It's October
1 – Salem
“E assim foi dito, o tempo irá passar, muita coisa há de mudar
Porém uma vez bruxo. Bruxo sempre será!”
Eu vou contar como tudo começou.
Você deve está se perguntando quem eu sou, e o que começou. Não vai demorar muito e você vai saber.
Era uma noite quente e nublada, não enxergava muito bem na escuridão da floresta. As árvores altas me encobriam dos olhos dos meus primos que me esperavam fora da floresta. Ainda podia ouvi-los, não estava longe, e por mais que estivesse assustado, eu sabia que tinha que fazer. Era questão de honra. Não deixaria que meus primos me zoassem pela eternidade, e pior ainda. Não iria provar que sou bebezão, e muito menos chupar aqueles pênis nojentos de garotos mais velhos que eu. Meus pés esbarravam nas raízes e tinha que fazer um esforço enorme para não cair.
Como eu disse antes, a noite estava abafada. Não ventava, mas naquele momento senti um vento frio soprar no meu pescoço. Virei-me assustado, perdendo o equilíbrio e indo parar no chão.
— Quem está aí? —Perguntei baixo. Minha voz pedindo para voltar para dentro da minha boca.
Olhei em volta. Nada! Nenhum som. Nem uma luz.
— Isso não tem graça, garotos! Vocês já podem parar. — Insisti para que minha voz saísse alta. Fui um fracasso, não passou de um sussurro assustado.
Levantei do chão e olhei em volta. Não parecia ter ninguém ali, deveria ser apenas minha imaginação me pregando alguma peça.
— Não deveria vir até a floresta sozinho, garoto! — Disse uma voz feminina e velha.
— Quem está aí? — Perguntei baixo.
A mulher não respondeu a minha pergunta, apenas gargalhou. E aquela foi à risada mais assustadora que ouvi em toda a minha vida. Comecei a correr. Precisava sair dali o mais rápido possível.
— Não adianta correr. Eu estou em todos os lugares! — Disse a voz.
— Quem é você? Apareça! — Gritei alto, enquanto corria. Eu precisava demonstrar um pouco de confiança. Então parei.
— Não vai correr mais? — A voz me perguntou.
— Eu não tenho medo de você, então apareça. — Disse olhando pela floresta, precisava encontrar a dona da voz.
— Eu estou bem aqui, na sua frente! — Falou a voz.
Olhei para frente e não vi nada.
— Olhe bem, e você verá! — Disse a voz.
Olhei com mais atenção, não via nada ainda assim.
— Não vejo nada além daquela árvore, velha! — Falei, e então parei. — Cocei a cabeça. — Aquela árvore é você?
Minha cabeça começava a girar. A única coisa em evidencia a minha frente era uma árvore grande e velha no meio da floresta.
A voz gargalhou novamente. Fiquei ainda mais confuso.
— Garoto esperto. Eu sabia que era você. — Disse a voz.
— Sabia que era eu? — Perguntei.
Mais uma gargalhada e eu senti o corpo inteiro arrepiar.
— Preciso que você venha até mim, tenho algo para lhe entregar. — Disse a voz.
— Ir até você? Está brincando né? Como eu irei encontrar o caminho para voltar? Eu me perderei fora da trilha. — Falei e esperei resposta.
Nada. Apenas o silêncio da floresta.
Droga. Pensei comigo mesmo. Eu precisava mesmo ir. Comecei a caminhar rapidamente saindo da trilha. Precisava encontrar a árvore. A curiosidade havia tomado o lugar que antes o medo ocupava. Caminhei por alguns longos minutos e encontrei a árvore. Havia uma mulher sentada de costas. Os cabelos brancos e longos caídos sobre as costas.
— Que ótimo que veio meu anjo. —Disse a voz, parecia mais calma, menos assustadora que antes. Até mesmo familiar.
— Estou aqui, quem é você? — Perguntei afastando um pouco e me mantendo mais longe da mulher.
Ela levantou e virou-se pra mim. Eu a conhecia.
— Vovó?! — Perguntei e corri para abraça-la.
— Espere anjo. Preciso lhe entregar algo. Não tenho muito tempo. —Disse ela calma não demostrava estar com pressa! Entregou-me um livro e um caldeirão.
Olhei sem entender e segurei as coisas com força.
— Esses são os instrumentos de nossa família. Com ele você vai dar legado ao coven de nossa família. — Falou ela convicta. Minha cara de ‘que merda é essa’ deve a ter alertado, pois emendou. — Nós somos bruxos de uma longa linhagem, vivemos dando continuidade há muitos anos, mas estou velha. E preciso partir, esse trabalho terá de ficar para você, meu querido. Leia o livro e saberá o que fazer.
