Notas iniciais
OBRIGADA *O*

Três.

“You’ve got to take me out

Você precisa me levar para sair.

At least once a week.

Pelo menos uma vez na semana.

Whether I’m in your arms or I’m at your feet.

Ou estou em seus braços ou estou aos seus pés.

I know exacly what you’re thinking, you won’t sat it now

Eu sei exatamente o que está pensando, você não dirá agora

But in your heart it’s loud.”

Mas em teu coração está alto.

Razorblade – The Strokes.

Os dias foram passando e era tudo sempre igual. Brendon chegava a casa de Ryan todos os dias às oito da manhã e, todos os dias, Ryan tinha alguma reclamação nova a fazer sobre os serviços do estagiário. Todos os dias era a mesma coisa, porque todos os dias, Ryan continuava na mesma tentativa de fazê-lo desistir de uma vez de infernizar a sua vida.

Naquele dia, Ryan não tinha vontade de sair da cama e o inverno estava ainda mais rigoroso. O sistema de aquecimento parecia não dar conta de tamanho frio e por isso, até mesmo dentro de casa, estavam sempre agasalhados. Quando Brendon chegou, foi recebido por um Ross enfiado nas cobertas. O sorriso de Brendon foi inevitável, porque a cada dia que se passava, estava cada vez mais encantado por Ryan e sua tirania.

“Achei que não viria.” Ryan girou os olhos. “Eu não consegui dormir direito essa noite, você pode faxinar a minha casa e depois volte pra sua. Não vou trabalhar hoje.”

“Se me permite dizer, Ryan, nós temos pouco tempo para entregar o projeto e você sequer me falou sobre o que ele é.”

“Você não vai assinar esse projeto quando o Alex vir buscar, então não vai ser um marco na sua carreira fracassada.” Resmumiu, voltando a subir as escadas. “Tem suas ordens, Brendon. Cumpra-as logo antes que eu volte a te jogar café e te faça descer pela janela.”

“Sim, senhor.” Murmurou, seguindo em direção à cozinha do pequeno apartamento.

“E não seja incompetente dessa vez, okay?” Gritou da parte de cima. “Quem sabe depois disso, se você se sair bem – o que eu duvido muito já que tudo o que você faz não passa de serviço mal feito – eu posso tentar te dar uma chance como arquiteto, na área de paisagismo.”

Era pura maldade de Ryan. Jamais deixaria esse idiota assumir algo que – com certeza – não sabia nem o que era ao certo. E, pela lei da equivalência, ele deveria ser muito burro, porque era muito bonito. Suspirou para si, guardando alguns xingamentos mentais enquanto ouvia Brendon mexer em suas coisas na tentativa – impossível – de fazer um bom trabalho.

“Seu imprestável!” Ryan aumentou a voz de sua cama. “Faz essa faxina sem fazer barulho, bastardo!”

“Vou tentar, Ryan. Eu prometo!” Respondeu educadamente, porém um pouco mais alto devido à distância que eles estavam um do outro.

“Não é pra tentar, estrupício, é pra conseguir!” Ryan suspirou pesadamente logo após o grito. “Estou farto da suas tentativas ridículas para fazer tudo certo. Nunca dá certo! Eu já disse que você não presta pra nada e já disse que você não passa de um peso morto na vida de quem está por perto? Por isso o Alex que te mandou pra mim, porque eu sou o único naquela maldita empresa de merda que fala a verdade sem medo!”

“Sinto mui--”

“Cala a boca e me deixa dormir em paz.” Ryan interrompeu e fechou os olhos, na vã tentativa de dormir um pouco. De certa forma – e pela primeira vez em anos – sentiu que não deveria ter dito tudo aquilo, porque ouvia o outro fungar baixinho no andar de baixo. Sorriu para si porque – com certeza – seu tormento estaria acabando de uma vez por todas. Ninguém aguenta ser humilhado e odiado o tempo todo como ele era na casa do seu patrão. “Aliás, se você não quiser vir mais à minha casa será uma honra. Você não é bem-vindo aqui, Urie.”

“Entendi, senhor.”

