Júpiter e Vênus

28 Não percebe as pessoas dando em cima de você?


Notas iniciais
Gente, esse capítulo meio que extrapolou o número de palavras usual dos outros kkkkkkkkkk.

GABRIEL

Debruçado na janela da sala de Iara, eu observava agoniado a chuva que estava prestes a cair do lado de fora. Onde e como estaria Pedro? Ele odiava chuva, sempre odiou, principalmente por causa dos trovões. Eu não entendia bem essa fobia, o trovão é só o som do raio, um eco tardio do que já caiu, considerando que a velocidade do som é menor do que a da luz. O trovão significa que não há mais perigo. Mas de qualquer jeito, quem era eu para falar algo? Morria de medo de um mero escuro.

— Querido, tá dando uma de Cinderela na torre, é? — Iara me empurrou com a bunda e se debruçou na janela também. — Não vai vir nenhum príncipe te buscar aqui não.

Cinderela, gata borralheira, gato borralheiro.

— Primeiro, a princesa que ficava na torre era a Rapunzel. E... Me deixa, Iara!

— Ui, ele é PhD em contos de fada. — Iara provocou. — Tinha que ser gay mesmo.

— Vai se fuder.

— Besta. — a menina riu. — Eu vou colocar os miojo para cozinhar, tá?

— Tá.

Ela deu um tapinha leve na minha bochecha e foi para a cozinha. Após poucos segundos, escutei o barulho de miojo sendo quebrado. Estalei os dedos. Segunda, terça, quarta e quinta. Quatro dias dormindo aqui já. Não tinha nenhuma grande coragem de dormir naquele apartamento junto com Pedro novamente, muito menos coragem de vê-lo. Somente fui lá para ajeitar as coisas, fazer uma comida... Sabia que não poderia ficar assim para sempre, porém, por enquanto...

Ai, Pedro.

O vento forte levantou os grãos de poeira do asfalto. Um raio distante clareou o céu, atrás de umas nuvens vermelhas. Ele pode estar em qualquer lugar agora. Mas se estiver em casa? Rapidamente a chuva desabou em gotas pesadas. Fechei a janela. Não devia me importar... Mas ele vai estar sofrendo sozinho. Sentei no sofá e cerrei os olhos. Mas ele passou por outras chuvas sem mim.

Mas...

Mas...

Você tem que deixar ele pra lá, Gabriel. Você consegue.

— Desistiu do príncipe? — Iara retornou. — Coloquei o de frango no fogo. O de tomate acabou.

— De boas. — dei de ombros. — Iara...

— Quê?

— Onde acha que o Pedro tá?

A índia revirou os olhos em câmara lenta.

— Gabriel. Eu vou te matar.

— Tá bom, tá bom. — peguei uma almofada, sorrisinho amarelo. — É só que... Ele tem medo de trovão.

— Foda-se. Que um raio caia em cima dele e o queime vivo. Um idiota a menos no mundo.

Não pude não rir. Desde segunda, Iara havia desejado quinhentos mil tipos de morte para Pedro, passando de tortura a facadas e agora, raio. Iara não brincava em serviço quando o assunto era odiar alguém. Ela puxou a almofada de mim. Reclamei, ela me apontou o dedo médio e colocou as pernas no meu colo.

— Quando vai me falar direito do Marcelo, de ontem? Ele tá super afim de te pegar.

— Eu só conversei com ele.

— Duas horas.

— Porque tu sumiu!

Ela rolou as órbitas para cima como resposta. No entanto, eu não tinha conversado com Marcelo duas horas porque Iara sumiu. Na verdade, não enxerguei o tempo passando. Só me dei conta do relógio quando ela e Laura apareceram, ambas com a roupas para lá de bagunçada. Aí que percebi que precisava voltar para casa.

A questão é depois que da citação da palavra gay, todo o papo se voltou apenas nesse rumo. E eu mergulhei no assunto. Era a primeira vez que falava disso com outro gay. Marcelo contou de como se assumiu para a família, contou do ex-namorado e frisou que eu era a criatura mais obviamente homossexual do planeta.

