Estendi a mão sobre a mesa, à procura da chave de fenda.

A distração foi tanta que minhas unhas bateram sobre a superfície gélida da ferramenta, fazendo-a rolar sobre a mesa, à uns cinco centímetros de distância de minha mão.

— Preste atenção, Meg.

Revirei os olhos na direção do meu tutor.

— Você vai ficar dizendo o óbvio pra mim, ou vai me deixar terminar essa trava?

Ouvi Benjamin suspirar pesadamente, dando a volta na mesa.

Dentre todas as crianças órfãs que ele havia acolhido em sua oficina — um lugar de convívio coletivo para enjeitados, que costumavam chamar de Conexão — eu era aquela com a qual ele passava a maior parte do tempo. Isso explicaria, naturalmente, a mania irritante dele de pegar constantemente no meu pé.

— Olha — ele sentou na mesa ao lado, tocando meu ombro — é seu penúltimo ano, Megan. Você já passou por isso antes. Ninguém vai chamar seu nome dessa vez, assim como nunca aconteceu até hoje.

Foi minha vez de suspirar.

É claro que ele estava falando da Colheita.

Ele fazia aquilo todo ano, com cada uma das crianças que eram obrigadas a comparecer na praça principal, aguardando o sorteio que condenaria um garoto e uma garota de nosso distrito a lutarem pela vida numa arena televisionada.

Benjamin havia visto mais crianças da Conexão seguindo este caminho do que gostaria de admitir. Então, o fato de eu, dentre todas elas, ser a que constantemente havia sido poupada lhe trazia algum tipo de triste alívio.

Triste porque, mesmo que suas crianças da Conexão não fossem escolhidas, em duas casas do Distrito 3 haveriam famílias enlutadas no lugar dele.

Aquilo não era justo.

Os Jogos Vorazes foram criados como uma ferramenta de controle da Capital para manter os doze Distritos de Panem na linha, como castigo pela rebelião conjunta que estes distritos haviam criado há mais de vinte e nove anos.

Desde a vitória da Capital sobre os rebeldes, anualmente, dois jovens entre doze e dezoito anos — um garoto e uma garota — de cada distrito eram enviados para uma arena na Capital, onde lutariam até a morte.

Apenas um deles restaria no final — um vitorioso que viveria em luxo pelo resto de sua vida, trazendo também, todo ano, uma gratificação para seu distrito em forma de mantimentos e guloseimas.

Nunca havíamos tido um vencedor no Distrito 3. Ali, ser escolhido como um tributo era praticamente uma sentença de morte.

Meu distrito já havia sido um dos mais prósperos e ricos de toda a Panem. Porém, desde os Dias Escuros — quando o Distrito 3 liderou efetivamente boa parte da rebelião contra a Capital, seu desenvolvimento — que dependia em boa parte do apoio do governo — se deteriorou completamente.

Não era de se admirar que suas crianças, vivendo no limiar da pobreza, familiarizadas apenas com ferramentas e componentes eletrônicos que os pais traziam das fábricas para casa, não tivessem a menor chance de sobreviver na arena.

— Se eu fosse para a arena — sussurrei — eu voltaria para casa.

Vi Benjamin me dar um sorriso contido.

— Claro que voltaria — ele disse num tom conciliatório. Como um adulto que concorda com uma criança sobre existirem contos de fadas, apenas para não estragar suas esperanças.

Não o julgava pela falta de confiança. Só Deus — se é que existia um — sabia quantos órfãos ele já havia visto sair pela porta da Conexão pela última vez.

— Estou falando sério — virei a chave de fenda sobre a trava, finalmente terminando a primeira peça da câmera robótica — eu enfrentaria tudo aquilo… eu usaria tudo que sei. E iria voltar.

— Também estou — ele me encarou — você sempre foi uma lutadora, Meg. Você seria perfeitamente capaz de sobreviver.

Eu percebi que ele teve o cuidado de não dizer até quando.

Bem, ele acreditava que eu pudesse passar do primeiro dia. Isso era o mais perto que eu receberia de um elogio vindo daquele velho.

Ambos erguemos a cabeça quando a porta se abriu.

A cabeça de Tyler Switch, o filho do prefeito do Distrito 3, apareceu na fresta.

Ele era praticamente o garoto de recados da Conexão, já que tinha facilidade para adquirir informações devido à posição do pai. Odiava ficar em casa quando o prefeito estava ausente — mesmo com todo o conforto que tinha — e passava muito tempo conosco. Para mim, era como se também fosse um de nós.

— Boa tarde, Benjamin. Meg — ele nos cumprimentou com um aceno da cabeça — achei melhor avisar… eles vão antecipar a Colheita para as duas horas da tarde.

Senti meu estômago revirar.

Dois de nós haviam acabado de ter três horas de suas vidas roubadas com esse novo arranjo.

Olhei para Tyler. Ele tinha só doze anos, e seria seu primeiro ano na Colheita — ser filho do prefeito não o isentava de ter seu nome no sorteio.