Brendon tentou ser o mais silencioso possível. Tentou fazer com que sua presença fosse invisível, mas sabia que não ia conseguir por muito tempo, porque estava encantado por toda aquela beleza. Conforme acabou, sentou-se no sofá branco de Ryan, pediu um almoço chinês – por que tinha visto em uma folha de anotações grudada na geladeira o que gostava para o almoço – e pôs a mesa. Até que o mais velho acordasse, Urie foi até suas coisas e tirou o livro “Nova Visão da Arquitetura e Urbanismo” de autoria do dono daquele loft e leu completamente interessado. Se tratava de Ryan o seu maior espeho.

Eram três da tarde quando Ryan acordou assustado e suando frio. De novo, ele acordou por ter achado que o menino não estava mais lá, mas ao descer as escadas, encontrou Brendon com o livro aberto em cima do peito, completamente cansado, dormindo. Olhou em volta encontrando a mesa posta com sua comida chinesa e uma taça em cima da mesma. Não tinha nenhuma bebida, porque o mais novo tinha percebido que ele não levantaria tão cedo. Pela primeira vez, Ross tinha percebido que Urie não ligava em ser maltratado se pudesse ficar perto dele.

Ao procurar um motivo fútil para acordá-lo e expulsá-lo dali – porque no fim das contas tinha descumprido suas ordens – o arquiteto notou que no notebook do garoto tinha algumas plantas de um projeto pessoal. Alex tem razão, ele é muito talentoso. Pensou e guardou para si mesmo. Por um momento olhou melhor aquele que estava cochilando em seu sofá. Seus olhos fechados com extrema calmaria, a serenidade com que seu abdome se contraía ao respirar, os lábios grossos curvados em um sorriso levemente adocicado e o livro que era segurado como uma preciosidade com uma das mãos, aberto junto ao peito, próximo ao coração. Ele era de fazer qualquer pessoa perder as estribeiras e se derreter por ele.

Ross abaixou-se delicadamente até o ouvido do moço e sorriu para si e da travessura que faria. E em plenos pulmões, o menino disse:

“ACORDA, ESTRUPÍCIO!” Girou os olhos de forma irritada e perguntou com séria dúvida. “O que você está fazendo ainda aqui?”

Brendon Boyd Urie levou um susto grande, mas logo depois coçou infantilmente os olhos e ergueu o corpo com dificuldade, tendo um bico infantil nos lábios. Estava muito cansado, mas mesmo assim sorriu ao ver o rosto de Ryan com os braços cruzados e batendo o pé no chão. O menor já conhecia a personalidade forte de Ross, por isso, não fez nada além de desligar seu notebook.

“Eu estava te esperando acordar pra limpar a parte de cima do loft.”

Boa desculpa. Pensava Ross enquanto o outro fechava o livro e o acomodava junto as suas coisas. Sorriu para si próprio e seguiu para a parte de cima para limpar completamente o quarto de Ryan. O que o último não sabia era que de vez em quando, o menor ficava observando-o, admirando-o como se ele fosse de porcelana, algo que ele tivesse a obrigação de cuidar dele, ver se estava bem de verdade.

“Hey, Urie.” Ryan sorriu. “Pode vir comer comigo, se quiser.”

“Obrigado, Ross, eu estou mesmo com fome.” Lhe disse voltando a descer. Nos três últimos degraus, Brendon tropeçou de puro cansaço e a face de Ross continuava intacta, sem expressão alguma. “Quer que eu pegue algo pra você beber?”

“Cerveja.” Ryan respondeu e o outro foi até a cozinha, pegando as duas pequenas garrafas de cerveja e voltou em seguida com as mesmas e pôs em cima da mesa. “Obrigado.” Foi a primeira vez que Urie ouviu um palavra educada saindo dos lábios de Ryan, mas esta não veio acompanhada de um típico sorrisinho satisfeito, só mesmo o agradecimento, mas por hora era suficiente.

O almoço foi tranquilo entre eles, porque nem um ou o outro falaram. Brendon comia tudo cuidadosamente, mastigando várias vezes cada pedaço da comida que dividiam. O olhar que Brendon Urie fazia questão de manter sobre Ryan Ross era algo diferente de tudo o que ele já tinha tido oportunidade de ver. Imaginou dentro do seu mais intímo que todo aquele olhar era para ele e aquilo lhe causou um arrepio por toda a sua espinha, com isso, um desconforto gigante se apossou do maior.

“Você tá bem?” Brendon soava preocupado e o maior apenas deu os ombros, levando sua garrafa de cerveja aos lábios.

