– PAPAI! — o grito jovial e em tom infantil foi como a mais bela sinfonia para os ouvidos de Tatsuha.

O corpo pequeno de Paige praticamente voou da varanda da tradicional casa de fazenda até o chão de terra e o mais rápido que as pernas curtas dela permitiram, a menininha correu até o Capitão que havia se ajoelhado e a esperava de braços abertos. Os braços magros da garotinha envolveram o pescoço de Tatsuha que ergueu-se do chão quando teve seguro entre seus próprios braços o corpo da filha.

O homem suspirou, pousando o nariz na junção do pescoço com o ombro da menina e aspirou o cheiro gostoso de sabonete infantil que a pele macia dela emanava.

– Saudades papai. — Paige declarou, afastando um pouco o rosto de onde estava escondido no ombro de Tatsuha para mirar com grandes olhos verdes o rosto do pai.

Tatsuha sentiu um aperto no peito quando o olhar adorador da menina caiu sobre a sua pessoa e mais uma vez, como em tantas outras vezes, a vontade de largar tudo para trás para ficar só com ela apoderou-se dele.

– TATSUHA! — pai e filha viraram-se para ver Cristine Pike descer as escadas da varanda da casa, vindo na direção deles apressadamente até estar perto o suficiente para Tatsuha colocar Paige no chão e abraçar a mulher.

Os braços roliços da Sra. Pike praticamente o esmagaram contra os seios fartos da mulher, fazendo Tatsuha se perguntar pela enésima vez como Cristine, uma criatura que mal chegava ao seu peito em altura, conseguia ter tanta força física. Mas então ela se afastou, o mirando com ternura nos olhos verdes iguais aos de Paige, iguais aos de Alyssa. Olhar para Cristine fazia Tatsuha pensar no que teria sido o futuro se Alyssa tivesse sobrevivido ao ataque de Nero. Mãe e filha eram fisicamente parecidas da raiz do cabelo até os pés. Do pai, Brian Pike, Alyssa só tinha herdado o temperamento e a teimosia, segundo a sua sogra.

– Como está a minha segunda garota favorita? — gracejou galanteador, o que fez Cristine sorrir.

– Segunda? — Tatsuha abriu um largo sorriso e voltou os olhos para Paige, parada ao lado dos dois adultos, pegando novamente a garotinha no colo e a jogando por um momento no ar, o que a fez rir, a recolhendo em seguida em seus braços.

– Óbvio que Paige é a primeira. — Cristine riu, dando um tapinha no braço do homem.

– Nem vou discutir isto. Vamos! Entre, entre! — praticamente ordenou, recolhendo a bolsa de viagem que estava esquecida perto dos pés de Tatsuha. O homem abriu a boca para protestar, dizer que ele mesmo levaria a bolsa e que não era para a mulher carregar peso, mas um olhar de advertência da sra. Pike o fez calar a boca. Uesugi sempre teve a certeza de que a teimosia de Alyssa vinha de Cristine, não de Brian.

Segurando Paige em seu colo com somente um braço, Tatsuha estendeu o outro para Cristine que o enlaçou com o seu e logo o trio tomou o caminho da casa.

Os olhos negros do Capitão foram para a construção e ele deu um pequeno sorriso.

A fazenda dos Pike parecia algo saído diretamente dos filmes. A cidade inteira onde ficava a fazenda parecia saída de um filme de época. A casa era de madeira, dois andares, com decoração rústica e varanda dianteira com cerca branca. As terras onde ficava a casa eram de perder de vista, com galinheiro, seleiro e coxia as decorando. O casal vivia basicamente da aposentadoria generosa da Frota Estelar (parecia ser uma tradição da família Pike servir a Frota) e das tortas que Cristine fazia para vender na padaria e feiras da cidade. Era um lugar tranquilo, um refúgio, e que Tatsuha tinha orgulho de chamar de lar.

– Você chegou em boa hora, estou tirando uma torta quentinha do forno. — Cristine comentou empolgada enquanto eles subiam os degraus da varanda, passavam pela pilha de brinquedos com que Paige brincava antes da chegada de Tatsuha, e entravam na casa.

