Júpiter

5 Os buracos negros mordem (sutilmente)


Notas iniciais
De acordo com a Teoria Geral da Relatividade, um buraco negro é uma região do espaço da qual nada, nem mesmo objetos que se movam na velocidade da luz, podem escapar.

Loren jogou as pernas para cima do banco, remexeu os quadris na grama e pigarreou, no mínimo, três vezes. Seu cabelo volumoso me impedia de ver seu rosto, e eu estava grato por isso.

— Não vai dizer nada? – A ansiedade temorosa na minha voz mostrou-se palpável.

Era uma tarde ensolarada e preguiçosa de sábado. Reservávamos esse horário para as reflexões e confissões semanais na casa de Loren, sobre a grama sempre fresca e pinicante do jardim dos fundos. A pauta de hoje era o fato de Júpiter ter passado a semana inteira sem pôr os pés na escola. Quando ela disse que estava preocupada, o episódio do beijo saiu de mim num jato.

— Não vai dizer nada? – Tentei mais uma vez.

— Você sabe o que eu diria.

— Que eu invadi o espaço dele, forcei minhas vontades e isso e aquilo – imitei a voz dela.

— Bom que você já sabe.

Suspirei. Eu odiava ser repreendido pela Loren, mas precisava disso para ficar com a consciência em paz.

Icei minhas pernas para cima do banco, me ajeitando melhor na grama. Meus cotovelos estavam ralando na terra embaixo.

— Como se ele estivesse faltando só por causa de um selinho – revirei os olhos. Estava tentando convencer mais a mim do que a Loren. – Não estamos mais na primeira série, e Júpiter é suficientemente maduro para lidar com um beijo.

— Um beijo roubado.

— Ele poderia ter impedido – tombei o rosto de lado na grama para encarar sua muralha de cachos crespos.

Ficamos num silêncio tenso, ouvindo as crianças da casa vizinha brincando com o cachorro. Um helicóptero passou por perto, barulhento e irritante. Nossas pernas estavam se tocando no banco – eu podia sentir as casquinhas dos arranhões dela.

— E depois? – Loren murmurou como se estivesse com preguiça de mais para falar.

— Nós fizemos o trabalho... Na mesa da sala de jantar – era claro que Júpiter não iria querer ficar sozinho comigo depois do beijo. – Faltou uma parte da maquete, mas ele disse que terminaria sozinho. Eu só preciso editar a parte teórica e imprimir – enchi as bochechas de ar, soltando logo em seguida. – E o seu trabalho com o Igor?

— Temos a parte teórica pronta e vamos fazer a maquete amanhã.

Minhas pernas começaram a ficar dormentes do joelho para o tornozelo , me obrigando a fazer uma careta. A situação toda era estranha e desconfortável como o formigamento pela má circulação em meus membros. Por que ele não poderia agir normalmente?

— Os lábios de Júpiter me lembram a Via Láctea.

Porém, a Via Láctea estava longe de mais e Júpiter também.

O diretor me chamou à sua sala na segunda-feira – exatamente no final da terceira aula – para perguntar o porquê disso.

— Seus professores me disseram que Júpiter anda faltando bastante – ele ajeitou seus óculos de aros de tartaruga. – Você sabe de alguma coisa?

Sua testa estava franzida e suas mãos se apertavam de forma preocupada. Apertei os braços da cadeira azul-turquesa, escolhendo as próximas palavras.

Sim, senhor. Eu sei, poderia dizer. Eu o beijei do mais remoto nada na semana passada e, desde então, ele não tem vindo à escola.

No entanto, eu duvidava muito de que o diretor gostaria dessa resposta.

— Não, senhor. Júpiter não usa o celular – pelo menos eu nunca tinha o visto mexendo em um –, então não falo com ele desde a última vez que veio para a escola.

Tentei parecer tão confuso e preocupado quanto o diretor – o que de fato eu estava. Recusei-me a acreditar que Júpiter se trancara em seu universo particular por causa de um simples beijo.

