Notas iniciais
então, olá de novo. seja bem vindo.

Shikamaru se encolhe sob as cobertas quando uma brisa gelada toca sua nuca, o corpo subconscientemente rolando para alcançar sua fonte favorita de calor, quando bate nos lençóis mornos e vazios a seu lado. Ele resmunga.

Piscando com força para afastar a sonolência ele abre os olhos e procura ao redor, acordando de vez e tentando se localizar, estava muito cedo.

Os lençóis mornos indicam que ela não levantou há muito tempo e há um som baixo de chuva vindo da janela, o que explica a temperatura baixa e a ausência de sua esposa.

Ela havia dito a ele uma vez, a chuva era uma das coisas que ela mais gostava em Konoha, um dos grandes fatores que a fizeram gostar mais do trabalho como embaixadora na Vila da Folha do que em outras aldeias.

“Você está dizendo que a chuva é o que você tem de favorito na aldeia? Francamente mulher, você sabe com amaciar o ego de um homem.”

“Oh, cale a boca!”

Ele se lembra de ter perguntado o que tinha de tão diferente e especial na chuva de Konoha que fazia Temari preferi-la sobre as das outras vilas ocultas, e ela apenas o encarou por poucos segundos antes de o surpreender com um beijo, não que ele tenha reclamado disso.

Mas ele reclamava agora, que levantava da cama em horário tão diurno.

Desde que eles começaram como companheiros de trabalho, Shikamaru se adaptara aos horários de Temari, -o que recorreu um enorme esforço da parte dele e muita gozação vindo dela- para que pudessem se manter organizados e produtivos quanto as responsabilidades que lhes eram designadas.

Foi um habito que se acentuou ainda mais depois que começaram seu relacionamento, nesse caso, não por causa do trabalho em si, mas pelo motivo de terem mais tempo um com o outro, habito então que se tornou uma necessidade, ele não gostava de acordar sem ela e sabia que o sentimento era mutuo.

Enrolado em uma manta com o símbolo da aldeia da areia, cabelo solto e descalço, ele foi praguejando todo o caminho do quarto até a sala.

Temari estava sentada na varanda com um copo de chá na mão observando a chuva com adoração, os cabelos dourados estavam soltos, balançando com o vento e ela usava obi do Clã Nara. Ela parecia tão pacifica que ele não teve coragem de se aproximar mais ou sequer dizer qualquer palavra.

Pacifica, era uma palavra que ele jamais pensou que atribuiria a Temari antes de começarem a namorar, determinada, enérgica, orgulhosa, corajosa, responsável, assustadora, problemática e tantos adjetivos mais que ele poderia descrevê-la, mas nada associado a calmaria, hoje ele é extremamente grato por ela permitir que ele visse esse lado dela.

— Eu sei que você me encarando, Nara esquisito.

É claro que ela sabe, Temari provavelmente deve ter sentido seu chakra no momento que ele saiu do quarto.

Ele estala a língua, sentando-se no chão ao lado dela.

— Três semanas casados e você já desaparece a tal hora da manhã, o que devo esperar daqui pra frente, Nara?

Temari revirou os olhos, mas ele viu o pequeno sorriso que ela escondia atrás do copo, o vapor do chá fazendo sua franja ondular.

— Você sabia exatamente onde eu estava.

— Eu não gosto de acordar sem ter você do meu lado.

O rosto dela corou e ele sentiu seu próprio rosto quente também, embora fosse algo que ambos sabiam, o status de recém-casados agravava a intensidade de suas palavras.

— Desde quando você se tornou tão sentimental? – Ela zombou.

— Tsc.

Shikamaru se aproximou dela até que estivessem com os braços e pernas se tocando e observou a chuva que caía.

Ele nunca teve um encanto em particular com dias chuvosos, em sua infância, era no mínimo irritante ter seu passatempo de observar as nuvens brancas se locomoverem substituído por nuvens escuras que o obrigavam a sair das colinas e procurar proteção do temporal.

E com o tempo, seu crescimento, responsabilidades e batalhas, a chuva apenas serviu como memória de momentos de dor e perda, e sentimentos a qual ele teve de aprender a não se perder, cantos da sua mente que ele evita visitar.

