JARDINS
9 Incêndios Controlados 🔥🥃
Notas iniciais
SOUNDTRACK DO CAPÍTULO:
Do I Wanna Know? by Arctic Monkeys.
Na quinta-feira daquela mesma semana, Theo Montenegro percebeu que existiam conversas capazes de continuar muito depois do último adeus. A de segunda era uma delas. Desde que deixara o café, a voz de Dante insistia em reaparecer nos momentos mais improváveis: Enquanto dirigia de volta para casa; durante o banho; no silêncio do domingo à noite. E, agora, sentado diante da ampla janela do escritório no quadragésimo andar do Grupo Montenegro, entre contratos, relatórios e projeções financeiras que normalmente exigiriam toda a sua atenção. Não era exatamente a lembrança da conversa que o incomodava. Era perceber que, depois de tantos anos, Dante ainda era capaz de ocupar um espaço que Theo acreditava ter encerrado definitivamente. Aquilo o irritava.
Sempre acreditara que sentimentos obedeciam à mesma lógica dos negócios: decisões difíceis eram tomadas uma única vez. Depois disso, bastava seguir em frente. Foi assim quando assumiu responsabilidades cedo demais, quando precisou aprender a comandar uma empresa antes dos trinta e quando compreendeu que, no mundo em que vivia, hesitar custava caro. Funcionava para praticamente tudo. Menos para pessoas.
Pela terceira vez naquela manhã, releu o mesmo e-mail sem conseguir registrar uma única informação. Fechou a mensagem, abriu outra, voltou à primeira e desistiu antes da segunda linha. O celular repousava ao lado do computador, silencioso, mas suficientemente próximo para distraí-lo cada vez que seus olhos abandonavam a tela. Quase sem perceber, desbloqueou o aparelho. O polegar deslizou pela lista de conversas até encontrar um nome que, durante anos, estivera entre os primeiros da lista.
Helena.
Por um instante, cogitou ligar. Não para falar de trabalho, nem da discussão que ainda permanecia suspensa entre os dois. Queria apenas contar sobre o encontro com Dante. Ouvir alguém que conhecia aquela história desde o início. Alguém que talvez conseguisse organizar uma confusão que nem ele próprio sabia explicar. Mas a lembrança da última conversa entre eles surgiu antes que pudesse tocar na tela. Helena havia sido clara. E Theo também.
Algumas palavras, depois de ditas, não desapareciam apenas porque o tempo passava.
Ele bloqueou o celular novamente e o deixou sobre a mesa com um cuidado quase excessivo, como se qualquer movimento brusco fosse capaz de transformar aquela inquietação silenciosa em algo impossível de controlar. Pela primeira vez em muito tempo, Theo Montenegro não sabia exatamente qual era o próximo passo.
Ainda tentou trabalhar por mais alguns minutos. Respondeu dois e-mails, assinou documentos que Laura Menezes, secretária da presidência, havia separado antes do início da manhã e participou de uma ligação de quinze minutos com investidores de Nova York. Ao encerrar a chamada, percebeu que mal conseguia recordar o que havia acabado de discutir. Era raro. Theo construíra a própria reputação justamente por nunca desperdiçar atenção. Enquanto os outros executivos dividiam a mente entre compromissos, ele sempre estivera inteiro onde quer que estivesse. Naquela semana, não.
Levantou-se e caminhou até a ampla janela. Theo permaneceu alguns instantes diante dela, no último andar do Grupo Montenegro, instalado em uma das torres envidraçadas do Cidade Jardim Corporate Center. Dali, a Marginal Pinheiros parecia distante o suficiente para transformar o trânsito da manhã em um movimento quase silencioso. Respirou fundo. Talvez trabalhar até mais tarde resolvesse. Talvez uma noite de sono. Talvez apenas tempo.
A batida discreta na porta interrompeu seus pensamentos.
— Posso?
Laura surgiu segurando um tablet e uma pasta de couro.
— Claro.
— O Instituto Aster confirmou presença no coquetel beneficente de hoje à noite. Eles perguntaram se você mantém a participação.
