Notas iniciais
Bem, acho que vão perceber que a Sara está com um pé atras com ele, também pudera ...

_Está cansada?

_Um pouco.

Ela estava tão calada, daria um milhão por seus pensamentos!

_Quer tomar alguma coisa? Um café … leite talvez?

Ela olhou para ele, achando graça como ele parecia incomodado com seu silêncio.

Já havia falado sobre como Al recebera a cabeça, o estado em que ela se encontrava e algumas possibilidades que talvez cercassem aquele caso. Sara se limitou apenas em ouvir, não que estivesse desinteressada, muito pelo contrário. Só não queria povoar ideias em sua cabeça, que seriam infrutíferas. Precisava ser apenas a profissional que era e estar tão próxima a ele, em um ambiente totalmente adverso do laboratório, era no mínimo, assustador e perigoso! Se o encarasse cada vez que ele lhe dirigisse a palavra, suas forças cairiam por terra mais rápido do que gostaria. Não se iludia mais, aquilo doía e muito.

_Talvez uma parada seja uma boa ideia.

Ele pegou o pequeno mapa regional que trouxera e estendeu a ela.

_Pode verificar se estamos longe de alguma lanchonete de beira de estrada? -Ele estava tentando interagir com ela e o toque quente de seus dedos nos dela lhe trouxe um arrepio na nuca assustador. Ela tinha a intuição de que ele sabia exatamente onde estava indo e o que havia pelo caminho. Sempre fora atencioso e detalhista em tudo que fazia. Será que estava pretendendo brincar com ela? Não, ele podia ser desligado, avesso a ela por não se sentir atraído, mas vil, jamais!

_Hum … mais alguns quilômetros, talvez … cinco! “ Rancho da Sally”. — Sara olhou nas margens do lago e algumas placas indicavam a localização do quilômetro em que estavam passando naquele momento. _Cinco quilômetros exatos!

_Muito bom, acho que preciso de um café bem forte.

_Quer que eu dirija também, para que descanse?

Ela estava falando com ele mas pouco conseguia encará-lo.

_Não, darling … você ainda parece precisar de descanso!

Naquele momento, ela não ousou mesmo olhar para ele. Definitivamente não seria uma ideia muito saudável. Sabia que seu corpo estremeceria e seu coração quase pararia.

Secretamente, ela se pôs a cantarolar uma canção que sempre a ajudava quando não queria ouvir as brigas de seus pais! Era uma fuga, uma defesa que a levava para longe, em uma terra distante e bloqueava suas frustrações.

_Sara?

Ela não ouviu, sua outra vida secreta, em meio às colinas e verdes prados de sua canção, tragava suas atenções e apagava seu mundo ao redor.

Ele tocou seu braço e ela se assustou.

_O que há com você?

_Por que?

_É a terceira vez que chamo e não me ouve?

Desta vez ela o encarou, seu tom de voz era impaciente e um pouco assustador, então ela desviou seus olhos para além da janela.

_Desculpe, estava distraída e não ouvi.

_Já chegamos.

Ele ia lhe dizer que havia uma placa indicativa para a lanchonete há alguns metros atrás, mas por alguma estranha razão, ela não estava ali com ele! Onde estaria?

Eles se acomodaram em uma mesa indicada para quatro pessoas, mas mal cabiam duas.

O lugar até que era simpático e limpo. Toalhas em tom azul, com amarelas menores sobrepostas, uma enorme bandeira da Suécia dependurada na parede e um cheiro de dar água na boca. Mesmo sendo quase madrugada, um bom número de pessoas estavam fazendo algum tipo de refeição. Ela olhou para as fotos na parede e percebeu uma infinidade de receitas com batatas.

_A comida sueca é conhecida por usar batatas em quase todos os seus pratos.

Como é que ele sabia daquilo? Como é que ele sabia uma infinidade de coisas, que normalmente para outros, pareciam bem desinteressantes. Ele tinha uma mente como poucos, e ela o amava por conta daquele detalhe tão impressionante também.

_Quer comer alguma coisa?

_Acho que não? Mas o café está de bom tamanho.

Eles pediram e a garçonete sugeriu o pão quente de batatas com polvilho para acompanhar.

Eles se olharam e ela deu de ombros.

_Traga dois, por favor, vamos experimentar.

Quando a simpática senhora, um pouco acima do peso saiu, ele a encarou.

_Você está com problemas, Sara? Está zangada por estar aqui?

Ela arregalou os olhos e abaixou a cabeça, tentada a dizer que o problema era ele.

_Não estou com problemas, e estar aqui não me deixa zangada. Desculpe-me se estou dando essa impressão.

Os dedos dele coçaram para levantar seu queixo bem devagar e chegar bem mais perto, tão perto que pudesse sentir sua respiração próxima à dele.

_Então podemos considerar que não está contra sua vontade?

_Sim, claro!

_Estava pensando em me desculpar por interromper seu descanso.

_Não se anime, ainda me deve isso!

_Vou preencher o requerimento e entregar pessoalmente ao Conrad.

_Vou entender isso como uma promessa.

_Tem a minha palavra!

Quando as bandejas coloridas chegaram, Sara parecia mais animada e Grissom mais aliviado.

_Não é que esse danado é gostoso mesmo? E o café é .. diferente, é mais encorpado, prove!

Ele bebericou devagar com os olhos azuis olhando diretamente em sua boca.

Caramba, se ele continuasse com aquilo, ela perderia a cabeça e esqueceria que tinha juízo, muito juízo! Ela desviou seu olhar para a parede imediatamente. “Podemos não ser os maiores produtores, mas com toda certeza, somos os maiores consumidores!”

_Interessante!

Ele se virou curioso para a parede atrás dele. Havia um quadro enorme com algumas sacas de café expostas. Eles pediram outra rodada e voltaram para a Denali. Assim que retornou à pista, ele se virou para ela.

_O que … estava planejando em … sua folga?

Ele estava interessado em saber o que ela fazia fora do laboratório? Como assim? Ou era falta de assunto ou ele estava mais nervoso com a situação do que ela. De qualquer maneira, Sara decidiu entender que era apenas falta de assunto e resolveu entrar no jogo, tentando uma naturalidade que estava longe de sentir.

_Nada de mais, apenas descansar. E você? O que costuma fazer?

Ele olhou rapidamente para ela, depois voltou sua atenção na estrada, ela sabia que ele estava surpreso. Se era para arranjar assunto, ela mostraria que sabia como fazer também.

_Eu costumo visitar a minha mãe.

Ele nunca falava dela e nem de sua vida pessoal. Será que aquele Grissom, curioso e estranho, era efeito de estar longe de Las Vegas? Quando voltassem, ele vestiria sua máscara de desdém e a desprezaria, como sempre fizera? Ela já não tinha mais certeza se queria pagar para ver.

Um coração calejado, sempre ficaria na retaguarda. Era o velho e bom medo de sofrer mais decepções!