It's a Good Life
10 Capítulo 10 – It’s a good life
Notas iniciais
E se você tivesse a chance de voltar no tempo e consertar todas as suas cagadas? O que você faria? “Voltaria, é claro”, seria a resposta óbvia e certamente seria proferia em questão de segundos. Eu não voltaria, não mais.
Passei os últimos anos de minha vida achando que meus erros eram de minha inteira responsabilidade, mas que principalmente eles me definiam, errado. Achei que se me afastasse das pessoas e as tratasse de maneira fria, eu não me machucaria mais, errado de novo. Tive pena de mim mesma e achei que eu não era boa o suficiente para alguém ou para deixar que o meu próprio coração acelerasse e a respiração ficasse descompassada, preciso realmente falar que eu estava errada de novo? Escolhi de maneira errada todos os meus caminhos, até o dia que eu resolvi embarcar em um avião e mudar de país, a única decisão certa em anos. O que nos leva ao meu próximo dilema, Pedro. Eu não queria ser a decisão errada dele, pois ele não era a minha, mas como não decepcionar alguém que você se importa tanto?
— Se você continuar desse jeito, daqui a pouco sua cabeça vai pegar fogo.
— Hein? – Ele começou a rir.
— O que eu quero dizer é que você não precisa ficar analisando cada passo, às vezes as coisas têm que acontecer naturalmente.
— Como você sabe o que passa pela minha cabeça? – Ele tirou-me do seu peito e levantou meu rosto de forma com que ficássemos cara a cara. Seu olhar diretamente no meu, daquela forma profunda que só ele tinha, me fez ficar vermelha da cabeça aos pés, e a muito tempo eu não ficava corada dessa forma.
— Não sei exatamente, mas eu conheço um pouco das suas reações, apenas liguei os pontos. – E sorriu novamente enquanto eu ficava mais vermelha.
— A-ah.
— Eu gosto de você, Claire. Mais do que esperava, mais do que eu imaginava, e..e-eu me...importo muito com você também e...e...é, eu g-gosto de você. – Ele ficou nervoso e vermelho como um tomate, ou seja, sua primeira frase saiu de forma espontânea e sincera, e essa sinceridade fazia com que eu jogasse todas as minhas dúvidas e meus temores no lixo. Foda-se se eu era uma pessoa péssima para socializar e se eu tinha medo de relacionamentos, toda a minha confusão de sentimentos e as dúvidas foram por água abaixo e eu simplesmente o beijei. O beijei como eu nunca havia beijado alguém na vida.
— Eu gosto de você, Pedro. – Falei espontaneamente entre o beijo e ele me apertou mais em seu abraço.
*****
Hoje completa dois anos que eu havia me mudado para o Canadá, e eu não consigo me lembrar se em algum dia da minha vida eu havia me sentido dessa forma, feliz e leve. Meu trabalho estava maravilhoso, eu não era mais aquela mulher intragável, agora eu tinha colegas que eram meus amigos. Meu título de rainha de gelo havia ficado no Brasil, assim como toas as partes negativas da minha personalidade, eu havia mudado, ele havia me mudado.
Depois da nossa segunda noite, ele me pediu em namoro durante o café da manhã, é claro que eu engasguei com o mesmo e como sendo essa mulher super feminina e delicada que sou, eu cuspi todo o café preto que estava tomando. Segundo Pedro, foi memorável minha cara de pavor e o café voando para todos os lados, mas é claro que eu aceitei, não deixaria aquele homem sair da minha vida, nunca mais. Estamos mantendo essa promessa até hoje, um ano juntos, descobrindo um ao outro e descobrindo o sentimento que nos uniu.
Quando disse sim para o Pedro, mesmo com medo e apavorada com o que vinha a seguir, após o ele ficar surpreso com a minha resposta (ele jurava que eu falaria não), seu sorriso largo foi o que me fez ter mais certeza ainda de que aquela era a decisão correta, me senti sendo ousada com a minha decisão, eu fui ousada, fui contra todos os meus sentimentos e instintos, segui meu coração e confiei na sinceridade dele, e pela primeira vez meus instintos estavam errados e eu estava completamente grata a ele.
Sim, eu estava perdidamente apaixonada, entreguei tudo o que eu tinha para ele, tanto as coisas boas como as ruins, e ele aceitou tudo de bom grado. Eu não esperava nada em troca, mas como sempre, ele me surpreendeu mais uma vez, e me deu tudo o que tinha. Acabamos nos entregando de corpo e alma esta relação, sem preocupações, conhecendo as partes boas um do outro, porém conhecendo principalmente as cicatrizes um do outro, e aprendendo com elas. É claro que tudo não era perfeito, a vida não é prefeita, brigamos em alguns momentos, mas aprendi com ele a nunca sair de perto dele sem falar tudo o que pensava e principalmente sem tentar arrumar as coisas. Após cada briga acabávamos na cama, uma forma de fazer as pazes e de afirmar que nossos corpos precisavam do calor do outro.
Ele me mudou de uma forma que eu achava que não era possível, eu me abria com ele e ele comigo, falávamos tudo o que pensávamos e sentíamos um para o outro, e por incrível que pareça, nunca me assustou e eu nunca mais pensei em fugir ou desistir. Eu não ia deixar que o “nós” deixasse de existir.