Theo levou alguns segundos para responder. Havia esquecido completamente do evento.
— Sim. Eu vou.
Laura fez uma rápida anotação.
— Sua presença foi confirmada para as vinte horas. Também recebi a lista parcial de convidados. Posso encaminhar para o seu e-mail.
Theo apenas assentiu. Ela caminhou até a porta, mas voltou a olhar para ele antes de sair.
— O senhor está bem?
A pergunta foi feita com naturalidade. Laura trabalhava com Theo havia anos suficientes para reconhecer pequenas mudanças de comportamento que passariam despercebidas para qualquer outra pessoa. Ele sorriu de maneira educada.
— Só foi um fim de semana mais longo do que eu esperava.
Ela sustentou o olhar por um instante, como se avaliasse a resposta, mas preferiu não insistir.
Assim que a porta tornou a se fechar, Theo abriu automaticamente o e-mail com a lista de convidados. Percorreu os nomes sem muito interesse. Empresários. Colecionadores. Representantes de fundações. Alguns políticos. Quando chegou à metade da lista, parou.
Helena Albuquerque.
Continuou descendo.
Noah Saad.
Mais abaixo.
Dante Vasconcellos.
Theo fechou os olhos por um breve instante e soltou um riso baixo, quase incrédulo. São Paulo realmente tinha um senso de humor peculiar. Entre milhões de habitantes, bastavam dois dias para reunir novamente pessoas que ele começava a acreditar que conseguiria evitar por algum tempo. Guardou o celular no bolso interno do paletó, pegou as chaves sobre a mesa e decidiu sair mais cedo do escritório. Precisava de algumas horas longe daquele ambiente antes do evento. Não imaginava que, naquela mesma noite, reencontraria mais do que rostos conhecidos. Reencontraria versões de si mesmo que acreditava ter deixado para trás.
O restante da tarde transcorreu sem grandes imprevistos. Theo passou rapidamente pelo apartamento nos Jardins apenas para trocar a gravata e substituir o terno azul-marinho por outro em um tom de grafite que costumava reservar para eventos beneficentes. O espelho devolveu a mesma imagem de sempre: postura impecável, barba alinhada, expressão controlada. Bastava um olhar um pouco mais atento, porém, para perceber que os últimos dias haviam deixado marcas discretas demais para serem escondidas por um bom corte de alfaiataria.
O Porsche cruzou a Marginal já sob as primeiras luzes da noite. São Paulo começava a assumir a aparência que Theo mais conhecia. Restaurantes enchiam lentamente, manobristas organizavam a chegada dos primeiros convidados e fachadas iluminadas disputavam atenção com o trânsito incessante. Havia algo de tranquilizador naquela cidade quando todos pareciam ocupados demais para prestar atenção na vida alheia. Era uma ilusão.
Ao entregar a chave ao manobrista, Theo ajeitou discretamente o Cartier, recém adquirido, no pulso antes de atravessar a entrada do Instituto Aster. O salão principal já recebia dezenas de convidados. Taças de Veuve Clicquot circulavam entre pequenos grupos, um quarteto de cordas preenchia o ambiente com uma interpretação elegante de clássicos contemporâneos e, espalhadas pelas paredes, fotografias de artistas brasileiros seriam leiloadas ao longo da noite para arrecadar recursos destinados a projetos educacionais.
Theo cumprimentou alguns empresários, conversou brevemente com um casal de colecionadores e ouviu comentários superficiais sobre mercado, política e investimentos. As conversas pareciam seguir um roteiro conhecido demais para exigir qualquer esforço. Era exatamente esse tipo de ambiente que aprendera a dominar desde muito cedo. Até que um vestido preto surgiu do outro lado do salão.
Helena Albuquerque caminhava entre os convidados com a naturalidade de quem nunca precisara disputar espaço para ser notada. O tecido de corte impecável acompanhava seus movimentos sem qualquer excesso, enquanto um par de brincos discretos captava a luz apenas o suficiente para chamar atenção de quem realmente estivesse olhando. Ela ria de alguma observação feita por um casal de banqueiros quando seus olhos encontraram os de Theo por um breve instante. Ela o viu. Theo teve certeza disso.
