It's a Match!

10 A conclusão que podemos tirar disso é...


Notas iniciais
Bom dia, boa tarde, boa noite! Estão em casa? Lavando as mãos, bebendo água? Como anda a quarentena individual? Eu, neste momento, gostaria de estar num acampamento discutindo com os meus melhores amigos sobre sexualidade, tomando uma cervejinha, ouvindo um indiezinho, rs. Pra vocês, mais um capítulo saindo do forno ♥ Espero que gostem.

Eu sentia o corpo flutuando sobre a cama, na medida em que o meu coração batia forte no peito. Regulus Black, irmão do meu melhor amigo, já havia beijado garotos. Não deveria ser um fato surpreendente, garotos viviam beijando outros garotos por aí, mas a resposta dele havia me deixado estranhamente inquieto, ansioso.

A minha resposta não fora, deveras, uma mentira. Claro, eu havia abandonado completamente o personagem, pensando nos meus relacionamentos com garotas e respondendo em nome de Luci que poderia ser, com tranquilidade, bissexual. Regulus também poderia ser. Afinal, estava num aplicativo de relacionamento, buscando garotas para se relacionar. Bissexual. Era incrível como as pessoas, o que incluía a mim mesmo, generalizavam a sexualidade a somente duas.

Não deveria haver grandes problemas em ser bissexual. Regulus era bi. Ou curioso. Não deveria ser nada demais. Mas puta que pariu.

Voltava-me ao celular uma vez mais depois de respirar fundo e minha cabeça estava cheia de perguntas.

Quem.

Quando.

Como foi.

Beijaria a Luci?

Já beijou o Barty?

As duas últimas eram as que mais martelavam, mas sabia que nunca poderia perguntar. Talvez sobre Luci, usando a primeira pessoa, mas sobre Bartemius jamais. Não se não quisesse ser descoberto.

Cheguei a digitar uma coisa e outra, sempre apagando e, lá fora, o alvoroço começava a invadir as paredes da cabana. Convenci a mim mesmo de que o faria depois, não poderia perder o jogo, mesmo que subconscientemente quisesse estar diante de Regulus depois da revelação, o que era uma grande besteira, afinal, o que tinha demais beijar garotos? Saltei da cama e segui para o campo.

Sonserina e Lufa-Lufa já estavam posicionadas em seus lugares. E Regulus estava impassível diante de Bartemius, concentrado, como quem acabara de dizer a um desconhecido que, simplesmente, tinha tomado suco de maracujá no café da manhã. Senti o peito apertar com o que me veio à mente um tempo mais tarde: eu era igual a Sirius? Porque diabos eu estava me importando tanto com a sexualidade de outra pessoa? Porque eu esperava uma grande comoção incontida da parte dele? Porque eu me importava tanto?

O monitor da Lufa-lufa apitou e deu-se início ao jogo.

E o primeiro tempo foi de lavada. Os jogadores da Lufa-lufa — que eu não reconhecia a maioria — quase nunca estavam em posse da bola, quatro eliminados de uma única vez! Bartemius poderia ser um garoto inteligente, mas demonstrava zero aptidões para os esportes. No entanto, ele e Regulus pareciam ter um trato ou coisa do tipo: mais de uma vez quando, na posse da bola, Regulus desviava dele, acertando ou tentando acertar um outro membro da equipe. O trato, muito provavelmente restrito aos dois, não impediu que Evans o eliminasse na metade do jogo, quando a Sonserina havia perdido apenas Greengrass na partida. E, na arquibancada, eu podia notar as provocações: um Regulus que falsamente lamentava a saída de campo do amigo, com um bico dramático nos lábios, e um Barty que ria. Senti frio na barriga.

O jogo continuou por um tempo mais e Diggory, o último lufano restante, rendeu-se quando Regulus, Evans e surpreendentemente Narcissa Black o cercaram. Os sonserinos deixaram que ela acertasse a bola e, diante do primeiro resultado, as previsões para o segundo tempo já eram entediantes.

