It's An Heroic Time!
6 Capítulo Extra III - Smiley Johnson
Era uma segunda-feira a noite, tinha acabado de sair do escritório. Meu humor era o de sempre, angustiado. Havia pouco tempo que tranquei a minha matrícula, a bolsa que recebia não era o suficiente para pagar o aluguel, comprar mantimentos e manter a faculdade. Tinha esquecido a marmita em casa, portanto tive de comprar o almoço no trabalho e acabei ficando sem o dinheiro para a passagem.
Não tinha outro jeito, voltei para casa a pé. Como de praxe, fiquei até tarde para fechar o escritório. Estava frio, o que me revoltou ainda mais. Cansei de trabalhar ali, era um local onde escória ajudava escória, ganhavam milhões para manter o caos na cidade, e porque não no país, e o pior, é que eu contribuía com isso, só que por muito menos.Entre o cansaço e o desgosto, minha mente estava vagando enquanto eu andava naquela parte quase deserta da cidade, até que despertei dos meus pensamentos com um grito de socorro. Era a voz de uma mulher que vinha de um beco do outro lado da rua. Não sabia o que fazer, não por medo, mas para se salvaguardar, estava com o corpo pedindo cama e a cabeça pesada, e além do mais nunca fui do tipo de pessoa que pudesse ajudar alguém, estava fora do meu alcance. Mas essa podia ser minha chance de ajudar alguém que de fato necessitasse, e não trastes que cometem crimes após crimes.Resolvi ajudar, porém logo descobri que era melhor não tê-lo feito. Um rapaz estava ameaçando uma moça, que era bonita por sinal, com uma faca, e a pressionando contra a parede. Tentei pegá-lo de surpresa, porém não fui capaz de fazê-lo e acabei recebendo sua atenção, mas pelo menos a mulher estava a salvo. Fingi que tinha uma arma de fogo em mãos, mas ele foi suficientemente astuto para perceber que se tratava de um blefe e me ameaçou com sua lâmina. Não tinha mais escolha, tive de partir para o ataque, e como disse antes, não era para estar ali. O assaltante apenas ficou parado enquanto eu fiz o resto, ao tentar acertar um soco no mesmo, acabei enterrando sua arma branca no meu braço direito. Apesar de ter me machucado considerávelmente, ele ficou sem desarmado e fugiu, mas pode ter sido também porque assustou-se com tamanha idiotice que cometi.A última coisa que vi, foi meu paletó encharcado de sangue e minha mão esquerda pressionando a ferida. Acordei no hospital, não lembro como cheguei ali nem como saí daquele beco, vi uma sutura em meu braço e logo após, um noticiário que falava de algum corpo estranho que veio de fora da atmosfera. Enquanto estive ali, não vi o médico, apenas enfermeiras que me davam comida e analgésicos, aproveitei o tempo e li todas as revistas que tinham por lá, em geral eram de tecnologia, física e química. Nunca tinha reparado como aquilo era interessante e ao mesmo tempo divertido, gostaria de ter realizado isso antes de começar a cursar direito.Cheguei ao terceiro dia internado, era uma quinta-feira, já não aguentava mais aquele ambiente, aquela comida, e principalmente, a ausência do médico. Era algo muito estranho, que médico que não tinha contato com seu paciente? Passou no noticiário, que aquele mesmo cientista, que insiste em dizer coisas sobre magia, iria dar uma palestra na universidade que eu estudava. Não sei por qual motivo eu me senti forçado a participar daquilo, deve ter sido por querer aprender mais sobre a ciência, já que mitologia anda de mãos dadas com a mesma, ou se eu só queria fugir daquele hospital. Chamei a enfermeira várias vezes até que ela apareceu e exigi a presença do médico ausente, e descobri que tinha recebido alta desde o primeiro dia. Acabei pagando um preço exorbitante por algo que sequer precisava, era um "luxo" que eu não podia ter. Concluí então, que minha vida também é uma piada, assim como a justiça. – Então doutor, isso é tudo. Exijo sigilo quanto à minha infelicidade com o trabalho, apesar de o odiar, é minha única fonte de renda.- Complementou Smiley, olhando para o velho doutor Morrissey, que fazia anotações em seu bloquinho. – Hm... Compreendo... Prometo manter segredo. E acho que você poderia fazer algo para amenizar esse sentimento. — disse sem tirar os olhos de suas anotações. – De qual sentimentos está falando? — Surpreso com a pergunta do psicólogo. Tinha certeza de que não tinha dito nada demais. – Esse sentimento que é inútil. E de injustiça. Se sente injustiçado de alguma forma tente lutar para reverter a situação. Como você fez ao ajudar a mulher. – Pff... Grande ajuda que prestei àquela moça. Eu praticamente me ataquei. Talvez a vida seja somente isso mesmo, uma piada... E de mal gosto.- Coçando os olhos, como se quisesse acordar de um sonho ruim. – Talvez realmente seja. Mas por existir pessoas como você que não ficam paradas ao ver uma injustiça que o mundo transpire alguma esperança. — Disse olhando o jovem negro nos olhos.Não queria admitir, seu orgulho não deixava, mas as palavras do psicólogo ecoaram na mente de Smiley e fizeram com que se sentisse importante, pelo menos para alguém. – Bom, essa conversa não levará a rumo nenhum. Acho melhor encerrarmos por aqui. — Levanta-se da poltrona, recolhe seu terno e segue em direção a porta. – Acho que não necessitarei voltar para mais sessões, correto?
Dr. Morrissey ajeita os óculos no rosto. – Você é quem sabe. Se achar que é necessário. Você tem o meu número e a liberdade para me ligar assim que achar necessário. E pense no que eu disse... — sorri levemente. – Hmm... Beleza, obrigado pela sessão. — Acena para o psiquiatra e deixa a sala. Vai à parada de ônibus, refletindo sobre o que o Dr. Morissey disse, será que realmente ele pode fazer a diferença. Mas se ele fez, porque aquela mulher nem sequer o visitou, até que gostaria de vê-la de novo. Pega o ônibus, e aproveita o seu último dia antes de retornar àquele escritório corrupto.
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