu tamanho.

— Ele é lindo. — Disse, desacreditada.

— Ela. — Kyle corrigiu, e Nichole o olhou, confusa — É ela. O nome dela é Stevie Nicks. — Disse de um jeito nostálgico — Ou era, você pode dar o nome que quiser agora.

Ela pensou sobre isso, fazendo uma cara engraçada.

— Eu gosto de Stevie Nicks. — Kyle sorriu. — É um nome lindo.

— É sim.

Ela passou as mãozinhas pelo baixo, explorando as cordas do instrumento de maneira desastrosa, mas mostrando que sabia de alguma coisa sobre como manuseá-lo, mesmo que minimamente.

E Kyle estava feliz com sua decisão.

Não apenas deixou Nichole feliz, como deu um novo começo a Stevie Nicks, longe do fundo do seu armário. E as duas mereciam isso.

— É um ótimo baixo. Ela é. Cheia de histórias. — Uma voz surgiu atrás de Kyle, de repente e mais uma vez, para a sua quase surpresa. — Cuida bem dela.

Kenny estendeu a mão para Nichole para que desse uma batida, um grande high five. E ela o fez em meio uma risada adorável. Soltou o instrumento por um instante para pular em Kyle, abraçando-o com carinho.

O ruivo aceitou aquele abraço de bom grado, sentindo seu coração derreter naqueles poucos segundos. — Obrigada — Ela disse.

Kyle se afastou e a deixou aproveitar seu presente, dando meia-volta para deparar-se com aquele mesmo homem do supermercado dias atrás.

Ele aparentava estar revigorado agora, com um sorriso discreto e irracional no rosto, quase que parecendo outra pessoa, alguém que Kyle conheceu há muitos anos atrás, e que desejou de verdade que permanecesse lá, embora outra parte de si desejasse o oposto.

Ele usava um gorro semelhante ao que Red e Kyle vestiam horas atrás, dando-lhe uma aparência boba e adorável. Já era difícil o levar a sério naturalmente, e nesses momentos Kyle precisava fazer um esforço. Ainda era tão difícil olhar para ele sem levar pancada de memórias que Kyle já havia desistido de tentar evita-las. Quando apareciam, apenas suspirava.

Kenny tinha o suporte do seu violão atravessado em seu torço.

— O que faz aqui, Kenny? — Disse, de fato interessado.

Algumas crianças cantavam uma cantiga que Kyle cantara várias vezes na infância, fazendo brincadeiras nostálgicas enquanto as enfermeiras os ajudavam a realizar esses jogos. Kenny os observava com nostalgia no olhar.

Karen me convidou.

Ah, é claro, Kyle havia se esquecido completamente sobre Karen trabalhar como pediatra naquele hospital, mesmo tendo a visto andando pelo corredor mais cedo.

— Eles precisavam de alguém pra ajudar na dinâmica, interagir com as crianças e me pareceu um ótimo jeito de passar a noite. — Ele sorriu, com todos os dentes a mostra — Eles são adoráveis.

— É, são sim. — Olhou de relance para a garotinha de galochas rosas que puxava as cordas do seu antigo baixo de maneira curiosa. Ao voltar a atenção para o loiro, ele parecia distraído com o que acontecia ao redor (ou fingia estar), e Kyle, sem perceber, pousou seu olhar estático sobre ele.

Era como um feitiço, uma magia, uma força sobrenatural que sempre o sugava para ele, como um buraco negro. Atraindo de novo e de novo em um processo exaustivo sempre que se encontravam, a necessidade de pensar nos pequenos detalhes do seu rosto, questionar-se quando foi que mudou seu corte de cabelo ou decidiu deixara barba crescer, o porquê dessas pequenas e insignificantes coisas.

Por onde andou, como está e se está bem, se está feliz agora. Se superou Kyle tão rápido quanto Kyle o superou. Ou acreditou que superou.

Tão diferente do moleque que conheceu aos dezessete, descontraído e atrevido, inconveniente algumas vezes, convidando-o para sua banda como se fosse um privilégio que Kyle tinha sido escolhido para ter. Aquele que o fazia se sentir como o ser humano mais importante do universo, dizendo-o que o mundo não passava de um lugar frio de seres vazios ambulantes sem ele. Sem ele não havia cores ou felicidade, não havia sentimentos reais. Que sem ele, não existiria um “eu”.

