It hurts like hell
1 And I lost you
Notas iniciais
How can I say this without breaking
How can I say this without taking over
How can I put it down into words
When it's almost too much for my soul alone
Arizona respirou fundo ao ver Callie saindo da Sala de Operação. A morena estava tensa, seus ombros rígidos e sua sobrancelha arqueada em sinal de completa seriedade que não era comum a figura da mulher; ainda assim Arizona conseguia identificar a familiaridade nos gestos de Calliope ao remover a touca cirúrgica, deixando seus cabelos negros caírem sobre as costas e inspirando longamente com os olhos cerrados.
Dados os eventos da última semana, Arizona não era capaz de pensar em um único motivo para se preocupar com a mulher que havia sido sua esposa por anos. Apesar disso, observar Callie sobrecarregada e com o semblante lastimoso fazia com que a cirurgiã pediátrica se sentisse na obrigação de confortá-la.
Desde o confronto pela guarda unilateral da pequena Sofia, as duas mães não haviam trocado mais do que um cumprimento amigável em frente da menina. Arizona deveria se sentir bem, todos esperavam que ela comemorasse a vitória, mas sua mente se encontrava tão confusa quanto anteriormente. Nada a respeito da situação em que se encontravam era normal ou esperado; desde a ocasião do divórcio, ambas as mulheres decidiram agir de forma amigável para o bem da filha que compartilhavam, e Arizona não conseguia entender como elas haviam atingido esse ponto.
Era fato que desde o momento mal-afortunado em que a loura envolveu-se com outra médica alguns anos antes, Arizona havia consentido com tudo que era proposto por Callie. De certa forma, a decisão de se manter cúmplice à ex mulher tinha fundamento culposo – Arizona jamais gostaria de ter concordado com o divórcio, mas a culpa que a desolava a impedia de exigir coisa alguma da parceira e, a partir de então, cada pensamento direcionado a reivindicação por parte dela era calado pelo remorso.
No entanto, quando a cirurgiã ortopédica declarou, com completo descaso e sem o menor sinal de consideração, que levaria a filha de ambas para morar do outro lado do país com sua nova namorada, Arizona foi deixada simplesmente desacreditada. O fato de Callie desejar seguir sua namorada em sua nova jornada não a surpreendia – o mesmo havia acontecido com Arizona na ocasião em que foi levada à África por meio da bolsa concedida pelo hospital –, a morena sempre havia sido entusiasmada e avoada, mas todo o discurso apresentado pela mulher não apresentava qualquer contemplação acerca dos pensamentos de Arizona sobre a situação.
Arizona balançou a cabeça, espantando qualquer impulso anterior à razão de andar até Calliope e acabar com qualquer desavença entre elas e lembrando a si mesma dos motivos pelos quais ela não poderia falar com a mulher que uma vez havia amado.
Repassar os momentos que Callie a havia feito passar no tribunal a fazia bem e mal ao mesmo tempo. Pensar que sua ex mulher havia deixado sua advogada declarar que Sofia não era filha dela despertava um ira quase que fatal na cirurgiã, a ponto de quase cair em lágrimas do lado de fora da sala de cirurgia que estava prestes a adentrar. Arizona havia ganhado, havia levado sua menina para casa e jamais teria de se separar da filha novamente.
Sofia era sua filha. Não havia nada de errado na maneira como as palavras soavam na cabeça de Arizona, Sofia era sua – sua filha, sua menina, sua princesa, sua pequena –, mas pensar que a mulher a quem tinha jurado a vida algum dia tinha uma noção completamente diferente a machucava, fazia com que a loura quebrasse inteiramente por dentro.
Arizona havia ganhado, mas tudo o que era capaz de sentir era o peso imensurável da perda: a perda da mulher que amava outra vez e de uma maneira que parecia a ela irreparável, a perda da amicabilidade construída pelas mães da pequena Sofia, a perda da confiança na única pessoa que tinha posse de toda a essência de Arizona – a loura a havia entregado a Calliope sabendo que se quisesse a morena poderia destruí-la, mas sem imaginar que algum dia viveria para assistir a esse momento.
— Arizona? — a cirurgiã ouviu a voz familiar de Alex chamar seu nome de maneira delicada e cuidadosa.
