Its Not Love, Its Gravitation
2 Capítulo 1
A razão de Tatsuha ter se alistado na Frota Estelar era bem simples: ele queria fugir. Fugir de sua vida mundana, fugir de seu mundo sem graça mas, principalmente, fugir de sua família. Certo que quando tomou tal decisão a última razão era a que imperava em sua mente. Na época estava com raiva, estava magoado e com uma imensa vontade de chutar o balde e gritar: “foda-se o mundo!”, mas ao mesmo tempo estava morrendo de medo. Para onde iria se largasse tudo para trás? Correr para os irmãos que não poderia, pois eles eram o motivo de sua frustração, seu pai não estava nem aí para os seus problemas e não tinha outros parentes e muito menos amigos com quem contar. E então a resposta veio em um anúncio com o qual cruzou por acidente ao navegar na internet, um que dizia as vantagens de unir-se a Frota Estelar e servir a Federação. Tatsuha tinha que confessar que ponderou muito antes de juntar as suas coisas e embarcar para São Francisco, pois nunca se imaginou como um militar, seguindo ordens sem pestanejar, logo ele que sempre foi tão avesso a autoridade.
Mas aquela era uma oportunidade de ouro. Precisava se afastar, precisava provar à todos que não era somente um adolescente obcecado por uma banda, sem propósito na vida e quem seus irmãos mal toleravam e que insistiam que ele precisava crescer e amadurecer. E com isto em mente ele atochou roupas e pertences mais queridos em uma bolsa de viagem e foi embora de casa no meio da madrugada sem dizer adeus, embarcando em um voo noturno para a América. Obviamente que ao perceberem a partida do caçula, sua família tentou contato. Seu pai foi o primeiro a ligar para o seu celular e esbravejar exigindo saber onde ele estava e tudo o que Tatsuha respondeu foi que estava crescendo, como todos queriam que ele fizesse, e desligou o aparelho antes que o homem pudesse dizer mais alguma coisa. Mika foi a próxima, perguntando se ele perdeu o juízo e que fugir de casa era a atitude mais imatura que já tinha visto. Novamente Tatsuha encerrou a ligação antes mesmo que ela pudesse continuar com o sermão. Eiri foi o último, mandando somente uma mensagem o chamando de covarde. Tatsuha bufou de raiva.
Não estava sendo covarde, estava seguindo em frente. Covarde era o irmão que ficava preso ao passado e aos seus traumas e se recusava a superá-los e enxergar as coisas boas que tinha ganhado na vida. Ele tinha uma carreira, fazia o que gostava, que era escrever, seu trabalho era reconhecido e tinha um namorado apaixonado e devotado a ele, mesmo que Eiri tratasse o pobre do Shuichi como um lixo. Tatsuha tinha obrigações que lhes foram dadas sem o seu consentimento e um futuro planejado que ele não queria. Ter ido embora não foi uma atitude covarde, foi o modo que ele encontrou de assumir o controle de sua vida. E, surpreendentemente, dentre todos que entraram em contato com ele, Tohma foi o único compreensivo, foi o único que esperou ouvir os motivos de Tatsuha antes de julgá-lo e foi o único que no fim disse:
- Se você está certo disto, não irei interpor. Boa sorte Tatsuha. — e este foi o último contato direto que teve com o empresário, pois durante os anos em que ficou na Academia somente mandou mensagens e e-mails para Tohma para informar que ainda estava vivo e bem e que não era para dizer a ninguém onde ele estava. Achava que a sua família não aprovaria a sua escolha ou no mínimo zombaria dele.
Tatsuha não possuía o QI de gênio que boa parte dos cadetes da Frota possuíam, era inteligente mas somente isto. Quando chegou na Academia não fazia nem ideia que carreira seguiria, pois tudo foi decidido de última hora. Nas primeiras semanas ficou completamente perdido diante da rotina diferente da que estava acostumado. As classes lhe eram estranhas, abordando assuntos que ele só vira em documentários ou filmes de ficção científica. Por momentos Tatsuha teve ataques de pânico pois achava que jamais se encaixaria em algum dos programas da Academia e quando a Frota percebesse que ele era inadequado para servir o expulsaria sem pensar duas vezes. Mas então ele conheceu o seu orientador, o instrutor J'hon, e o homem (ou alien, o que preferir) foi quem colocou Tatsuha no eixo, o fazendo se encontrar.
