Dust se concentrava na imagem de sua cama que tivera que abandonar na manhã daquela quarta. Ali na Torkness, às sete da manhã, encarava o teto cinza enquanto esperava ser convocada para se juntar, finalmente, a equipe Vor. Warati a avisara poucos dias atrás sobre o tamanho das equipes e outras informações gerais, constatando a quantidade de seis pessoas em cada, sem exceção da Realeza; as casas a serem utilizadas pelos grupos seriam novas e distantes uma das outras, dificultando o trabalho dos participantes em alvejar o adversário – a localização das moradias não seria exposta ao mesmo.

Estava sozinha em uma das salas de estar do edifício, imaginando onde estariam os outros após vencer a ideia de voltar a dormir, quando uma das secretárias da empresa a chamou pelo sobrenome. Sem hesitar, seguiu-a até a porta entreaberta no final do corredor. A mulher bateu rapidamente duas vezes na madeira escura e se aprofundou no cômodo. Ao segui-la, estremeceu levemente devido ao excelente desempenho do ar-condicionado, porém não deixou de notar em segundos os olhares em sua direção. Duas garotas, uma com cabelos castanhos e outra com mechas ruivas, além de um trio masculino. Na ruiva, parou por pequenos segundos para verificar se era Phenice, mas a diferença na cor dos olhos, sendo esta possuidora de um par azul-gelo, tornou evidente a resposta. Continuou a observação com um dos garotos: magro, apesar de musculoso, pálido e, embora não enxergasse claramente, descobriu olhos claros e puxados naquela face quadrada. Pelo rápido olhar distinguiu, além dessas características, o cabelo liso, preto e curto.

O segundo rapaz também apresentava pouco peso, apesar de não compartilhar do corpo forte do outro. Seu rosto triangular era moldurado pelos fios brancos que pendiam levemente da franja volumosa e contornavam os olhos estreitos. Diferente deste, o último integrante exibia longos cabelos negros, acabando na cintura. As semelhanças ficavam na considerável altura e na escassez de quilo.

Em uma mesa, posta centralizada com a entrada, estava Sorren, criador do grande negócio de marketing. Olhava-a atentamente quando lançou um cumprimento:

– Senhorita Moondust, como está?

– Bem, e o senhor?

– Graças a Deus estou aqui, feliz – sorriu. – Seja bem-vinda, assim como todos do Vor. Rainha, esta é sua equipe – esticou o braço direito em direção aos jovens sentados nas poltronas, deixadas em sua frente, com os pescoços voltados para ela.

– É um prazer – acenou brevemente para o grupo e sorriu.

Pelas respostas, sentiu que o convívio com aqueles participantes seria tranquilo, no mínimo em sentido sonoro. Dos cinco, três — a ruiva, o musculoso e o platinado -, responderam ligeiramente. A moça restante julgou ser necessário apenas balançar a cabeça positivamente e sorrir sem mostrar os dentes, enquanto o rapaz que sobrara lançou um “Oi, Moon” junto com um brilho nos olhos.

Sorren começou a apresentar cada integrante. Segundo ele, a primeira garota era Ann Petit, vinda de Torvou, no Canadá, e a de olhos azuis se chamava Luna Clarke, de Londres. O rapaz de olhos incomuns era conhecido como Tsunaime Arashi e morava em Senóvia, ao mesmo tempo em que Python Hetfield, o de cabelos brancos, era o único americano do esquadrão, morando desde criança em Oklahoma. Outro europeu era Feluriel, um português.

– Espero que tenham uma ótima convivência e possam ganhar experiência um com os outros – falou gentilmente, finalizando a apresentação. – Informarei vocês agora sobre algumas regras que não divulgamos para maior mistério. Além de não conhecerem a localização dos inimigos, vocês não conhecerão os mesmos. Terão que trabalhar em cima das missões que receberão para terem dicas através das recompensas. Atrapalhar o Tyo é permitido, então sejam criativos. Vocês não receberão ajuda para limpar e cuidar da casa; mostrem cooperação para mantê-la organizada para a Realeza. Todo mês depositaremos uma quantia para ambas as equipes. Poderão guardá-la para imprevistos ou usá-la para lazer. Vocês estão, afinal, na melhor cidade dos Estados Unidos, e abandoná-la sem conhecê-la seria desapontante – sorriu por um instante. – E, por fim, relembro-os: cuidem da Rainha, ganhem o Ivzor. Deixem-na confortável na nova moradia, ajude-a em tudo que ela pedir e proteja-a, caso seja necessário, não só nas missões, mas constantemente.