De repente, observando aquele rosto de um homem que desconhecia, mas sabia tudo sobre o garoto que sempre existiu dentro dele, Kyle viu-se imerso em um mar de memórias que iam além do que costumavam aparecer na calada da noite. Algo mais profundo e doloroso, a angústia mais uma vez fazendo-se presente em seu peito como um soco forte. Estava tudo lá. Todos os toques, todos as sensações, todas as risadas, os beijos, as transas e aquele sentimento que lhe tirara a paz e a razão, arrastando um sorriso bobo em seu rosto (pelo menos naquela época).

Olhar para Kenny era como olhar para o passado, um passado que havia retornado ao presente, chegando como um furacão.

— Você tá bem? — Kenny perguntou, tirando-o do transe e Kyle notou que estava disperso, distante. Ficou deslocado por alguns segundos.

— É, eu tô sim. — Não forçou um sorriso dessa vez. Kenny balançou a cabeça, procurando por algo em sua mente.

— Fiquei sabendo sobre o Stan — e houve tristeza em seu olhar, cabisbaixo — Como ele tá?

— Bem, se recuperando aos poucos. — Kyle deu alguns passos, apenas movendo-se em vez de caminhar. — Louco pra ir pra casa.

— Isso se parece com ele. — Riu nasalmente e Kyle sorriu também, sem perceber. Agora sentia-se um pouco mais solto, não totalmente confortável, mas o suficiente para tentar uma conversa. Pensou algo consigo mesmo e inspirou, separando os lábios para dizer algo que não saiu pois Karen apareceu, cutucando o braço de Kenny. Ela sussurrou algo para ele, levando a notar a presença de Kyle ali e quando o viu, sorriu. Kenny disse “tudo bem, já tô indo” e ela se afastou.

Kyle olhou para os lados, esperando que aquele breve momento acabasse. Depois, Kenny voltou-se para ele com um meio sorriso, retirando a tira do violão que atravessava seu torço por cima da cabeça, arrumando-o de maneira me que ele ficasse em uma posição em que poderia tocar o instrumento.

— É a minha vez. — Disse, ainda arrumando o instrumento em si — Vai ficar por aqui?

Kyle soltou um “hum” pensativo, dando outra olhada em volta, pensando se deveria.

— Eu deveria voltar para o quarto de Stan, aproveitar o resto da noite com eles... — Kenny soltou um “Ah” compreensivo, erguendo as sobrancelhas.

— Eu queria fazer uma visita, mas não sei qual é o quarto, e se você ficasse mais um tempinho poderia me levar até lá... — sugeriu, atento a qualquer reação de Kyle a medida em que dizia. — Se estiver tudo bem, qualquer coisa eu pergunto a Karen, ela deve saber.

Kyle abraçou os próprios braços, decidindo-se — Karen deve saber — repetiu, desviando o olhar por um momento — mas eu não me importaria em esperar um pouco — Sorriu, embora estivesse questionando-se mentalmente o que estava fazendo. Kenny retribuiu esse sorriso com genuinidade, um pouco mais largo do que o apropriado e disse: — Certo, volto em alguns minutos — e Kyle concordou.

Encontrou uma cadeira de plástico no canto da sala, não muito distante de onde Kenny estava agora, tendo uma boa e confortável visão do que acontecia entre o círculo de crianças que se formava ao redor de Kenny, que estava sentado em uma banqueta ridiculamente alta com o violão apoiado na coxa. Almofadas com diversos formatos e estampas espalhados pelo chão.

— Quem quer ouvir uma história? — Kenny perguntou alto e entusiasmado, batendo a mão no corpo do instrumento. A maioria ergueu seus braços com empolgação contagiante, alguns pareciam dispersos. — Certo, então vamos lá — Disse, posicionando os dedos nas casas do violão, sobre as cordas.

