JARDINS
3 Convites & Consequências ✉️🥂
Notas iniciais
SOUNDTRACK DO CAPÍTULO:
Midnight City by M83
Às oito horas da noite, a Oscar Freire parecia existir em uma versão própria de São Paulo. Enquanto o restante da cidade enfrentava congestionamentos intermináveis e estações de metrô lotadas, a nossa amada — e odiada na mesma intensidade — elite dos Jardins, faziam aquilo que sabiam fazer de melhor: Transformavam qualquer evento em um espetáculo social.
Valets se movimentavam entre BMWs, Porsches e Range Rovers; As mesas externas do Santo Grão ainda permaneciam ocupadas; Risos ecoavam entre fachadas iluminadas e vitrines impecáveis.
A poucos passos da Haddock Lobo, a Galatea recebia convidados para a abertura de sua nova exposição: Cartografia do Silêncio, uma amostra da Arte contemporânea. Colecionadores, jornalistas, investidores, socialites e algumas pessoas que simplesmente não suportavam a ideia de não serem convidadas, se faziam presentes na ocasião. Como sempre.
Noah Saad odiava admitir quando estava nervoso, mas odiava ainda mais quando alguém percebia.
— Você está nervoso.
Helena Albuquerque surgiu ao seu lado segurando uma taça de espumante como se fizesse aquilo sempre. E fazia.
— Boa noite para você também.
— Está nervoso, reforçou ela.
— Estou organizando um evento, disse ele enquanto revirava os orbes dentro da própria órbita ocular.
— Você organiza eventos o tempo todo, não é nenhuma novidade.
— Exatamente. Tenho experiência suficiente para saber tudo o que pode dar errado.
Helena arqueou uma sobrancelha.
Naquela noite, ela usava um conjunto de alfaiataria marfim da The Row. As linhas eram limpas, quase minimalistas. O blazer de corte impecável contrastava com os cabelos loiros perfeitamente alinhados. Nos pés, sandálias Bottega Veneta em couro caramelo. No pulso, um Cartier Tank. Nenhum logotipo, nenhuma extravagância, nenhuma tentativa de chamar atenção. E, ainda assim, era impossível não olhar.
— Quantas confirmações?, ela o questionou após dar mais um gole em seu espumante.
— Duzentas e três.
— Quantas vieram?
— Duzentas e oitenta.
— Então São Paulo continua desesperada por validação social, ela concluiu, sorrindo ligeiramente.
— E você continua julgando todo mundo.
— Uma das minhas melhores qualidades, ela afirmou categoricamente.
Noah sorriu e não demorou muito para responder.
— Eu consigo pensar em outras.
— Eu sei.
Helena levou a taça aos lábios e jogou um beijinho no ar antes de seguir para o interior da galeria, desvencilhando de uma possível resposta de Noah. Ela tinha esse costume irritante de vencer conversas antes mesmo de terminá-las.
(...)
Theo Montenegro chegou quinze minutos depois. Sozinho. O que, para alguém como Theo, já era suficiente para chamar atenção. O blazer azul-marinho Brunello Cucinelli parecia ter sido feito especificamente para ele. Talvez tivesse. Camisa branca, sem gravata, sem excessos, sem esforço. O tipo de elegância que não precisava se explicar.
Assim que entrou, algumas pessoas se aproximaram como um bando de abutres em cima do alimento recém descoberto. Cumprimentos, apertos de mão, sorrisos, uns verdadeiros, outros nem tanto. Theo respondia a todos com educação impecável, mas sem jamais parecer disponível. Era uma habilidade rara e extremamente eficiente.
— Theo.
— Noah.
— Obrigado por vir.
— Eu patrocinei metade dessa exposição. Seria estranho não aparecer.
— Achei que fosse dizer que veio prestigiar meu trabalho.
— Não gosto de mentir em galerias de arte.
Noah riu.
— Você continua impossível.
— E você continua sensível, até demais.
(...)
Do lado de fora da Galatea, Kiran Alves encarava a fachada de vidro. Pela terceira vez. O convite continuava na tela do celular. Tudo estava correto: Horário, local, nome... Mesmo assim, havia uma sensação estranha, como se estivesse prestes a entrar num lugar onde não deveria estar. Respirou fundo, guardou o aparelho, ajustou o blazer grafite e entrou.
A primeira coisa que percebeu foi o silêncio. Não um silêncio real, mas aquele silêncio elegante que só existe em ambientes caros. As pessoas falavam baixo, riam baixo e até pareciam julgar em volume reduzido.