Vovó mal terminou a frase e caiu morta.
Risos.
Você acreditou nisso? Está bem, está bem! Eu estou apenas brincando com a sua cara. Sou Cass Sebastian Lampert. E sim sou mesmo um bruxo, mas minha história não começou bem assim. Pra falar a verdade eu nem acreditava realmente nesse lance de bruxaria ou qualquer coisa, e sempre achei um absurdo existirem tantos fãs do bruxinho Harry Potter. Mas foda-se tudo isso. Não devo perder o foco. Desculpe-me, eu faço bastante isso.
Foco, Cass. Foco!
Meus pais iriam viajar para a cidade onde cresceram, minha avó materna havia morrido. Foi uma noticia muito ruim para minha mãe. Não me sinto culpado por não ter sentido tanto. Eu nem a conhecia. Nasci longe de lá e não faço muita ideia do motivo de nunca terem me levado até lá para conhecê-la. Pra falar a verdade estava até animado com a viagem, seria a minha primeira viagem em toda a minha vida. Estive sempre preso na minha cidade.
Havia acabado de acordar naquela manhã de sexta feira. Minha mãe estava parada em frente a minha cama. Ela e sua mania bizarra de entrar de fininho e me observar dormir. Ainda estava na cama e não estava muito a fim de levantar.
Olhei para minha mãe com cara de hã. Ela continuava lá parada.
— Você tem certeza de que não quer ficar, querido? — Perguntou mamãe, com a voz chorosa. Ela estava acabada, parecia não dormir a dias, as olheiras e os olhos inchados estavam mesmo precisando de um tratamento.
— Não mãe! Não vou deixar você sozinha nesse momento. — Falei convicto e cheio de compaixão.
— O seu pai irá comigo, querido. — Disse mamãe.
— É impressão minha, ou você não quer que eu viaje junto a vocês? Está acontecendo algo que eu não sei? — Perguntei sério e cocei minha cabeça.
— Eu só não acho que será bom para você voltar àquela cidade! — Disse mamãe séria.
Choquei-me. Ela disse voltar? Eu nunca saí daqui.
— Como assim voltar mamãe? Eu nunca saio desse fim de mundo que chamamos de cidade. Não é possível que já tenha ido lá. Aliás, onde a vovó morava? — Perguntei intrigado. Parecia ter muito mais naquela situação do que haviam me contado.
— Eu vou arrumar as malas. — Disse mamãe tentando desconversar.
— Não mude de assunto, mãe. Onde a vovó morava e que história é essa de eu voltar até lá?
— Nova Salem! — Mamãe disse com o olhar distante, parecia não estar mais no mesmo lugar que eu.
— Nova Salem? E por que eu nunca soube disso? —Falei sério e levantei da cama. Caminhei descalço pelo quarto. E fui até a janela.
— Filho! Seu pai e eu prometemos nunca tocar nesse assunto. Saímos de lá por uma razão, e não queremos reviver feridas do passado. — Disse ela séria.
— Feridas? Mãe, esse papo está muito estranho, e eu não estou entendo nada sobre ele, acho melhor conversamos depois. Você está muito abalada com a morte da vovó. Eu vou arrumar minhas coisas. Conversamos depois, certo? — Falei indicando a porta.
Mamãe me olhou nos olhos e pela primeira vez entendeu. Ela deveria mesmo estar sensível. Saiu do meu quarto de cabeça baixa.
Sentei-me na cama e baixei a cabeça. Que papo estranho tinha sido aquele? Balancei a cabeça e resolvi esquecer aquilo. Olhei para o chão e percebi uma sombra. Levantei a cabeça rapidamente e dei de cara com a cena mais bizarra no mundo. Um gato preto estava empoleirado em minha janela e me olhava com aquele olhar maligno que os gatos costumam ter. Assustei-me e me joguei para trás na cama.
O gato miou e continuou lá parado.
— Sai! Xô! — O espantei com a mão. O gato continuou lá parado. Parecia estar testando minha paciência.
Levantei da cama e cheguei perto dele. O espantei novamente, mas ele continuou parado. Essa era a minha deixa. Sai correndo do quarto.
A manhã passou rápido. E depois de estarmos com as malas prontas, estávamos pegando a estrada. Meu pai iria dirigir. Olhei os dois quando entrei no carro e eles não pareciam à vontade de estarem me levando naquela viajem.
— Então vamos ficar nesse clima ruim? — Perguntei sério, nenhum dos dois respondeu. — Muito bem!