O que veio a seguir foi uma melodia simples, agradável e animada, apenas para dar um pouco de ritmo a história que Kenny contaria. Ele fazia expressões variadas de acordo com o andar da música e os acontecimentos que dos quais ela falava, e as crianças ouviam, atentas. Algumas que já conheciam a história gritavam sobre o que viria em seguida.

O Gigante Egoísta, era sobre o que a música falava. Uma versão cantada do pequeno livro infantil de Oscar Wilde, e Kyle se recordava muito bem.

Era um belo conto com um final emocionante, e ele o viu na prateleira do quarto de Kenny em certo momento no fim da adolescência, no meio da madrugada, enquanto recuperava o folego no colchão de solteiro de McCormick.

Ainda ofegava, porém a respiração ia melhor do que minutos atrás. Ainda suava, pois além de tudo, estava calor àquela madrugada, algo incomum e insignificante. Tinha a cabeça deitada sobre o peito de Kenny, que acariciava seus cabelos, passando os dedos entre os fios crespos com leveza, dando-lhe um momento confortável mesmo em meio ao calor, pois até a sensação dos seus corpos nus e suados era agradável, excitante, e nenhum se importava. Estavam cansados e os olhos de Kenny pesavam, embora não cedesse a isso.

Kyle ria baixo de algum comentário inapropriado de Kenny, e quando essa risada morreu, o silêncio chegou, confortável e tranquilizador para ambos. Os orbes de Kyle vagaram pela garagem, observando pequenos detalhes que talvez não houvesse observado antes e se observou, não se lembrava mais.

E ali estavam alguns pôsteres de suas bandas favoritas e um da qual ele nem gostava tanto mas o visual da capa do álbum no qual era estampado lhe convenceu de o colocar naquele espaço. Além de pôsteres, discos estavam espalhados pelo quarto, em envolta de uma pilha deles em uma prateleira baixa. Roupas sujas e sapatos se misturavam a desordem.

Curiosamente, Kenny tinha uma prateleira com livros. É, a variedade não era muito grande e apenas a observando de longe Kyle pode deduzir uma quantia de quinze livros ou um pouco menos. Até poucas semanas atrás, jamais imaginária que Kenny fosse um apreciador da leitura recreativa, e o jugou muito mal, pois ele era. E ali estavam as provas. Kenny faria um pequeno resumo de cada um daqueles supostamente quinze livros que estavam ali se Kyle pedisse.

Ele identificou: Admirável Mundo Novo, 1984 (Mil Novecentos e Oitenta e Quatro), Farhenheit 451, God Ex Machina e... O Gigante Egoísta. Bem, esse ele não conhecia. Era um livro fino, com menos de 40 páginas e acabou por se destacar entre os demais.

— Sobre o que é aquele ali, O Gigante Egoísta? Nunca o vi antes — Kenny curvou um pouco a coluna para frente para ver do que se tratava.

Ah, é mesmo, aquele livro. Ele havia esquecido.

— Eu encontrei ele. Alguém esqueceu debaixo de uma arvore, se me lembro bem. — Comentou, com um tom de indiferença.

— Sobre o que é?

— Aparentemente, sobre um gigante que tem um enorme jardim, mas não deixa que as crianças brinquem nele. E com a ausência delas, ele fica preso em um inverno eterno. — Explicou, calmamente — Ou algo assim. Eu trouxe pra Karen mas acabei esquecendo

— Ah. — Kyle disse, e permaneceu quieto nos momentos seguintes.

Porém, saiu dos braços de Kenny, despertando-o quando estava prestes a entregar-se ao sono, e Kenny estranhou o movimento, abrindo os olhos pesados.

— O que tá fazendo? — Kyle engatinhou até a prateleira baixa e tomou o livro para si, sentindo o quão fino era. Era definitivamente um livro infantil.

— Tô curioso — E retornou para os braços de Kenny, deitando-se ao lado. Kenny franziu o cenho e olhou para o lado, diretamente para um relógio verde na parede.

— São quatro da manhã.

— E eu não tô com sono.

Ele abriu o livro, lendo a breve introdução. Kenny firmou seu braço em volta dele na tentativa de trazê-lo para mais perto, mas já estavam próximos demais. Kenny sorriu, fraco e cansado, mas aquele mesmo sorriso idiota de sempre.