– Você está querendo me convencer que não esperava por mim e que fez uma torta por acaso? — acusou divertido e a mulher riu. Christopher com certeza havia avisado ao irmão sobre a parada da Thunderbird na estação espacial flutuando em torno da Terra. E Tatsuha havia enviado uma mensagem à Brian falando sobre a sua visita.

– Você me pegou. — a mulher gracejou, deixando a bolsa dele sobre um sofá e guiou pai e filha até a cozinha, onde o aroma gostoso de uma torta de maçã inundava todo o lugar.

Tatsuha colocou Paige no chão, que prontamente correu para sentar na cadeira da mesa de madeira da cozinha, onde livros para colorir estavam abertos junto com vários lápis de cera e lápis de cor.

Uesugi arqueou as sobrancelhas. Todos os brinquedos de Paige eram de época. Bonecas de pano que a própria Cristine costurava, carrinhos de madeira que Brian entalhava, livros de papel, raridades de se encontrar, para colorir, assim como os lápis de cera e de cor. A sua filha vivia em um ambiente que parecia preso no século vinte e não se importava nem um pouco com isto.

Pelo contrário. Pelas bochechas rechonchudas e rosadas que ela ostentava, assim como o sorriso largo de dentes de leite e olhos brilhantes, Paige adorava aquele lugar. Talvez porque não conhecesse outro. A garotinha havia nascido na moderna e populosa São Francisco, mas assim que Alyssa morreu e a licença de luto de Tatsuha terminou, a menina foi entregue a guarda dos avós. E, naquela época, ela tinha apenas um ano, mal lembrava das coisas, então não tinha como sentir falta da tecnologia que rodeava a humanidade nos dias de hoje.

– E Brian? — Tatsuha perguntou enquanto puxava uma cadeira de madeira, rindo baixinho ao ver que nenhuma das cadeiras que rodeava a mesa combinavam com a mesma, ou umas com as outras.

– Na cidade fazendo uma entrega. — Cristine respondeu enquanto tirava a torta do forno e a depositava sobre a mesa. Tatsuha salivou ao ver a massa morena e crocante emanar o cheiro delicioso de “boas vindas ao lar”. — Paige querida, você entrou e deixou as suas bonecas lá fora. O que a vovó disse sobre isto? — Paige fez um bico enorme.

– Eu quero ficar com o papai. — protestou.

– Seu pai não vai sumir no tempo em que você for recolher os seus brinquedos e voltar. — o bico da menina aumentou e Tatsuha se sentiu ainda mais culpado ao ver o quanto a filha sentia a sua falta. Ele abriu a boca para dizer que ela não precisava ir, que mais tarde ambos iriam recolher as bonecas, mas um olhar de Cristine o interrompeu. — Paige? — continuou em um tom firme e a menina bufou, mas não mais protestou, e com um pulo saiu da cadeira e correu para a varanda para fazer o que a avó mandou.

– Você é melhor nesse negócio de disciplina do que eu. — Tatsuha soltou em um muxoxo e Cristine riu.

– Você não é tão ruim. Mas a ordem foi apenas uma desculpa para tirá-la da cozinha. Paige é uma menina obediente e como a mãe, perfeccionista. Ela mesma, mais tarde, iria recolher os brinquedos. Ela tem paixão por aquelas bonecas e fica apavorada com a ideia de deixá-las na varanda ao relento.

– Velha manipuladora. — Tatsuha brincou.

– Mas então... — Cristine foi até a prateleira sobre a pia, recolhendo uma chaleira e a enchendo de água, a levando ao fogão para ferver. Em seguida pegou do armário duas canecas decoradas e colocou nelas saquinhos de chá, as depositando sobre a mesa e sentando-se na cadeira de frente para Tatsuha. — Christopher nos contou o que aconteceu.

– Acasos do trabalho Cristine. Você não pode me pedir para ser cuidadoso se o Espaço sempre tem imprevistos. — a mulher arqueou as sobrancelhas.

– Não falo do ataque dos Klingons... Falo da Thunderbird ter servido para transportar a sua família.

– Oh, isto. — Tatsuha desejou que o chá já estivesse pronto para assim ter algo com que ocupar as suas mãos. — Bem... Foi complicado, tivemos as nossas brigas, sentimentos entalados há dez anos em nossa garganta vieram à tona, mas acho que, no fim, nos entendemos.