— Qualquer um que quisesse ver via que você era gay, Gabriel. — ele falou, rindo.

— Iara já me disse isso. — respondi.

O que veio em seguida fez meu coração parar.

— É que você tinha uma paixonite no Pedro. Eu lembro do jeito que você olhava para ele. Bem claro.

No momento, quis um buraco para me enterrar. De preferência, um buraco que alcançasse o núcleo da Terra. Eu nem imaginava o que sentia por Pedro e o cara notou. Ele não me deu pausa para lidar com essa notícia. Simplesmente continuou. E suas próximas palavras me deixaram estagnado.

— E eu tinha uma paixonite em você. Eu só ia na casa do Pedro para te ver.

Franzi as sobrancelhas.

— Você...

— A gente superou, não é mesmo, Gabriel? — Marcelo encolheu os ombros. — Já faz tempo. É aquela coisa do João que amava Maria que amava José. Acontece.

Eu não conseguia pensar em alguém com paixonite em mim nos meus 14 anos. Não poderia deixar esse detalhe escapar para Iara. Por isso que tamanhas 24 horas depois, não tinha contado ainda a história direito. Iara nos trancaria em um quarto, com certeza. Mas Marcelo havia arranjado um namorado. Claro que tinha superado. Contudo... Bem... Não havia superado a coisa com Pedro não.

— Sabe que não dá para me enrolar, não é querido? — Iara me puxou para o mundo. — O que tanto vocês conversaram?

— Só uma conversa, ué. Ele falou do ex, o tal do Eduardo, que terminaram porque ele ganhou uma bolsa numa universidade da Inglaterra, e... Enfim.

Iara mostrou uma careta zangada.

— A gente joga o amigo pro macho, a gente merece detalhe.

— Não tem detalhe que mereça ser destacado! — exclamei. — Ah, ele disse que vai estar na festa amanhã.

— Ai caralho! — ela pulou. — Meu Deus, é amanhã que tu beija ele!

— Aquieta o rabo, Iara!

— Querido, tu vai beijar ele e ponto final.

— Teu cu.

— Quantas vezes tenho que falar que quem gosta de cu aqui é tu?

— Vai. Se. Fuder.

Ela gargalhou.

— O miojo não tá bom? — indaguei.

— Tá não. Acabei de colocar, lesad... — parou. — Mas, porra, esqueci de colocar o tempero! Merda.

E saiu correndo para a cozinha. Sorri e catei a almofada de volta. E então, o primeiro trovão tremeu todos os móveis da casa. Engoli em seco, o pensamento outra vez em Pedro.

[...]

Iara encheu o saco até a última aula de sexta. Na cabeça da jovem, Marcelo e eu teríamos um belo sexo gay selvagem durante a festa à noite. Quando eu supus que iria parar, assim que chegamos em casa, começou a vasculhar minhas roupas em busca de um suposto “look perfeito para seduzir Marcelo”.

— Não acredito que tá fazendo isso. — declarei descrente.

Iara abriu o segundo zíper da minha mochila, onde estavam devidamente arrumadas as camisas.

— Querido, é nessa festa que você vai beijar a boca do Marcelo. Você tem que ficar bonito.

Deitei na cama, desistindo. Iara era impossível. Ela ergueu uma camisa branca no ar, olhar questionador. Balancei a cabeça negativamente. Odiava aquela camisa. Nem sabia por que tinha colocado-a ali. Ela suspirou e continuou cavando. Jogou pano para todos os lados do quarto. Fechei os olhos e contei uns quarenta carneirinhos.

— Essa!

— Qual? — inclinei o pescoço.

— Essa.

Ela mostrou uma camisa verde de manga comprida.

— Combina com esses olhinhos.

— Tá. — sorri. — Mas Iara... Se eu dissesse que não vou beijar ninguém?