No fim, juntos, descobriram que o jovem tinha aptidão para liderança, talento este que foi reprimido durante os anos sob convivência familiar. Com uma irmã mandona, um pai exigente e um irmão complexado, quando que Tatsuha teria oportunidade de mostrar ditas qualidades? Com isto o rapaz foi encaminhado para o programa de formação de oficiais de comando e assim começou a sua carreira na Frota. Aos dezoito anos Tatsuha se alistou, aos vinte e dois se formou, meses depois embarcou em sua primeira viagem na USS Akira, aos vinte e cinco anos tornou-se oficial sênior com especialização em combate na USS Farragut (antes desta ser destruída no ataque de Nero) e aos vinte e sete anos, diante da diminuição de oficiais na Frota por causa do ataque de Nero, Tatsuha recebeu o comando da recém-construída nave de combate USS Thunderbird, sendo o segundo oficial mais jovem a assumir o comando de uma nave estelar.
Obviamente que um feito desses era para ser comemorado, o que ele fez com os amigos que ganhou na Academia e que lhe serviriam na Thunderbird, mas não com a família. A sua família, com exceção de Tohma, nem fazia ideia de onde ele estava e se ainda fosse o adolescente revoltado e magoado de anos antes, Tatsuha até que mandaria uma mensagem bem mal criada para eles informando de seu novo status apenas para, por um momento, ser superior a aqueles que um dia disseram que ele não chegaria muito longe se continuasse a agir como criança e nutrisse a paixonite besta que tinha por Ryuichi Sakuma. Mas ele não o fez. Primeiro porque não era mais um adolescente, era um homem feito, com uma ficha militar impecável, um Capitão, mais maduro e seguro de si. Segundo porque o passado, diferente do que Eiri achava, foi feito para ser deixado para trás.
E agora, um ano depois, vinha aquela ordem.
- Comandante Hope? — Tatsuha pressionou o botão de comunicação do console do computador em sua cabine, entrando em contato direto com a ponte e com o Comandante Adam Hope, seu Imediato e melhor amigo desde a Academia.
- Hope falando.
- Traçar rota para a Terra em dobra 3. — ordenou. Ao menos a ordem de Williams tinha o seu lado positivo: o tiraria daquela infeliz Zona Neutra a qual eles estavam patrulhando a uma semana sem nada acontecer.
- Posso saber o motivo senhor?
- Fomos ordenados a transportar um grupo de civis para T-003. — Tatsuha poderia não estar vendo o rosto de Adam agora, mas com certeza sabia que ele deveria estar fazendo uma careta e xingando em pensamento, se perguntando por que a Frota estava mandando uma nave de combate fazer um trabalho desses. Talvez fosse porque desde o ataque de Nero há dois anos que o número de naves havia sido reduzido a metade e muitas ainda estavam no esqueleto nos estaleiros ao redor da Terra meses ainda de serem concluídas, ou porque Thunderbird estava à toa flutuando em Zona Neutra ou simplesmente porque os Almirantes gostavam de zoar com a cara deles. Fosse o que fosse, ordens deveriam ser cumpridas, não questionadas, ao menos não muito.
- Curso alterado senhor. — veio a voz de Adam pelo comunicador.