— Fica tudo muito mais verde.

Era uma declaração obvia, mas algo incomum vindo de Temari.

Ele sabia, é claro, o quando ela gostava de admirar a flora e de seu apreço em especial por cactos e suculentas e por incrível que pareça, uma grande variedade de flores que cresciam no deserto — foi um erro de sua parte questionar como flores cresceriam no solo sunita, aquilo apenas lhe rendeu um dia inteiro de palestras irritadas de Temari e Ino e muita dor de cabeça.

Shikamaru franziu a testa para ela.

— As plantas precisam de água para absorver nutrientes e fazer fotossíntese, não é estranho que pareça mais vivido e que....

— Eu sei disso, idiota. –Ela empurrou seu ombro.– O que estou querendo dizer, é que a cada estação, a cada mudança climática na verdade, –ela apontou com o queixo para a chuva. – existe uma grande variedade de cores em Konoha, em Suna é sempre dourado e azul, até mesmo nas piores tempestades de areia.

E Temari estava com aquele olhar novamente, onde ele sabia que ela estava pensando no deserto, sobre seus irmãos, seu professor, toda a falta que ela sentia deles e tudo que ela deixou a uma enorme distância para estar com ele. O olhar tão cheio de saudade e nostalgia que Shikamaru não podia evitar se sentir culpado.

Ela sacrificara demais para estar com ele, saindo de seu país de nascença, deixando sua família, os montes arenosos, o sol escaldante e a ventania que nunca cessava, -que ele sabia que ela amava- enfrentando toda a burocracia do Conselho da Terra do Vento, os Anciões que queriam sua permanência para garantir a continuação da linhagem do Clã do Kazekage e muitos comentários sobre como seu casamento era apenas fruto de uma aliança política.

Temari se mudou para Konoha, se adaptando a um novo Clã, a um novo nome, para ficar com ele e Shikamaru se perguntava se ele era bom o suficiente, se realmente havia algo que ele pudesse oferecer a ela.

Se ele era algo a que se valia a pena escolher.

— Pois bem. –Ela disse baixinho, ainda encarando a chuva que se tornava mais forte.– Eu faço minhas escolhas e tenho orgulho de caminhar com elas.

E Shikamaru estagnou diante dela, de como seus pensamentos pareciam estar conectados e de como ele amava essa mulher, ela deixava claro que havia o escolhido, e Shikamaru questionando sobre seu próprio valor, questionava o valor das escolhas que ela havia feito, o que não o tornaria muito diferente dos Anciões que queriam ditar como ela deveria viver sua vida.

Temari havia o escolhido e ele não tinha o direito de indagar isso.

Ela o escolheu.

— Do que você está rindo?

— O que? —Ele não percebeu que ela o encarava já fazia algum tempo — Não estou rindo de nada.

— Sim, você está com aquele sorrisinho estúpido e convencido de quando você descobre algo e se acha importante por isso.

— Eu não faço isso.

— Você faz, e é geralmente meu momento de esvaziar seu ego e te colocar em seu devido lugar novamente.

— Tsc, não seja tão problemática. – Shikamaru pegou o copo de sua mão e tomou o resto de chá, tentando esconder o rosto corado, como ela havia feito antes.

Ele colocou o copo vazio no chão e Temari passou os braços em volta dele apoiando a cabeça em seu ombro, se aproximando de sua orelha.

— Eu te amo. – Ela sussurrou, Shikamaru sorriu. – Mas se você tomar meu chá novamente, eu mato você. – E o apertou mais forte, como se para provar seu ponto.

— Entendido. – Ele respondeu, sufocado.

— Ótimo. – Ela o soltou.

Shikamaru respirou fundo e maneou a cabeça, colocando seu braço ao redor de Temari, que voltou a aconchegar a cabeça em seu ombro.

— Eu também amo você.

Temari sorriu.

— É, eu sei.

E eles permaneceram sentados na varanda da casa até que a chuva passasse.

Notas finais
eu não sei muito sobre esse capítulo e não sei direito se gosto dele, mas tem chovido muito por aqui, estou com saudades de casa e indago o poder que nossas escolhas possuem. obrigada por ter chego até aqui.