Olhando ao redor, observava os meus amigos reunidos numa arquibancada mais ao lado. Sirius balançava a cabeça numa negativa, os lábios comprimidos num riso contido de quem quer comemorar, mas não dá o braço a torcer. Não tinha como negar que Regulus era bom naquele jogo bobo e poucas vezes eu o vira orgulhoso do irmão. O mais novo, por outro lado, tirava um tempo com o time ao qual pertencia, sentando-se, tomando água, olhando o celular.

Automaticamente eu buscava o meu.

Ainda não havia respondido a mensagem no Tinder. Ele também não disse mais nada. Ficou por um tempo olhando para tela enquanto eu continuava a olhar para ele, até que Bartemius se aproximasse, tirando o celular de sua mão e lhe cutucando com o ombro, entre risos. Não que a relação satisfizesse a Sonserina naquele momento, mas eles também não pareciam se importar. Voltaram ao campo como quem está decidido a brincar somente, e nada mais.

E Lufa-lufa esteve mais empenhada na esquiva no segundo tempo enquanto a Sonserina tirava sarro. A diversão do jogo acabou por voltar-se, então, para a troca de insultos entre jogadores e, ao menos enquanto estavam sadios, eu me deixava rir de uma coisa e outra. Comentários que dariam maiores confusões como o nariz enorme de Snape pode arremessar a bola, cuidado também me deixavam animado, mesmo quando Crouch fazia questão de lembrar, entre gritos, que não era válido usar da minha estratégia para sair do jogo. Como se algum dia eu lhe houvesse dado intimidade para citar o meu nome sequer…

Mas então os lufanos eram, novamente, eliminados pouco a pouco. E quase no final do jogo eles pareciam ter entregado a partida, mesmo que Diggory — um dos únicos nomes que conhecia porque ele fazia parte do fucking time de futebol americano do colégio — ainda tentasse ao máximo dar o que tinha de si. O que funcionava para a Lufa-lufa, porém, era o desvio da atenção, as provocações. Eu não sabia o quanto daquilo era uma tática mesmo, ou o quanto Bartemius estava ciente dela, mas no final das contas, deu “certo” para a Lufa-Lufa.

— A sua namoradinha da internet vai ficar orgulhosa da vitória, Reggie! – soltou a sentença no meio do campo, entre risos divertidos.

E, assim, se aproveitando de um Regulus momentaneamente desnorteado, Diggory o acertava. E a comoção na arquibancada foi geral: alguns comemoravam porque, em todas as partidas, ninguém o havia conseguido acertar. Outros lamentavam, porque ele era claramente o melhor jogador. E eu só conseguia pensar numa coisa: ele estava falando da Luci?

Eu não consegui acompanhar o resto da partida, porque pensava em Luci como a namoradinha do Regulus e em Barty, reconhecendo que ele tinha alguém, que não necessariamente era a namorada dele porque nenhum de nós havíamos firmado compromisso. Ou melhor, nem Luci, nem Regulus. Mas ele reconhecia a existência de alguém e, fazer piada descontraída com o fato era quase uma prova de que não eram, deveras, namorados. Certo?!

Mas a piada não pareceu tão descontraída para Regulus.

Quando o jogo acabou, eu atribuía a sua expressão fechada à primeira derrota individual. Era difícil desvencilhar a primeira imagem que eu havia atribuído a ele: mimado. Afinal, mesmo tendo a Sonserina ganhado, ele estava fora do campo quando aconteceu. Quando Bartemius se aproximou, porém, eu tentei prestar atenção na conversa que acontecia longe de mim. O Black mais novo era reservado demais, no entanto… apenas balançou a cabeça numa negativa quando Crouch tentava argumentar alguma coisa e saiu, seguindo na direção das cabanas.

Antes que pudesse adentrar o caminho de pedras, porém, via Sirius passando um dos braços por seus ombros, bagunçando-lhe os cabelos já bagunçados e acompanhando os seus passos, seguido de James apenas. Bom, na presença dos meus amigos eu não tinha muitas desculpas para me aproximar, mesmo quando ainda queria matar Sirius e James, mas quando cheguei mais perto, Regulus entrava na cabana. E eu, curioso, ficava a ver navios.