— Ainda bem que não disse, porque eu daria só na sua cara. Marcelo é uma pessoa linda. Melhor do que o Podre.

— Podre?

— Pedro. Que seja.

Suspirei. Iara bagunçou meu cabelo com um sorriso que dizia: “você sabe que eu sou a dona da razão aqui”. Voltou à mochila. Não demorou dessa vez a achar uma calça escura, minha calça mais apertada. Fiz uma careta. Tadinhas das minhas partes inferiores.

— Não.

— Não aceito seu não agora. Vai vestir essa.

— Iara! Essa calça é horrível para vestir.

— Você fica gostoso com ela. — Iara piscou fofamente. — Você fica um poço de perdição.

— Não.

Ela botou a mão na cintura, passando de fofa para mandona.

— Querido, quem manda aqui sou eu e tu obedece, okay?

Atirei o travesseiro na sua direção, não muito a fim de aceitar essa hierarquia imposta ditatorialmente. Iara riu e o atirou de volta. De algum modo, em segundos, já estávamos enroscados em cima do colchão, “brigando”. Ela socou minha barriga e meus braços. Segurei com facilidade seus pulsos. Empurrei-a para o lado.

— Veste ela, por favor. — Iara pediu com uma voz mansinha. — Nunca te pedi nada.

— Nunca me pediu nada. Claro que não.

— Por favor, Gabriel. Olha que posso virar até hétero com você tão gostoso. Olha só, uma cura gay.

— Vai se catar.

Iara me apontou o dedo médio.

— VAI VESTIR DE QUALQUER JEITO, QUERIDO. E vai banhar que ainda temos que pegar ônibus.

Me deu a toalha. Choraminguei e tirei a camisa que vestia. Não adiantava discutir com Iara, por que eu tentava? Ela montou uma pose vitoriosa e saiu do quarto. Tirei também a bermuda e por fim a cueca. Era a segunda festa que eu iria, desde o beijo com Pedro após aquela do pessoal da Agronomia. Mas nessa não vou beijar ninguém.

Entrei no banheiro de Iara.

[...]

O campus estava vazio quando chegamos. Uma parte do pouco pessoal estava arriscando ser os primeiros a dançarem, outra parte já estava enchendo a cara, outra parte mexia no celular. Não era difícil ver que não, Pedro não estava ali. Mas ele apareceria. Gandaia era algo que estava no seu sangue. E no momento, isso me angustiava.

— Não precisava tanta pressa. — falei para Iara. — O povo ainda não chegou.

Iara deu de ombros.

— Foda-se.

Me arrastou para a barraca que o povo da Química montou para vender bebidas. Solicitou rápido para o carinha, que notei ser bonito, uma garrafa de Skol Beats. Pediu para que eu abrisse. Suspirei e tirei a tampinha com o dente. Ela beberia mais umas quinze até uma da manhã. Iara era quase tão pé de cana quanto Pedro.

— Você não me falou nada da Laura, sabia?

Ela tomou o primeiro gole da Skol.

— Bem. Eu peguei ela.

— Tá, isso eu percebi facilmente.

— Ah, eu não tenho o que dizer, Gabriel! — Iara reclamou. — Eu peguei ela. E ela beija bem pra caralho. Fim.

— Por que você sempre faz isso?

— Faço o quê?

— Me enche falando das meninas, pega elas e depois deixa pra lá?

— Devia beber. — Iara mostrou a garrafa. — E parar de colocar piti na minha vida. Eu quem coloco na tua, não o contrário.

— Odeio você.

— Você me ama.

Revirei os olhos. Mas fazer o quê, se era verdade. Ela terminou a Skol. Passou então a mão no cabelo, olhando ao redor. Puxei o celular e chequei algumas mensagens recentes do WhatApp enquanto isso. Acabei em seguida, “sem querer”, na galeria de fotos, onde havia uma foto de Pedro que salvei do WhatsApp durante o tempo do seu número ativo, antes do roubo.