— Então lê pra mim, porque eu tô.

Kyle riu, mas o fez, usando o tom que um adulto usaria para uma criança nessa situação, debochado. Kenny dormiu na terceira página.

E agora, cantava sobre isso. Kyle não percebeu que havia escapado da realidade nos últimos segundos, então piscou algumas vezes como se isso fosse o ajudar em algo, prestando atenção na música e como Kenny já estava no final dela. As crianças balançavam as cabeças, sem ritmo, mas ainda com lenteza.

A música chegou ao fim, infelizmente, arrancando algumas reações alteradas delas, seja com gritos, choros ou uma risada. Kyle não viu o tempo passar, pois estava longe dali, e ao despertar, aplaudiu juntos aos enfermeiros e familiares. Kenny mexeu a cabeça, agradecendo. Algumas crianças pediram por mais, formando um coro dessincronizado. Kenny estava pronto para responder, mas Karen o cortou, repassando outra programação que viria a seguir e que não incluía mais nenhuma cantoria de Kenny, e o loiro fez uma expressão de tristeza para as crianças.

Kyle riu com leveza, sem perceber o que estava acontecendo. Ele apenas ria pois sentia vontade de rir, pois ouviu algo engraçado, e naturalmente riu disto. Kenny lhe contou uma história da qual ele nem se lembrava mais, uma das engraçadas sobre um Clyde e um Craig bêbados depois de uma apresentação em um daqueles festivais de verão.

Diziam que Kyle e Kenny eram o casal mais perfeito que já conheceram, e que gostariam de ter relacionamentos mais como o deles. Com mais afeto e felicidade, brigas idiotas que Kenny sempre encerrava com um sorriso cafajeste, tentando fazer com que Kyle esquecesse sobre seja lá o que estivessem discutindo sobre. E então se questionaram se isso estava relacionado com o fato de serem dois homens em uma relação.

É, isso fazia algum sentido para o raciocínio bêbado deles. E o casal da época apenas ria de suas novas descobertas para o amor, respondendo algumas perguntas idiotas que lhes eram feitas. E, no final da noite, chegaram à conclusão que o único jeito de terem um bom relacionamento seria se se envolvessem um com o outro. Clyde pediu Craig em namoro naquela noite, e Craig aceitou sem hesitar. Ironicamente, o único problema foi fazer dar certo, pelo menos enquanto bêbados.

— No outro dia, eu encontrei Clyde dando a volta no hotel, paranoico, e perguntei pra ele porque estava fazendo aquilo e ele disse: “Acho que o Craig tá na entrada do hotel” — Kenny contava, pois Kyle não se recordava disso. E a medida que ouvia, ele lembrava, rindo. — Depois ele me explicou que estava com medo do Craig ter levado toda aquela situação à sério.

— É, — Kyle ergueu o dedo indicador, lembrando-se dessa história — ele apareceu no restaurante duas horas depois, usando um chapéu esquisito e óculos escuros como se tivesse cometido um crime ou sei lá, mas estava realmente preocupado com isso. — Kyle andava vagarosamente no corredor bem menos agitado de horas atrás do hospital. — Não importava quantas vezes eu dissesse “Jesus, Clyde, ele não dá a mínima pra isso”

Eles riram mais uma vez, mas não houve continuação na história, e a risada apenas morreu em seus lábios, formando um sorriso tímido e incerto. Kyle ergueu a cabeça e enxergou o quarto luminoso de Stan, há poucos passos de onde estavam.

— É logo ali, acho que quase todos já foram. — Disse enquanto se aproximavam ainda mais do quarto.

Pela extensa parede de vidro, podia ver Stan e Red compartilhando uma partida de dama, na qual o moreno parecia estar ganhando, contente com isso. Kyle imaginou se Red deu uma trégua, já que era tão boa no jogo quanto era no xadrez. Shelly também estava no quarto, bebendo de uma lata de Pepsi algo que não era Pepsi, pois seu semblante mostrava alguém no início de uma embriaguez.