Nenhuma palavra foi necessária. Ryan estava enfeitiçado com aquela beleza, mas ainda não tolerava a sua presença. Ainda insistia em odiá-lo da pior forma possível e ainda queria a retirada permanente de Brendon, porém convinha dizer que a voz de Brendon já não era tão agressiva aos seus ouvidos, o seu perfume já começava a fazer falta quando não estava por perto e o olhar era algo que Brendon Urie tinha de marcante e instigante.

Quando terminaram de comer, o mais novo recolheu a mesa e o outro esticou seu corpo para pegar um maço de cigarros que estava em cima da mesa e logo depois, começou a rumar a porta. Seu rosto ainda estava sem expressão alguma, embora estivesse surpreendido com tamanha beleza, gentileza e delicadeza em uma única pessoa. Brendon continuava a viver inabalável mesmo com todas as suas molecagens. Ross então percebeu que afastar Brendon Boyd Urie de sua casa estava sendo o seu motivo de vida.

Ryan – pela primeira vez em sua vida – descidiu descer pelas escadas. Na entrada delas, prendeu um cigarro entre os lábios e o acendeu, guardando o isqueiro no bolso. Desceu os degraus de forma distraída, prendendo o cilindro de papel e tabaco em seus dedos. Estava distraído porque não queria que fosse Brendon a ditar a sua vida, a mandar em seu coração, a ditar as regras de sua vida. Pra que entregar as rédias da sua existência para alguém que se conhece a tão pouco tempo? Para que sentir algum tipo de sentimento por alguém se essas coisas não servem para nada? Era cada vez mais necessário fazer com que Brendon Urie desistisse de ser estagiário, antes que o pior acontesse.

O cigarro não tinha o poder de aquecer Brendon que vestia apenas seu pijama de seda azul, que não lhe protegia em nada do frio terrível que acometia Los Angeles. Tragou uma última vez, pisando no chão logo após ter achado o suficiente de fumar por hora. Ryan Ross só fumava quando estava muito atordoado, entristecido ou quando não sabia o que fazer. Brendon era o problema a ser resolvido e nenhum outro problema tinha lhe causado tanto trabalho em vão.

Atravessou a rua vestindo apenas aquele pijama e sentiu o vento congelante machucar sua pele. Ergueu o pescoço em direção ao prédio e decidiu que não ia voltar. Era mais fácil entrar na Starbucks e se entupir de café que voltar e subir todos aqueles andares atrás do seu prédio. Pôs a mão no bolso e empurrou a porta de vidro da cafeteria, chamando a atenção de toda a loja para a sua vestimenta. Encolheu os ombros e foi direto para o balcão, batucando com os dedos longos e gelados em cima da pedra de mármore.

“O que deseja, senhor?”

“Um capuccino.” Resmungou, continuando a batucar em no mármore. O atendente assentiu e logo foi providenciar a bebida para o garoto de pijama. Olhou para sua volta na aconchegante loja enquanto esperava sua bebida. Tirou algumas notas do seu bolso e acendeu um cigarro. Tragou-o fortemente e estendeu o dinheiro ao atendente quando este entregou-lhe o capuccino.

Saboreou a bebida muito quente sua bebida e depois voltou para casa, de novo, pelas escadas. Apagou o cigarro quando terminou de tragar, pisando no mesmo. Pôs as mãos nos bolsos de sua calça e seguiu em direção ao seu apartamento. Ainda tinha em mente em como faria para seu querido Brendon Urie sumir da sua vida de uma vez por todas.

Ao abrir a porta de seu apartamento, seu nariz foi invadido por um cheiro de pinho. Fora tão forte esse cheiro que Ryan começou a ter um ataque de espirros e tosse carregada, não só pelo cheiro, mas porque tinha gripado e essa doença – devido a bendita mania de se alimentar com qualquer coisa que não seja comida – derrubou Ryan Ross com tudo.

Quando ergueu os olhos para a parte de cima do loft, descobriu Brendon com um pano de chão em mãos, pulando em cima da cama de Ryan abarrotada de outros móveis, o aparelho de som estava ligado e tocava Bad Romance, da Lady Gaga. Quanto mais Urie tentava imitar a coreografia, mais ele se irritava consigo mesmo por não conseguir.

“You know that I want you and you know that I need you. I want it bad, bad romance...” Murmurava baixinho, junto com a cantora e olhava sedutoramente para o pano como se ele fosse quem Brendon quisesse conquistar. “I want you love and I want you revenge, you and me could write a bad romance.” Foi exatamente nessa hora que Brendon – que estava com os olhos fechados – virou-se para Ryan e começou a cantar, pra ele.

