Notas iniciais
Mais um capítulo e, sinceramente, meu preferido até agora

Zoe descia as escadas exasperada, enquanto furiosas lágrimas insistiam em cair. Ela tivera mais uma briga. Mais uma estúpida briga. E como sempre, ele não admitira estar errado. Já era de esperar e Zoe se perguntava o porquê de ainda insistir. Não podia evitar. Assim como ele, também era teimosa. Um traço de sua personalidade que ela tentava a todo custo esconder. Geralmente conseguia, mas não com ele.

Foi só quando estava chegando ao térreo que ela parou. Sentou-se num dos degraus e se limitou a chorar. Baixinho. Quase nenhum ruído. Ninguém usava as escadas, mas ainda assim a garota temia ser encontrada naquele estado. Ninguém conhecia seu lado frágil, nem mesmo ele.

Depois de algum tempo, ela enxugou as lágrimas, abriu a bolsa e retocou a maquiagem. Todos acreditavam que ela era vaidosa, mal podia desconfiar que se arrumasse apenas para esconder quem realmente era. Detestava maquiagem, vestidos ou sapatos. Mas ainda sim usava. Era preciso. Aquele era um jogo de máscaras, e ela como qualquer outro usava bem a sua.

Já refeita, abriu a porta e saiu para o estacionamento. Ela agora era a personificação da calma. Quem a olhasse apenas veria sua máscara, a fantasia de mulher decidida e fria. Ela não era nada disso. Mas ainda sim era perigosa ao seu modo. Seu poder era talvez o mais cruel possível, o disfarce.

Encontrou seu carro numa das vagas e entrou já ligando o rádio numa estação qualquer. Manobrou e saio do prédio. O destino? O mesmo de sempre. Um bar insignificante num bairro mais insignificante ainda. Pessoas como Zoe não o freqüentavam. E era por isso que ela era uma cliente fiel a ele.

Parou o carro no sinal vermelho e pôs se a fantasiar mais uma vez. Dessa vez, de Lydia. Zoe tinha muitos disfarces. Muitos personagens. Lydia, por exemplo, era o que ela mais gostava de usar. Uma pobre estagiaria. Uma secretaria qualquer. Uma moça de origem pobre, que trabalhava desde cedo para sustentar a mãe, agora falecida. Zoe sempre usava Lydia em momentos como esse, quando sequer suportava sua própria existência.

Zoe finalmente chegou ao bar, estacionou seu carro na rua mesmo e entrou. Ela agora usava uma calça jeans simples e uma blusa preta, um tanto decotada. Em seus pés, um tênis surrado, algo que a Zoe nunca usaria. Seus cabelos ruivos, agora estavam presos num coque e não havia o menor resquício de maquiagem em seu rosto.

Lydia sorriu e cumprimentou o barista. Algo que Zoe jamais faria. Sentou-se na mesa mais distante, mais oculta e pediu um garrafa de cerveja. O homem sorriu e saiu pra pegar seu pedido, ele já sabia a marca que ela gostava, de tanto que ela ia ali. Aquele era o seu refúgio. O comum. Não a bebida. Mas, de certa forma, a bebida aliviava um pouco o peso sobre seus ombros.

Já estava no terceiro copo quando Jack entrou, caminhou pelo bar e se sentou numa mesa ao lado da sua. Depois de anotado o pedido, o menino de apenas 12 anos saiu. Jack relaxou um pouco e afrouxou a gravata, quando finalmente percebeu Lydia. Ele sorriu ao vê-la.

Antes mesmo de sua bebida chegar, ele se dirigiu à mesa de Lydia e, sem ao menos perguntar, se sentou ao lado dela. Ela finalmente o percebeu e olhou indignada:

– Eu posso saber quem lhe deu o direito de se sentar comigo? – disse o olhando de cima, ele sorriu presunçoso

– Não finja que não gostou, princesa. Nós dois sabemos a verdade.

– E qual seria? – disse irritada. Ele então a acariciou sua delicada mão

– Que nós dois nos queremos. – Lydia o olhou irritada, recolheu sua mão e disse sem pestanejar:

– Ai é que está o seu engano, eu não o desejo. Estaria fora de mim se assim o fizesse. Agora, me dê licença. Minha tarde de repente ficou péssima. – ela se levantou pronta para sair dali, quando Jack a puxou, olhou em seus olhos e fez menção de beijá-la. Teria conseguido se Lydia não tivesse sido mais rápida e lhe batido.

– Jamais faça isso de novo! – ela grunhiu e saiu do bar, apenas jogando uma nota de 20 dólares no balcão.

Já no carro, a caminho de casa foi que se acalmou. Quem era aquele homem que ousara beijá-la? Lydia não sabia, mas o detestava ainda assim. Ela tinha horror a homens controladores, que impunham sua vontade e eram cheios de si. Homem assim fazia com que ela se lembrasse dele. Novamente seu fantasma a atormentava. Ela não podia evitar. Ainda que sentisse um grande ressentimento por ele, seu amor era maior. Sim, ela o amava. Afinal, ele era o seu...

– Pai? – disse a garota surpreendida ao entrar em sua casa

– Zoe! Onde estava? – ele se virou, agora sem nenhum resquício da irritação de mais cedo. Mas então, ele percebeu as roupas dela. Seus olhos novamente exibiam um brilho furioso. – Que roupas são essas? Zoe Parker! Eu não acredito nisso.

– Ola pra você também. – ironizou enquanto se jogava no sofá

– Me responda! – ele grunhiu

– Estava dando uma volta. – ela colocou os pés sobre a mesa – Agora, o que você faz aqui? – disse com cara de poucos amigos

– Por Deus! Você é uma Parker! Se vista como tal. – o homem pegou uma garrafa de whisky e se serviu. Mais uma vez o mesmo discurso. Zoe já havia decorado de tantas vezes que o escutara. Ela então se levantou e caminhou até a varanda, mas seu pai a seguiu.

– Zoe, você é minha filha. Você tem o meu sangue. – disse segurando seu braço – Então pare de me afrontar. Sei que você faz essas coisas apenas para me irritar, isso é óbvio. Mas não é preciso...

– Para te irritar? – ela o olhou exasperada – Escute aqui, Mr Parker. Eu sou sim a sua filha, mas isso não significa que tudo que faça seja por você ou pra você. Eu faço isso porque eu quero! Entenda de uma vez por todas: o mundo não gira em seu redor! – ela praticamente cuspiu aquelas palavras. Estava cansada. Cansada de fingir. Cansada de fugir. Cansada de si mesma.

O homem então a lançou um olhar ameaçador e levantou sua mão para ela. Por um instante ele pensou em lhe bater, do mesmo jeito que sempre fizera, mas algo o fez parar. Ele viu a si mesmo pelos olhos de Zoe. Viu o medo em seu olhar, mas ainda assim a coragem. Ela já esperava que ele a batesse, mas ainda assim a fez. Por pior que seja o comportamento dela, ele tinha que admitir que ela tinha coragem. Então, ele abaixou sua mão novamente e se virou pra ela. Zoe se surpreendeu. Não esperava que ele recuperasse a calma. Seu pai então contou até dez mentalmente e suspirou, foi com um fio de voz que ele lhe disse:

– Hoje a noite haverá um jantar. Com Dominic. Se arrume e esteja pronta às oito. Eu virei buscá-la. – e sem dizer mais palavra, ele saiu do apartamento, deixando Zoe chorando no chão.

Notas finais
Ea, gostaram? Eu amei *-*