– Bom... — a mulher comentou.

Ainda lembrava claramente do dia em que recebeu uma ligação da filha, meses depois dela ter entrado na Academia, com Alyssa relatando que tinha conhecido a criatura mais enervante da face da Terra.

“Ele é um pirralho sem noção mamãe!”, a sua garotinha havia dito e Cristine perguntou com curiosidade quantos anos dito pirralho tinha. Sabia que a Frota vez ou outra abria uma exceção e permitia o alistamento de menores de dezoito anos quando esses demonstravam um grande potencial intelectual e uma grande vontade de servir. Portanto, em sua mente, o que veio foi um menino franzino de uns treze, quatorze anos, perseguindo a sua filha. Quando Alyssa disse que o seu tormento tinha dezoito anos, a mesma idade que ela, Cristine riu.

Por meses tudo o que a sra. Pike ouviu foi como Uesugi era irritante, como ele era irresponsável, como ela se perguntava o que uma criatura como ele estava fazendo na Frota. Listas e mais listas de defeitos que fizeram Cristine ficar louca para conhecer o rapaz que tinha conquistado a sua teimosa Alyssa. Porque a mulher sabia, como mãe ela sabia, que Alyssa estava apaixonada.

Por isso não foi com surpresa que um ano e meio depois a sua garotinha apareceu na fazenda, trazendo pelas mãos um belo rapaz, e o apresentou como Tatsuha Uesugi, o seu namorado. Brian chiou e Cristine riu. Tatsuha era um doce de menino que praticamente se iluminava por completo diante da atenção materna que Cristine dava para ele, fato que foi explicado mais tarde por Alyssa em uma conversa entre mãe e filha:

– Ele perdeu a mãe quando criança, tinha uns seis anos, e o pai tornou-se recluso. Ele tem dois irmãos mais velhos, mas esses estavam preocupados demais com os próprios problemas do que com ele. — e ela contou tudo para Cristine, tudo o que havia aprendido neste último um ano e meio sobre Tatsuha Uesugi. Cristine concordou com Alyssa que a decisão de Tatsuha de ir embora de casa para não enfrentar os seus problemas havia sido drástica, mas talvez a mais acertada.

Alyssa contou à mãe que desde o dia em que conheceu Tatsuha, ele havia amadurecido bastante sob as regras rígidas da Frota e talvez com o tempo tudo se resolvesse. Mas dez anos se passaram e a sra. Pike viu Tatsuha adotar os Pike como família, assim como os Pike fizeram com ele, mas jamais falar sobre ou contatar a própria família que deixou no Japão.

– E quanto a Ryuichi Sakuma? — se Tatsuha tivesse comendo alguma coisa, com certeza ela seria cuspida só pela cara que ele fez diante da pergunta de Cristine.

– Como é?

– Christopher me contou...

– Como é que o Chris sabe... — diante do sorriso vitorioso da mulher, Tatsuha deu com a testa no tampo da mesa. Tinha acabado de se entregar.

– Aparentemente Jim presenciou uma cena interessante entre Ryuichi e você. — Tatsuha iria matar Kirk. E não importava que o outro Capitão fosse o queridinho do Christopher, o filho que ele nunca teve e coisa e tal. — Contou isto para o Chris e ele interrogou Adam. — Hope também era um homem morto e enterrado.

– Seja lá o que eles tenham dito, já foi resolvido. — declarou e Cristine somente arqueou uma sobrancelha enquanto se erguia da cadeira para tirar do fogo a chaleira apitando, servindo uma boa quantidade de água quente nas canecas e retornando a chaleira ao fogão e sentando-se novamente à mesa.

– Deixe-me ver se adivinho: você dispensou o Ryuichi com a desculpa de que o relacionamento de vocês não tem futuro. — Cristine comentou enquanto colocava umas duas colheres da açúcar em seu chá, o mexendo e bebericando a infusão logo em seguida.

– Como você sabe...

– Eu te conheço Tatsuha. E está escrito na sua cara que foi isso o que você fez. — Tatsuha somente abaixou a cabeça, trazendo a caneca de chá mais para perto de si, e mirou o seu reflexo na superfície escura da bebida. — Me diga uma coisa: não é por causa da Alyssa que você fez isto, é?

– Como?

