Tatsuha rodou os olhos pela cabine, vendo se não havia esquecido nada antes de partir no transportador que levaria a sua tripulação para a Terra para outra folga para curtir as festas de fim de ano. A última que tiveram havia sido há um ano e para garantir que a mesma fosse encaixada no cronograma da Thunderbird, o Capitão convocou uma reunião com todos os chefes de setor e propôs uma escala ininterrupta de missões nos últimos seis meses, para assim assegurar que a Frota desse à eles essa folga. Todos concordaram prontamente com os planos e agora, seis meses depois, estavam desfrutando dos louros do trabalho árduo.

Mais uma vez as íris escuras varreram a cabine para ter certeza de que não esqueceu nada e ao ver a bolsa de viagem parada na porta, junto com a maleta de PADDs que aproveitaria para analisar em sua folga, o homem percebeu que estava preparado para partir com a exceção de um detalhe.

Uesugi espalmou os bolsos da calça e depois da jaqueta, até que sentiu no bolso direito de seu casaco o objeto que procurava causando um amassado no tecido. Sorriu, satisfeito de ter encontrado o que queria, e lançou um último olhar ao espelho pendurado em uma das paredes da cabine, verificando uma última vez as suas roupas e o seu visual.

– Está bonito Tatsuha. — o homem deu um pulo no lugar e virou aos tropeços quando ouviu a voz, apenas para alargar os olhos ao encontrar a dona da mesma.

Apoiada no criado mudo, vestindo o uniforme vermelho dos oficiais da segurança, estava aquela que ele nunca pensou rever em toda a sua vida.

– Alyssa... — murmurou com a voz quase sumida e sentindo lágrimas surgirem em seus olhos. A mulher apenas deu um lindo sorriso em resposta, com os seus cabelos longos e de cachos largos emoldurando o rosto redondo e pintado de sardas, exatamente como Tatsuha lembrava como era.

Sem questionar o porquê dela estar ali quando na verdade estava morta, o homem deu dois largos passos e rapidamente cruzou o espaço que os separava, a envolvendo em seus braços e a apertando com força contra o seu corpo, sentindo o cheiro gostoso do perfume de alfazema que ela sempre usava atingir o seu olfato.

– Olhe só para você. — Alyssa disse assim que Tatsuha a soltou, percorrendo as suas mãos pequenas sobre o peito dele e ao longo da jaqueta que usava. — Capitão de uma nave estelar. Eu estou tão orgulhosa. — sorriu, um sorriso que logo se tornou matreiro quando ela enfiou a mão no bolso direito do casaco dele e tirou de lá de dentro uma pequena caixa de veludo. — E com novidades. — gracejou.

– Eu posso explicar. — Tatsuha começou a se defender, mas ela o calou ao repousar o indicador sobre os lábios dele.

– Explicar o quê? Eu estou feliz Tatsuha.

– Está?

– Óbvio que estou. Claro que por um momento fiquei furiosa...

– Eu sinto muito. — pediu, com certeza ela tendo ficado furiosa por ele estar seguindo em frente, não tão compreensiva como todos pensavam que ela seria se ainda estivesse viva.

– Por você quase ter jogado a oportunidade de uma vida fora. Mas ainda bem que você tomou juízo. Se não tomasse, eu iria chutar o seu traseiro dolorosamente. — o repreendeu com um toque de diversão no tom de voz.

– Que maravilha, até mesmo depois de morta e em meus sonhos você me atormenta. — brincou.

– Quem disse que isto é um sonho? — Alyssa provocou, arqueando uma sobrancelha enquanto abria a caixinha e apreciava o anel repousado delicadamente sobre a almofada. — Você sempre foi tradicionalista e um romântico piegas Tatsuha. — riu, depositando a caixa aberta sobre a mesa de trabalho dele, ao lado da moldura que exibia as fotos de família que o Capitão possuía.

– Mas você não me teria de outro modo, teria?

– Não. — ela suspirou, dando um passo à frente e acariciou o rosto dele com as pontas dos dedos. — Eu estou feliz que você tenha seguido em frente, que você tenha tido coragem para recomeçar, para se arriscar.

– E eu sinto imensamente a sua falta. — declarou com todo o clima leve e de brincadeiras dando lugar a uma atmosfera mais triste.

– Nos veremos de novo um dia Tatsuha. Você, Paige e eu iremos nos reencontrar. Mas até lá eu quero que você viva intensamente cada segundo ao lado de Ryuichi, que ele te faça um homem feliz e que você o faça feliz como me fez. Quero que você continue amando e cuidando da nossa garotinha e lembre-se que enquanto eu estiver aqui – ela deslizou a mão pelo pescoço dele até o seu peito, pousando a palma aberta sobre o coração que batia acelerado. — eu sempre estarei com vocês. — encerrou, lhe beijando a bochecha suavemente e afastando-se um passo. — Até um dia Tatsuha.

– Até um dia Alyssa. — desejou no exato momento em que um chamado o fez dar um pulo no lugar e abrir os olhos.

– Capitão? — a voz que veio do comunicador era a de Hope, e um Tatsuha confuso e piscando intensamente rodou os olhos pela cabine somente para perceber que estava sozinho e que tinha adormecido sobre a mesa de trabalho.

– Uesugi falando. — respondeu quando viu que tudo não tinha passado de um sonho.

– Aportamos na doca e já recebemos autorização para desembarcar.

– Certo Comandante Hope, te encontro no transportador.

– Sim senhor. Hope desligando. — Tatsuha fechou o seu comunicador, o colocando no bolso da calça, e automaticamente levou a mão ao bolso direito do casaco, não encontrando o que queria.

– Engraçado, eu jurava que... — murmurou, rodando os olhos pela cabine e localizando a caixa com o anel sobre a mesa de trabalho, ao lado da moldura, aberta e deixando a luz do quarto refletir sobre o metal da joia.

Tatsuha franziu as sobrancelhas, mas nada mais pensou sobre o fato de que a caixinha não estava onde ele achou estar. E dando de ombros ele fechou a mesma com um estalo e a colocou no bolso, erguendo-se da cadeira em um pulo e indo até a porta onde as suas bolsas estavam, recolhendo ambas em um único gesto.

Com um pressionar de botão ele abriu a porta da cabine, rodando uma última vez o olhar pelo aposento para se certificar de que não havia esquecido nada, e as suas íris escuras pousaram na moldura que agora exibia a foto do casamento de Tatsuha com Alyssa. O Capitão sorriu para o casal na foto e antes de sair disse:

– Me deseje sorte Alyssa. — e a porta se fechou atrás dele ao passar, abafando a resposta que ecoou na cabine vazia.

– Boa sorte Tatsuha.

FIM

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