— Vou fingir que não estou vendo tu fazendo isso para não me estressar. — Iara resmungou. — Não quando tem um novo macho mais decente na área.

Guardei o aparelho, sorriso amarelo.

— Céu bonito hoje não é?

— Cala a boca. — ela rolou as órbitas para cima. — Mas ei. Olha aquela menina.

— Qual?

Ela apontou discretamente uma ruiva bastante magra na frente que conversava com um garoto playboy atrás do poste que iluminava a parte principal do campus. Os dois estavam de mãos dadas.

— Peguei. Só finge que é hétero com esse namoradinho nojento. Lésbica e viado enrustido é a pior raça.

Pedro faz parte da raça.

— E tem aquela. — apontou uma morena que bebia uma caipirinha sozinha.

— Pegou também?

— Não, essa é hétero. Só sonho de consumo mesmo. É a Paula, nossa tataraveterana. Do sétimo período.

— Desfoca das héteros.

De repente, senti uma mão no meu braço. Virei. Era Jéssica. Vestia um short preto curto e uma blusa vinho de manga comprida. O cabelo escuro caía nos ombros. Bonita. Não preciso dizer que Iara abriu o olho grande. Apertei seu pulso para lembrar que Jéssica também era hétero e que eu havia acabado de dizer para não prestar atenção em hétero. Iara resmungou um palavrão.

— Vocês também chegaram cedo. — a morena sorriu. — Olá.

— Culpa da Iara.

— Vai se fuder, Gabriel.

Jéssica riu.

— Eu pensei que era mais tarde. O relógio do meu celular deu um troço.

— Tirou daquele negócio de hora automática não foi? — Iara indagou.

— Exatamente. Não sei como fiz isso.

— Ah. Já aconteceu comigo também. — Iara disse. — Foi um cu. Só que no meu caso, ele se atrasou. Cheguei uma hora e meia depois do início da aula.

— Que horrível. — a morena soltou uma risada. — Mas coisas da vida.

Ela parou um segundo e me encarou. Recordei da briga gravada que teve com Pedro. Queria saber como estava as relações da jovem com o loiro nessa altura do campeonato. Pedro não se desculpou, claro que não, óbvio que não. Será Jéssica tinha dado o braço a torcer? Ela se debruçou no balcão da barraca.

— Como tá o Pedro, Gabriel?

Percebi que Iara se conteve para não xingar o Pedro.

— Não sei. Nós brigamos.

— Por quê? — Jéssica franziu o cenho.

— Porque ele é um idiota. — Iara soltou a língua. — Ele é absurdamente idiota e filho da puta.

Jéssica olhou para Iara e olhou para mim.

— Não acredito que ele deu no pé com preconceito de novo.

— É. Foi isso. — respondi.

Ela suspirou.

— Pedro é um trem complicado.

— Como tá vocês dois?

— Eu quero passar um trem por cima dele para começar. Mas ficou aqui me preocupando com ele não sei por que. Enfim. — Jéssica revirou as órbitas. — Quero dançar. Foda-se que não tem quase ninguém.

— Estou a disposição. — Iara sugeriu com uma expressão de OPA.

— Ótimo. — Jéssica abriu um sorriso.

E as duas saíram, simplesmente me deixando. Bem, de qualquer jeito, eu sabia que Iara faria isso por um rabo-de-saia. Típico. Iara só fez um sinal de M com as mãos antes de sumir de vez. Ergui o polegar para cima. Ela me abandonava, mas não me permitia esquecer de Marcelo. Pedi uma Coca para o carinha.

Alguns minutos se arrastaram. Terminei o refrigerante e joguei a lata no lixo.

— Sozinho? — uma voz feminina perguntou.

— Ein?

Ergui os olhos. Era uma menina que estava comprando bebidas. Franzi o cenho.

— Aaaan...

— Não, ele tá comigo. — uma mão agarrou a minha. — O namorado dele.