– A minha filha jamais iria querer que você abdicasse da sua felicidade por ela.

– Claro que não é por causa da Alyssa. E eu sei que ela pensaria assim. É só que...

– Só que o quê? Eu lembro bem que Brian e eu fomos parcialmente contra o casamento de vocês não porque não te aprovávamos, mas porque achávamos que vocês dois eram muito novos. Ambos tinham acabado de se formar na Academia, iriam ser designados a locais diferentes e resolveram se casar. E mesmo assim, mesmo com você em uma nave e Alyssa em outra, vocês foram felizes em seu casamento, conseguiram até ter a benção que é a Paige e eu sei que vocês tinham planos de servirem juntos, mas que esperariam um tempo até a Paige crescer para isto acontecer. Ou seja, se Alyssa estivesse viva, entre o casamento de vocês e o serviço em uma mesma nave sob a política de aceitação de família à bordo, seriam oito anos separados. Oito anos na insegurança de saber se iriam sobreviver ao Espaço. Então, qual a diferença entre os seus planos com Alyssa para seus planos com o Ryuichi?

– Eu não tenho planos com o Ryuichi porque não tenho nada com o Ryuichi. — Cristine levantou-se tão rápido da cadeira que pareceu um borrão, e em seguida Tatsuha só sentiu o tapa estalado em sua testa antes da mulher voltar ao seu lugar.

– Não tem porque não quer! Porque é um homem teimoso, arrumando desculpas porque tem medo de ser feliz.

– Eu não tenho medo... — ela o fuzilou com o olhar por ter sido interrompida e Tatsuha calou a boca.

– Tem medo sim! Você foi feliz com Alyssa e ela com você, mas a felicidade de vocês foi interrompida prematuramente. Mesmo que você tenha superado a morte da minha filha, não superou o medo de se arriscar novamente no amor para correr o risco de perdê-lo. Mas arriscar e perder é melhor do que não arriscar e nunca saber como foi. Alyssa e você, ambos eram da Frota, tinham o risco eminente de morrerem em missão. Eu poderia estar agora tendo esta conversa com a minha filha porque foi o marido dela quem pereceu no ataque de Nero. E assim como eu diria a minha filha, digo a você: pare de frescura e vai viver a sua vida!

– Você tem uma maneira interessante de incentivar as pessoas Cristine. — Tatsuha riu, tomando um gole de seu chá.

– E vocês jovens complicam coisas que não deveriam ser complicadas. Me dá dor de cabeça. — resmungou e o homem gargalhou.

– Então espere a Paige chegar à adolescência. — provocou e Cristine abriu um grande sorriso malicioso.

– Quando isto acontecer, farei questão de incentivar os namoros dela com os garotos mais inadequados do estado somente para enlouquecer Brian e você. — Tatsuha arregalou os olhos.

– Você não ousaria...

– Dizem que o karma é foda. Eu arrumei um homem que o meu pai desaprovou por um bom tempo, com Alyssa foi o mesmo, obviamente que com a Paige não será diferente. — Tatsuha gemeu e bateu novamente com a testa no tampo da mesa.

– É isto! Quando ela chegar na adolescência eu vou pedir que ela embarque comigo em missões. — Cristine gargalhou.

– Presa em uma nave com centenas de tripulantes e boa parte deles sendo homens solteiros. Ideia brilhante Tatsuha, brilhante.

– Eu te odeio. — a risada da mulher ficou mais alta diante do bico que ele fez.

– E eu te amo querido. — ela piscou um olho para ele. — Mas não espalha. — brincou.

oOo

Ryuichi estava cansado. Depois de sete colônias, trinta cidades, incontáveis entrevistas e cinco meses, Ryuichi estava exausto.

Exausto e no limite de suas forças, com a bateria quase arriando e prestes a gastar o seu último pingo de energia no show de encerramento da turnê que graças a tudo o que era mais sagrado estava sendo em Tóquio. Ou seja, assim que as cortinas se fechassem, Sakuma iria entrar em seu carro, dirigir até a sua cobertura e dormir por dias, além de ficar sem falar por um mês. Como a voz dele tinha aguentado a tanto, Ryuichi não sabia.