Ryan soltou uma gargalhada baixa e irônica, mas ao mesmo tempo ficou pensando naquele olhar. Era diferente do olhar que ele viu no almoço, mas era o mesmo dono. O que estava tirando a sua paz e isso era quase que inaceitável, principalmente pelo fato de que nada afastava aquele homem de sua casa. Nem mesmo serviços domésticos que ele se divertia fazendo. Suspirou pesado e começou a subir as escadas quando Urie notou alguns passos e na hora desceu da cama de Ryan e voltou a limpar falsamente concentrado. A primeira coisa que fez quando chegou no quarto, foi desligar o som e fechar qualquer rastro de expressão divertida que pudesse ter. O rosto de Ryan parecia mais frio que o comum.

“Você saiu de pijama.” Brendon soou preocupado.

“Eu sei muito bem o que eu faço, Urie.” Ryan falou e o outro assentiu. “Espero que você tá esteja fazendo um bom trabalho, porque dançar você tem feito bastante.” Ironizou.

“Você--” Ryan assentiu em meio a um acesso de tosse, fazendo o outro corar de levinho. “Deveria tomar um banho quente e se agasalhar. Parece já estar bastante resfriado.”

“Eu sou mais velho que você, seu fedelho.” Rosnou mais alto, tirando a camisa do pijama. Brendon ficou parado, bastante perplexo com a cena. Apesar de magro e das tosses constantes, Ryan tinha uma pele alva que tinha parecia atrair Brendon para algo que fosse sua destruição. “Eu já disse que sei muito bem o que eu faço.”

“Okay, eu calei minha boca.” Urie torceu os lábios e foi continuar a limpar o quarto de Ross que terninou de tirar a calça e seguiu para o banheiro. O cheiro de pinho que se concentrava ali fez com que Ross tussisse mais algumas vezes e, ao olhar para o lado, reparou Brendon a olhar meio discaradamente para seu traseiro. Franziu o cenho e resmungou uma palavra de baixo calão, entrando no banheiro. Brendon bem que tentou pedir desculpas, mas Ryan já tinha batido violentamente a porta na cara dele.

O aspirante a arquiteto limpou todo aquele quarto o mais rápido que pôde e desceu novamente todos os móveis de cima da cama. Suspirou cansado e ajeitou a cama do maior para que ele pudesse se deitar e ficar confortável. Anotou seu telefone e o deixou no criado-mudo antes de começar a limpar a escada. Brendon viu quando Ross saía do banheiro e este estava com o pijama reserva – preto do super Mário – e isso meio que decepcionou o menor.

“Acabou de limpar a casa, coisa ruim?” Ryan perguntou procurando pelo outro.

“Só falta a escada.” Respondeu vitorioso.

“Anda logo com isso pra eu ficar em paz.” Rosnou enquanto se acomodava embaixo do edredom. “Me livra dessa sua cara feia.”

“Não quer que eu faça algum chá pra curar essa sua gripe?” Soou preocupado novamente.

“Eu quero que você suma a minha vida, Urie.” E ergueu a coberta até a cabeça. “Pode fazer isso por mim?”

“Você sabe que não.” Suspirou entristecido, ao terminar o último degrau. “Eu já vou, Ryan. Até amanhã e melhoras.”

“Xô!” Exclamou expulsando.

Urie deu um suspiro longo e seguiu seu rumo, deixando Ryan feliz consigo mesmo. O arquiteto abriu seu notebook, retomando um projeto antigo – um novo livro que falava sobre um plano de Peter Wentz com ele. Abriu o word e começou a escrever entre a tosse intensa que tinha. Aquela tosse chegava a lhe desconcentrar completamente do que tentava fazer.

Ele acabou dormindo e o problema é que com esse sono era que a febre estava alta. A febre trouxe a lembrança de Peter Wentz à sua memória de uma forma tão palpável que Ryan puxou Wentz para um beijo totalmente necessitado e ao término do beijo, Ryan o socou, fazendo a memória palpável desaparecer, deixando apenas a vista turva. Ryan tremia de frio e de febre. O pior de tudo isso, além do suor frio que escorria pelo corpo dele, era que Ryan não tinha ninguém por ele.