Arregalei os olhos, assustado com quem seja lá que estivesse se intitulando meu namorado. Para meu alívio, era Marcelo. A menina resmungou um “só tem gay nessa universidade”, pagou o carinha e desapareceu com uma Schin. Marcelo sorriu. Observei em um curto instante que ele usava uma camiseta cinza e calça preta. Aparentemente, super fã de cores escuras.

— Não percebe as pessoas dando em cima de você? — ele questionou.

— Ela tava dando em cima de mim?

— Quando as pessoas perguntam se você está sozinho num ambiente desse, talvez estejam.

Gargalhei.

— Às vezes, sou meio lesado.

— Eu sei. Cadê a Iara?

— Acabou de sair com a Jéssica.

— A Jéssica Benoliel? De Engenharia Civil?

— O sobrenome dela é Benoliel?

— É. — Marcelo deu de ombros. — Eu decoro o sobrenome das pessoas que conheço, passatempo.

— E conhece a Jéssica.

— Desde o ano passado.

Uma memória subitamente veio na minha cabeça. Foi Jéssica quem me mostrou Marcelo, no jogo lá no campus 3. E ela me disse que Marcelo era gay! Desejei dar um soquinho na testa. Se tivesse lembrado disso, evitaria a discussão com a Iara de “ele é gay vs ele não é gay”, discussão que perdi feio.

— Quer dar uma volta? — Marcelo perguntou. — Isso aqui ainda vai demorar pra encher.

— Tudo bem.

Descemos juntos para a parte inferior do campus, próxima ao estacionamento. Ele meteu as mãos nos bolsos enquanto caminhava. Notei agora que era exatamente do meu tamanho. As pessoas crescem. Ele se adiantou e sentou num banquinho parcamente iluminado abaixo de uma árvore. Esticou as pernas. Hesitei um segundo, mas sentei também.

— Laura gostou da Iara, sabe. — ele comentou.

— Ela vem?

— Vem. Ela só passa uns quinze mil anos se arrumando.

Eu vou matar a Iara se ela não ficar com a Laura de novo.

— Como que tu e a Laura se conheceram? — indaguei.

— Sabe aquele clichê do filme de o cara esbarrar na menina com livros e os dois se apaixonam?

— Sei.

— Eu esbarrei nela. Ela tava com umas quinze apostilas na mão e tudo caiu no chão. Só que ao invés da gente se apaixonar, ela me xingou todinho. “Olha aqui seu retardado, olha por onde anda, minhas apostilas tão tudo amassada, vai pra casa do cara...”.

— Lho. Caralho. — completei, soltando uma risada. — Você ainda não fala palavrão. Boca limpa.

Marcelo cruzou os braços.

— Minha mãe me batia se eu soltasse só um mer... Não tenho coragem. Mas você que é o certinho, fala.

— Às vezes. Mas nem chego perto do...

Do Pedro. Me calei automaticamente. Palavrão e Pedro eram uma coisa única. O loiro não tinha ideia de como era viver sem disparar um “porra”, “caralho”, “vai tomar no cu”, “cacete”, “merda”. Esfreguei as mãos nos joelhos, recordando a expressão engraçada que ele fazia quando xingava. Impossível tirar ele da minha cabeça.

— Do?

— Esqueci o que ia falar.

Ele afundou o corpo no banco.

— Tu não sabe mentir.

— É, não sei. — admiti. — Mas era bobagem.

Marcelo elevou o as íris escuras para os galhos das árvores, pensativo. O silêncio entre nós dois ganhou espaço. Apertei o ombro. É que não superei aquela coisa com o Pedro, moço. Na verdade, eu me envolvi com ele e tá tudo bagunçado. E agora fico lembrando dele toda hora.

— Posso fazer uma pergunta? — Marcelo estalou os dedos.

— Faz.

— Tá com alguém?

Nunca estive com Pedro e agora que não estou mesmo.

— Não.

— Tem certeza?

— Tenho. — meio que ri, mas um riso inevitavelmente nervoso.

— Sério, Gabriel.

Baixei os olhos.