Por uma fração de segundo, acreditou que Helena diminuiria o passo. Que ao menos sustentaria o olhar por educação. Não aconteceu. Ela voltou a conversar como se ele simplesmente não estivesse ali. Cumprimentou outras pessoas pelo caminho, aceitou uma taça do Veuve Clicquot de um garçom que passava e continuou atravessando o salão sem demonstrar qualquer hesitação. A indiferença, percebeu Theo, era muito mais precisa do que a raiva.
Ele acompanhou sua trajetória apenas até o momento em que ela desapareceu entre os convidados. Não insistiu. Não atravessou o salão. Não havia orgulho suficiente que o permitisse correr atrás dela diante de tantas pessoas, mas também não existia frieza bastante para fingir que aquilo não o atingira.
Foi então que uma voz conhecida surgiu às suas costas.
— Achei que você desistiria de eventos beneficentes por um tempo.
Theo voltou-se na direção da voz e encontrou Noah Saad ajustando discretamente os punhos do blazer Prada enquanto um garçom lhe oferecia uma taça do champagne. Recusou com um gesto educado, preferindo um copo de água com gás que retirou da bandeja seguinte. Havia algo de contraditório em Noah. Sabia circular entre colecionadores, investidores e artistas com a mesma facilidade com que desaparecia de todos eles quando a noite terminava. Talvez por isso fosse tão difícil saber o que realmente pensava.
— Eu quase desisti — respondeu Theo, permitindo um sorriso discreto. — Mas descobri que filantropia continua rendendo boas reuniões.
Noah arqueou uma sobrancelha.
— Então você veio pelos lances ou pelas pessoas?
— Existe diferença?
— Sempre.
Os dois caminharam lentamente até uma das grandes janelas do salão. Do lado de fora, os faróis desenhavam linhas contínuas sobre a avenida enquanto São Paulo seguia seu ritmo indiferente às pequenas guerras travadas entre seus habitantes.
— Fiquei sabendo da conversa com o Dante.
Theo desviou o olhar para Noah.
— As notícias viajam rápido.
— As importantes, sim. As inventadas, mais rápido ainda.
Theo soltou um riso breve.
— E quem disse que essa é importante?
— Você não marcaria um café com o seu ex por educação.
A observação foi feita em um tom tão tranquilo que quase pareceu uma constatação estatística. Era exatamente assim que Noah funcionava. Nunca pressionava. Apenas colocava as cartas sobre a mesa e esperava que o outro decidisse se queria jogá-las. Theo girou lentamente o copo entre os dedos.
— Ele me procurou.
— Eu imaginei.
— E queria conversar.
— Não. — Noah balançou a cabeça, sem tirar os olhos do movimento do salão. — Conversar foi a desculpa. Se fosse só isso, bastava uma ligação.
Theo permaneceu em silêncio.
— Então você também percebeu.
— Acho que qualquer pessoa que conheça o Dante perceberia.
A resposta ficou suspensa entre os dois por alguns instantes. Noah não perguntou o que havia sido dito. Theo também não demonstrou vontade de contar. Havia um acordo silencioso naquela amizade: certas perguntas não precisavam ser feitas para que ambos soubessem as respostas. Foi Noah quem voltou a quebrar o silêncio.
— E agora?
Theo observou Helena ao longe. Ela ria de alguma história contada por um casal de empresários como se não houvesse absolutamente nada de errado no mundo.
— Agora eu continuo fazendo exatamente o que sempre fiz.
— Fugindo?
Theo sorriu de lado.
— Trabalhando.
Noah devolveu um sorriso quase imperceptível.
— Você realmente acredita nessa resposta?
Antes que Theo pudesse responder, um pequeno grupo aproximou-se para cumprimentá-los. Apertos de mão, apresentações e comentários sobre o leilão interromperam a conversa. Quando finalmente voltaram a ficar sozinhos, Noah percebeu que Theo já não olhava mais para Helena. Agora olhava para outro ponto do salão.