Coloquei os fones no ouvido e abri um livro. Seria bom colocar a leitura em dia enquanto aqueles dois ficavam me dando gelo. Meus planos foram por água a baixo. Acabei pegando no sono e dormindo a viagem toda. Acordei com meu pai me cutucando dizendo que havíamos chegado. Passei a mão pelos cabelos e limpei a baba que escorria no canto da boca. Resolvi descer do carro.
— Meu deus! — Falei sério e comigo mesmo com a cena que vi.
A casa estava cheia de pessoas vestida de preto. Um grande caixão estava no centro da sala, podia ser visto pela porta escancarada. Aquilo não era comum para mim, velórios não aconteciam em casa. Continuei caminhando e entrei na casa. Minha mãe já estava abraçada com outra mulher. Aquela só poderia ser tia Josefine.
— Venha, conheça sua avó! — Meu pai disse sério e caminhou em direção ao caixão.
Oh que ótimo! Ele falou de uma forma que parecia que a vovó iria levantar do caixão e me dar beijinhos no rosto. Mas que extraordinário.
Caminhei em direção ao caixão e olhei à senhora ali deitada. Estava nua! Os cabelos longos e brancos cobrindo-lhe os seios e as partes íntimas, flores decoravam o caixão. Afastei-me um pouco e senti minhas costas baterem em alguém, virei rapidamente.
— Desculpe! — Falei sem graça para o homem que estava parado atrás de mim. Com certeza estava branco como uma daquelas velas que tremiam perto do caixão.
— Sebastian? — O homem disse sério e olhou em meus olhos. Senti um calafrio.
— Eu mesmo. — Falei baixo. — E você?
— Tio Jack! Você não deve lembrar. — Ele falou sorrindo. — A última vez que o vi você tinha apenas seis meses. Era um bebe lindo, vivia engatinhado pela sala.
Eu? Engatinhado pela sala? As pessoas dessa família deveriam mesmo ser malucas, primeiro deixam um defunto pelado, e depois conversam com estranhos como se fossem amigos de anos.
Apenas sorri sem graça e afastei do homem com um aceno de cabeça.
Caminhei para longe de toda aquelas pessoas. Foi então que notei um grupo de senhoras que choravam um pouco afastadas. Seguravam livros e velas em mãos. Cada uma com uma cor diferente. Uma delas fitou-me com espanto. Cochichou para outra e rapidamente todas as senhoras me olhavam com cara de espanto.
Saí da casa rápido. Precisa de ar. Precisava sair daquela loucura. Mamãe tinha mesmo razão. Eu não deveria ter vindo até aqui. Sentei-me em um banco do lado da casa e olhei para o céu cinzento. Foi então que notei uma porta para o porão aberta.
Nunca fui muito fofoqueiro, mas nunca dispensei uma boa fofoca. Confuso né? Levantei do banco e caminhei para a porta do porão. Entrei, desci as escadas devagar.
O ambiente estava claro. Várias velas formavam um triângulo no chão do porão e isso facilitava a visão. Olhei em volta. Havia várias caixas.
É só um porão, Seb! Pensei. Mas mais uma vez estava enganado. Uma das caixas me chamou bastante atenção. Caminhei até lá e a abri. Estava cheia de papeis. Pareciam noticias antigas de jornal. Comecei a folheá-los em busca de alguma coisa. Não tinha certeza, mas algo naquela caixa me chamava atenção, me puxava até ali. O que seria? Foi então que encontrei um jornal antigo, do ano em que nasci. 1998; O título da noticia me chamou a atenção. “Filha dos Lampert, dá a luz ao filho do demônio.” Comecei a ler a noticia, lia rapidamente, não queria que ninguém me pegasse bisbilhotando nas coisas antigas. Procurava por palavras que fazia sentindo.
“Após parto, filha dos Lampert se isola da cidade.” “Ela escolheu ter o filho do diabo.” “Ninguém pode chegar perto da residência dos Lampert, mas quem passou perto disse ter visto rituais satânicos sendo organizados no quintal.” “Será mesmo verdade?” “Meses depois do nascimento, Maísa Lampert foge da cidade com bebê intitulado filho do demônio”.
A cada palavra eu tinha mais certeza que aquilo se tratava da minha mãe. O nome dela no jornal, a conversa estranha com a minha mãe pela manhã. As coisas pareciam fazer sentindo agora.
Só uma coisa estava confusa. Eu era o bebê intitulado de filho do demônio?
