I’ve Never Been Anywhere Cold as You.

Prólogo.

Os olhos vermelhos e cansados de Ryan Ross se fechavam de puro tédio. Suas mãos mexiam na borda do copo de plástico que continha o seu frapuccino. Esperava enquanto sua visão ficava ainda mais turva e ainda mais complicada. Levou suas mãos aos olhos, coçando-os a fim de melhorar a ardência, mas não houve resultado. Sua espera estava mantida, para sua própria infelicidade e desprazer.

A lua daquela noite não aparecia e, como em filmes de terror, o céu se embelezava com os raios que o dividia em partes. Era a única luz no meio das trevas densas e da chuva que caía sobre aquela cidade, por volta da meia-noite. A chuva daquela noite era a pior de todas as que já foram vistas, os ventos uivavam de forma assustadora, até mesmo para alguém como Ryan Ross que se encolheu por um pouco de frio. Ele também havia enfrentado o temporal que caía naquela noite. Uma maldita noite.

Estendeu o pescoço para que seus olhos cansados e avermelhados pudessem contemplar alguém iluminado para sua doce vida, mas parecia não conseguir ver mais nada além da forte chuva que banhava a cidade. Manteve sua cabeça encostada no vidro da cafeteria, já que parecia que sua solidão seria eterna e o aperto em seu peito viria para se instalar em sua vida. O quanto Ryan desejou estar errado, mas ele se fazia de forte e com certeza superaria isso... Ou não.

Ryan se sentia tremendamente mal e algumas lágrimas intrometidas queriam cair de seu rosto, mas Ryan Ross jamais deixaria alguém perceber que ele também era humano e tinha consigo algo chamados sentimentos que, ao seu ver, não serviam para muita coisa. Muito teria que mudar e até o próprio Ryan mudaria.

Atordoado, ele simplesmente levou a bebida até sua boca, de forma classuda, e deixou que ela entrasse por seu organismo. Buscava um conforto, mas ele parecia não vir com o tempo e nem no que bebia. Era naquela bebida escura que ele queria afogar suas dores e renascer atravez daquele copo de plástico; a dor não tinha expessura, apenas existia. A chuva, provavelmente, simbolizava sua tristeza e decepção ao pegar seu namorado – que lhe parecia tão espetacular – na sua cama com outro. Nada justificaria aquele ato terrível que não lhe saía da cabeça. Esticou outra vez o pescoço e viu o seu amado Peter Wentz em meio a aquela chuva com um capuz que não impedia que o moreno se molhasse.

Voltou a olhar para seu frapuccino e manteve o rosto o menos ansioso possível. Ouviu a porta – que era silenciosa, mas devido sua vontade daquele garoto o som parecia alto – da Starbucks se abrir completamente e os passos daquele moreno seguindo até aonde estava. Não sabia ao certo porque estava ansioso, aquele homem era o mesmo que lhe traíra, mas mesmo assim ainda o amava e o queria perto. Quando Peter chegara, a visão de Ryan estava ainda mais turva e Peter lhe parecia diferente.

“Está bem?” Perguntou docemente e o menor não lhe respondeu. “Peter, você tá bem?”

“Estou, na medida do possível, claro.” Sorriu fraquinho. “Só queria te pedir desculpas pelo que eu fiz, Ryan. Eu fiz tudo errado, mas eu amo você mais que tudo o que eu tenho.”

“Não sabia que traição era sinônimo de amor.” E seus olhos esverdiados giraram com indignação e desamor. Aquela cena doía as almas de ambos e Peter continuava a ensopar toda a mesa – que era distante de tudo – que o ex-namorado ocupava. “Serei eternamente grato por me ensinar.”

“Por favor, Ryan...” Dizia em tom baixo, quase sem som algum, apenas para Ryan. “Você pode ser estranho o quanto quiser, eu não tenho vergonha de pertencer a você. O que eu faço pra te ver feliz outra vez?”

“Que tal morrer?” O arquiteto falou irônico. “Você acabou comigo, Wentz.”

“E você tá me matando agora, Ross.” Murmurou baixinho.

Ryan deu mais uma golada longa em sua bebida e encarou os olhos do outro. Não lhe disse absolutamente nada, magoando profundamente o seu ex-namorado que se levantou e rumou à porta muito mais entristecido que entrou no recinto. Ryan sentiu-se culpado, embora só tivesse dito a verdade. Esticou outra vez seu pescoço, à procura de quem amava, mas acabou contemplando outra coisa.

Seus lábios se abriram num doce sorriso quando seus olhos contemplaram o amado na calçada, mas de repente, algo estragou tudo o que seu ser poderia esperar, ou como poderia reagir. Aquilo aniquilou a vida de Ryan Ross. Dois elementos armados cercaram Peter Wentz e após este entregar todo o seu dinheiro, Ross viu a fumaça sair de um cano de uma pistola automática. Aquilo doeu sua alma ainda mais, porque quem mais amava estava caído no chão.

Seus olhos arderam com as lágrimas que queriam – e dessa vez caíram – sair de seus olhos e ao mesmo tempo, uma luz batia nos mesmos. Os olhos se abriram, lentamente, encontrando a luz que vinha da luminária de sua mesa. Resmungou, encarando apenas a tábua inclinada com os papéis rabiscados de forma errada e disse para si mesmo, em voz alta:

“Eu preciso de mais café.” E sorriu. “Só de café.” Mas Ryan sabia que precisava de mais que um pouco de café, que café seria somente para ficar acordado e parecer menos vulnerável a aquele mal. Ele sabia que sua concentração nos últimos dias estava um lixo, por causa dos pesadelos – ainda mais freqüentes – com o seu passado triste. “Só preciso de café.”

Era mentira e Ryan Ross III sabia disso, só não sabia como fazer aquilo se reverter ao seu favor. Talvez jamais isso viesse a acontecer.