— Tinha um cara. — preferi não citar o nome de Pedro. — Só que não deu certo. Meio complicado.

— Deixa eu adivinhar... Ele era do tipo de gay enrustido que força a barra para dizer que é hétero?

— Bem... É.

Não sei se Pedro é mesmo gay, mas é isso aí.

— Eu entendi, Gabriel. — Marcelo suspirou. — Eu entendi. E suponho que você goste dele.

A resposta estava na ponta da língua, um belo sim com todas as letras maiúsculas. Porque, céus, aquele cabelo loiro escuro, os olhos castanhos, a cara de birra, as sobrancelhas sempre zangadinhas, a pele tão branca que ardia as vistas, o drama eterno, o beijo urgente, as mãos apressadas... A batida do miocárdio bobo decidiu acelerar somente com a mera lembrança.

— Resposta óbvia. — Marcelo sorriu.

— Eu tenho que sair dessa.

— Muito fácil.

O garoto me beijou. Me assustei com o contato dos lábios estranhos. Em choque, não consegui mover um músculo para afastá-lo. Ele deslizou os dedos no meu queixo e pescoço, descendo para meu peito. Um suor gelado escorreu na minha pele. Era totalmente diferente de Bianca, melhor, muito melhor, só que... O que era aquilo?

— Marcelo... — finalmente me mexi e segurei seus braços. — Isso...

— Serviços gratuitos para esquecer o filho da mãe. — ele disse tranquilo, retornando ao seu lugar, como se não houvesse acabado de fazer o que fez. — Se quiser.

Eu o olhei sem ter uma mínima noção do que falar. Como assim, ele me beijou? E o que eu ouvi? Foi isso mesmo? Eu queria esquecer Pedro. Para sempre. Contudo, não dessa forma, usando alguém. E eu não queria outro alguém, de qualquer jeito. Marcelo me olhou de volta e bateu no meu ombro.

— Relaxa. Foi só um beijo. E uma brincadeira. Quer voltar?

Cocei a nuca. Não existe essa coisa de só um beijo para mim.

— Eu... Melhor, não é?

— Tira essa cara dessa cara. — Marcelo levantou, sorriso no rosto. — Vem.

Me pus de pé. Regressamos então à área da gandaia. Observei que o movimento tinha aumentado, tinha mais gente ao nosso redor, e a música estava mais alta, uma música do Wesley Safadão, aliás. Logo alcançamos a barraca onde nos encontramos. Jéssica e Iara haviam aparecido novamente, ambas estavam bebendo Skol numa conversa animada.

— Não acredito! — Jéssica exclamou. — Cara, é meu sonho conhecer Bonito.

— Tenho um tio que mora lá. — Iara deu de ombros. — E olha quem deu as caras de novo. Estavam onde hem?

A índia apontou Marcelo e eu. Jéssica se virou.

— Marcelo! Não sabia que conhecia o Gabriel.

— Oi, Jéssica. — Marcelo riu. — Gabriel é um velho amigo.

— Hmmmmmm. — Jéssica franziu a testa. — E o que vocês estavam fazendo?

— Conversando. — respondi.

— Conversando? — Iara tossiu. — Espero que tenha sido uma conversa boa.

— Foi sim. — Marcelo disse. — Aaaan, vou buscar a Laura. Acho que ela finalmente tá arrumada.

Iara engasgou com a cerveja.

— Ah não, seu viado do capeta. — Jéssica reclamou. — Como que chega assim e já vai?

— Daqui a pouco volto.

— Volte mesmo.

Marcelo sorriu e saiu. Fitei-o até que desaparecesse no meio do povo. Ainda não acredito que ele me beijou. Não tinha certeza do que pensar. E preferi não pensar. Apertei a testa, respirando fundo. Demorei uns minutos para me situar que Iara e Jéssica continuaram a papear, Iara com um olho em mim. Ela iria me fazer contar cada detalhe do que aconteceu com Marcelo. Escapar duas vezes de Iara? Jamais.