Afastei da caixa que continha os jornais, e quase esbarrei nas velas que estavam no chão, mas senti uma força me impulsionar pra frente. Virei-me e olhei o chão. O que seria aquilo? Algum ritual satânico? Eu precisava mesmo falar com a minha mãe. Só iria esperar o velório acabar e teria que tirar essa história a limpo. Precisava voltar para dentro. Meus pais deveriam estar me procurando. Guardei a caixa no local onde havia encontrado e sai do porão. Senti um vento quente quando passei pela porta do porão. Olhei o céu cinzento e senti um calafrio. Que coisa estranha! Pensei.
— Estava procurando você. Sua tia quer lhe conhecer. — Disse minha mãe quando me sentei perto dela.
— Oh, ótimo! Mais uma pessoa para dizer que lembra quando eu fazia cocô pelo chão da sala, não é? —Falei irônico e olhei nos olhos dela. Ela só demonstrou uma expressão cansada.
— Nós precisamos conversar sobre isso depois. — Foi só o que ela disse antes que uma mulher da voz esganiçada e cheia de miçangas no corpo sentasse ao meu lado e segurasse a minha mão.
— Oh, pelas forças da natureza, mas que rapazinho lindo e charmoso você se tornou! — Falou a mulher beijando minha mão.
— Oi, é um prazer conhecer você também! — Falei sorrindo tentando puxar minha mão do seu aperto forte.
— Eu sou a tia Cassandra. O seu nome é uma homenagem a mim. — Ela sorriu. Era muito bonita, só parecia maluca. — Você não deve lembrar, mas eu preparava o seu banho de ervas todas as tardes, para espantar os espíritos ruins que rondavam a casa.
A olhei com cara de interrogação.
— Não diga besteiras para o garoto, Cassie! — Minha mãe reclamou e segurou a cabeça como sempre fazia quando estava cansada.
— Muito bem, muito bem! — Falou tia Cassandra toda sorridente.
— Não acha que você está alegre demais, para quem está num velório? — Perguntei a tia Cassandra. Ela me olhou e revirou os olhos.
— Mamãe não gostaria que ficássemos tristes. Ela já sabia que sua hora era próxima. E estava feliz. Só não morreu sorrindo porque em seu leito de morte pedia para conhecer o neto. Queria conversar uma coisa com Maísa antes de partir, mas não quis nos contar o que era. — Tia Cassandra parecia ter respostas se eu perguntasse.
— Eu também gostaria de conhecê-la. Infelizmente não foi possível. — Menti tentando parecer o mais triste possível.
Mamãe me olhou com a cara feia e eu respondi com uma cara de ‘você tem muito a me explicar, mocinha. ’
Tia Cassandra me deu mais um beijo na mão e levantou sorrindo.
— Está na hora do enterro! — Disse a mulher e saiu caminhando em busca de algo, ou alguém.
Mamãe me olhou com seus olhos cansados. Senti-me um pouco culpado. Ela não estava bem, eu deveria pegar mais leve e esperar algumas coisas passarem antes de afoga-la ao meu mar de perguntas. Levantei junto a minha mãe e vi que outras pessoas sentadas também faziam o mesmo. Era hora de sairmos de casa. Quatro homens vestidos de branco seguraram o caixão e saíram da casa com o caixão agora fechados em mãos. As pessoas caminhavam atrás do caixão. Arrependi-me de ter vestido aquela roupa preta. Pelo visto as pessoas gostavam mesmo era de um branco. Caminhamos todos pela pequena colina no fundo da casa e chegamos à praia. Mantive-me afastado, enquanto mamãe caminhou para perto dos outros membros da família. E juntos eles colocaram o caixão na água. Ok. Chega! Essa é a cerimonia de sepultamento mais estranha que já vi! Pensei na hora. O que eu não sabia é que aquela seria a coisa menos estranha que iria começar a acontecer em minha vida. Continuei olhando o caixão que era levado pela água e senti um vento morno soprar em meu pescoço. Passei a mão desajeitadamente pelo pescoço e senti minha visão ficar turva. Quanto tempo fazia que eu não comia? Pelo menos 8 horas! Caminhei em direção ao meu pai. Estava com dificuldade para caminhar, em partes por sentir meu corpo lento, e pela areia da praia que dificultava. Consegui segurar o braço do meu pai.
— Pai! — Falei com certa dificuldade!
Ele me olhou assustado e me segurou com os dois braços.
— Acho que vou desmaiar. — Disse sentindo o corpo mole.
Olhei meu pai nos olhos. Estava assustado, parecia nervoso. Então ele fez algo que não fazia há muito tempo. Pegou-me nos braços e começou a subir a colina em direção a casa. Então eu apaguei.
Acordei e já era noite. Onde eu estava? O quarto tinha um cheiro de ervas quase insuportável. Que merda era aquela? Rolei na cama e senti o estomago revirar. Estava muito enjoado.