Enterrei meu passado, de verdade agora, não pensava mais nele, planeja meu futuro, nosso futuro. Adeus passado, adeus cagadas que não definem quem eu sou.
Descobri o que me movia, aquilo que eu era realmente apaixonada, não estou falando só do Pedro, mas do meu trabalho também. Além da minha pesquisa, comecei a ajudar na pesquisa com crianças, eu nunca gostei de crianças, elas nunca foram meu forte, até conseguir salvar a primeira, agora eu não consigo mais sair da ala pediátrica, acabei me apegando a elas, suas famílias e histórias. Quebrei todas as minha regras idiotas, bem nem todas, quase todas, e foi a melhor coisa que eu fiz.
Não se apaixone;
Não se envolva com colegas, principalmente emocionalmente;
Não se envolva com pacientes;
Colegas, não amigos e nem família;
Seja fria e calculista, assim ninguém irá te ferir;
Não ligue no outro dia e nem atenda o telefone;
Enterre o passado;
Não o deixe entrar na sua vida;
Não seja amiga dele;
Nunca se apaixone.
— Terra para Claire, alô? Alguém em casa? – Pedro falava e acenava constantemente na frente do meu rosto.
— Hein?
— Você anda muito no mundo da lua hoje. – Resmungou e eu ri de sua cara.
— Estava pensando, apenas isso. – Ele me abraçou e eu me aninhei em seu peito. – Fazendo um balanço desses dois anos.
— E foi bom ou ruim?
— O que você acha?
— Obviamente foi bom, bom não, ótimo. Até porque eu estou nesses dois anos. – Ele falou com um sorriso convencido de orelha a orelha.
— Convencido. – Ele riu mais. – De qualquer forma, foi ótimo sim, e também pelo fato que você estava nele. – Murmurei a última parte.
— Viu. – Ele inflou o peito e ficou com aquela pose de convencido. Bufei. – Meu ano também foi ótimo, mas só porque você disse sim durante aquele café a um ano atrás. Depois do fazer uma chuva de café preto. – Não consegui segurar o riso ao me lembrar da cena.
— Foi épico.
— Extremamente épico.
Fiquei observando o movimento do Starbucks enquanto tomávamos café após mais um dia corrido no hospital, era quase como uma parada obrigatória para nós aquele lugar. A primeira vez que eu fiquei vermelha por causa dele foi aqui, quando eu dei um banho de café nele e abri sua camisa sem pudor algum. Ri ao me lembrar desse fato.
— Do que você está rindo?
— Me lembrei de uma coisa, a primeira que vez que você me deixou sem graça e vermelha.
— Ah, meu primeiro banho de café quente. Como esquecer daquele dia memorável? Achei que você ia tirar toda a minha roupa no meio da Starbucks. – Rimos juntos.
— Eu fiquei preocupada.
— Eu sei, mas não deixa de ser engraçado.
— Infelizmente não.
— Foi quando eu me apaixonei por você. – Ele falou enquanto seu olhar estava em algum ponto da cafeteria e seu rosto ia ficando vermelho. Comecei a observar o mesmo ponto que ele, e enquanto ele ia levando o copo de café aos lábios, eu cuspi a frase sem nem pensar duas vezes.
— Eu te amo. – E o que veio a seguir foi épico, ele cuspiu todo o café que estava em sua boca, exatamente como eu fiz quando me pediu em namoro, mas diferente daquela vez, agora tínhamos várias testemunhas. Pedro me analisou durante segundos que pereceram horas.
— Me desculpe, você me pegou desprevenido, achei que eu falaria essa frase primeiro. – Enquanto falava ia limpando a mesa e a si próprio. – Eu te amo. – Ele falou e eu quase enfartei. Engoli em seco.
— Não se sinta obrigado a falar só porque eu falei.
— Não é obrigação, pare de ser chata e aproveite o nosso momento. Eu te amo, encrenca.
— Eu também te amo, idiota.
Diferente do que pensei, foi uma história feliz, com direito até a um romance, não foi apenas uma história, e principalmente não foi só minha. Teve várias definições durante o processo. Tive a oportunidade de recriar a mim mesma, de me enxergar de forma diferente e principalmente tive a oportunidade de dar uma chance para mim mesma. Enterrei meus demônios, mas aprendi com eles. Me reinventei, redefini minha pessoa, e isso fez com que ele me aceitasse do jeito que eu estava e do jeito que eu sou, assim como eu, Pedro também mudou e se redefiniu, isso fez com que eu me sentisse cada vez mais atraída e fez com que eu aceitasse a proposta doida daquele idiota. Idiota que eu estava perdidamente apaixonada.
O que eu aprendi nos últimos anos? Nada é para sempre, principalmente sua dor, mas se você não fizer nada, talvez você nunca se livre dela. Então seja ousado, chute o balde, e necessário jogue tudo para o alto, mande todos a merda, se você não fizer nada para ser feliz, ninguém irá fazer para você. Não importa pelo o que você passou ou quanto você chorou, a nossa vida não é ruim, esta vida é boa. Você apenas precisa focar-se nos bons momentos que tem e guarda-los com todas as suas forças, pois realmente, é uma boa vida.
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