Voltamos à cabana, jantamos e, novamente, cabana. Em todo o trajeto eu mantinha silêncio absoluto, mesmo enquanto eles conversavam, mesmo quando Peter e James, vezes por outra, tentavam puxar assunto, recebendo respostas genéricas. Eu não havia respondido nem mesmo a mensagem de Regulus no Tinder, e ele também não mandou mais nada então, somente para tentar espairecer, para distrair a minha cabeça das conversas imaginárias de Regulus e Barty sobre Luci, expectativas e “namoro”, eu me voltava para Simon, a fim de terminar ainda naquela noite. E, no momento em que abri o livro, Sirius abriu a garrafa de vodca. James acendeu o cigarro. Peter colocou música no iPad. Mary e Marlene bateram à porta, uma mochila pendurada nas costas da última. A festa havia começado.

Cheguei ainda a cogitar ir para a cabana do vizinho, seja lá quem fosse ele, mas um tempo depois Marlene sentava ao meu lado e me passava um copo de vidro, coincidentemente o mesmo copo da coleção usada nas refeições.

— Eu achei que, trazendo a garrafa de uísque do meu pai, o máximo que conseguiria era me embriagar sozinha – estendeu para mim o copo, me dedicando um sorriso breve – Preciso de companhia, no entanto.

Entre vodca e uísque, eu preferia a morte. Mas, no final das contas, acabava tomando o uísque puro, sentindo queimar na garganta e esquentar o rosto no mesmo segundo.

— Cadê Lily? – Questionava, respirando fundo e sentindo o álcool dançar em minha boca.

— Logo chega. Se não, vamos buscá-la – me dava uma piscadela em seguida e, então, levando uma das mãos ao peito, encenou uma careta ofendida – Por quê? A minha companhia não te agrada, Remus Lupin?!

— Nada disso! – e ela conseguia me arrancar um riso assim. Sem graça, mas um riso deveras.

Tomei um pouco mais do uísque apenas para não fazer desfeita, mas Marlene não me faria companhia a noite toda. Talvez Lily também não, mas eu conseguia prendê-la por um tempo mais no meu caleidoscópio tedioso. E assim, entre um papo e outro, sobre a tensão da Queimada pela manhã, a chacota durante a tarde, as aulas que logo regressavam e a nossa obrigação de aproveitar aqueles últimos dias como se o fim do mundo estivesse próximo, nós dividíamos o copo. E nos questionava porque diabos os meninos estavam ouvindo indie em uma festa.

— Eles não conhecem outro estilo musical – argumentava entre risos soltos, mesmo quando aquele era, também, o meu gosto musical particular.

— Pois se eu quisesse me suicidar eu estaria na companhia de Lily e Severus agora – se levantava assim, deixando comigo o copo de uísque.

E lá se ia a minha companhia de meia hora de conversa. Marlene, com um senso de humor mordaz, tirou do suporte o iPad de Peter, colocando seu próprio. A música: Hear me Roar, da Katy Perry, junto de uma piscadela direcionada a mim. E Sirius, obviamente, implicava, e Peter seguia na mesma onda até que Mary se levantasse para dançar e Marlene a acompanhava e eu, o antissocial, continuava sentado, até que James se aproximasse.

— E aí.

Ele não estava bêbado, ainda era muito cedo para estar. Aquele era só o James, tentando resolver uma situação que estendera para além dos limites, e eu não precisava mesmo ouvi-lo para ter certeza.

— Você ainda tá bravo por causa de ontem? – Questionava, tomando de seu próprio copo.

— Eu não deveria estar? – Arqueava as sobrancelhas, voltando os olhos para ele.

— Não precisa vir com pedras na mão – erguia ambas as suas, assim, como sinal de rendição – Eu só quero conversar.

Me obriguei a beber um pouco mais do uísque, comprimindo os lábios e olhando uma vez mais para James, esperando que iniciasse a conversa. E, depois de suspirar, o meu amigo prosseguia:

— Eu entendi o seu ponto. E concordo plenamente. Mas eu também entendo o Sirius…

— Você sempre entende o Sirius – resmunguei, tentando conter a vontade que tinha de revirar os olhos.

— Me escutou dizendo que entendo você também? Mas pensar na situação do Gilderoy Lockhart, sendo enganado por caras mais velhos em aplicativos. Pensa no quanto isso é problemático.