Quando os dois atravessaram a entrada do quarto, lado a lado de um jeito desconcertado, desviando um pouco os olhares, Stan acabara de comer mais uma peça de Red, e comemorava com exagero. Ao se virar para ver quem acabara de adentrar, deixou a pecinha que segurava cair da sua mão, estático. Red pareceu surpresa e Shelly apenas deu mais um gole na sua não-Pepsi, sentindo o clima esquisito dominar o ar. Mas Stan sorriu, e então riu.

— Eu morri? Porque acho que tô vendo gente morta. — Kenny substituiu o semblante desconfortável por uma risada breve e baixa.

— Ainda não.

Kenny chegou mais perto, apertando a mão de Stan e o puxando para um abraço apertado. Havia saudade ali, claro. Também foram amigos uma vez. O abraço durou cinco segundos e encerrou com um tapinha nas costas de cada um.

— Como você tá?

— Vivo. — Stan respondeu com um largo e notável sorriso no seu rosto, quase assustador. Não era sobre a conversa, pois o olhar alternava entre Kenny e Kyle. Ambos notaram e Kyle pareceu desconfortável. — Há quanto tempo tá na cidade?

— Já fazem alguns dias.

— Ah, mesmo?

— Mesmo. — O tom insinuativo fez Kenny franzir o cenho ao responder.

Stan se moveu na cama, mais confortável, virando-se para o loiro.

— E a sua banda?

— Ah... — Kenny coçou a cabeça — Estamos dando um tempo, sabe?

— Eu não sabia disso. — Não havia mais sorriso, apenas um interesse genuíno. — Há quanto tempo?

— Pouco mais de um mês.

— Então vai passar um tempo na cidade?

— Eu não sei, talvez.

Kyle havia se afastado. Foi até Shelly e pegou a garrafa de vinho que estava ao lado dela no chão. O ruivo não parou para se perguntar como aquilo havia parado ali, mas ao notar que não havia muito, apenas bebeu da garrafa, distante da conversa daqueles dois. Stan continuava a interroga-lo sobre todo e qualquer assunto que surgisse.

— Aquela garota da banda, Wendy, ela tem namorado? Ou... namorada? Eu não sei se... — Ele perguntou, um pouco mais íntimo, aproximando de Kenny para perguntar. Kyle quase cuspiu o vinho fora, mas conteve-se. Kenny gargalhou, Red soltou uma risada nasal e Shelly revirou os olhos. — O quê?! — Perguntou com frustração, confuso quanto as reações alheias.

— Eu não sei, na verdade. Ela estava namorando alguém há um tempo atrás, mas agora eu não tenho mais tanta certeza. — Stan soltou um “ah” pensativo — Mas acho que posso te apresentar ela um dia, quem sabe.

— Ah, sério? — Olhou para cima, surpreso — Quer dizer, seria ótimo.

Kyle sentou-se ao lado de Red, oferecendo a garrafa de vinho que acabaria em um gole ou dois, ela dispensou.

— E você? — Stan perguntou enquanto Kenny sentava-se a cadeira ao lado da cama, não entendendo a pergunta de imediato — Tá namorando alguém?

Kenny ficou desconcertado, Kyle ficou desconcertado, Red reprimiu uma risada e Shelly xingou Stan com um “Seu maldito idiota”, quem apenas esperava sua resposta sem arrependimento da pergunta que fizera.

O ruivo colocou a garrafa vazia ao lado da cadeira no chão, enfiando as mãos nos cachos de maneira distrativa. Viu uma caixa de presente retangular aberta no pé da cama, e percebeu que foi de onde o vinho viera. Kenny soltou vários “Huh” e “Bem” antes de responder.

A verdade é que Kenny não teve muito em sua vida romântica nos últimos dez anos. Assim como Kyle, houveram muitas pessoas de uma única noite, algumas horas em um paraíso vazio e alheio, em lugar ao qual não pertenciam, mas que poderiam esquecer por essas poucas horas se isso de fato importava. Só... esqueça isso, Kenny pensava consigo mesmo ao beijar lábios desconhecidos, dando uma chance a sua noite. Assim passou os primeiros anos, lutando para deixar o rosto de Kyle fora da sua mente, ou ele não poderia prosseguir. Não que tivesse tido algum sucesso com isso. Via seu rosto onde não estava, naquela garota lasciva cuja o nome não lembrava, ou naquele rapaz que tinha um sorriso semelhante ao de Broflovski, que conheceu em 1987. Aceitou que carregaria aquela saudade pelo resto da sua vida, era o preço que pagaria por partir.

