Júpiter

3 As luas de Júpiter II


Notas iniciais
Ganímedes e Calisto.

Uma semana depois, Júpiter era meu chaveiro. Cooperava no nosso projeto de amizade, mais pelo desejo de descobrir em mim um amigo por obrigação do que por realmente querer estar comigo. Eu o convidava para comprar pão de queijo no intervalo e nós compartilhávamos conversas silenciosas onde eu encarava seu olho cego e ele esperava que eu me tocasse do quanto isso o incomodava.

Igor não perdia uma oportunidade para fazer alguma piadinha sobre como eu estava sendo torturado por ter de ser legal com o "pirata”. O resto da sala passou a me ignorar sutilmente, como se eu estivesse infectado com a doença Júpiter. Loren foi bem mais madura, adaptando-se ao fato de nossa dupla se tornar um trio.

No intervalo entre os períodos, quando todos desciam para almoçar no refeitório, Júpiter sumia, voltando meia-hora depois e se confinando em sua carteira até precisar falar comigo ou com a Loren. De vez em quando, me acompanhava até a biblioteca e ficava me encarando sem se dignar a encostar em algum livro.

Hoje era um de vez em quando.

– Já fez sua carteirinha da biblioteca? – Abaixei "A Companhia Negra" para fitá-lo. Não conseguia ler por muito tempo sabendo que ele estava do outro lado. – Pode ser que tenha algum livro do seu gosto, sei lá.

Ele não respondeu. Apoiou um cotovelo na mesa e o queixo na mão.

Eu continuava impactado demais com sua mudança de garoto antissocial tímido para cara antissocial entediado. O complexo formado por seus olhos tornou-se intimidador desde que eu disse que seria seu amigo, esperando que o surpreendesse.

– Aonde você vai no horário do almoço? – Coloquei o marca-página no livro, fechando-o sobre a mesa.

Estávamos no fundo da biblioteca, na mesa de pernas bambas aonde ninguém ia a menos que estivesse perdido. Ficava confinada num quadrado formado pelo canto das paredes e duas estantes – uma de revistas de economia e outra de apostilas velhas da escola.

– Almoçar, como todo mundo – ele suspirou. – Eu esperava que sua primeira pergunta sobre mim fosse ser algo mais inteligente – seu olho castanho era quase maldoso.

– Aonde você vai almoçar, gênio – fechei o sobrecenho. – Não podemos sair da escola e não acho que você coma no refeitório.

– Eu tenho autorização para sair. Almoço na casa dos meus avós, no quarteirão de trás – ele revirou os olhos, cruzando os braços. – Eles são Ganímedes e Calisto. Minha imunidade baixa precisa ser compensada com uma dieta diária especial e minha família quer ter certeza de que eu vou segui-la. Uma droga.

Ele juntou o polegar e o indicador.

– Talvez você vá gostar de saber que pão de queijo não consta na lista da dieta.

Raios fracos de sol passavam pela janela próxima à nossa mesa e deixavam seus cabelos ruivos ao se deitar sobre eles. Ele riu, então eu ri de volta e baixei os olhos para o carpete tribal sob a mesa meio encabulado. Júpiter tinha alguma coisa de místico que me arrepiava.

– Você pode almoçar comigo e com a Loren. Seria divertido – cocei o cotovelo por cima do moletom.

Tinha quase certeza de que iria ouvir um não. Estava praticamente forçando Júpiter a andar comigo para cima e para baixo.

– Ahn, acho que você se sente melhor almoçando lá, né? – Comecei a abrir o livro novamente, como se fosse indiferente. Avançar uma casa e recuar duas: era o ritmo para se falar com ele.

Júpiter me encarou firmemente, como fazia sempre que eu perguntava alguma coisa. “Peso as opções para poder escolher bem minhas cartas e jogadas”, ele tinha me dito em algum intervalo, entre uma mordida e outra num pão de queijo.

– Ok – levantou-se, subindo as mangas do moletom. – Vou começar a almoçar com vocês, Henrique.

Meu nome na sua voz era melodioso e engraçado.

– Faltam cinco minutos para bater o sinal. Pode ir na frente, eu vou dar um pulo no mictório – mas era ele quem estava saindo primeiro.

– Tudo bem – murmurei, observando suas costas se esgueirarem pelas estantes de livros.

Quando calculei que Júpiter já deveria ter sumido no corredor dos lavatórios, me apressei para deixar a biblioteca. Loren me encontrou na porta de vidro, com uma bola de chiclete roxo ameaçando estourar contra seu rosto.

– E aí?

– E aí – balancei a cabeça no nosso cumprimento sem graça como nós. Tomamos o caminho para a sala com ela estourando bolas de chiclete. – Foi ver o treino dele?

Levei uma cotovelada nas costelas, quase derrubando o livro.

– Caramba. Foi uma pergunta inocente.

– Alguém pode ouvir e se perguntar quem é “ele” – Loren respondeu mal-humorada. – Aquela garota do terceiro estava lá, tirando fotos idiotas e pedindo um gol para ele.

Ela suspirou pesadamente. Afaguei seu ombro, puxando-a para o abraço de lado.

– Tenho certeza de que as fotos ficaram embaçadas – sussurrei, arrancando um riso dela.

– Grande macumba – Loren revirou os olhos, se soltando de mim. – Pessoas como ela nascem com um pacto para só saírem bem nas fotos.

– Eu queria um desses.

– Ele estava com você? – Ela me olhou de soslaio.

Assenti, resistindo à vontade de estancar no meio do caminho e me enfiar num buraco. Loren sabia, ela sempre sabia. Sabia de tudo antes mesmo que eu começasse a sentir os comichões estranhos e a vergonha inconveniente.

– Estava porque queria? – Demorei a abrir a boca, então ela continuou. – Henrique, você tem certeza de que está dando espaço para ele tomar as próprias decisões? Não fique se apoio na desculpa de que o diretor pediu para que fosse amigo dele. Você praticamente o amarrou no seu dedo.

Engoli em seco, estancando no corredor.

– Ele só tem a imunidade baixa e é cego de um olho, não precisa ser arrastado por aí numa coleirinha.

– Não acho que ele andaria se eu não convidasse.

– Andaria, se quisesse – Loren me puxou, fazendo com que eu continuasse a andar.

– Você não o conhece.

– Ah, e você o conhece bem demais em duas semanas, não é?

Parei de novo, apertando os lábios um no outro. Além de sempre saber, Loren sempre tinha razão. E isso era completamente irritante.

Eu não tinha uma resposta para ganhar a discussão, então deixei Loren sozinha. Quase corri para a sala, me jogando em minha cadeira de qualquer jeito. Quando ela se sentou na carteira da frente, virei o rosto para a janela.

Não, eu não conhecia Júpiter muito bem em duas semanas. Na verdade, não sabia nada sobre ele. Compreender isso provocou beliscões incômodos e ansiosos no meu âmago.

Se eu esticasse o braço para trás, poderia alcançar a carteira de Júpiter. Porém, havia anos-luz entre mim e sua atmosfera densa.

Notas finais
Ganímedes é o principal satélite natural de Júpiter, o maior do Sistema Solar, sendo maior que o planeta Mercúrio em termos de tamanho. Calisto tem a superfície craterada mais velha de todo o sistema solar; pouco mudou nos últimos quatro bilhões de anos.