— Talvez ele não esteja sendo enganado e saiba bem o que está fazendo…

— Agora é você quem está sendo ridículo. Estamos falando de pedofilia, Remus.

De fato, eu estava sendo ridículo, mas aquele era apenas um impulso implicante, a necessidade que tinha de ignorá-lo e ir contra suas ideias, porque ele estava sempre do lado de Sirius e, naquele momento, o pensamento de Sirius continuava a me irritar. Mas precisava dar razão a James.

— E daí você pensa no tanto de caras velhos que curtem crianças. Pensa se fosse alguém da sua família – ele continuou.

— Mas Sirius estava se referindo aos homossexuais. Chamou-os de promíscuos, saca? – rebati.

— E eu disse que entendi o ponto. E que absolutamente não concordo. E o que seguiu depois daí foi um Sirius impulsivo falando, usando argumentos ignorantes somente pra não “perder uma discussão”, porque Sirius não sabe perder.

Fato. Mas a ideia de sempre sair por cima me irritava.

— Mas eu acho que deveria conversar com ele – James encolhia os ombros em seguida, bebendo um pouco mais da vodca em seu copo, enquanto eu o acompanhava com o meu de uísque – Eu conversei e chegamos a uma conclusão bastante consciente sobre tudo isso. Acho que você deveria fazer o mesmo.

— Nhé – forcei uma careta – Não tô afim.

— Por quê?

— Por que não, James.

— A gente já brigou por coisa pior – fechou os olhos, metendo os dedos por baixo dos óculos para massagear a região acima do nariz – A gente já discutiu sobre o direito que tínhamos ou não tínhamos de olhar pros peitos da Narcissa e você conseguiu argumentar e nos convencer que estávamos sendo uns malditos escrotos. Você sabe que Sirius não é uma má pessoa, sabe que pode conversar com ele, então por que ainda tá tão puto e relutante?

Respirei fundo uma vez, fechando os olhos por um momento. Sem qualquer sentido aparente, eu me lembrava de casa, e das discussões frequentes com a minha mãe, sempre por conta do meu quarto bagunçado. Eu não costumava me importar quando ela somente brigava, dizia que era tão bagunceiro quanto o meu pai, que precisava aprender a ter algum senso de organização, que aquele era o primeiro passo para a minha independência. Mas ela tinha uma frase que costumava ter efeito explosivo sobre mim. Ela dizia “como é que você quer mudar o mundo, Remus, se não consegue nem mesmo arrumar o seu quarto?” Me atingia diretamente.

E no começo, olhar os peitos de Narcissa era tranquilo. Eu mesmo olhava os peitos de Narcissa! Mas então veio a amizade com Lily, as conversas sobre as garotas no colégio, a forma como os garotos a queriam devorar, encaixando-as em padrões machistas, peitos grandes, bundas fartas, “devem ser boas na cama”. Lily costumava dizer que garotos, sem exceção, eram machistas e eu batia o pé, negando, e ficava puto porque eu não era aquele tipo de garoto, não era igual aos outros burgueses fúteis da escola. Aquilo me atingia diretamente. E me atingia diretamente saber que os meus amigos validavam a identidade machista de todos os homens, que não faziam nada para mudar e brigava com eles para fazermos diferentes! Por que, no fundo, a gente só sente e briga e bate o pé quando nos atinge diretamente.

Tremi ao pensar no porquê de ainda estar tão puto com Sirius Black e, há alguns passos da minha cama, ouvi batidas na porta. Foi Peter quem abriu, dando boas vindas a Lily quando entrava em nosso quarto e, logo em seguida, a Regulus.

Puta merda.

Aquela discussão havia, inconscientemente, me atingido como uma porrada no estômago, tão forte quanto a presença do mais novo ali.

Notas finais
Falhei com o nome do capítulo? Me digam vocês. É aquela mania de construir títulos que parecem apresentações fajutas de slides, rsrs. O que mais acharam? Gostaria de dizer que estou tentando voltar a me empenhar nos capítulos da história, tanto os que já tenho (revisando) quanto os novos e, tão logo, estaremos numa reta final (eu acho). Eu espero que estejam gostando. Beijos e até o próximo.