— Kiran.
Ele se virou. Noah surgiu sorrindo.
— Você veio!
— Achei que seria deselegante recusar.
— Excelente resposta!
— Foi a correta?
— Não faço ideia. Mas soou sofisticada.
Kiran riu. O nervosismo diminuiu imediatamente.
— Relaxe.
— Estou relaxado.
— Mentira.
— Um pouco.
— Melhor.
Noah pegou duas taças de uma bandeja que passava e entregou uma delas.
— Primeira regra.
— Existe uma regra?, Kiran retrucou abismado.
— Várias, mas essa é importante, recitou em tom solene.
— Qual?
— Nunca aceite a segunda taça.
— Por quê?
Noah aproximou-se ligeiramente e baixou o tom de voz ainda mais, como se estivesse contando um segredo.
— Porque é quando as pessoas começam a dizer o que realmente pensam.
— E isso é ruim?
— Em São Paulo? Sempre.
Kiran gargalhou.
— Estou começando a gostar daqui.
— Esse é exatamente o tipo de frase que me preocupa.
Durante os minutos seguintes, Noah o apresentou a artistas, curadores e empresários. Nomes que Kiran conhecia apenas de reportagens.
No início, sentiu-se deslocado. Depois percebeu algo curioso. A maioria das pessoas ali estava tão preocupada em parecer interessante que ninguém tinha tempo para perceber quem realmente era interessante e isso tornou tudo menos assustador.
Foi próximo a uma instalação composta por estruturas metálicas suspensas que ele encontrou Theo Montenegro. Ou, mais precisamente, que Theo encontrou ele.
— Você é o Kiran.
Não parecia uma pergunta. Kiran virou-se.
— Espero que isso seja uma coisa boa.
Theo observou o jovem por alguns segundos.
— Ainda estou decidindo.
— Justo.
— Primeira vez num evento assim?
— Está tão óbvio assim?, questionou Kiran.
— Apenas para quem está observando.
— E você observa muito?
Theo tomou um gole do espumante para molhar as palavras antes de recitá-las.
— É um defeito profissional.
— Qual profissão exige isso?
— Sobreviver.
— Dramático.
— Realista.
— Existe diferença?
Pela primeira vez, Theo sorriu de verdade. Pequeno, mas genuíno.
— Talvez você descubra.
E, pela primeira vez naquela noite, foi Theo quem pareceu intrigado.
Helena aproximou-se justamente quando Theo e Kiran observavam uma das obras centrais da exposição. Uma enorme composição abstrata dominava a parede principal da Galatea. Camadas de azul profundo, branco e dourado pareciam colidir sobre a tela. Ao redor deles, garçons circulavam discretamente oferecendo taças de Krug Grand Cuvée.
— Espero que estejam falando da obra.
A voz de Helena fez Kiran se virar. Ela segurava a taça com a mesma naturalidade com que outras pessoas seguravam uma opinião.
— Estamos fingindo que entendemos a obra — respondeu Theo.
— Ah. Então estão perfeitamente integrados ao ambiente.
Kiran riu. Theo apenas balançou a cabeça.
— Helena Albuquerque — disse ela, estendendo a mão.
— Kiran Alves.
— Eu sei.
— Claro que sabe...
— Faz parte do trabalho.
— E qual exatamente é o seu trabalho?, ele questionou, com dúvida.
— Convencer pessoas muito ricas a fazerem o que deveriam fazer sem que elas percebam que estão sendo convencidas, respondeu ela, ligeiramente entediada.
— Parece exaustivo.
— É, mas paga as contas.
— Achei que a filantropia fosse mais inspiradora, retrucou Theo.
— Eu também, até começar a trabalhar com bilionários.
Theo levou a taça aos lábios para esconder o sorriso. Helena percebeu. Ignorou, como sempre.
— Então você estuda no Insper... Ela voltou a sua atenção ao novato.
— Estudo.
— E ainda acredita em meritocracia?
Kiran arqueou uma sobrancelha.
— Devo parar?
— Não. É divertido observar enquanto dura.
— Você parece cética.
— Eu sou realista.
— Existe diferença?
— Normalmente umas três decepções e dois anos de mercado financeiro.
Theo soltou uma risada curta.
— Essa foi boa, ele admitiu.
— Eu sei.
Kiran observou os dois.
— Vocês fazem isso o tempo todo?
— Isso o quê? — Helena e Theo perguntaram juntos.
— Competem para ver quem consegue ser mais insuportável.