— Gabriel, tu não bebe, né. — Jéssica falou.

— Gabriel é quase crente. — Iara fez uma careta. — Não bebe, não fuma, não transa...

— Cala a boca, Iara.

Jéssica gargalhou.

— Não transou com a pessoa lá, Gabriel?

— Não... — enrubesci. Sexo com Pedro... Não rolou, não iria rolar mais. — Não.

— Ah, Gabriel.

— E falando no diabo... — Iara resmungou.

— Hm? — franzi a testa.

— Nada! — Iara arrumou (bagunçou) meu cabelo. — Absolutamente nada.

Desconfiado, lancei o olhar para a multidão que crescia cada vez mais na frente. Não precisei de um instante para identificar Pedro. Ele estava com Caio, copo provavelmente de caipirinha na mão, vestido numa camisa azul polo e calça jeans bem clara. Tinha cortado o cabelo. O coração gritou contra o peito. Jéssica também olhou.

— Não era pra olhar, filho da puta. — Iara murmurou. — Mas já que olhou, finge que não viu.

— Não sei o que dizer. — Jéssica falou. — Mas eu queria que ele se aceitasse. Queria que ele fosse feliz.

— Ele já teve a chance dele. — Iara pontuou. — E eu quero é que se foda.

— Ele só não sabe lidar com sentimentos. — Jéssica retrucou.

— Ele te chamou de vadia e ainda consegue defendê-lo?

Jéssica se calou e soltou um suspiro longo.

— Gente. — me manifestei. — Eu vou no banheiro.

Não esperei segundas palavras das duas. Peguei um caminho aleatório para o nada, evocando a força que me manteve longe de Pedro por todos esses dias. Eu o encararia e encararia. Impossível “fingir que não vi”. Entretanto, mal dei dez passos e encontrei Bianca. Ela ergueu as íris azuis. Complicado desviar.

— Gabriel?

— Oi, Bianca.

Há quanto tempo eu não falava com ela? O rolo esquisito que tivemos parecia estar a séculos de distância. Apertei a nuca, não exatamente calmo, na verdade, um pouco impaciente. Papo com a loira poderia ser em outro momento. Além disso, estava incerto de como estaria o clima com a jovem. Eu a dispensei na lata.

— Como vai? — ela perguntou.

— Bem. — declarei. — E você?

“E você” foi a educação.

— Bem também.

— Legal. Eu... A gente se fala depois. Eu tenho que ir.

— Eu preciso te falar uma coisa.

— Me fala depois.

Ela moveu os lábios para argumentar algo, mas eu disparei. Meus pés me levaram para o estacionamento (muito longe do banheiro). Encostei-me ao capô de um Gol prateado, respirando fundo. Fechei os olhos. Ele tá tão bonito, na verdade. Esfreguei as têmporas. Não pensa nisso. Pelo amor de Deus, não pensa nisso.

O som de passos me obrigou a abrir os olhos e retornar ao mundo. Para meu susto e surpresa, era Pedro em carne e osso, já sem o copo de caipirinha. Um iceberg despontou na minha barriga. Ele me viu. Merda. Merda. Merda. E aí, o que eu faria? Ele se aproximou numa velocidade que ultrapassava a da luz.

— Gabriel, seu filho da puta!

Cerrei o punho, tensão em cada célula do meu corpo.

— Oi, Pedro.

Pedro agarrou minha camisa e em um átimo passou a boca perto da minha. Levantei o queixo, parte não racional da minha cabeça protestando. Ele socou meu peito freneticamente como resposta. E em seguida me abraçou. Envolveu meu corpo inteiro com os braços brancos e meteu o rosto no meu pescoço. Meu sangue parou de correr nas veias.

— Pedro.

Segurei seus ombros, de um lado a sensatez pronta para agir. Mas... De outro lado, não, não, eu não queria que ele saísse de perto de mim. Não após tantos dias longe. Toquei seu cabelo. Era o mesmo cheiro, a mesma maciez de sempre. Pedro... Desci as mãos para sua cintura, devagar, explorando suas costas.