— Entendo, Henrique – o diretor massageou as têmporas, enquanto eu refletia que nenhum de nós entendia nem mesmo a metade.

Ele abriu uma de suas gavetas e apanhou uma pasta, passando-a para mim.

— São listas de exercícios de Química e Matemática. Consegue entregar para o Júpiter? Ah, seria bom que adicionasse algumas anotações das aulas que ele perdeu também.

— Claro, sem problemas.

— Espero que traga algumas explicações para nós – o diretor me deu um sorriso cansado.

Assenti meio sem jeito, me levantando e pedindo licença para sair.

Quando Loren viu a pasta em minhas mãos, suspirou e balançou a cabeça negativamente. Expliquei a situação para ela e disse que talvez Júpiter estivesse faltando por causa da doença – era uma justificativa plausível e mais aceitável do que o constrangimento por um beijo, embora tivesse pensado nela nas escadas até a sala –, no que ela concordou.

Depois das aulas, desviei minha rota para casa e marchei para a rua dos avós de Júpiter. Fiz inúmeras pausas pelo caminho, sentindo, pela primeira vez, arrependimento pelo beijo. Mas a desculpa de ajudar o diretor estava lá, pronta para me confortar com mãos gentis.

— O que está fazendo aqui?

Sobressaltei-me, quase derrubando a pasta na calçada. Conseguia ver os portões azuis gradeados. Girei lentamente, encontrando os olhos de Júpiter sob sobrancelhas franzidas.

— V-Vim te ver e trazer isso – estiquei a pasta para ele de supetão.

Júpiter a pegou e continuou andando para a casa dos avós como se eu não estivesse lá. Comprimi os lábios, pensando se seria muito idiota sair correndo e esconder minha vergonha em casa. A voz de Loren estava sussurrando um “Eu te disse” como um cometa cantando em meus ouvidos.

— Você não vem? – Ele parou, virando-se para mim e indicando os portões azuis.

Minha voz estava presa, mas dei o primeiro passo e logo estava andando cabisbaixo até Júpiter. Nós entramos e ele me levou para um banco de madeira que corria por toda a lateral da casa num alpendre depois do jardim.

Observei em silêncio enquanto as folhas da pasta eram inspecionadas. As anotações de Biologia e Literatura de Loren receberam uma careta de aprovação, mas as minhas de História foram retidas na avaliação.

— Sua letra parece de menina – Júpiter gargalhou, passando para as próximas folhas.

Foi um choque.

— Você não está... Bem, sabe... Bravo? Ou algo do tipo? – Arregalei os olhos minimamente para ele.

— Por que estaria? – Ele pareceu mais surpreso do que eu.

A luz amena do sol da tarde se fundia com a cor de seu cabelo e fazia-o parecer como uma pintura em aquarela. Seu olho cego assumiu um brilho dourado fraco e eu precisei me segurar para não cometer o mesmo erro impulsivo mais uma vez.

— Você sabe – virei o rosto para o lado oposto. – Pelo lance do beijo...

Júpiter entrou em seu estado de análise das cartas, demorando menos do que o usual. Eu queria encará-lo – uma semana sem ver seu rosto já parecia ser o suficiente para me esquecer dos detalhes –, mas tinha medo de sua expressão.

— Não.

— Não? – Voltei-me para ele. – Tem certeza? Absoluta?

— Tenho – Júpiter estava sério. – Fiquei bravo por algumas horas, depois passou.

— Por que não foi para a escola então?

— Peguei um resfriado forte – Júpiter bateu nos braços. – Defesa imunológica fraca, sabe como é.

— Sei – nós dois sabíamos que era uma mentira dessas que se conta para manter a conversa fluindo. – Sobre o beijo...

— Eu disse que não estou bravo – dessa vez, foi ele quem se virou para o outro lado. – Mas não faça isso de novo... Sem me pedir.

Sorri largo, notando o rubor subir por suas bochechas pálidas.

No fim das contas, era bom ser engolido por um buraco negro.

Notas finais
Contra o buraco negro por onde nós mesmos seremos sugados, simplesmente não há solução. – Fernando Sabino