Theo gargalhou. Helena não, mas o sorriso surgiu. Pequeno, discreto e quase imperceptível. E, por algum motivo, aquilo pareceu uma vitória.
(...)
Alguns minutos depois, Helena foi interceptada por membros do conselho de uma instituição cultural. Theo permaneceu ao lado de Kiran. Os dois seguiram lentamente pelo espaço expositivo. A iluminação baixa refletia no vidro das instalações.
Ao passar por ele, Kiran percebeu novamente o perfume de Theo. Não era algo fresco, nem leve. Era escuro, amadeirado com notas de oud e âmbar que pareciam permanecer no ar por mais tempo do que deveriam. Elegante e controlado, como o próprio dono. E apesar dele não ser um sommelier de fragrâncias, tinha certeza que aquele perfume custava uma nota.
Pararam diante de uma escultura formada por aço escovado e vidro.
— O que você vê? — perguntou Theo, curioso.
— Honestamente?
— Sempre.
— Uma tentativa muito cara de parecer profunda.
Theo soltou uma gargalhada daquelas verdadeiras. Algumas pessoas se viraram discretamente para ele e voltaram para o que quer que estivessem fazendo nos segundos seguintes.
— Corajoso.
— Ei, você perguntou!
— E se eu disser que uma peça dessa exposição foi vendida por mais de um milhão?
— Continuo vendo uma tentativa muito cara de parecer profunda.
— Interessante.
— Todo mundo respondeu outra coisa?
— Liberdade, transformação, ruptura... essas palavras.
— E você?
Theo observou a escultura. Depois o reflexo dos dois no vidro e lhe trouxe uma resposta simples.
— Eu financiei parte da exposição. Não preciso responder.
— Isso explica muita coisa, concluiu Kiran.
— O quê?
— Você tem cara de quem gosta de comprar problemas caros.
Pela primeira vez, Theo pareceu genuinamente surpreso e talvez fosse exatamente por isso que continuava ali.
(...)
— Agora eu entendi.
A voz surgiu atrás deles. Dante Vasconcellos. Impecável, como sempre. O terno Giorgio Armani parecia ter sido desenhado especificamente para ele. O relógio Vacheron Constantin desaparecia discretamente sob o punho da camisa. Tudo transmitia precisão. Até o modo como caminhava.
— Entendeu o quê? — perguntou Theo, soltando um longo e pesado suspiro.
— Por que você continua conversando com ele.
Kiran cruzou os braços.
— Isso foi um elogio?
— Ainda não decidi.
— Vocês realmente adoram essa resposta.
— E você aprende rápido.
Dante pegou uma taça de Krug de uma bandeja próxima e observou a obra, em seguida, observou Kiran. O segundo exame foi claramente mais minucioso.
— O que está achando da exposição?
— Quer a resposta diplomática ou a verdadeira?
— A verdadeira.
— Algumas obras são brilhantes, outras estão claramente aqui porque alguém conhece alguém.
Theo desviou o olhar. Dante não.
— Interessante.
— Por quê?
— Porque você é a primeira pessoa hoje que respondeu isso.
— Então honestidade é rara.
— Não. Coragem.
Por um instante, o silêncio pairou entre eles. Não desconfortável, mas atento, como se todos estivessem avaliando algo que ainda não conseguiam definir.
— Estou sendo traído.
Noah apareceu ao lado do grupo segurando sua própria taça. Trajando um blazer Prada, camiseta branca impecável e o sorriso fácil de sempre.
— Como assim? — perguntou Theo.
— Eu apresento o convidado e vocês roubam toda a atenção.
— Você vai sobreviver...
— Talvez, mas vou começar a cobrar uma taxa.
— Você cobra taxa por tudo? — perguntou Kiran.
— Em São Paulo? Tudo tem um preço. Só depende de quem está pagando.
— Isso foi deprimente.
— Isso foi uma aula gratuita.
— Ainda mais deprimente.
Noah riu. Helena voltou a se aproximar naquele instante e então aconteceu. Sem anúncio, sem intenção, sem que nenhum deles percebesse.
Theo. Helena. Noah. Dante. Kiran. Os cinco ocupavam o mesmo espaço pela primeira vez. O centro gravitacional daquela história estava reunido e ninguém fazia ideia disso.
Do lado de fora da Galatea, a noite avançava lentamente sobre os Jardins. As vitrines começavam a apagar suas luzes, o movimento na Oscar Freire diminuía, os últimos convidados se despediam, mas alguma coisa havia mudado. Talvez apenas para Kiran. Talvez para todos eles. Ainda era cedo demais para saber.
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