Ele devia estar apavorado. E ainda assim teve a presença de espírito de nos avisar.

— Obrigado, Tyler — Benjamin o agradeceu com a cabeça — quer ir conosco para a praça mais tarde?

— Gostaria — o lábio de Tyler tremeu; parecia prestes a chorar — mas meu pai vai querer me acompanhar… — ele baixou a cabeça — eu… sinto muito.

Eu não sabia pelo que ele sentia muito. Se era por nos dar aquela notícia, por não poder ficar, por não ter como nos ajudar, por saber que talvez um de nós iria morrer em poucos dias…ou por toda aquela injustiça.

De qualquer forma, senti minha garganta se fechar. A gentileza do gesto dele foi o bastante para mim.

— A gente vai se ver de noite, quando tudo isso acabar. Está bem? Vou ir te ver no jardim da sua casa… e levar o meu projeto. Está quase terminado — eu disse, sorrindo para ele.

Eu não tinha como saber. Ninguém tinha como saber qual de nós ainda estaria ali à noite.

Mas precisava retribuir a gentileza de alguma forma, e tentar acalmar Tyler.

— É — ele me lançou um sorriso curto de volta — combinado então… — ele se afastou da porta — até mais tarde então, Meg!

Assim que a porta se fechou, Benjamin virou-se para mim.

— Você leva jeito com os pequenos — ele disse, se levantando da mesa — termine seu trabalho então. Vou avisar para as crianças se arrumarem. E vê se toma um banho — ele resmungou baixo, com um quê de humor forçado na voz — você está parecendo uma mineira de carvão. Tem óleo até nas suas unhas.

Ele gargalhou quando ergui meu dedo do meio, contornando as mesas e indo em direção aos dormitórios da Conexão — me deixando sozinha com meu projeto inacabado.



Quando terminei de me arrumar, me encarei no espelho, batendo as mãos sobre as dobras do vestido.

Girei o corpo, fazendo o tecido azul-pervinca ondular. Perto do ambiente monocromático da oficina, a cor era quase uma aberração.

Eu sabia que a roupa — emprestada por uma das meninas da Conexão — havia sido contrabandeada por algum valor bem específico. Os moradores do Distrito 3 costumavam vestir roupas usadas, passadas de geração para geração, ou feitas em casa.

Aquele vestido elegante, ainda que simples, tinha cheiro de coisa nova — coisa de distrito rico.

E eu ainda não entendia por que alguém me emprestaria algo tão bonito. Mesmo que Lyla tivesse justificado isso do jeito dela.

— O penúltimo ano é importante — ela havia dito para mim — logo vamos ser maiores de idade. E nunca mais precisaremos ir para a Colheita.

De qualquer forma, eu fiquei grata por aquilo. Todos estavam sendo tão gentis comigo — até mesmo o velho e carrancudo Benjamin. Talvez estivessem realmente felizes por imaginar que, em breve, eu finalmente estaria livre da Colheita para sempre.

Eu estava bonita — na verdade, com aquela roupa elegante, eu sequer parecia ser dali.

Benjamin costumava brincar, de forma mordaz, que um andarilho de algum distrito qualquer provavelmente havia me largado em sua oficina quando eu era bebê. Com pele de tom creme, cabelos pretos ondulados e rosto arredondado, eu não parecia em nada com os pálidos moradores de olhos cansados e rostos angulosos do Distrito 3.

Lyla costumava dizer que eu era uma pincelada de cores no cinza do nosso distrito.

Já eu não sabia o que pensar. Desde que eu me lembrava, a Conexão havia sido meu lar. Abandonada numa viela ainda bebê, nunca havia conhecido meus pais, e cresci em meio ao caos da oficina de Benjamin com os demais órfãos, aprendendo a montar, desmontar e criar peças e aparelhos com as ferramentas e componentes que ele trazia dos lixões da cidade.

Megan foi o nome que recebi da esposa de Benjamin na época — uma mulher da qual eu malmente lembrava, e cuja morte transformou nosso tutor em uma sombra abatida e ranzinza do que havia sido um dia.

Já meu sobrenome, Line, só surgiu vários anos depois. Veio de uma piada de Lyla a respeito de meu costume de sempre tentar unir as crianças da oficina para tudo, desde brincadeiras com gabinetes usados de computador até pequenos furtos de peças.

"Ela é como uma linha". Ela costumava dizer. "Sempre conecta tudo".

Encarei meu reflexo fixamente, vincando a testa em reação aos meus pensamentos.

No fim das contas, a verdade era uma só.

Aquela era minha família.

E independente do que acontecesse na Colheita, meu objetivo no final sempre seria o mesmo.

Eu sempre iria querer voltar para casa.

Dei as costas para o espelho, saindo de meu quarto e caminhando em direção à cozinha — onde eu e os outros jovens, em breve, seguiriam para seu destino.




Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.