Com um grunhido o cantor cruzou os braços sobre a mesa de maquiagem de seu camarim, depositando a testa sobre eles. Ele queria começar os planos de dormir agora, mas havia uma casa lotada lá fora e milhares de fãs gritando pelo Nittle Grasper e Bad Luck. Sorriu levemente. Apesar do cansaço pesando em seus ossos ele estava satisfeito. A turnê havia sido um sucesso, Ryuichi descobriu que a fama do NG e do Bad Luck era maior do que as duas bandas poderiam imaginar e todos os shows sempre tiveram a casa cheia. E a vibração do público em todos eles foi maravilhosa.

E agora iriam fechar com chave de ouro e em seguida embarcariam para umas merecidas férias.

– Sabe... — a voz fez Ryuichi levantar a cabeça em um estalo e mirar com olhos largos o reflexo no espelho que mostrava um Tatsuha atrás dele, com os braços cruzados sobre o peito e apoiado no batente da porta, lhe sorrindo largamente. O mesmo Tatsuha que há meses não saía de sua cabeça. — Eu nunca consegui aquele autógrafo. — o homem mais novo brincou, desencostando-se da porta.

Ryuichi girou a cadeira para poder encarar Tatsuha que adentrava o camarim com uma expressão como se nada tivesse acontecido, como se o breve relacionamento deles na Thunderbird e a dispensa do Capitão fosse algo que existiu somente na imaginação de Sakuma.

– O que você está fazendo aqui?

– Eu lhe disse, eu nunca consegui aquele autógrafo.

– Não, não! Aqui, na Terra.

– Ah... — Tatsuha deu um largo sorriso que fez o coração idiotamente apaixonado de Ryuichi dar um pulo no peito. — A Thunderbird está estacionada na órbita da Terra. Há três meses a Frota lançou mais três naves recém-inauguradas no Espaço, o que possibilitou que as tripulações de algumas naves recebessem folga para comemorarem as festas de fim de ano com a família. A Thunderbird foi uma das naves agraciadas com a folga.

– Oh... Então você está aqui para visitar a sua família. — disse com um tom de desapontamento na voz. Tatsuha não tinha vindo cometer uma loucura de amor em nome de Ryuichi depois de tantos meses, apenas havia vindo ao Japão visitar pai e irmãos. Como havia sido idiota.

– Sabe... — Tatsuha inclinou-se, apoiando as mãos no descanso de braço da cadeira onde Ryuichi estava, encurralando o cantor contra o encosto. — Há exatamente onze anos, neste dia, véspera de Natal, eu arrumei todas as minhas coisas e fui embora do Japão com a promessa de nunca mais voltar, de não olhar para trás, porque nada me prendia aqui. — Ryuichi ofegou e o seu coração começou um ritmo descompassado em seu peito diante da proximidade do Capitão de sua pessoa.

– Então por que voltou?

– Por que acha que eu voltei?

– Para visitar a sua família, foi o que você disse.

– Minha família nunca me prendeu em lugar nenhum, nem mesmo quando eu vivia sob o mesmo teto que ela. — um sorriso maroto surgiu no rosto bonito de Tatsuha, o que fez Ryuichi perder o fôlego ao vê-lo tão de perto.

– Você não pode querer me fazer acreditar que voltou por minha causa. — acusou em uma voz baixa, tentando recuperar o controle, mas ver Tatsuha tão perto, depois de tantos meses o desejando, sonhando com ele, o querendo sabendo que jamais o teria de novo, estava causando um curto em seu cérebro.

– Por que não?

– Porque se foram cinco meses.

– Meu grande defeito, pensei que você tivesse percebido: eu demoro a aceitar as coisas e encarar os meus problemas. — Sakuma soltou uma baixa risada de escárnio.

– Ao menos não levou dez anos. O que aconteceu com toda a sua lógica de oficial de comando sobre analisar todas as perspectivas para seguir o melhor caminho?

– Provou-se falha neste caso. — o ritmo do coração de Ryuichi aumentou por causa de uma coleção de fatores, mas o principal deles era o que estava interpretando nas entrelinhas das palavras saídas da boca de Tatsuha. Se realmente estivesse compreendendo bem, o Capitão estava propondo... — Eu não vou deixar a minha carreira, você não vai deixar a sua, mas isto não nos impede de ficarmos juntos. Muitos relacionamentos funcionam muito bem sob esses parâmetros, por que conosco seria diferente?

