Notas iniciais
Não me matem

_Sara? — Ela estava balbuciando de uma maneira muito estranha, ele ia tocar em seu braço para acordá-la, mas acabou se assustando com aqueles gemidos._Sara, acorde, querida!

Ela abriu os olhos devagar, desolada, frustrada e com o coração bombardeado de batidas desenfreadas.

“Droga”, ela estivera sonhando e parecera tão real que poderia quase sentir o gosto dele, mesmo que em seu delírio, eles não tivessem chegado a tanto! Estava enlouquecendo de verdade. Se ela quisesse, poderia com riqueza de detalhes aquele sonho como se tivesse acontecido.

Os poucos segundos que se encararam serviram apenas para potencializar seu infortúnio.

_Você … estava sonhando …

_Eu? — Será que havia dito algo constrangedor? Porque ela sabia que tinha sido eroticamente comprometedor! _O que eu fiz?

Ele começou a rir, mais pela expressão apavorada, do que pelos barulhos inexplicáveis.

_Qual a graça?

_Você!

Se ela pudesse, estrangularia seu pescoço bonito, mas seria um desperdício estragar aquela maravilha com suas mãos finas.

_Grissom pelo amor de Deus, o que eu disse?

_Nada … mas acho que você tinha bons sonhos. -Os gemidos dela deixaram suas reações um tanto quanto contundentes. Ele não era de ferro e havia aquela coisa de pele que tinha com ela. Nunca havia sido um homem dado a sexo louco, tivera suas mulheres e elas foram apenas suficientes em suas necessidades. Mas com Sara, aquilo tudo caíra por terra. Tinha aquela vontade de possuir tudo o que pudesse, mas também havia um detalhe crucial, sua falta de coragem! Ele era estranho, com manias estranhas que poderiam muito bem prejudicar o relacionamento. Nenhum deles, por qual havia passado, havia dado certo. Ele nunca se empenhava em cuidar de uma relação. Heather, que lhe deu apenas uma ilusão de atração, que não chegava nem perto do sentia por Sara. Tinha sido um encantamento que acabou no primeiro conflito. Teri, outro encantamento que tinha sido apenas profissional, e que ele quase confundiu com algo mais. Eles haviam marcado um encontro, mas o trabalho havia impossibilitado que seguisse adiante, e ele não se empenhou para que fosse, talvez até mesmo pela falta de desejo dele. Outras tantas em seu passado, seu primeiro amor aos dezesseis, seu primeiro encontro sexual, a faculdade, algumas outras que encontrou e como tantas, muito breves!

Mas como chegar a ela sem que parecesse presunçoso. Havia seu orgulho de homem que seria ferido se ela o rejeitasse, como ele próprio havia feito com ela. Mas ele merecia uma chance. Na ocasião, se sentia despreparado, sem motivação. Como arriscaria uma situação que via como fracasso? Ele corria o risco de ser um deficiente, como a faria feliz? Seu erro foi esconder a verdade a ela, mas como expressar que estava a beira de uma cirurgia delicada, que se sentia perdido e sem expectativas? Sua juventude, seus sonhos boicotados porque ele seria incapaz de dar uma vida digna a ela. Seria muito egoísmo da parte dele, querer que ela fizesse parte de um mundo pela metade.

_Como assim?

_Parecia satisfeita …

Ela queria acabar com aquela coisa que lhe causava mal-estar e anunciou um tanto nervosa.

_Por quê parou?

_Porque chegamos!

Ela olhou ao redor, a pequena cidade iluminada pela luz tímida do amanhecer, mas logo o sol estaria majestoso, brilhando intensamente. Era uma cidade quente, propensa a baixas temperaturas ao anoitecer.

_Cá estamos?

_Sim e .. inteiros!

Assim que ele segurou a porta para ela, todos olharam curiosos. Grissom havia se informado no posto de gasolina, logo na entrada da cidade, onde encontrariam o xerife Alan. Com um desdém de arrepiar, o homem estranho informou que aquela hora, ele estaria tomando café com o irmão e que nunca tinha nada melhor para fazer. Sara cruzou seu olhar com o de Grissom e eles atravessaram a rua.

Havia um número razoável de pessoas, e todos, sem exceção, se voltaram para eles.

No balcão de atendimento, Sara viu com desgosto o interesse excessivo com que a loira lhe respondeu. Ela só faltou dar um assovio de contentamento. Sem contar a malícia explícita com que o mediu. O mais estarrecedor foi o sorriso de menino que a desconhecida recebeu de volta.

Ela teve vontade, de lhe estapear, pela centésima vez! Ele estava paquerando a estranha? Ou era apenas sua timidez mal disfarçada? Ou então sua mente lhe pregando uma peça, todo mundo tinha um gene do ciúme!

O xerife esticou seu braço e pediu que ele se aproximasse, e quando se achegaram à mesa, encarou Sara despudoradamente, enquanto estendia a mão para o supervisor. Grissom se apresentou e ele respondeu quase que imediatamente.

_Olá, este é meu irmão … — ele esticou o pescoço e deu um sorriso para ela. _E você é?

_Sara Sidle, minha assistente. — Grissom se adiantou, quase soletrando entre dentes.

_Muito prazer, senhora ou … senhorita?

Ela apenas riu de lado, desconfortável.

_Acho que é senhorita … presumo! -Ele era petulante e olhava em seus dedos para sua dedução obvia. _Sentem -se, fiquem à vontade, querem um café?

Sara aceitou a cadeira que Grissom ofereceu a ela, depois ele se sentou também, encarando o xerife que parecia hipnotizado pela sua subordinada.

Que cidade mal-encarada era aquela, em que os homens paqueravam descaradamente e as mulheres faziam o mesmo?

Sara havia se sentido mal, e Grissom não ficara atrás com os olhos de rapina do xerife, sobre o território dele! Sim, ela era território dele, e aquele homem com jeito arrogante e muito senhor de si, ousava ser atrevido o bastante para lançar seu charme sobre ela. Não ia ser nada fácil, dois estranhos, xeretando pela cidade que aquele homem julgava, com toda certeza, ser o dono. Seu jeito de olhar ao redor, a voz impostada e o peito estufado, orgulho. Com um agravante, ainda por cima, o interesse escandaloso em Sara! Raios, ele seria um idiota petulante se acreditasse que ela lhe daria atenção.

Aquele sorriso bobo para o lado dela, estava o castigando.

_Podemos ir até o local?

_Querem uma carona?

_Não … viemos de carro, preciso apenas que nos acompanhe, é o procedimento.

_Aqui em Jackpot, eu sou a lei, amigo!

_Não estamos contestando sua autoridade, apenas precisamos nos valer de um processo legal, você nos enviou uma parte de um crime, e como tal, se vai ser analisado em 'meu' laboratório, tenho todo direito em saber os meios que justificaram o fim!

_E se for apenas um urso? Como todos desconfiam, aqui tem uma porção deles, estamos no meio de uma densa floresta!

_Se for este o caso, então nos deixe descobrir e logo estaremos longe de suas vistas!

Grissom parecia sem paciência e estava usando seu tom ácido para que o xerife não tivesse nenhuma dúvida que ele também sabia ter autoridade.

O homem fardado levantou as mãos para o alto e inclinou o pescoço, olhando com diversão para Sara e o irmão taciturno com expressão de poucos amigos.

_Então, você está no comando, sr. Las Vegas!