Ele namorou a guitarrista de uma banda de rock britânica em 1989, um namoro que sempre foi aberto a mídia, extremamente público. Qualquer um poderia facilmente dizer que era apenas uma espécie de jogada de marketing, algumas revistas de fofocas sobre celebridades considerava o suposto amor entre os dois algo forçado para as câmeras. Mas Kenny nunca afirmou ama-la publicamente, embora ela já houvesse dito isso várias e várias vezes. Fotos e fotos com ambos sorrindo naturalmente, divertindo-se em uma premiação importante ou em férias em uma ilha tropical.

Kenny nunca mentiu sobre gostar dela, não faria isso. Era um relacionamento bom, e ela era legal. Mas não havia mais do que um sentimento raso e com um tempo se tornou cansativo, tanto para ela quanto para ele. Eles terminaram em 1991. Kyle soube disso através de uma matéria de jornal.

— Não, eu não tô... saindo com ninguém — Kenny tirou o violão apoiado no ombro direito para pôr apoiado na parede ao lado.

— Ah, isso é bom.

— É?

— É — Stan percebeu que ainda segurava uma pecinha do jogo, e a devolveu para o tabuleiro. — Vocês são dois idiotas. — Ele não especificou sobre quem estava falando, e não foi necessário. Kyle estava de cabeça baixa e puxou um cacho dentre o cabelo, disperso.

— É mais complicado que isso, Stan. — Ele disse.

— Isso é uma desculpa ruim. — Stan balançou a cabeça — É o que adultos dizem quando estão com preguiça de resolver seus problemas. — Não queria causar alarde, soando bastante sincero. Kyle o odiava por isso às vezes.

— Não é uma... uma desculpa ruim, é-

— Ele tá certo. É complicado. — Kenny interrompeu Kyle em sua tentativa de explicar.

Era claro que estava o estressando, e mesmo que Stan não se importasse, ele não queria que aquele assunto durasse o resto da noite, muito menos que viesse à tona para início de conversa. Kyle ergueu o olhar para ele, do outro lado do quarto. Não havia emoção, apenas o fitava.

— Certo, acho que já chega disso — Red finalmente disse, cansada daquela atmosfera desconfortável — É véspera de natal, não é? Um pouco mais de ânimo seria ótimo.

— Precisamos de música — Shelly disse, embriagada, apontando o dedo indicador para ninguém especifico como se dissesse um fato importante. Todos concordaram.

— Não temos rádio ou... nada. — Red olhou em volta em um gesto significativo.

— Mas temos dois músicos, pelo amor de Deus. — Stan fez essa observação clara. — E, por pura coincidência, um deles trouxe um violão. — Apontou para o instrumento no canto escuro do quarto.

— Ah, tudo bem — Kenny disse, tomando o violão em mãos mais uma vez. Posicionou os dedos sobre o braço do instrumento procurando uma casa para pousar. Mas preferiu perguntar antes. — Algum pedido especial?

Todos se entreolharam. Stan iria sugerir, mas Kyle disse antes.

— Blues Run The Game.

Houve um silêncio nos minutos seguintes. Não foi uma escolha surpreendente, pelo menos não para Kenny. Este começou a movimentar os dedos sobre as cordas, formando a familiar melodia suave do blues folclórico. Todos naquele quarto a conheciam, todos sabiam a letra, mas Shelly não se lembrava por completo, ao menos o suficiente. Kyle fechou os olhos por longos quarenta segundos e balançou o corpo com suavidade, de um lado para o outro, seguindo o embalo tranquilo da música. Como um mar de águas paradas.