– Tatsuha... você... — o cantor ofegou, vendo que o sorriso se alargava no rosto do outro homem e com isto Ryuichi decidiu parar de conversar, de ponderar, de analisar, e resolveu agir.

Envolvendo os seus braços em torno do pescoço de Tatsuha, Sakuma o puxou para mais perto e selou os lábios, que há meses cobiçava sentir novamente, com os seus. O beijo não foi sedento de saudades como o esperado, mas sim suave, com as bocas se explorando lentamente e se reconhecendo, se reapresentando uma a outra. Não tirou o fôlego de ambos como na primeira vez, mas ao se separarem, deixou um gostinho de quero mais que pelo sorriso no rosto dos dois homens, seria saciado em breve.

– Vem. — Tatsuha segurou na mão de Ryuichi, o puxando e o colocando de pé. — Tem alguém que eu quero que você conheça. — e guiou o cantor para fora do camarim em direção ao lounge que havia sido montado nos bastidores para os visitantes da banda.

Ryuichi deixou-se levar, sentindo o corpo tão leve que achou que poderia flutuar a qualquer momento. Seguiu Tatsuha com um sorriso bobo no rosto até chegarem ao lounge onde Mika, Eiri, Tohma e Shuichi estavam, com Mika ajoelhada no chão em frente a uma menininha que parecia estar falando mil palavras por segundo, fazendo a sra. Seguchi concordar com tudo o que ela dizia com a cabeça enquanto sorria largamente para a garotinha, extasiada em estar na presença dela.

– Paige! — o chamado fez a menina se virar na direção dos dois homens e Ryuichi ofegou quando enormes olhos verdes o miraram.

Havia se enganado quando vira a foto da criança meses atrás na cabine de Tatsuha. Na época ele apenas encontrara semelhanças com a falecida esposa de Uesugi. Mas, agora, vendo a garotinha ao vivo, percebia que ela era mais o pai do que a mãe, ainda mais que os orbes claros da menina brilharam intensamente quando reconheceram Ryuichi Sakuma.

Com um grito excitado, ela correu até o pai, o abraçou pelas pernas e depois voltou a sua atenção para Ryuichi que observava toda a interação sem saber como reagir.

Aquela era a filha do homem com quem estava prestes a entrar em um relacionamento sério. E uma coisa era obter a aprovação dos irmãos de Tatsuha para namorar o mesmo, outra era ter a aprovação da menina. Esta era a mais importante. Os irmãos, se dissessem não, com certeza Tatsuha os ignoraria e continuaria com o que quer que eles tivessem juntos. Paige, se dissesse não, Ryuichi apostava que Tatsuha terminaria tudo em um piscar de olhos e daria as costas para ele sem pestanejar.

Havia captado há tempos a importância que a filha tinha para o Capitão e Ryuichi jamais iria querer estragar uma relação tão delicada. Mas então a menina sorriu abertamente, um sorriso que ela herdou de Tatsuha, deu um passo à frente e estendeu um caderninho e uma caneta para Ryuichi.

– Sr. Sakuma! — soltou esganiçada e em uma voz adoravelmente infantil. — Eu sou sua fã! — Ryuichi arregalou os olhos e lançou um olhar curioso para Tatsuha.

– Talvez, quando ela era bebê, eu tenha cantado e tocado músicas do Nittle Grasper ao invés de canções de ninar e este foi o resultado. — respondeu o Capitão, indicando com um gesto de mão a menina que esperava receber um autógrafo de Ryuichi.

Sakuma gargalhou, ajoelhando-se no chão para ficar na altura da garota, dando à ela um grande sorriso e recolheu o caderno e a caneta.

– E qual o seu nome princesinha? — disse em um tom de flerte, piscando um olho para ela, e a menina corou lindamente.

– Paige! Paige Uesugi. — respondeu, o mirando com adoração, e Ryuichi riu, trocando outro olhar com Tatsuha e vendo que o Capitão observava a cena com ternura e igual adoração. O coração do cantor deu um pulo satisfeito no peito diante da reviravolta dos acontecimentos e enquanto ele assinava com prazer o seu nome na folha colorida não pode deixar de pensar uma única coisa:

Tal pai, tal filha.