- Certo. Uesugi desconectando. — e com isto Tatsuha encerrou a comunicação e recostou-se na cadeira, ponderando que resultado iria ser esta missão e torcendo para que ela fosse tranquila e sem mais complicações.
oOo
Quando surgiu a ideia da turnê em conjunto entre o Nittle Grasper e o Bad Luck em colônias de humanos da Federação, Tohma não imaginou que a produção chegaria a tal porte. Nos últimos dez anos o Bad Luck tornou-se um nome mundialmente conhecido e, talvez, universalmente conhecido, se a proposta feita pelos maiores empresários do entretenimento ao redor do planeta indicasse alguma coisa. Um sucesso majestoso que somente o Nittle Grasper tinha alcançado e mantido até o momento. Ao que parecia, Bad Luck deixou de ser um mero concorrente a ser esmagado facilmente e se tornou uma verdadeira ameaça. E Tohma adorava lidar com ameaças, elas tornavam a sua vida mais excitante. Tornava tudo mais excitante. Quando você tinha uma probabilidade concreta de despencar do pedestal, com certeza faria de tudo e mais um pouco, brigaria de arrancar pedaço, para manter-se nele. Com isto, a medida em que o Bad Luck foi crescendo, o Nittle Grasper inflou como uma estrela ganhando mais massa a cada segundo, massa esta que poderia ser igualada a fãs e sucesso. E Ryuichi, esse ficou ainda mais paranoico e perfeccionista quando viu que o público tinha um novo bishounen a quem apreciar.
Não que Ryuichi tivesse perdido o carisma e o charme depois de tanto tempo. Pelo contrário, a descendência tauriana ajudava e muito. Os habitantes do planeta Tauron eram famosos pela sua beleza, longevidade e vaidade. Tudo que Ryuichi herdou e mais um pouco e Tohma desconfiava que Shuichi também deveria ter um antepassado na raça, se a carinha de menino que ele ainda ostentava e a competitividade que cresceu com os anos fosse alguma indicação. Portanto, depois de um dia de reuniões, acordos e montagem do cronograma da turnê, Tohma despediu-se dos outros empresários com um sorriso no rosto e pronto para reforçar o sucesso das duas maiores bandas sob a marca de sua gravadora para além do espaço. Mas então surgiu o problema: o ataque sofrido há dois anos pela Federação causou um abalo nas rotas espaciais que ameaçava levar por água abaixo os planos da turnê. Voos comerciais entre colônias e planetas eram rigorosamente monitorados pela Federação, a destruição de metade da armada da Frota Estelar abriu uma brecha para piratas espaciais e outros oportunistas, o que fazia muitas companhias relutarem em cruzar certos pontos do espaço sem uma escolta e com certeza nem mesmo um voo fretado se arriscaria a passar pelas zonas marcadas no mapa da turnê. Tudo estava prestes a permanecer somente em contratos e papéis quando K Winchester apresentou a solução.
A boa e velha solução do “eu conheço alguém em algum lugar importante que pode resolver este problema para nós”. O americano doido somente esqueceu de informar que este alguém era um oficial graduado da Frota Estelar que coincidentemente tinha duas filhas adolescentes fãs do Bad Luck e do Nittle Grasper que moravam em uma das colônias no cronograma da turnê e que por isto acabou cedendo uma das naves da Frota para levá-los até a primeira parada deles que seria em T-003. Até aí tudo bem, Tohma até se sentia imensamente lisonjeado ao saber que iria viajar em uma nave da Frota. O problema começou quando ele viu o nome da nave no cronograma da turnê: USS Thunderbird. E foi então que ele soube que Tatsuha iria matá-lo e provavelmente usando todas as técnicas que aprendeu na Academia.
- Alguma problema Tohma? — o loiro piscou e virou-se para ver um Eiri, com a maior expressão de tédio que uma pessoa é capaz de colocar no rosto, sentado ao seu lado no terminal enquanto aguardavam o transporte que os levaria até a doca espacial onde a Thunderbird estaria esperando por eles. O escritor estava em viagem com as bandas aproveitando merecidas férias depois do frenesi que foi o lançamento de “Gravitation”, um filme baseado em um dos best-seller que a crítica considerou um dos maiores sucessos da carreira de Eiri. Mika os acompanhava também pois nunca tendo visitado o espaço, quis aproveitar esta oportunidade para fazer o mesmo.