“Eles devem pensar agora que viraram meus babás”, suspirou mentalmente e encarou Sorren, que levantou e se dirigiu aos jovens, apertando a mão de cada um e desejando boa sorte. Ao chegar em Dust, tocou-a levemente no ombro e proferiu “faça seu melhor e tenha um bom semestre, Rainha. Não se preocupe com o trabalho, está de folga remunerada, certo?”, piscou e mostrou os dentes brilhantes num sorriso.

– A produção estará esperando na entrada para levá-los até sua nova casa. A senhorita Horlle os guiará até lá. Aproveitem o Ivzor, que começa agora!

O Vor agradeceu e se retirou da sala. Percebeu que era a mais baixa do grupo, já que os garotos pareciam medir mais de um metro e setenta e, as moças, a partir de um e sessenta. Guiando aquele grupo silencioso, cogitou puxar assunto para começar uma intimidade entre todos, facilitando melhor cooperação no futuro. Sua ideia, todavia, logo deixou de ser necessária. Ouviu uma voz masculina se dirigindo a uma das garotas.

– Luna, né? Sempre quis ir para Londres. Qual bairro mora?

– Hm, sério? É bem legal lá – a garota respondeu sem vontade.

– Ah, sei... – Python, agora com a voz reconhecida por Dust, entendeu a indisposição da ruiva e decidiu tentar conversar com outra pessoa. – E você é a Ann, né? – olhou para a morena. – Canadá?

– Sou sim.

– Parece bom — disse com segundas intenções quase imperceptíveis se não fosse pelo costume de observação de Dust.

Encarou-a e sorriu, fazendo-a desviar o olhar para as costas da Rainha, que os liderava até o elevador. Mesmo sem observar a expressão de cada um, Dust imaginava a situação embaraçosa que Python criara para Ann Petit. “Inconveniente...”, riu ironicamente sem ninguém ouvir.

Descendo pelos andares, o rapaz continuou falando.

– Tsunaime... Nome legal, cara – olhou brevemente para o participante de Senóvia.

– Ah, valeu – sorriu rapidamente.

– E a minha rainha... Moon?

Virou-se e o fitou.

– Olá.

– Seu cabelo parece de anime, bem grande. Você faz cosplay?

– Não que alguém com cabelo branco pareça de anime também, hm – Luna retrucou sarcasticamente.

Python riu e Dust, apesar de achar a pergunta tosca, respondeu de modo simples:

– Não faço. Não tenho cara para isso – deu de ombros e sorriu.

– Não? Acho que ficaria bem legal – disse gentilmente.

O elevador parou e os deixou no térreo. Na recepção, quatro homens de terno azul escuro esperavam por eles. Ao se aproximarem, foram cumprimentados e conduzidos até a avenida em frente ao edifício, onde uma limusine e um Cadillac 2014 estavam estacionados. O primeiro veículo ficara para o Vor, enquanto o outro seria utilizado por três dos seguranças durante o trajeto.

Durante quarenta minutos, ouviram os ruídos comuns de trânsito em meio à voz de Python. Seu falatório rendeu algumas informações, nenhuma importante, para Dust: na América, viajara para países como México, Honduras, Chile, Equador e Brasil – disse que encontrara as moças mais bonitas no terceiro local; fora do continente, conhecera mais cinco países. A vasta experiência em viagens a fez questionar sua idade.

– Tenho dezessete. Entrei um ano antes no colégio, então já estou no primeiro da faculdade.

– Entendo. Parece que é o caçula então – comentou tenra.

– Ah, tenho dezessete também – Feluriel entrou na conversa e sorriu.

– Ah, é? – Python retribuiu a ação. – Então somos os mascotes do time, cara – voltou o olhar para Dust. — Li que você tem dezenove, isso mesmo? Parece muito mais nova.

A voz do garoto parecia pesada por decepção. Dust pensou um pouco antes de responder despreocupadamente:

– Pois é, costumam dizer isso.

Ao terminar de falar, sentiu o carro virar à direita. Ergueu os olhos para o mesmo lado e achou a imagem de um sobrado branco enquanto o veículo parava em sua frente, num leve aclive asfaltado. Como aviso de que chegaram ao seu destino, o motorista desembarcou e abriu uma das portas para que saíssem.

– "Wow", parece bom – Python suspirou assim que viu inteiramente a fachada da casa.

– Senhores, – o funcionário de terno escandaloso parou ao lado do grupo. – este é o lar de vocês agora. Estaremos voltando para a Torkness. Boa sorte! – voltou para dentro do automóvel.

Enquanto o Cadillac dos seguranças cruzava a via e a limusine o seguia, a Rainha e sua divisão se dividiam entre encará-los e analisar o local. Após verificar que os carros haviam se distanciado, finalmente olhou atentamente para o sobrado, largo e com uma singular habilidade de lhe transmitir preocupação. Seria, nesse caso, uma aplicação do ensinamento de não julgar um livro pela capa?