Seguindo discretamente a direção daquele olhar, Noah encontrou um rosto conhecido acabando de entrar no evento: Kiran Alves.
Vestia um terno preto de corte simples, bem ajustado ao corpo, sem ostentação. Caminhava com a insegurança elegante de quem ainda não se acostumara completamente àquele tipo de ambiente, mas fazia um esforço consciente para não demonstrá-la. Cumprimentou algumas pessoas, agradeceu ao anfitrião pelo convite e parou por um instante para observar as fotografias expostas antes do início do leilão. Noah voltou os olhos para Theo. Theo, porém, já havia desviado o olhar, como se nunca tivesse olhado para Kiran. Noah conhecia aquele tipo de reação.
E, pela segunda vez em poucos dias, começou a suspeitar que Dante talvez não tivesse sido o único a perceber algo que Theo fazia questão de esconder.
Kiran ainda conversava com um dos curadores da exposição quando Theo desviou definitivamente os olhos. Não queria correr o risco de transformar um simples acaso em alguma coisa maior do que realmente era. Desde a Soirée, vinha se convencendo de que tudo não passava de curiosidade. Kiran era inteligente, espontâneo e carregava uma leveza rara naquele círculo social. Gostava da companhia dele. Era só isso. Precisava ser só isso.
— Você está fazendo de novo.
Theo voltou a encarar Noah.
— Fazendo o quê?
— Fingindo que não estava olhando.
Um sorriso discreto surgiu no rosto de Theo.
— Você anda imaginando coisas.
— Faz parte do meu trabalho.
— Seu trabalho é administrar uma galeria.
— Meu trabalho é observar pessoas. A galeria veio de brinde.
Theo riu baixo, balançando a cabeça.
— Continua insuportável.
— Continua funcionando.
Os dois permaneceram em silêncio por alguns segundos, observando o movimento do salão. O leiloeiro começava a organizar os convidados próximos ao palco enquanto garçons circulavam oferecendo novas taças com um conteúdo liquido de tom ocre. O ambiente permanecia impecavelmente elegante, mas Theo conhecia bem aquele tipo de evento. Quanto mais a noite avançava, mais as formalidades cediam espaço às conversas verdadeiras.
Foi nesse instante que Helena passou novamente. Desta vez, mais perto. A distância entre os dois não chegava a dois metros. Ela conversava com uma jornalista especializada em mercado de luxo, sorrindo com a naturalidade de quem dominava qualquer ambiente que ocupasse. Em nenhum momento desviou o olhar para Theo. Era como se ele simplesmente não existisse. Noah percebeu antes mesmo de Theo.
— Ela está brava.
— Eu também estaria.
— Não. — Noah respondeu calmamente. — Se ela estivesse só brava, teria discutido mais uma vez com você. Isso aí é estratégia.
Theo acompanhou Helena discretamente até que ela parou para cumprimentar um casal de investidores.
— Ela sabe que você está olhando.
Ele suspirou.
— Eu sei.
— E ela sabe que você sabe.
Theo soltou uma breve risada, derrotado.
— Você consegue transformar qualquer coisa em um jogo psicológico.
— Porque, na maioria das vezes, é exatamente isso que as pessoas fazem.
Theo não respondeu. No fundo, sabia que Noah tinha razão. Helena não estava apenas ignorando sua presença. Estava escolhendo fazê-lo diante de todos. Não para humilhá-lo. Helena jamais pisaria na própria elegância por isso. Fazia algo muito mais sofisticado. Retirava dele qualquer importância. Era um golpe silencioso e funcionava.
Como se confirmasse o pensamento de Theo, Helena ergueu os olhos por uma fração de segundo. Os dois voltaram a se encarar através do salão. Dessa vez, ela não desviou imediatamente. Sustentou o olhar apenas o suficiente para que ele tivesse certeza de que havia sido visto. Então sorriu. Não para ele, para um homem que acabava de se aproximar ao seu lado. A conversa continuou como se Theo nunca tivesse existido.