Red balançava as pernas cruzadas de um lado par o outro também, com o cotovelo apoiado sobre a coxa e o queixo sobre a palma da mão. Stan tinha a cabeça inclinada para o lado, observando atenciosamente o loiro tocar o instrumento com paixão. Shelly fazia movimentos sutis com a cabeça, comboiando a melodia.

— Catch a boat to England, baby, maybe to spain. Wherever I have gone, wherever I've been and gone, wherever I have gone, the blues are all the same. — Kenny começou a cantar juntamente a Kyle, ambas vozes em harmonia em tons diferentes que juntas tornavam-se gloriosas. A voz de Kyle soava tão agradável quanto anos atrás, Kenny pensou.

Red deitou a cabeça no ombro de Kyle durante o curto momento instrumental, observando todos no seu campo de visão enquanto recordava-se da letra da música. Ela a conhecera anos atrás, quando conhecera Kyle. Ela o pegou tocando, cantarolando ou escutando essa canção algumas vezes e o questionou sobre. E ele apenas dissera que se tratava de uma música nostálgica, trazendo velhas memórias de volta. Mas sempre soube que era sobre algo mais, o brilho em seus olhos sempre dizia mais do que deveria.

Todos cantavam agora.

Send out for whisky, baby. Send out for gin. Me and room service, honey. Me and room service, babe. Me and room servisse. Well, we're living a life of sin

A voz desafinada de Stan se encaixava em uma margem e outra entre a suavidade de todas elas juntas. A voz grave de Red também se juntava às outras com facilidade, colaborando para uma harmonia diferente da qual apenas as vozes os dois faziam juntas. Shelly não cantava alto o suficiente para mesclar-se as outras vozes.

When I'm not sleeping, honey. When I ain't sleeping, mama. When I'm not sleeping. Well you know you'll find me crying.

Kyle teve aquele sentimento de novo. Aquele de anos atrás. Com a voz de Kenny passando pela sua audição cantando a mesma música que cantavam na adolescência, sua voz estava diferente, era natural. Mais grossa, rouca e equilibrada. Mas ainda era como se fosse exatamente a mesma. Uma espécie de filme antigo passava pela mente, enquanto matinha os olhos fechados.

Memórias vívidas e silenciosas, com sorrisos, bebidas, cigarros sobre o capô do carro velho de Kenny. Noites e noites rodando a cidade naquele carro, Kyle se lembrava bem. Ah, também de sua velha bicicleta azul que passou a usar com mais frequência depois de ’81. Não se lembrava que fim ela deu, no entanto, recordava-se de cada vez que a usou para pedalar com sua querida Stevie Nicks nas costas até a velha casa depois dos trilhos no fim do dia, com a luz do sol tornando-se fraca a medida em que mais se parecia com o próprio fogo. A brisa suave da noite que se aproximava, a empolgação, o sentimento que se sobrepunha ao cansaço que recebeu ao longo do dia.

Todos os sentimentos embolados em uma enorme montanha russa, com seus altos e baixos.

As noites de verão. A juventude. A ansiedade e necessidade por algo. A necessidade pelo conhecimento do que desconhece. A curiosidade que poderia matar um gato.

O amor.

Sempre que os olhares se cruzavam, sem haver necessidade de palavras ou ações. O corpo estático que por dentro ele se revirada do avesso, tanto no coração quanto na mente. Desde as famigeradas borboletas no estômago à palpitação no coração. À loucura.

É, o amor é uma loucura, e a vida é estranha.

Kyle aderiu essas duas certezas em determinado ponto da sua vida.

Ele abriu os olhos, encontrando Kenny do outro lado da sala, ainda tocando as cordas com uma naturalidade genuína. Porém com os orbes de um azul escuro profundo olhando-o de volta, dizendo-lhe palavras não ditas, contando-lhe de mais memórias perdidas sobre mais sorrisos e risadas, mais sobre os dias de pacificidade à beira da praia. Fossem dias bons ou ruins. Kenny lembrava de todos, e tudo por Kyle. Sobre Kyle. Porque em nenhum momento ele deixou de ama-lo, não importava o quanto tentasse.

— Try another city, baby. Another town. Wherever I have gone, wherever I've been and gone, wherever I have gone. The blues come following down...

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!