It's out of your mind palace, Sherlock
3 Capítulo três
Notas iniciais
Haviam se passado dois dias do velório de Mary e o bebê. John não conseguira ficar por muito tempo, e saiu marchando até seu carro enquanto todos choravam em torno do caixão. Já no carro, ele trancou as portas e deitou a cabeça contra o volante, deixando então de conter as lágrimas. Minutos depois, Lestrade e Molly o encontraram praticamente desacordado dentro do carro, e depois dela aplicar os primeiros socorros, os dois o levaram para casa.
Nem mesmo no dia do velório Sherlock havia comparecido. John tentou não parecer surpreso, e mesmo isso o irritava, porque era Sherlock e ele parecia ainda mais detestável no momento em que John se encontrava. Não estava se sentindo nem um pouco disposto a ser compreensivo.
Mas mesmo assim John procrastinava em sua poltrona em casa. Estava à meio passo de perder seu emprego, sua aparência decaíra de forma devastadora para seus padrões, sua casa estava em lastimável estado. Ele sequer sentia disposição para levantar-se e abrir as cortinas, porque aquele seria mais um dia sem Mary. Era isso. Todos os dias eram dias sem Mary.
Porém, nos últimos dias as últimas palavras de sua esposa voltavam à sua mente. "Continue sem mim. Vai dar certo.". Mary não era uma pessoa egoísta, queria que ele fosse feliz mesmo depois de sua morte. Ele a amava ainda mais por isso, talvez.
E John tinha o sentimento de que sabia exatamente por onde continuar.
*****
Parou diante da porta com o letreiro 221B, hesitante. Olhou para a janela que dava para o apartamento de Sherlock e viu uma pequena movimentação na cortina. Sorriu.
Bateu à porta e foi atendido pela Mrs. Hudson, que abriu os braços e um sorriso do tamanho dos portões do Céu: — John! Minha nossa, que bom que você veio! — Ela o abraçou fortemente. John retribuiu, porque a própria Mrs. Hudson o trazia boas lembranças. — Você veio... por causa dele, não é?
Ele comprimiu os lábios, mas abriu um pequeno sorriso.
– É, Mrs. Hudson. Eu sempre acabo voltando, a senhora me conhece.
Ela deu uma risada e o conduziu até as escadas, deixando que continuasse seu caminho sozinho.
John respirou fundo e arrumou sua postura, velhos hábitos de ex-militar. Subiu as escadas, e chegando ao corredor do andar de cima encontrou a entreaberta.
– Sherlock? — Chamou.
Nenhum som.
John adentrou o apartamento e encontrou Sherlock deitado no sofá, virado para o encosto.
– Eu sei que você não está dormindo.
Nenhuma resposta.
John sorri: — Eu tenho um encontro.
Sherlock permaneceu sem se mover. Se não o conhecesse, John acreditaria que ele teria morrido. Se o conhecesse apenas um pouco, diria que estava em seu Palácio Mental. Conhecendo-o como o conhecia, sabia que apenas estava tentando evitar olhá-lo nos olhos e ignorá-lo.
John persistiu: — É quando duas pessoas que se gostam saem e vão se divertir.
– Eu sei o que é um encontro, John. — Sherlock enfim responde, com a voz rouca. Nem mesmo neste estado deixa de ser arrogante. Pensou John.
– Ótimo, então. Se arrume e vamos logo.
Sherlock virou-se no sofá e o observou, pela primeira vez sem resposta. John sorriu levemente, apreciando a expressão confusa de Sherlock.
– Estamos... num encontro?
John aproximou-se e sentou no canto do sofá, ao lado de Sherlock.
– Estamos. Eu gosto de você, eu gosto muito. E eu quero que saia comigo. Não quero nem saber se você é casado com o seu trabalho, pois o seu trabalho não pode retribuir amor o suficiente quanto eu retribuiria a você.
– Você me ama?
– Eu já disse isso. Quando o convidei para ser meu padrinho, e você é uma das pessoas que eu mais amo nessa vida. A outra era Mary, mas ela se foi. Você é tudo o que eu tenho agora.
Sherlock o lançou um olhar indecifrável. John tentou lê-lo por detrás dos olhos verdes, que também eram azuis e as cores mais bonitas que ele já viu. Desde um mar em fúria à uma praia paradisíaca, o nascer do Sol e uma aurora-boreal dançante pelo céu estrelado.
– Você é a primeira pessoa que me diz isso. — Disse Sherlock, com o mesmo olhar.
– É bom ser o primeiro, de vez em quando.
John se aproximou e passou a mão pelos cachos dos cabelos de Sherlock, e subitamente o beijou. Sua mão vagou pela parte de trás do cabelo do outro, as bochechas, o pescoço, e alcançou a parte de cima de sua blusa, puxando-o mais para perto.
Ambos se separaram, praticamente sem ar.
– Arrume-se, sim? — John disse, sentindo o rosto ferver.
Sherlock continuou paralisado por alguns segundos, antes de concordar com a cabeça. Levantou-se e andou até o quarto lentamente, como se arrastasse balas de canhão, tamanha a surpresa.
*****
Os dois estavam no andar debaixo, ouvindo as comemorações da Mrs. Hudson enquanto ela os abraçava animadamente.
– Eu sempre soube! Eu sempre soube, desde o início, quando botei os olhos em vocês! O casal perfeito!
Sherlock deu um leve sorrisinho, e John agradeceu.
Em seguida, houve uma vibração no casaco de Sherlock, indicando uma ligação.
– Lestrade. — Disse.
Atendeu o telefone, e segundos depois seu rosto iluminou-se como nunca.
– Esquartejamento! — Ele sorriu como uma criança que acabava de ganhar uma pilha de presentes de natal — E até agora só encontraram o pé esquerdo!
Ele segurou o rosto do John e esmagou sua boca contra a dele com força, em seguida abraçando a Mrs. Hudson, que tentava demonstrar alegria pela felicidade dele.
– Que bom que está tudo voltando ao normal, meninos.
– Tudo está maravilhosamente bem, Mrs. Hudson — Sherlock sorriu — O jogo continua! Vamos lá, John!
Este o seguiu até a rua, ambos correndo como se aquele fosse outra vez seu primeiro dia na Baker Street. Sherlock estendeu o braço chamando um táxi, e disse:
– Acho que esta não era sua ideia de encontro ideal, não é?
– Muito pelo contrário. Este é o encontro perfeito. É bom estar de volta.
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