— Mãe! — Gritei!
Então a luz ascendeu e quase me cegou. Fechei os olhos rapidamente, mas ouvi a voz da mamãe.
— Estou aqui, querido!
Abri os olhos lentamente e olhei minha mãe. Ela estava vestida como nunca a tinha visto antes. Estava totalmente de branco. Tinha um véu branco brilhante como se tivesse diamante, brilhava em sua cabeça como as estrelas. Nos braços tinha braceletes de ouro.
— Que roupa é essa? Por que está vestida assim? — Perguntei sentindo o corpo mais fraco.
— Não há muito tempo querido. Nós precisamos te iniciar! — Ela disse e sentiu as lágrimas escorrerem.
— Me iniciar? Pra que? E por quê? O que significa iniciar? — Eu perguntei angustiado.
— A sua avó. A sua história! — Ela começou a falar e parou. Respirou fundo. — Nós somos bruxos, querido! — Falou séria.
Eu comecei a rir, mas ao notar sua seriedade parei.
— Que brincadeira de mau gosto é essa? — Perguntei irritado.
— Não estou brincando. Descendemos de uma linhagem antiga de bruxos, meu bem. Sua avó foi uma das bruxas que fugiram de Salem, e fundaram nova Salem. Elas não foram queimadas. Eram espertas demais, pra isso. Recomeçaram aqui. Sem perca de tempo e o coven logo se tornou um dos maiores. Mas isso irritou os eldagos. Um coven maior e antigo de outro estado. Eles mandaram um infiltrado até aqui. — Mamãe falou como se estivesse a ponto de chorar. — Eu era jovem, não sabia a verdade... Acabei me envolvendo com ele. Nós tivemos um filho. Mas... Ele se revelou a cidade para que pudesse expor nosso coven. Foi terrível, uma nova caça as bruxas. Sua avó uma das mais fortes colocou um encanto poderoso sobre nossa casa. Nenhum apartado poderia entrar, mas isso não durou muito, apesar da força que ela tinha! Então foi preciso outro encanto. Esse fez os apartados acreditarem que éramos pessoas normais, mas o meu bebê. Era filho do bruxo que tinha sido queimado na praça. Que o meu bebê era um bruxo filho do demônio. Eu precisava fugir daqui com a criança. Precisava me manter distante. Então sua avó arranjou um casamento com Max, ele aceitou cuidar de mim e da criança. — Ela sorriu lembrando-se de algo. — Então partimos daqui de Nova Salem com a criança...
Ela deu uma pausa, talvez para que eu pudesse assimilar tudo àquilo que acontecia. Bruxos? Coven? Eldagos? Queimado em praça? Encantos? Apartados? Mas que porra era aquela? Que porra estava acontecendo.
— Só que antes de partimos, mamãe lançou um feitiço sobre o bebê para que ele estivesse seguro. Um filho dos dois covens mais poderosos deveria ter poderes demais. Então ela selou esses poderes. E fomos embora. O bebê cresceu sem manifestar os poderes. Mas então mamãe morreu. — Ela fungou e as lágrimas escorreram em sua face. — E parece que com ela, o feitiço também se foi...
— Mãe, eu estou confuso. O que eu li naquele jornal era real? — Perguntei sério, meu corpo estava fraco, sentia pontadas no peito e uma ânsia terrível. — Eu sou esse bebê?
Minha mãe apenas balançou a cabeça.
— Nós precisamos fazer a sua iniciação. O seu poder passou dezessete anos selado. Está vindo à tona de uma vez só. O seu corpo não vai aguentar, com certeza você deve estar sentindo.
Apenas balancei a cabeça em afirmativa. Eu realmente me sentia muito mal. Estava sentindo sensações horríveis, nunca sentidas antes.
— Está pronto para isso? — Minha mãe perguntou.
Pronto pra isso? Pronto pra que? Eu acabei de descobrir um monte de coisas bizarras sobre mim, e eu devo estar pronto, para tal iniciação que eu não faço a mínima ideia e ela espera uma resposta?
— O seu círculo está esperando. Eles vão fazer uma cerimonia onde você será iniciado, seus poderes vão se revelar, e você será realmente um bruxo. — Mamãe falou séria.
— E se eu falar que não aceito isso? — Perguntei sentindo uma pressão forte na cabeça.
— Então o seu corpo humano não vai aguentar tal poder. — Ela deu uma pausa e secou as lágrimas. — E você morrerá!
Morrerá!
Ela tinha mesmo dito isso?
Não estava pronto para morte ainda. E estava curioso.
A dor em meus pulmões me fez gemer.
— Eu estou pronto para a iniciação!
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