Alex a conhecia suficientemente e havia presenciado os melhores e piores momentos da vida de Arizona, de modo a saber exatamente os hábitos e sentimentos da amiga. A médica sabia que Karev estava preocupado, desde o momento em que havia voltado a trabalhar depois da batalha pela guarda da filha o amigo a estava rondando, fazendo com que se sentisse em casa e tentando ao máximo fazê-la sorrir da maneira que apenas Arizona sabia – o sorriso super mágico, do modo como Callie gostava de categorizar.
A médica virou-se para encarar Alex, perdendo de vista a morena que agora estava a conversar com algum residente sobre a cirurgia que tinham acabado de efetuar e encontrando o sorriso torto do amigo que, parado em frente a ela, segurava uma mascara cirúrgica apontada em sua direção.
— Karev. – Arizona o cumprimentou de maneira amigável, apoiando-se no lavatório do centro cirúrgico e oferecendo ao médico um sorriso igualmente torto.
— Estou pronto quando você estiver – ele afirmou, caminhando em direção ao lavatório e iniciando o processo de higienização obrigatório. — A mãe já está na mesa e os batimentos cardíacos do feto estão temporariamente estáveis.
Arizona acenou com a cabeça, dando a entender que estava ciente da situação.
— Obrigada por me ajudar. — ela declarou, inicianto sua própria higienização e respirando fundo novamente, em um ato de concentração.
Assim como sua ex mulher, Arizona havia adquirido alguns hábitos ritualísticos que efetuava antes de qualquer cirurgia. Para qualquer um que não a conhecesse, os movimentos calculados de alongamento eram casuais e indicariam no máximo um cansaço muscular decorrente da rotina pesada de cirurgias que enfrentava, mas a médica memorizava cada um e os repetia religiosamente.
Callie costumava brincar com o ritual e a loura não poderia deixar de lembrar da doçura com a qual a esposa gostava de apontar cada um dos movimentos, como se tivesse passado horas os analisando, e a maneira como a mulher achava graça do fato de que Arizona repetia o ritual também antes de cozinhar, ou de dar banho na pequena Sofia.
A médica alongou o pescoço enquanto terminava de lavar as mãos apropriadamente, agora tentando livrar seus pensamentos da morena que tinha acabado de ver.
— Arizona – Alex a chamou novamente, desta vez com um tom mais firme, preocupado. — Está tudo bem? Você quer que eu chame outro cirurgião fetal de plantão? Se você não está bem, vá para casa, fique com a Sofia mais uns dias.
Arizona balançou a cabeça, piscando inúmeras vezes e olhando vagamente para cima, evitando contato visual com o colega, em um ato que costumava efetuar quando se sentia desconfortável.
— Sofia já perdeu dias de aula suficientes pelo resto do ano – ela declarou, com a voz embargada e os olhos ainda fixos em qualquer lugar menos na face amigável que se encontrava ao seu lado. — E- E eu preciso voltar a trabalhar. Eu ganhei, certo? Por que diabos não estaria bem?
Alex inclinou a cabeça em um sinal de explícita ternura e levou as mãos ainda molhadas aos ombros da amiga, ignorando o fato de que acabara de gastar 4 minutos de higienização em vão, e procedendo com um abraço forçado, quase que disfuncional. Sentindo-se em um ambiente seguro, Arizona se deixou ser envolta pelos braços do amigo, se deixou desabar e quebrar exteriormente da mesma maneira que, desoladamente, quebrava há dias interiormente.
Passando a mão sobre as costas de Arizona de forma a acalmá-la, Karev continuou a dizer palavras confortantes e a tranquilizá-la.
Sendo interrompidos pelo barulho da porta da sala de higienização sendo aberta, ambos viraram em direção ao som, encontrando o rosto familiar da morena que havia causado o colapso nervoso da mulher aos prantos que agora se encontrava a limpar as lágrimas ligeiramente, com a intenção falha de não se deixar ver sofrer por Callie.
Calliope encarou a cena por alguns segundos, boquiaberta e sem reação alguma.
— Callie...- Alex se pronunciou. — Acho que seria melhor se voltasse em uma outra hora.
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