- Não, tudo perfeito. — perfeito até o momento em que eles pisassem na Thunderbird e Tohma rezava para que a nave fosse grande o bastante para eles não terem que cruzar com Tatsuha dentro dela. Afinal, ele era o Capitão, com certeza um homem ocupado, qual seria as chances de eles se encontrarem? E caso Tatsuha soubesse quem era os passageiros dele, o que com certeza ele saberia, faria de tudo para evitá-los, certo? Ao menos esperava que sim.
- TOHMA! — o grito o tirou de seus devaneios, assim como um corpo jogando-se sobre o seu tirou o seu ar. Outra característica típica de taurianos era o fato de que eles simplesmente não levavam a vida a sério. Por que deveriam? Ryuichi, mesmo sendo um mestiço, dentro da raça de sua mãe seria considerado um jovem adulto no momento ao invés do homem de meia idade que tecnicamente ele seria de acordo com a sua data de nascimento, mas não a sua fisiologia. Talvez fosse por isso que o cantor agisse de maneira tão infantil, principalmente no início da carreira deles. Porque somente agora que na concepção tauriana o homem deixou de ser uma criança e finalmente tornou-se um adulto, embora mentalmente Ryuichi fosse bem maduro por causa de seu lado humano, mas preferia não demonstrar por causa de seus genes alien. Alguma conversa sobre compatibilidade mental com física e algo sobre o público esperar tal atitude dele e que foi a sua falsa infantilidade que ajudou o Nittle Grasper a crescer. Tohma não contestava, porque sabia que em time que estava ganhando não se mexia. Mas eles estavam entre amigos, amigos que sabiam da fachada de Ryuichi, então este poderia parar de fingir ao menos por dois minutos, pela sanidade de Seguchi.
- Hei Ryuichi. — Tohma cumprimentou o amigo com um sorriso contido. Não era parte de uma raça de Peter Pans, era humano como qualquer outro e mesmo que se cuidasse, mesmo que fisicamente ele não aparentasse a idade que tinha, ainda sim estava ficando velho e não mais apto a aguentar os encontrões que sofria cada vez que Sakuma se jogava sobre ele. E já cansou de lembrar Ryuichi disto, somente para minutos depois receber um outro abraço apertado de estalar os ossos.
- Dá para acreditar? Uma nave da Frota. Da FROTA!
- É eu acredito. — disse com um outro sorriso contido para depois completar com um sussurro. — E estou frito.
- Você não parece tão empolgado assim. — Eiri comentou. Conhecendo Tohma o mesmo estaria emanando arrogância e pompa pelo simples fato de que um civil que não estivesse envolvido com diplomacia e política tenha conseguido carona em uma nave da Frota Estelar. Mas ao contrário, Seguchi parecia bastante apreensivo. — Por acaso tem medo de voar? — o loiro apenas mirou o escritor, arqueando ambas as sobrancelhas e a sua resposta foi interrompida quando um atendente se aproximou do grupo e informou que o voo deles para a estação espacial estava pronto para partir. Com isto Bad Luck e Nittle Grasper foram guiados até a plataforma onde estava a nave que os levaria ao espaço, com Shuichi já pendurado no braço de Eiri e falando mil palavras por minuto, mesma coisa que Ryuichi fazia no ouvido de Tohma sob os olhares divertidos do restante da banda e de K e Sakano.
Minutos depois todos encontravam-se dentro da espaçonave, atravessando a atmosfera terrestre e alcançando o espaço, com Ryuichi e Shuichi grudados na janela para observarem a imensidão negra do Universo. Tohma inspirou profundamente quando o transportador fez uma curva, deixando a vista a estação espacial que rodava em torno da Terra, mais especificamente a doca onde uma nave estelar refletia as luzes da estação magnificamente, deixando a vista o o enorme USS Thunderbird escrito no casco junto com o número NCC-64556 de identificação. Estavam entrando em território desconhecido agora e Seguchi somente esperava que a próxima semana fosse tranquila, porque ele também não tinha mais idade para ficar se estressando por causa da família desregulada que tinha.
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