Noah observou toda a cena sem dizer uma única palavra. Àquela altura, já não restavam dúvidas. A guerra entre Theo Montenegro e Helena Albuquerque havia deixado de ser privada. Apenas nenhum dos dois parecia disposto a admitir isso primeiro.
Theo só voltou a respirar normalmente quando decidiu buscar outra taça de Veuve Clicquot. A conversa com Noah havia terminado, mas a sensação de estar sendo observado permanecia. Cumprimentou mais alguns convidados, ouviu comentários sobre o leilão beneficente e fez um lance discreto por uma fotografia de Claudia Andujar. O restante da noite parecia finalmente encontrar um equilíbrio confortável. Até Dante Vasconcellos entrar no salão.
Ele não chegou causando impacto. Nunca precisou. Cumprimentou os organizadores, trocou algumas palavras com um desembargador conhecido e agradeceu ao anfitrião pelo convite antes de caminhar lentamente entre os convidados. O terno escuro, impecavelmente ajustado, fazia com que parecesse pertencer àquele ambiente desde sempre. Theo percebeu sua presença quase imediatamente e Dante percebeu Theo.
Não houve aceno. Nem sorriso. Muito menos qualquer tentativa de aproximação. Dante apenas continuou conversando com outras pessoas, como se a noite tivesse transcorrido exatamente como planejara. Em determinado momento, seus olhos cruzaram os de Theo por menos de dois segundos. Bastaram. Era um lembrete silencioso.
"Precisamos conversar."
Aquela frase continuava existindo, mesmo depois de ter sido respondida. Theo desviou primeiro.
Do outro lado do salão, Kiran caminhava entre as fotografias que seriam leiloadas naquela noite. Diferentemente da maioria dos convidados, parecia genuinamente interessado nas obras. Parava diante de algumas delas por vários minutos antes de seguir adiante, lendo pequenas descrições, observando detalhes que quase ninguém notava. Era uma maneira curiosa de circular por aquele universo. Enquanto muitos estavam ali para serem vistos, Kiran parecia realmente olhar.
Foi durante uma dessas pausas que ouviu duas vozes atrás dele.
— Achei que o Theo fosse chegar com a Helena.
— Depois da Soirée? Impossível.
— Então era verdade?
— Em São Paulo, metade das fofocas nasce da imaginação. A outra metade nasce porque alguém viu.
Kiran permaneceu imóvel diante da fotografia, fingindo observar a moldura.
— E o Dante?
— Esse nunca desistiu dele.
Os dois riram discretamente antes de seguirem pelo salão. Kiran esperou alguns segundos até voltar a respirar normalmente. Não fazia ideia do que realmente havia acontecido entre Theo, Helena e Dante, mas começava a entender que a história era muito maior do que imaginara. E, pela primeira vez desde o desaparecimento do irmão, teve a estranha sensação de que aquelas pessoas escondiam muito mais do que aparentavam.
Enquanto isso, Noah percebeu que precisava de alguns minutos longe das conversas educadas, dos brindes calculados e dos sorrisos ensaiados. Desculpou-se com um colecionador argentino, atravessou discretamente um corredor de serviço e saiu para a área externa dos fundos do instituto.
A noite estava fria e silenciosa. A cidade parecia distante dali. Ele retirou um pequeno baseado do bolso interno do blazer Prada, acendeu com calma e fechou os olhos na primeira tragada. A fumaça subiu lentamente antes de desaparecer no ar úmido. Noah permaneceu imóvel durante alguns segundos. Não buscava euforia. Buscava silêncio. Era o único momento em que sua cabeça finalmente desacelerava.
Não percebeu a movimentação do outro lado do jardim. Nem o reflexo discreto de uma lente, muito menos o som quase imperceptível de uma fotografia sendo capturada. Clique. Quem quer que estivesse ali abaixou imediatamente o celular e desapareceu antes que Noah abrisse novamente os olhos. Dentro do salão, o leilão continuava; Do lado de fora, uma única imagem acabava de mudar completamente o rumo daquela noite.
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