Não, eu não posso começar isso de novo. Não posso, não posso.

— Pedro. — o afastei com um empurrão talvez brusco demais. — Pedro, para com isso.

Ele chutou a traseira do carro. Torci para que não houvesse nenhum dano.

— Você não pode fazer isso comigo! — exclamou com os orbes castanhos em explosão. — Você sumiu! Você não tem esse direito!

— Pedro, não podemos ter essa conversa de novo. O que acabou, acabou. Se você é hétero, procura uma menina por aí. Não era assim desde sempre?

Falei tudo sem pensamento prévio, guiado pelo puro nervosismo. Na verdade, não suportaria se ele procurasse “uma menina por aí”. Odiava as memórias que tinha dele com mulher, de Jéssica às colegas do Ensino Médio. Por que caralhos eu sentia ciúmes de uma pessoa que não era minha? O loiro recuou, agora me evitando o olhar.

— Eu... — resmungou. — Eu não qu... VAI SE FUDER, GABRIEL! EU SOU HÉTERO! PORRA!

Um Audi preto de repente chegou e parou na vaga da frente. A janela baixou. Era Marcelo. Ele olhou nós dois. Mordi a língua, preocupado com a possibilidade de que entendesse o que estava acontecendo realmente. Ele percebeu o que eu sentia antes e eu falei que tinha um cara... Notei Laura no banco do passageiro olhando também.

— Ei, Pedro. — falou.

Os dois andaram conversando.

— Oi, cara. — Pedro murmurou.

— Bem?

— Bem.

E saiu. Coloquei ar no pulmão, alívio perpassando meus nervos. Ele não aguentaria que alguém sonhasse em desconfiar que não é hétero porra nenhuma. Essa preciso agradecer. Marcelo me fitou um instante e abriu a porta para Laura. Falou com ela rapidamente em voz baixa. Ela movimentou a cabeça assentindo e se foi. O jovem então desceu.

— Voltou rápido. — comentei por comentar.

— Laura mora perto. — ele respondeu tranquilo. — Tava brigando com o Pedro?

— Não.

— Eu disse que você não sabe mentir, não disse?

— É. — ri. — Mas era não era nada.

— Para de tentar me enrolar, Gabriel. — Marcelo suspirou. — O cara é o Pedro. Eu disse que entendi. Somei dois mais dois e não foi hoje.

Cruzei os braços, vontade de me encolher. Mãe, me dá colo. Por favor. Por favor.

— Isso... — eu não sabia explicar a situação.

— Fala nada não. Precisa não.

Obrigado. Ele suspirou outra vez e encostou-se ao capô do Gol, ao meu lado. Seu cotovelo roçou no meu cotovelo. Tomei coragem e o encarei. Meu pai dizia quando eu tinha uns 4 anos, um moleque tão tímido que nem mexia a boca para conversar, que encarar as pessoas não doía. Doía sim.

— Sabe o que eu falei?

— O quê? — indaguei.

— Dos serviços gratuitos para esquecer ele? Não era brincadeira não.

Engoli em seco. Não posso fazer isso!

— Marcelo... Eu não quero... Usar... Alguém.

— Você só usa alguém quando esse alguém nutre sentimentos por você. Não é o meu caso. Aquela paixonite por ti deixei lá trás.

Não... Não... Mesmo assim. Não posso fazer isso, Marcelo. Parecia errado. Era errado. Mas repentinamente e estranhamente, algum trem me fez baixar os olhos para seu corpo. Marcelo era lindo. Por que perder esse tempo comigo? Ele balançou a cabeça, sorrindo. Bateu no meu braço e se afastou.

— Tá, Gabriel. Eu sei quando levo um fora. Tô praticamente oferecendo minha bunda na maior, mas tudo bem.

Segurei seu braço.

— Espera.

— Quê?

Puxei-o para mim e o beijei.

Notas finais
kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk amo vcs ♥ até mais